CAPÍTULO 3Gratuito
A Tempestade se Aproxima
Valentina acordou ao som de trovões distantes. A luz cinzenta da madrugada filtrava-se pelas cortinas de seu quarto, e quando olhou para o relógio na mesinha de cabeceira, viu que eram apenas cinco e quarenta da manhã. Pela janela, podia ver as nuvens escuras se acumulando sobre os vinhedos, a promessa de tempestade pesando no ar.
Rafael havia previsto chuva. E Rafael, ela estava começando a perceber, raramente estava errado sobre qualquer coisa relacionada à terra.
Ela se vestiu rapidamente — jeans, uma blusa de algodão e as mesmas botas da noite anterior — e desceu as escadas silenciosamente. O château ainda dormia, os corredores mergulhados em penumbra e silêncio. Mas quando passou pela cozinha, encontrou Marie já acordada, preparando café forte em uma cafeteira antiga.
— Mademoiselle Valentina — a governanta se virou, surpresa. — Você está acordada cedo.
— Não consegui dormir — Valentina admitiu, aceitando a xícara de café que Marie lhe ofereceu. — É a chuva. Rafael disse que precisávamos colher hoje.
Marie assentiu, seus olhos castanhos macios e compreensivos. Ela havia servido a família Beaumont desde que Valentina era criança, testemunhando todos os momentos bons e ruins. Se alguém conhecia os segredos desta casa, era ela.
— Monsieur Rafael já está nos vinhedos desde as cinco — Marie disse, voltando-se para cortar pão fresco. — Ele dorme pouco, aquele. Trabalha como se carregasse o peso do mundo nos ombros.
— Marie — Valentina hesitou, então decidiu perguntar. — O que você sabe sobre ele? Sobre como realmente veio parar aqui?
A governanta parou de cortar o pão, suas mãos se imobilizando sobre a tábua. Por um momento, Valentina pensou que ela não fosse responder. Então Marie suspirou, colocando a faca de lado.
— Não é meu lugar dizer, mademoiselle. Mas... — ela olhou para a porta, como se verificando que estavam sozinhas —...posso dizer que quando ele chegou aqui há dois anos, era um homem quebrado. Não externamente, entende? Ele sempre foi forte, competente. Mas nos olhos... havia uma dor que eu reconheci. A mesma dor que vi em seu avô Jean-Pierre quando perdeu seu irmão na guerra.
— A dor de perda — Valentina sussurrou.
— Oui. E algo mais. Culpa, talvez. Ou arrependimento. — Marie voltou a cortar o pão. — Mas a terra o curou, como sempre faz. Vi acontecer. Nos primeiros meses, ele trabalhava até cair de exaustão, como se estivesse tentando se punir. Então, gradualmente, começou a se abrir. A sorrir ocasionalmente. A cuidar das vinhas não apenas com expertise, mas com amor.
Valentina absorveu essas palavras, sentindo-as ressoarem com algo dentro dela. Ela conhecia aquela dor — a sensação de ter deixado algo importante para trás, de carregar o peso de escolhas que não podiam ser desfeitas.
— E minha família? — ela perguntou. — Como eles reagiram a ele?
A expressão de Marie se tornou mais guardada.
— Sua mãe o respeitava. Seu pai... é complicado. Monsieur Auguste via em Rafael tanto uma salvação quanto um lembrete de seu próprio fracasso. Quanto a Théo... — ela balançou a cabeça tristemente. — Seu irmão via Rafael como uma ameaça. Um estranho vindo tomar o lugar que deveria ser dele.
— E Isabelle?
Marie desviou o olhar, e havia algo em sua expressão que fez o estômago de Valentina se apertar.
— Mademoiselle Isabelle... ela via o que queria ver. Uma fantasia romântica, talvez. Mas não era recíproco, posso lhe assegurar. Monsieur Rafael sempre manteve distância apropriada.
