CAPÍTULO 2Gratuito
Capítulo 2 — A Sétima Tentativa
O celeiro precisava de uma tábua nova na lateral leste.
Ethan sabia disso fazia três semanas, do mesmo jeito que sabia que a cerca do pasto norte estava inclinando, que a calha do telhado da casa entupira com as folhas do outono que ele não varrera, e que a torneira da cozinha pingava à noite num ritmo que parecia morse — como se a casa estivesse tentando dizer alguma coisa que ele não queria ouvir.
Tinha uma lista. Mental, porque Ethan Calloway não anotava coisas — anotar implicava planejamento, e planejamento implicava futuro, e futuro era uma palavra que ele evitava desde que perdeu o direito de conjugá-la no plural.
A tábua do celeiro. A cerca. A calha. A torneira. O pagamento do veterinário. A vacina de Lily. A consulta do Noah que Elena agendara com um fonoaudiólogo em Bozeman que custava cento e oitenta dólares a sessão e que não ia funcionar, como os outros três não funcionaram, porque o problema do Noah não era na boca, era em algum lugar mais fundo que nenhum médico conseguia alcançar.
E agora, no topo da lista: buscar a babá nova no aeroporto.
A sétima.
Não é que Ethan tivesse algo contra babás. Ele tinha algo contra pessoas dentro da casa. Pessoas significavam conversa, presença, alguém ocupando os espaços que Sarah ocupava, sentando na cadeira em que Sarah sentava, abrindo os armários que Sarah organizara e que ainda estavam do jeito que ela deixou — as xícaras na prateleira de cima, os pratos na de baixo, o pote de biscoitos em forma de galinha que ela trouxe da feira de Billings e que Lily ainda enchia todo sábado como se a mãe fosse notar.
A primeira babá, uma senhora de sessenta anos de Missoula, durou duas semanas. Saiu porque Noah gritava à noite e ela "precisava dormir, querido, na minha idade não dá". A segunda ficou nove dias — Margaret espantou essa. A terceira chorou quando Lily perguntou se ela ia morrer também. A quarta e a quinta mal merecem contagem: foram antes de desempacotar. A sexta durou onze dias e saiu depois que Noah jogou um prato no chão durante um pesadelo noturno e ela decidiu que a família estava "acima do seu nível de preparo".
Seis mulheres. Seis malas saindo pela mesma porta.
Ethan parou de procurar. Foi a mãe dele que insistiu — Margaret Calloway não aceitava derrota, especialmente quando envolvia o bem-estar dos netos que ela considerava sob sua jurisdição espiritual, mesmo morando a quinze minutos de caminhonete.
"Você não pode criar essas crianças sozinho, Ethan. Não pode e não deve."
Ele podia. Estava fazendo isso há dois anos. Acordava às quatro e meia, cuidava dos animais, voltava para preparar o café da manhã — aveia para Lily, frutas cortadas para Noah, café preto forte o bastante para funcionar como combustível. Levava Lily para a escola, voltava com Noah, tentava trabalhar no rancho com um menino de quatro anos no quadril que não falava mas seguia o pai como uma sombra silenciosa. Buscava Lily, fazia jantar — três pratos no rodízio: macarrão, carne moída, frango assado —, banhava as crianças, lia para Lily, sentava com Noah até ele dormir, e então passava as próximas duas ou três horas consertando o que quebrara durante o dia.
Ia para a cama às onze. Dormia quatro horas, se tanto, porque Noah acordava gritando quase toda noite e Ethan precisava estar ali antes que o grito se tornasse terror.
Era sustentável? Não. Era funcional? Ele achava que sim, com a teimosia silenciosa de quem confunde resistência com resiliência.
E então a agência mandou o currículo da brasileira.
§
Ethan leu a carta de apresentação no celeiro, sentado num balde virado, com as mãos cheirando a ração e o celular equilibrado no joelho.
O inglês era torto. Não era ruim — era torto, como uma cerca que alguém construiu com dedicação mas sem experiência. As frases tinham uma honestidade desajeitada que o fez parar de ler anúncios. "I am good with children because I listen. Not just ears — I listen with everything. Children don't need someone who talks perfect. They need someone who stays."
Children need someone who stays.
