CAPÍTULO 2Gratuito
Jantar em Família
O relógio de pêndulo no hall principal do château marcava exatamente oito horas quando Valentina desceu a escadaria de mármore. Ela havia escolhido um vestido discreto de seda verde-esmeralda que realçava seus olhos e caía elegantemente até os joelhos — sofisticado o suficiente para o jantar formal que sua família sempre insistia em manter, mas não ostensivo. Queria que seu pai a levasse a sério, e isso significava apresentar-se como a profissional que havia se tornado, não como a filha rebelde que um dia fora.
As vozes vinham da sala de jantar, um murmúrio baixo e tenso que fez seu estômago se apertar. Valentina respirou fundo, alisou o vestido e empurrou as portas duplas de carvalho.
A cena que a aguardava era simultaneamente familiar e estranha. A sala de jantar dos Beaumont era um testemunho de séculos de tradição — paredes revestidas de lambris escuros, uma mesa de mogno que facilmente acomodava vinte pessoas, um lustre de cristal antigo que lançava luz dourada sobre tudo. As janelas altas ofereciam vista para os jardins formais, agora mergulhados na penumbra do crepúsculo.
Sua família estava reunida ao redor da mesa, mas a harmonia que aquele cenário deveria inspirar estava visivelmente ausente.
Auguste Beaumont ocupava a cabeceira da mesa como sempre fizera — um homem de sessenta e três anos que um dia fora a própria imagem de vigor aristocrático, mas que agora parecia uma versão apagada de si mesmo. O cabelo, outrora loiro como o de Théo, estava completamente branco e ralo. O rosto, marcado por rugas profundas, tinha uma palidez pouco saudável. Mas eram os olhos — aqueles olhos azuis que costumavam brilhar com determinação e orgulho — que mais chocaram Valentina. Estavam opacos, vazios, como se algo essencial neles tivesse se apagado.
— Valentina — ele disse, e sua voz estava rouca, cansada. — Você veio.
— Bonsoir, papa — ela se aproximou, inclinando-se para beijar suas bochechas. A pele dele estava fria, e ela pôde sentir o cheiro fraco de conhaque em seu hálito. — Como poderia não vir quando mamãe me chamou?
Auguste desviou o olhar, e Valentina percebeu o músculo tenso em sua mandíbula — o único sinal do homem orgulhoso que ele costumava ser.
— Sente-se — Marguerite interveio rapidamente, gesticulando para a cadeira à direita de seu pai. Sua mãe ocupava o outro extremo da mesa, elegante em um vestido de chiffon azul-marinho, o colar de pérolas — herança de sua avó — brilhando contra sua pele pálida. — Marie preparou coq au vin, seu favorito.
Valentina tomou seu lugar, sentindo o peso dos olhares sobre ela. Théo estava à sua esquerda, já no segundo copo de vinho tinto, a julgar pela garrafa meio vazia ao seu lado. Isabelle estava ao lado dele, brincando nervosamente com o guardanapo de linho, os olhos desviando constantemente para a porta como se esperasse — ou temesse — a chegada de alguém.
E havia um lugar vazio na mesa, com talheres dispostos, logo em frente a Valentina.
— Estamos esperando mais alguém? — ela perguntou, embora já soubesse a resposta pela maneira como Isabelle corou e desviou o olhar.
Foi Auguste quem respondeu, e havia algo defensivo em seu tom:
— Rafael jantará conosco esta noite. Ele é parte fundamental desta propriedade agora, e merece ser tratado como tal.
Valentina sentiu uma pontada de irritação. Um funcionário jantando com a família? Isso era impensável nos tempos de seu avô Jean-Pierre, que mantinha distinções rígidas entre os proprietários e aqueles que trabalhavam para eles.
— Desde quando funcionários jantam à mesa da família? — as palavras saíram mais afiadas do que ela pretendia.
— Desde que esse funcionário é a única razão pela qual ainda temos uma propriedade para chamar de nossa — Théo retrucou, enchendo seu copo novamente. — Rafael não é apenas um empregado, irmãzinha. Ele é o único que mantém este lugar funcionando enquanto nosso querido pai se afoga em conhaque e autopiedade.
— Théo! — Marguerite exclamou, horrorizada.