Antes que Valentina pudesse perguntar mais, a porta da cozinha se abriu bruscamente. Isabelle entrou, ainda em um roupão de seda rosa, os cabelos loiros desgrenhados e os olhos inchados como se tivesse chorado.
— Pensei ter ouvido vozes — ela disse, sua voz rouca. Então seus olhos encontraram Valentina. — Você vai até os vinhedos, não é? Para vê-lo.
Não era uma pergunta. Era uma acusação.
— Vou ver o estado da colheita — Valentina corrigiu calmamente. — É minha responsabilidade como parte desta família.
Isabelle soltou uma risada curta e sem humor.
— Claro. Sua responsabilidade. — Ela se aproximou, e Valentina podia ver a tensão em cada linha de seu corpo. — Você mal voltou, Valentina, e já está... — ela procurou a palavra certa —...circulando em torno dele como todos os outros.
— Não sei do que você está falando.
— Não finja ser idiota. É óbvio. A maneira como você olha para Rafael. A maneira como ele olha para você. — Os olhos de Isabelle brilhavam com lágrimas não derramadas e algo mais escuro — ciúme, talvez, ou mágoa. — Você sempre teve tudo. A inteligência, a aprovação de papai, a chance de escapar. E agora quer isso também?
— Bella — Valentina deu um passo em direção à irmã, mas Isabelle recuou.
— Não me toque. E não me chame assim, como se ainda fôssemos crianças brincando entre as vinhas. — Sua voz tremeu. — Você não sabe nada sobre o que aconteceu aqui depois que partiu. Nada sobre as noites em que mamãe chorava no quarto dela, ou como papai começou a beber, ou como Théo... — ela parou abruptamente, como se tivesse dito demais.
— Como Théo o quê? — Valentina pressionou. — Bella, o que aconteceu com nosso irmão?
Mas Isabelle já estava recuando em direção à porta, puxando o roupão mais apertado em volta do corpo.
— Pergunte a ele. Pergunte a todos eles sobre os segredos que guardam. — Ela parou na soleira, virando-se uma última vez. — Mas cuidado, irmã. Algumas verdades, uma vez descobertas, não podem ser esquecidas. E nem todos os segredos merecem ser revelados.
E então ela se foi, deixando Valentina e Marie em um silêncio pesado.
— O que ela quis dizer? — Valentina se virou para a governanta. — Marie, o que aconteceu com Théo?
Marie balançou a cabeça lentamente.
— Não é minha história para contar, mademoiselle. Mas se quer a verdade, terá que arrancá-la daqueles que a guardam. E devo avisá-la... — seus olhos encontraram os de Valentina com uma intensidade incomum —...nem toda verdade é uma bênção.
Antes que Valentina pudesse responder, outro trovão ecoou, este muito mais próximo. O vento começou a açoitar as janelas da cozinha, carregando as primeiras gotas de chuva.
— Mon Dieu — Marie correu para a janela. — A tempestade está chegando mais rápido do que previmos.
Valentina não esperou mais. Agarrou uma jaqueta impermeável pendurada perto da porta e correu para fora, em direção aos vinhedos.
***
A cena que a aguardava era de caos controlado. Rafael estava no centro de tudo, gritando instruções em francês e italiano para uma dúzia de trabalhadores que se moviam rapidamente entre as fileiras de parreiras. Caixas e mais caixas de uvas já colhidas estavam sendo carregadas em tratores e caminhões, mas ainda havia tanto por fazer, e as nuvens acima deles estavam ficando cada vez mais escuras.
— Mais rápido! — Rafael gritava, ajudando pessoalmente a carregar as caixas. — Temos talvez trinta minutos antes que a chuva pesada chegue!
Valentina correu em direção a ele, quase escorregando na terra que já começava a ficar úmida com a garoa fina.
— O que posso fazer? — ela perguntou quando chegou ao lado dele.
Rafael se virou, surpresa evidente em seu rosto sujo de terra e suor.
— Valentina — ele usou seu primeiro nome, e algo no estômago dela se apertou ao ouvi-lo em seus lábios com aquele sotaque italiano. — Você não precisa...