Ethan contratou antes de ligar para a agência. Antes de verificar referências. Antes de consultar Margaret, o que gerou uma discussão que ele encerrou com quatro palavras: "Já está contratado, mãe."
Não sabia explicar por quê. Talvez porque seis mulheres com currículos perfeitos não tinham durado mais de duas semanas. Talvez porque estava cansado demais para ser criterioso. Talvez — e essa era a razão que ele não admitia nem para si mesmo — porque alguém que escreve "children need someone who stays" provavelmente sabe o que é ficar quando tudo em você diz para ir embora.
§
A estrada para Bozeman estava péssima.
A nevasca tinha começado na madrugada e não mostrava sinais de intenção de parar. Ethan dirigia com as mãos firmes no volante, o rádio desligado, a mente fazendo o inventário prático que substituía pensamentos mais perigosos: o aquecedor da caminhonete fazia um chiado no nível três, precisava trocar a correia. A brasileira chegava às quatro e quarenta. Ia escurecer às cinco. Se a estrada piorasse, seriam duas horas de volta em vez de uma.
Elena tinha ficado com as crianças. Apareceu sem ser chamada — Elena sempre aparecia sem ser chamada, com a pontualidade irritante de quem conhece alguém bem o suficiente para saber o que precisa antes de pedir.
"Vai logo. As crianças ficam comigo." E depois, com aquele sorriso que Ethan conhecia desde a faculdade e que significava que ela ia dizer algo inconveniente: "Tenta não assustar essa. Sorri pelo menos uma vez. Parece que vai doer, mas não dói."
Ethan não sorriu. Elena revirou os olhos e empurrou ele para fora da própria casa.
No aeroporto, ele a viu antes que ela o visse.
Estava sentada num banco de metal, uma mala vermelha entre as pernas, comendo alguma coisa redonda e dourada com a concentração de quem realiza um ritual. Baixa — bem mais baixa do que ele esperava. Cabelo castanho-escuro, cacheado de um jeito que o ar seco de Montana já estava transformando em algo entre nuvem e tempestade. Casaco fino que não ia proteger nem de uma brisa de outubro, quanto mais de janeiro.
Parecia pequena. Não só de estatura — pequena do jeito que pessoas ficam quando estão num lugar grande demais, cercadas de estranheza demais, tentando ocupar o mínimo de espaço possível.
Ethan conhecia aquele encolhimento. Lily fazia isso no dia do enterro.
Andou até ela.
— Andrade?
Ela levantou os olhos. Eram escuros — quase pretos, da cor de alguma fruta que ele não conhecia, grandes e úmidos e assustados, como animal que não sabe se deve confiar ou correr. Engoliu o que estava comendo num gole seco.
— Yes. Bia. I am... eu sou... I am Bia.
A troca de idiomas no meio da frase. O sotaque que amolecia todas as consoantes. O jeito como o corpo dela se inclinou para trás quase imperceptivelmente quando ele ficou de pé muito perto — um recuo instintivo que não era timidez, era outra coisa, algo que Ethan arquivou na parte do cérebro que observava sem comentar.
Ele pegou a mala dela na caçamba e dirigiu para casa sem falar.
Não era grosseria. Era que Ethan não sabia o que dizer para uma mulher de vinte e sete anos que cruzou o hemisfério para cuidar dos filhos de um estranho, e qualquer tentativa de conversa de cortesia ia sair como o que era — forçada, desconfortável, inútil.
Ela olhava pela janela. Ele via pelo canto do olho: o rosto colado ao vidro, os olhos arregalados, a boca entreaberta de espanto ou de horror — com a neve assim, os dois se pareciam. De vez em quando ela respirava fundo, como se estivesse se lembrando de respirar. As mãos no colo estavam fechadas, os nós dos dedos esbranquiçados.
Na porteira do rancho, ele quase disse alguma coisa. Quase disse "bem-vinda" ou "a casa é quente" ou qualquer coisa que diminuísse a distância que pesava dentro da caminhonete como um passageiro a mais. Mas a palavra enganchou em algum lugar entre o peito e a garganta — o lugar onde as palavras ficam presas quando a pessoa desaprendeu a conversar com adultos — e o que saiu foi:
— Road's bad. Hold on.
Útil. Prático. Emocionalmente comparável a um manual de instruções.
§
Lily estava na varanda.