— O quê? — Théo se virou para a mãe, os olhos brilhando com raiva e álcool. — Vamos fingir que não é verdade? Vamos continuar encenando esta farsa de família feliz enquanto tudo desmorona ao nosso redor?
Auguste bateu o punho na mesa com força suficiente para fazer os copos de cristal tilintarem.
— Isso é suficiente! Não vou tolerar desrespeito à minha mesa!
— Sua mesa? — Théo riu amargamente. — Esta mesa pertence ao banco, papa. Assim como o château, os vinhedos, até a maldita cristaleria que a mamãe tanto preza. Tudo tem penhora. Tudo.
O silêncio que se seguiu era opressivo. Valentina olhou de seu pai para sua mãe, vendo a verdade confirmada no rosto pálido de Marguerite e na maneira como Auguste afundou em sua cadeira, de repente parecendo terrivelmente velho.
— É tão ruim assim? — Valentina perguntou em voz baixa.
— Pior — Isabelle finalmente falou, sua voz trêmula. — Há uma empresa, um consórcio internacional de investimentos. Eles ofereceram três milhões de euros pela propriedade. Papa tem até o fim do mês para decidir.
Três milhões. Era uma fortuna, mas Valentina sabia que Château Bellevue valia muito mais do que isso — ou pelo menos valia antes da crise. A propriedade abrangia duzentos hectares dos melhores vinhedos da região, instalações de produção de primeira linha, o próprio château que datava do século XVII. Três milhões era uma pechincha, o tipo de oferta que se faz quando sabe que o vendedor está desesperado.
— Quem é essa empresa? — ela pressionou.
— Beaumont!
A voz veio da porta. Marie, a governanta que trabalhava para a família há quarenta anos, surgiu empurrando um carrinho com a travessa de coq au vin fumegante. Mas o que fez todos se virarem não foi a comida — era o homem que entrava atrás dela.
Rafael Santoro havia se arrumado para o jantar. Trocara a camisa manchada de terra por uma social branca impecável, com as mangas dobradas até os cotovelos revelando antebraços musculosos e bronzeados. Uma calça de sarja escura completava o visual — simples, mas havia uma elegância natural nele que nenhuma roupa cara poderia comprar. Os cabelos ainda úmidos estavam penteados para trás, revelando completamente o rosto anguloso e aqueles olhos escuros e penetrantes.
Quando seu olhar encontrou o de Valentina, ela sentiu novamente aquele choque elétrico percorrer seu corpo.
— Perdão pelo atraso — ele disse, dirigindo-se a Auguste com um aceno respeitoso. — Tive que resolver um problema com o sistema de irrigação no setor norte.
— Não se preocupe, Rafael — Auguste gesticulou para a cadeira vazia. — Sente-se, por favor. Estávamos apenas... colocando Valentina a par da situação.
Rafael tomou seu lugar em frente a Valentina, e ela se forçou a não desviar o olhar. De perto, sob a luz do lustre, ela podia ver detalhes que não notara antes — uma pequena cicatriz acima de sua sobrancelha esquerda, a sombra de barba que dava a ele um ar levemente perigoso, a maneira como seus dedos longos manipulavam o guardanapo com uma graça inesperada.
Marie serviu o jantar em silêncio, a tensão na sala tão espessa que podia ser cortada com uma faca. Quando todos estavam servidos, Auguste pegou seu copo de vinho — Valentina notou que era um dos Bellevue 2015, um dos últimos anos verdadeiramente bons antes da crise — e ergueu-o em um brinde meio-torto.
— À família — ele disse, e havia amargura em sua voz. — Que possamos sobreviver ao que está por vir.
Ninguém respondeu ao brinde. Os copos se ergueram, tilintaram sem entusiasmo, e o jantar começou.
Por vários minutos, apenas o som de talheres contra porcelana quebrava o silêncio. Valentina empurrava a comida pelo prato, seu apetite completamente desaparecido. Finalmente, incapaz de suportar mais, ela largou o garfo.
— Alguém vai me dizer quem é essa empresa que quer comprar Bellevue? — sua voz ecoou pela sala.
Foi Rafael quem respondeu, sua voz grave e cuidadosamente neutra:
— Groupe Marseille Investissements. É uma subsidiária de um consórcio maior com sede em Luxembourg. Eles têm se especializado em adquirir propriedades vinícolas em dificuldades financeiras por toda a França.