— Não me diga o que preciso ou não fazer — ela cortou. — Esta é minha propriedade também. Onde você quer que eu trabalhe?
Por um momento, ele simplesmente a olhou, e havia algo em seus olhos — admiração, talvez, ou respeito. Então ele acenou com a cabeça.
— Setor três, as Syrah. São as mais críticas. Jean-Claude está lá, ele lhe mostrará o que fazer.
Valentina não esperou mais. Correu para o setor indicado, onde encontrou Jean-Claude, um homem de cinquenta e poucos anos que trabalhava para sua família há décadas. Ele lhe entregou uma tesoura de poda e uma cesta, e logo ela estava entre as vinhas, cortando cachos com a precisão que seu avô Jean-Pierre lhe ensinara quando era criança.
As memórias voltaram em uma onda — verões passados fazendo exatamente isto, as mãos manchadas de suco de uva, o sol quente nas costas, a risada de seu avô enquanto ele a ensinava a identificar o cacho perfeito. "Veja, ma petite," ele dizia, "as uvas te dizem quando estão prontas. Você só precisa aprender a escutar."
Ela se perdeu no trabalho, movendo-se de fileira em fileira, suas mãos trabalhando automaticamente enquanto sua mente processava tudo que havia aprendido desde que voltara. Os segredos, as tensões, a rede complexa de emoções e história que ligava todos eles.
Estava tão absorta que não notou quando Rafael se aproximou, trabalhando na fileira ao lado da sua. Por vários minutos, eles trabalharam em silêncio, apenas o som de tesouras cortando e uvas caindo em cestas.
— Você é boa nisso — Rafael finalmente disse, e havia surpresa genuína em sua voz. — Não apenas tecnicamente competente. Você sente as plantas. Sabe quais cachos escolher instintivamente.
Valentina sorriu apesar de si mesma.
— Meu avô me ensinou. Ele dizia que o vinho começa muito antes da fermentação. Começa aqui, no momento da escolha, na decisão de qual fruto levar e qual deixar amadurecer mais.
— Seu avô era sábio.
— Ele era — a voz de Valentina se suavizou com a memória. — Ele também dizia que a terra tem memória. Que cada geração deixa sua marca nela, boa ou ruim, e que essa memória se reflete no vinho.
Rafael parou de trabalhar, virando-se para olhá-la através das vinhas que os separavam.
— Ele estava certo. Eu posso provar a história nas vinhas de Bellevue. Posso sentir gerações de cuidado, de amor. Mas também... — ele hesitou —...também posso sentir dor recente. Negligência. Como se a terra estivesse sofrendo pelo descuido.
— Você culpa meu pai — não era uma pergunta.
— Eu não culpo ninguém — Rafael disse cuidadosamente. — Seu pai fez o que pensou ser melhor em momentos desesperados. Mas a terra... a terra não entende desculpas. Ela responde apenas a ações. E nos últimos anos, as ações aqui foram... inadequadas.
Valentina sentiu uma pontada de raiva defensiva, mas forçou-se a suprimi-la. Ele estava certo, e ela sabia disso.
— E você acha que pode consertar? Que pode reverter anos de negligência em uma única safra?
Rafael se aproximou, até que apenas as vinhas os separavam, tão perto que ela podia ver as gotas de suor em sua testa, a intensidade ardente em seus olhos.
— Eu tenho que acreditar nisso — ele disse, a voz rouca. — Porque se não posso salvar Bellevue, então... — ele parou, desviando o olhar.
— Então o quê?
— Então talvez meu pai estivesse certo — as palavras saíram como se arrancadas dele. — Talvez dedicação não seja suficiente. Talvez amor pela terra não signifique nada contra banqueiros e especuladores e a máquina cruel da economia moderna.
Sem pensar, Valentina estendeu a mão através das vinhas, seus dedos tocando os dele. A conexão foi elétrica, enviando calor através de seu braço.
— Não foi sua culpa — ela disse suavemente. — O que aconteceu com a propriedade de seu pai. Você não poderia ter impedido.