Ethan viu da caminhonete: a silhueta pequena atrás da porta de tela, o pijama de cavalos, Estrela — o cavalo de pelúcia que era de Sarah e que Lily se recusava a largar — pendurada no braço. Elena devia estar atrás dela, mas Lily era mais rápida que qualquer adulto quando decidia alguma coisa.
Ele estacionou e olhou para a brasileira. Ela olhava para a casa com uma expressão que ele reconhecia — a mesma que as outras seis tiveram. A casa era bonita no verão, quando as flores de Sarah brotavam nos vasos da varanda e o sol dourava a madeira. No inverno, com a neve apagando as cores e a fumaça saindo da chaminé como suspiro, a casa parecia o que era: um lugar onde moraram pessoas mais felizes.
— This is it — ele disse, e soou mais como pedido de desculpas do que pretendia.
Saiu, pegou a mala, caminhou para a varanda. Atrás dele, ouviu o barulho de alguém afundando na neve e o som abafado de surpresa que a brasileira fez — um "ai" que não precisava de tradução. Não olhou para trás. Se olhasse, ia ter que ajudar, e ajudar significava se aproximar, e se aproximar significava que tudo aquilo era real: outra pessoa dentro da casa, outra tentativa, outra despedida que ele ia fingir que não doía quando inevitavelmente viesse.
Lily não esperou.
A porta se abriu e ela desceu os degraus como uma flecha de flanela, de meias na neve, ignorando tudo que Ethan já tinha dito sobre "não sair descalça no inverno".
— Are you Bia? Dad said you're coming from BRAZIL!
Ethan parou na varanda e observou.
A brasileira — Bia — estava plantada na neve com os pés encharcados, o nariz vermelho de frio, os cachos em desordem, e nos olhos escuros alguma coisa estava mudando. O medo de dois minutos atrás estava dando lugar a outra coisa — algo que Ethan via todos os dias no rosto da filha e que nunca conseguia nomear sem que a garganta apertasse.
Lily abraçou a cintura dela. Bia ficou parada um segundo — surpresa, talvez — e depois colocou as mãos nas costas de Lily com um cuidado que Ethan notou como se nota uma mudança no vento: involuntariamente, no corpo.
Atrás da porta, Noah estava parado no corredor. Ethan o viu pela fresta — o corpo magro encostado na parede, os olhos grandes observando a cena sem expressão, sem som. Noah sempre observava. Era a única forma de participação que ele ainda praticava.
A brasileira olhou para a porta. Viu Noah. E fez algo que nenhuma das outras seis fez: nada. Não forçou um sorriso. Não se agachou. Não disse "oi, querido" com a voz de adulto que finge que criança é porcelana. Apenas olhou de volta, como quem diz "estou aqui quando você quiser", e desviou os olhos com a naturalidade de quem entende que pressão é o oposto de convite.
Noah recuou para dentro.
E Ethan — que não esperava nada, que não queria nada, que estava contando os dias até essa também ir embora — sentiu algo se desalinhar no mecanismo que mantinha tudo no lugar.
Lily puxou Bia pela mão escada acima, tagarelando sobre o Brasil, sobre cobras, sobre se tinha floresta no quintal, e a brasileira subia os degraus com os pés molhados deixando marcas de neve no assoalho e respondendo com um inglês quebrado que Lily, milagrosamente, entendia perfeitamente.
Elena apareceu na porta da cozinha, secando as mãos num pano de prato. Olhou para Bia. Olhou para Ethan. E abriu um sorriso largo demais.
— Bem, ela já tem mais carisma que as últimas seis juntas. E olha que a terceira fazia cookies.
Ethan passou por ela sem responder, levou a mala vermelha para o quarto de hóspedes — o quarto que Elena arrumara com lençóis limpos e um aquecedor extra que ele instalara naquela manhã sem pensar muito sobre por quê — e parou no corredor.
O quarto ficava no fim do andar de cima, entre o quarto das crianças e o dele. Sarah escolhera essa distribuição: "Assim a gente ouve se alguém chorar de noite." Na época, era prático. Agora, significava que a brasileira ia dormir a uma parede de distância do quarto onde Ethan passava as noites olhando para o teto.