— E o que fazem com essas propriedades?
Rafael trocou um olhar com Auguste antes de continuar:
— Geralmente transformam em resorts de luxo ou dividem as terras para desenvolvimento imobiliário. Os vinhedos são mantidos apenas como uma fachada romântica para atrair turistas ricos.
Valentina sentiu náusea subir por sua garganta.
— Você não pode estar considerando isso seriamente — ela se virou para seu pai. — Papa, esta propriedade está na nossa família há mais de duzentos anos. O avô Jean-Pierre dedicou sua vida inteira a construir a reputação de Bellevue. Não pode simplesmente vender para especuladores imobiliários!
— E o que você sugere? — a voz de Auguste era baixa, derrotada. — Devemos seis milhões em dívidas acumuladas, Valentina. Seis milhões. Os bancos não vão esperar para sempre. Se não vendermos, eles tomarão tudo de qualquer maneira, e não receberemos um centavo.
— Então lutamos! — Valentina bateu a mão na mesa. — Há sempre uma solução. Podemos reestruturar a dívida, procurar novos investidores, modernizar as operações...
— Você acha que não tentamos? — Théo interveio, a voz carregada de sarcasmo. — Você acha que passamos os últimos dois anos sentados assistindo tudo desmoronar? Ninguém quer investir em uma vinícola que teve três safras ruins consecutivas. Nossa reputação está destruída.
— Duas safras ruins — Rafael corrigiu calmamente. — A safra do ano passado foi parcialmente recuperada. E este ano... — ele fez uma pausa, e havia algo em seus olhos, uma intensidade que fez Valentina se inclinar para frente —...este ano pode ser excepcional. Se tudo correr como planejei.
— "Se" — Théo repetiu amargamente. — A palavra preferida dos otimistas e tolos.
— Théo, por favor — Marguerite implorou, e havia lágrimas em seus olhos agora. — Não hoje. Não com Valentina finalmente em casa.
Mas Théo não parava. Ele se virou para a irmã, os olhos azuis flamejantes:
— Você quer saber a verdade, Valentina? Quer saber por que estamos realmente fodidos? Não é só pelas safras ruins ou pelas dívidas. É porque nosso querido pai apostou tudo — e quero dizer TUDO — em derivativos de commodities que ele não entendia, aconselhado por um "especialista financeiro" que desapareceu com metade do nosso capital antes que alguém percebesse que era uma fraude.
Valentina olhou para Auguste, procurando uma negação que não veio. Seu pai simplesmente olhava para o prato, os ombros curvados em derrota.
— Mon Dieu — ela sussurrou. — Papa, como você pôde...
— Eu tentei salvar tudo — Auguste finalmente ergueu os olhos, e a dor neles era quase insuportável de ver. — Depois da geada, depois de perdermos setenta por cento da safra, eu entrei em pânico. Um homem veio até mim, apresentou-se como consultor financeiro, mostrou-me números, projeções... Disse que poderia recuperar nossas perdas em seis meses. Eu... — sua voz falhou. — Eu quis acreditar. Quis tanto acreditar que havia uma saída fácil.
— Não há saídas fáceis — Rafael disse baixinho, mas sua voz carregava peso. — Especialmente não com a terra. A terra exige paciência, trabalho árduo e respeito. Ela não responde a atalhos.
— Muito fácil para você dizer — Isabelle falou pela primeira vez desde que o jantar começara, e havia veneno em sua voz. — Você não tem nada a perder, não é? Se Bellevue for vendido, você simplesmente vai para outra propriedade, outro château, outra família para impressionar com sua dedicação nobre e seu conhecimento superior.
Rafael se virou lentamente para Isabelle, e Valentina viu algo perigoso brilhar em seus olhos.
— Você não sabe nada sobre o que tenho a perder, mademoiselle Beaumont.
— Então por que não nos ilumina? — Isabelle se inclinou para frente, as bochechas coradas. — Por que não conta à minha irmã sobre o acordo que fez com nosso pai? Sobre as condições do seu contrato?
— Isabelle! — Marguerite praticamente gritou. — Isso é suficiente!