Os olhos de Rafael encontraram os dela, e havia tanta dor neles que Valentina sentiu seu coração se partir.
— Você não sabe disso. Eu estava em Alba quando aconteceu, estudando enologia enquanto meu pai estava sozinho lutando com os bancos. Eu deveria estar lá. Deveria ter voltado, deveria ter ajudado...
— Você era jovem. Estava construindo seu futuro.
— E enquanto eu construía meu futuro, meu pai perdia o passado dele. O passado de nossa família. — Rafael fechou os olhos brevemente. — Ele me ligou, sabe? Uma semana antes de morrer. Disse que estava orgulhoso de mim, que estava feliz que eu estava seguindo minha paixão. E então, três dias depois... — sua voz falhou.
Valentina apertou seus dedos, e desta vez ele não se afastou.
— Rafael, olhe para mim.
Ele abriu os olhos.
— Você não pode salvar o passado — ela disse. — Nenhum de nós pode. Mas podemos lutar pelo presente. Podemos lutar por Bellevue, não apenas pela minha família, mas por tudo que lugares como este representam. História, tradição, a conexão entre a terra e aqueles que a cuidam.
Algo mudou em seu rosto — a dor dando lugar a determinação, e depois a algo mais quente, mais perigoso.
— Você é incrível, sabia? — ele disse, sua voz baixa e intensa. — Cinco anos fora e ainda entende o que realmente importa aqui.
O ar entre eles se tornou denso, carregado. Rafael se inclinou mais perto, suas mãos ainda entrelaçadas com as dela através das vinhas, e Valentina sentiu seu coração disparar. Seus olhos desceram para os lábios dele, imaginando como seria...
— RAFAEL!
O grito cortou o momento como uma lâmina. Ambos se afastaram bruscamente quando Théo apareceu no topo da colina, acenando freneticamente.
— A tempestade! Está chegando agora!
Como se suas palavras tivessem conjurado a realidade, o céu se abriu. A chuva caiu em torrentes súbitas e violentas, encharcando-os em segundos.
— Merda! — Rafael soltou a mão de Valentina, já correndo. — Todos para os armazéns! Salvem o que puderem!
O que se seguiu foi caos absoluto. Trabalhadores corriam em todas as direções, carregando caixas de uvas, tentando proteger o que já haviam colhido. Valentina se viu correndo ao lado de Rafael, ambos carregando uma caixa pesada de Syrah, a chuva batendo em suas costas, transformando a terra em lama.
Quando finalmente chegaram ao armazém, estavam completamente encharcados. Rafael começou imediatamente a organizar as caixas, verificando cada uma, fazendo cálculos mentais rápidos.
— Conseguimos salvar oitenta por cento do setor três — ele anunciou para os trabalhadores reunidos. — E quase tudo dos setores um e dois. — Ele passou a mão pelos cabelos molhados, água escorrendo por seu rosto. — Poderia ter sido muito pior.
— Graças a você — Jean-Claude disse, e havia respeito genuíno em sua voz velha. — Se não tivesse antecipado a tempestade, teríamos perdido tudo.
Rafael balançou a cabeça, então seus olhos encontraram Valentina através do armazém lotado.
— Não foi só eu. Todos ajudaram. Todos lutaram.
Valentina sentiu calor se espalhar por seu peito com o olhar dele, com o reconhecimento em suas palavras. Mas o momento foi interrompido quando a porta do armazém se abriu violentamente.
Auguste Beaumont entrou, seu rosto pálido e tenso. Ele olhou ao redor, vendo as caixas de uvas salvas, os trabalhadores exaustos mas vitoriosos.
— Você conseguiu — ele disse para Rafael, e havia algo em sua voz — alívio misturado com algo mais amargo. — Salvou a colheita.
— Salvamos — Rafael corrigiu. — Foi um esforço de todos.
Auguste olhou para sua filha, notando pela primeira vez que ela estava lá, encharcada e suja de terra, mas com os olhos brilhando.