Desceu. Lily já tinha Bia na cozinha, sentada num banquinho do balcão, com uma xícara de chocolate quente que Elena fizera e que Bia segurava com as duas mãos como se fosse um salva-vidas térmico.
— Do you have monkeys in Brazil? Real ones? Lily wants to know — Lily disse, falando de si mesma em terceira pessoa como fazia quando estava excitada.
— Yes — Bia respondeu, e o sorriso dela era diferente do que Ethan tinha visto no aeroporto. Era largo, genuíno, e mudava o rosto inteiro. — In my city, no. But in forest, yes. Many monkeys. And... how do you say... tucano? Big bird, big nose, many colors.
— A TOUCAN? You'vê SEEN a toucan?!
— Many. They come... eles vêm... they come in the tree near my grandmother house.
O inglês era um desastre encantador. As palavras tropeçavam umas nas outras, o português escorria pelas frestas como água por cerca velha, e Lily bebia cada sílaba com a sede de uma menina que não ouvia uma voz nova na cozinha há tempo demais.
Elena se aproximou de Ethan.
— Ela é boa — disse, baixo, sem tirar os olhos da cena. — Olha como trata a Lily. Olha como não forçou o Noah.
— É o primeiro dia — Ethan respondeu.
— Também foi o primeiro dia das outras. A de Missoula já estava tentando reorganizar os armários antes de sentar.
Ethan não respondeu. Mas ficou parado na porta da cozinha por mais tempo do que precisava.
Na sala, Noah estava sentado no chão com um lápis de cor e um caderno. Desenhava cavalos. Sempre cavalos — o mesmo cavalo, na verdade, repetido com a obstinação de quem tenta dizer uma coisa que a voz não consegue. Quando Bia apareceu na porta da sala carregando a xícara e com Lily grudada nela como ímã, Noah não levantou os olhos. Mas os dedos dele apertaram o lápis com mais força, e Ethan notou — porque Ethan notava tudo que Noah fazia, cada gesto minúsculo sendo a única linguagem que o filho oferecia.
A noite caiu cedo, como sempre em janeiro. Às cinco, o céu já era escuro. Às seis, Ethan serviu o jantar — macarrão com molho pronto, o terceiro do rodízio, o mais fácil de fazer quando se cozinha com uma mão e segura uma criança silenciosa com a outra. Bia olhou para o prato com a educação de quem não comenta, mas os olhos dela diziam algo que ele traduziu como "isso precisa de tempero" em qualquer idioma.
Lily falou durante o jantar inteiro. Noah comeu metade e empurrou o prato. Bia tentou dizer algo para Noah — um "you no like?" suave, sem pressão — e ele apenas desceu da cadeira e saiu.
— He doesn't talk — Lily explicou, com a praticidade brutal de uma menina de sete anos que aprendeu a traduzir o silêncio do irmão para estranhos. — Not since Mommy. But he's not mean. He just... can't.
A brasileira olhou para Lily com uma atenção que Ethan sentiu na pele, como mudança de temperatura.
— I know — Bia disse. — Is okay. He talk when he ready.
Simples assim. Sem piedade, sem constrangimento, sem o desconforto que os adultos sempre mostravam quando o assunto era Noah.
Ethan levantou da mesa, lavou os pratos e subiu para colocar as crianças na cama. Rotina: pijamas, dentes escovados, Lily lê um capítulo do livro sozinha enquanto ele senta com Noah até o menino dormir. Noah dormia encolhido, os joelhos contra o peito, a mão fechada em torno do lençol. Parecia menor dormindo. Parecia os dois anos que tinha quando tudo era barulho e risada e palavras que saíam tropeçando umas nas outras — "papai" e "uga" que era água e "valo" que era cavalo — antes que o silêncio engolisse tudo.
Ethan ficou ali até a respiração de Noah se regularizar. Depois saiu, fechou a porta devagar e se encostou na parede do corredor.
Lá embaixo, a luz da cozinha ainda estava acesa. O som de água correndo. A brasileira lavando alguma coisa — a xícara, talvez, ou o prato que ele esquecera.
E por um instante, a casa não pareceu tão vazia.
O pensamento durou menos de um segundo. Ethan o empurrou para o mesmo lugar onde guardava todos os pensamentos perigosos — o canto escuro atrás da culpa e da rotina — e foi para o quarto.
Às três e doze da manhã, Noah gritou.