Mas agora a curiosidade de Valentina estava totalmente despertada. Ela olhou de Isabelle para Rafael, depois para seus pais.
— Que acordo? Que condições?
O silêncio que se seguiu era absoluto. Rafael mantinha o olhar fixo em Isabelle, a mandíbula apertada. Auguste olhava para as mãos. Marguerite pressionava um guardanapo contra os lábios, como se estivesse fisicamente contendo palavras que queriam escapar.
Foi Théo, naturalmente, quem quebrou o silêncio:
— Rafael não é apenas nosso funcionário, querida irmã. Ele é nosso... como devo dizer? Nosso sócio involuntário. Papa lhe ofereceu quinze por cento da propriedade quando o contratou. Quinze por cento de Château Bellevue em troca de seus serviços e expertise.
O mundo de Valentina pareceu inclinar no eixo.
— Você fez o quê? — ela olhou para Auguste, incrédula. — Você deu parte da nossa herança familiar para um estranho?
— Eu não tive escolha! — Auguste explodiu, batendo novamente na mesa. — Após o escândalo financeiro, após as safras ruins, ninguém queria trabalhar aqui! Nossa reputação estava destruída! Rafael era o único enólogo qualificado disposto a vir para Bellevue, e ele exigiu garantias. Não apenas um salário — ele queria participação, um incentivo real para ficar e lutar por este lugar.
Valentina se virou para Rafael, e pela primeira vez desde que o vira, havia acusação em seus olhos:
— Então é isso? Você é um oportunista? Aproveitou-se da vulnerabilidade da minha família para arrancar um pedaço de algo que levamos gerações para construir?
Rafael a encarou por um longo momento, e havia algo nos olhos dele — raiva, sim, mas também algo que parecia quase como mágoa.
— Você não sabe nada sobre mim — ele disse, a voz baixa mas vibrante de emoção contida. — Nada sobre por que vim para Bellevue ou o que significa para mim estar aqui.
— Então me diga — Valentina desafiou. — Me diga por que um enólogo italiano talentoso escolheria uma vinícola falida na França em vez de trabalhar nas propriedades prestigiadas de sua própria região.
Por um momento, ela pensou que ele fosse responder. Viu algo se mover em seus olhos, uma sombra de dor ou talvez arrependimento. Mas então ele empurrou a cadeira para trás, levantando-se abruptamente.
— Com sua permissão — ele se dirigiu a Auguste — preciso verificar os vinhedos antes que escureça completamente. A previsão indica chuva para amanhã, e precisamos antecipar a colheita do setor leste se quisermos salvar os cachos de Syrah.
— Rafael — Auguste começou, mas o italiano já estava se virando, movendo-se em direção à porta com passos longos e decididos.
Valentina se levantou também, impulsivamente:
— Estou indo com você.
Todos se viraram para olhá-la. Rafael parou na porta, virando-se lentamente.
— Não é necessário, mademoiselle Beaumont.
— Não pedi sua opinião — ela retrucou, contornando a mesa. — Esta é minha propriedade tanto quanto sua — aparentemente mais minha do que sua, já que você tem apenas quinze por cento. Quero ver com meus próprios olhos o estado dos vinhedos.
Algo como admiração — ou talvez irritação — brilhou nos olhos de Rafael.
— Os vinhedos não são lugar para sapatos de salto e vestidos de seda.
Valentina olhou para baixo, para suas sandálias elegantes, depois de volta para ele:
— Então vou me trocar. Me dê cinco minutos.
Sem esperar resposta, ela passou por ele, saindo da sala de jantar e subindo as escadas em direção ao seu quarto. Atrás dela, podia ouvir as vozes recomeçando — Isabelle dizendo algo que parecia uma reclamação, Théo rindo cinicamente, sua mãe chamando seu nome com preocupação.
Mas Valentina não parou.
Cinco minutos depois, ela desceu as escadas vestindo jeans, botas de couro que não usava desde a adolescência e uma camisa simples de algodão. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo prático, e havia determinação em cada linha de seu corpo.
Rafael a esperava no hall de entrada, apoiado contra a parede com os braços cruzados. Quando ela se aproximou, ele a avaliou com olhos críticos, então acenou com aprovação relutante.
— Melhor — foi tudo que disse antes de se virar e sair pela porta principal.