— Valentina — sua voz era estranha. — Você estava aqui. Trabalhando.
— Claro que estava — ela respondeu, erguendo o queixo. — Esta é minha casa também, papa. Minha herança. E vou lutar por ela.
Algo passou pelo rosto de Auguste — dor, talvez, ou arrependimento. Ele abriu a boca como se fosse dizer algo, então simplesmente assentiu e se virou para sair.
— Auguste — Rafael o chamou. O homem mais velho parou, mas não se virou. — A safra deste ano será excelente. Se conseguirmos manter este nível de cuidado, se conseguirmos...
— Não importa — Auguste interrompeu, sua voz vazia. — Os investidores da Groupe Marseille estarão aqui em três dias. Querem ver a propriedade antes de finalizar a oferta. — Finalmente ele se virou, e seus olhos estavam úmidos. — Lamento, Rafael. Lamento a todos vocês. Mas não há escolha. Bellevue será vendido no final do mês.
O silêncio que seguiu foi absoluto. Até a chuva lá fora parecia ter silenciado, como se o próprio universo estivesse prendendo a respiração.
— Não — a voz de Valentina cortou o silêncio. — Não vou permitir.
Auguste se virou lentamente para encará-la.
— Você não tem escolha, filha. Nenhum de nós tem.
— Sempre há escolha — Valentina se adiantou, lama secando em suas roupas, mas havia poder em cada linha de seu corpo. — E se você não vai lutar, então eu vou.
— Valentina...
— Não, papa. Escute. — Ela se aproximou dele. — Você se rendeu. Eu entendo. A dor, as perdas, eu entendo tudo. Mas o avô Jean-Pierre não nos criou para sermos desistentes. Ele nos ensinou que Bellevue não é apenas uma propriedade. É um legado. É uma responsabilidade. — Sua voz ficou mais forte. — E eu não vou assistir você jogar isso fora sem lutar.
— E o que você propõe? — Auguste perguntou, e havia derrota em cada palavra. — Você tem seis milhões de euros escondidos em algum lugar? Tem um investidor mágico esperando para nos salvar?
— Não — Valentina admitiu. — Mas tenho algo melhor. Tenho conhecimento. Tenho contatos de Paris. E tenho determinação. — Ela olhou ao redor do armazém, para os trabalhadores que observavam, para Rafael que a encarava com algo parecido com admiração. — Nos dê três meses. Deixe-me trabalhar com Rafael. Deixe-me usar tudo que aprendi para mostrar que Bellevue ainda vale a pena lutar.
— Três meses não vão mudar nada...
— Três meses podem mudar tudo — Rafael interveio, dando um passo à frente para ficar ao lado de Valentina. — Com esta safra, com o vinho que vamos produzir... Auguste, se conseguirmos provar que Bellevue ainda pode competir, que ainda produz alguns dos melhores vinhos da Provença, podemos atrair investidores reais. Não especuladores imobiliários, mas pessoas que entendem e respeitam o vinho.
Auguste olhou de sua filha para Rafael, algo trabalhando em seu rosto.
— Os investidores da Marseille não vão esperar três meses.
— Então os fazemos esperar — Valentina disse. — Ou os mandamos embora. Papa, por favor. Dê-nos esta chance. Se falharmos, você ainda pode vender. Mas pelo menos teremos tentado. Pelo menos teremos honrado a memória do avô Jean-Pierre.
O silêncio se estendeu. A chuva recomeçou lá fora, mais suave agora, um tamborilar constante contra o teto do armazém. Finalmente, Auguste suspirou, e era um som de homem muito mais velho que seus anos.
— Três meses — ele disse. — Mas quando falhar, quando perceber que não há salvação para este lugar, você vai me perdoar. Vai entender que eu tentei. Que todos nós tentamos. — Ele olhou para Rafael. — E você também, Santoro. Quando Bellevue for vendida, você terá sua parte. Quinze por cento de três milhões. Não é muito, mas é algo. Talvez seja suficiente para você recomeçar em outro lugar.