Valentina o seguiu para a noite, onde as estrelas já começavam a aparecer no céu escurecido e o ar estava carregado com o perfume de lavanda e terra úmida. Rafael caminhou em direção aos vinhedos sem olhar para trás, presumindo que ela o seguiria.
E ela seguiu, porque apesar da raiva, apesar da confusão, apesar de tudo — ela precisava entender. Precisava saber quem era esse homem que havia se infiltrado tão profundamente em sua família, que agora possuía um pedaço de sua herança, que olhava para ela com aqueles olhos escuros que pareciam enxergar direto em sua alma.
Os vinhedos se estendiam diante deles sob a luz prateada da lua crescente, as fileiras de parreiras criando sombras longas e dramáticas. Rafael caminhou entre elas com a confiança de quem conhecia cada centímetro do terreno, suas mãos tocando ocasionalmente as folhas, verificando a umidade, testando a firmeza dos cachos.
Valentina o observava, fascinada apesar de si mesma. Havia algo quase reverente na maneira como ele interagia com as plantas, uma intimidade que ia além do conhecimento técnico.
— Você realmente ama isso, não é? — as palavras saíram antes que ela pudesse detê-las. — Não é apenas trabalho para você.
Rafael parou, virando-se para encará-la. A luz da lua tornava seu rosto uma composição de sombras e planos angulares.
— O vinho não é apenas uma bebida — ele disse finalmente. — É história líquida. Cada garrafa conta a história de um ano específico, de um lugar específico, das mãos que cuidaram das vinhas, do clima, do solo. É... — ele procurou as palavras certas —...é imortalidade, de certa forma. Muito depois de estarmos mortos, as pessoas ainda beberão o vinho que fizemos e provarão nossa dedicação, nosso amor pela terra.
Havia paixão em sua voz, e Valentina se viu dando um passo mais perto.
— Onde você aprendeu a amar assim? Seu pai?
A expressão de Rafael se fechou instantaneamente, e Valentina soube que havia tocado em algo doloroso.
— Meu pai — ele disse, a voz súbita e rigorosamente controlada — me ensinou tudo que sei sobre vinhos. E então me ensinou a maior lição de todas: que dedicar sua vida inteira a algo não garante que você ficará com isso no final.
— O que aconteceu?
Rafael se virou, retomando a caminhada entre as fileiras. Valentina o seguiu, esperando, e finalmente ele continuou:
— Minha família tinha uma propriedade em Piemonte. Pequena, apenas quinze hectares, mas era nossa por três gerações. Produzíamos Barolo — você conhece?
— Um dos melhores vinhos tintos da Itália — Valentina confirmou.
— O melhor — Rafael corrigiu com um toque de orgulho ferido. — Meu avô plantou aquelas vinhas com as próprias mãos. Meu pai dedicou toda sua vida a aperfeiçoar cada safra. E eu... eu cresci entre aquelas parreiras. Foi lá que aprendi que o vinho é mais do que negócio. É sangue, é família, é identidade.
— O que aconteceu com a propriedade?
Rafael parou novamente, desta vez agachando-se para examinar mais de perto um cacho de uvas. Sem olhar para ela, continuou:
— Dívidas. Assim como aqui, mas pior. Meu pai fez empréstimos para expandir a produção, para comprar equipamentos novos. Então veio uma praga — filoxera nas raízes. Perdemos quase tudo. Os bancos tomaram a terra. Simples assim. Uma herança de três gerações, desapareceu em uma tarde no tribunal.
— E seu pai?
— Morreu seis meses depois. Coração, disseram os médicos. Mas eu sei que foi mais do que isso. Foi... desgosto. Foi ver tudo pelo que lutou sendo arrancado dele.
Valentina sentiu o coração apertar. Abaixo da raiva e da desconfiança, havia uma compreensão surgindo — este homem conhecia a dor que a ameaçava, conhecia o peso de carregar uma herança familiar nas costas.
— Por isso você veio para Bellevue — ela disse baixinho. — Não para se aproveitar. Mas porque entende.
Rafael se levantou lentamente, virando-se para encará-la. Eles estavam perto agora, apenas centímetros de distância, e Valentina podia ver as estrelas refletidas em seus olhos escuros.
— Vim para Bellevue — ele disse, a voz rouca — porque quando Auguste me ofereceu quinze por cento, não vi oportunismo. Vi uma segunda chance. Uma chance de salvar o que meu pai não pôde. Uma chance de provar que dedicação e conhecimento ainda significam alguma coisa neste mundo onde tudo virou especulação financeira e lucros rápidos.
— E se não conseguirmos? — Valentina sussurrou. — Se perdermos Bellevue de qualquer maneira?
Rafael ergueu a mão, e por um momento ela pensou que ele fosse tocar seu rosto. Mas ele parou a centímetros de distância, os dedos se fechando em um punho que ele deixou cair ao lado do corpo.
— Então pelo menos teremos lutado — ele disse. — E teremos feito isso da maneira certa.
Eles ficaram assim por um longo momento, o ar entre eles carregado com algo que Valentina não conseguia nomear — não era apenas atração, embora isso certamente estivesse presente, um calor baixo em seu ventre que ela tentava ignorar. Era mais do que isso. Era reconhecimento. Era dois guerreiros feridos reconhecendo cicatrizes similares um no outro.
O momento foi quebrado pelo som de passos se aproximando. Ambos se viraram para ver Théo surgindo entre as fileiras, uma garrafa de vinho na mão.
— Que cena tocante — ele disse, a voz arrastada pelo álcool. — A princesa exilada e o cavaleiro camponês, unidos no amor pela terra. É quase shakespeariano.
— Théo, você deveria estar dormindo — Rafael disse com cansaço.
— Deveria fazer muitas coisas — Théo tomou um gole direto da garrafa. — Deveria ser um bom filho. Um bom irmão. Um herdeiro digno. Mas aparentemente, tudo que sei fazer bem é beber e decepcionar pessoas.
— Théo... — Valentina deu um passo em sua direção, mas ele levantou a mão, detendo-a.
— Não — ele disse. — Não finja que se importa agora, depois de cinco anos. Você foi embora, Valentina. Você escapou e nos deixou aqui para apodrecer. E agora volta pensando que pode consertar tudo com seu diploma parisiense e suas ideias brilhantes.
— Isso não é justo.
— Não? — Théo riu, o som amargo. — Você sabe o que não é justo? Ter que assistir seu pai desmoronar. Ter que vender a aliança de casamento da sua avó para pagar fornecedores. Ter que sorrir para banqueiros que tratam você como lixo porque sabem que você está desesperado. Isso é o que não é justo.
Ele se virou para sair, depois parou, olhando por cima do ombro:
— Ah, e Valentina? Tenha cuidado com Rafael. Ele pode parecer o salvador nobre, mas todos aqui temos segredos. Todos temos coisas que escondemos. Até mesmo — especialmente — ele.
E com isso, Théo desapareceu na escuridão, deixando apenas o eco de suas palavras e o perfume residual de vinho.
Valentina se virou para Rafael:
— O que ele quis dizer com isso?
Rafael estava olhando na direção onde Théo desaparecera, uma expressão inescrutável no rosto.
— Seu irmão está com dor — ele disse finalmente. — E pessoas com dor dizem coisas que não significam.
— Mas ele está certo, não está? — Valentina insistiu. — Todos têm segredos aqui. Meus pais escondem algo, Théo está obviamente sofrendo mais do que aparenta, Isabelle age de forma estranha... E você. O que você está escondendo, Rafael Santoro?
Ele finalmente olhou para ela, e havia algo em seus olhos — uma profundidade de emoção que fez o coração de Valentina disparar.
— Todos temos fantasmas, mademoiselle Beaumont — ele disse suavemente. — A questão é: você está preparada para enfrentar os seus enquanto persegue os meus?
Sem esperar resposta, ele começou a caminhar de volta ao château, deixando Valentina sozinha entre as vinhas sob o céu estrelado, com mais perguntas do que respostas e a sensação perturbadora de que tinha acabado de iniciar algo que não sabia como terminar.
Acima, as nuvens começavam a se reunir, obscurecendo as estrelas uma a uma. A chuva estava chegando, exatamente como Rafael previra.
E com ela, Valentina sabia instintivamente, viria muito mais do que apenas água para as vinhas sedentas de Château Bellevue.
Viria verdade.
Viria revelação.
E possivelmente, destruição.