Rafael não respondeu, apenas apertou a mandíbula em uma linha dura.
Auguste se virou para sair, depois parou mais uma vez.
— Ah, e Valentina? Os investidores ainda virão em três dias. Faremos o tour pela propriedade, os receberemos apropriadamente. É o mínimo de cortesia que devemos. Mas... — ele olhou para ela, e havia algo de seu antigo orgulho em seus olhos —...você pode mostrar a eles o que estamos fazendo. Pode fazer sua argumentação. Quem sabe? Talvez você seja mais persuasiva do que eu jamais fui.
E então ele saiu, deixando Valentina e Rafael sozinhos no armazém, rodeados por caixas de uvas que representavam não apenas uma colheita, mas talvez a última esperança de salvar algo precioso.
Valentina se virou para Rafael, e viu que ele já estava olhando para ela.
— Você sabe que as chances são praticamente impossíveis, certo? — ele disse.
— Eu sei.
— Três meses não é nada. Nem sequer teremos o vinho fermentado até lá.
— Eu sei isso também.
— Então por que? — Rafael deu um passo em sua direção. — Por que lutar por algo que provavelmente está perdido?
Valentina encontrou seus olhos, e havia certeza absoluta em sua voz quando respondeu:
— Porque algumas coisas valem a pena lutar, mesmo quando as chances são impossíveis. Porque se não lutarmos, se simplesmente nos rendermos, então o que somos? — Ela deu um passo mais perto, até que estavam quase tocando. — E porque eu não vou deixar você perder outra propriedade que ama. Não se eu puder evitar.
Algo mudou no rosto de Rafael — todas as defesas, todas as paredes que ele mantinha cuidadosamente construídas, desmoronando por um instante. E então ele fez algo que surpreendeu ambos.
Ele estendeu a mão e tocou seu rosto, seus dedos calejados traçando suavemente a linha de sua mandíbula.
— Valentina Beaumont — ele sussurrou, seu sotaque italiano mais pronunciado com a emoção. — Você é ou muito corajosa ou muito tola. E eu ainda não decidi qual.
— Talvez ambos — ela sussurrou de volta, seu coração batendo tão forte que tinha certeza de que ele podia ouvi-lo.
Eles ficaram assim por um momento que pareceu se estender para sempre — molhados, exaustos, cobertos de lama, mas algo se formando entre eles, algo poderoso e inevitável como a mudança das estações, como o ciclo eterno das vinhas.
Então a porta do armazém se abriu novamente, e Théo entrou, parando abruptamente ao ver os dois tão próximos.
— Desculpe interromper — ele disse, e havia algo amargo em sua voz. — Mas mamãe quer todos de volta no château. Parece que temos muito a discutir.
Rafael se afastou primeiro, deixando sua mão cair. Mas quando ele olhou para Valentina, havia uma promessa em seus olhos — isto não acabou, eles pareciam dizer. Nós não acabamos.
Valentina o seguiu para fora, de volta para a chuva que agora caía mais suavemente, lavando a terra, nutrindo as vinhas que haviam salvado. E apesar de tudo — das dívidas impossíveis, dos prazos implacáveis, dos investidores que viriam em três dias para avaliar sua herança como se fosse apenas mais um ativo a ser liquidado — ela sentiu algo que não sentia há anos.
Esperança.
Perigosa, frágil, mas inegável.
E enquanto caminhava de volta ao château ao lado de Rafael, seus passos sincronizados na lama, Valentina soube que os próximos três meses mudariam tudo. Para melhor ou para pior, nada seria o mesmo.
A tempestade havia passado.
Mas outra estava apenas começando.
E desta vez, seria uma tempestade não de água e vento, mas de emoções, segredos e verdades há muito enterradas que finalmente viriam à tona.
Château Bellevue estava prestes a revelar seus fantasmas.
E Valentina Beaumont estava prestes a descobrir que algumas verdades são mais perigosas que qualquer dívida financeira.
