CAPÍTULO 3Gratuito
Capitulo 3 — Sinal de Boas-Vindas
Capitulo 3 — Sinal de Boas-Vindas
A van balancava como barco em mar picado, e Rafael Santos pensou — nao pela primeira vez naquela viagem — que o deserto era, de certa forma, um oceano seco.
As mesmas ondulacoes. A mesma imensidao sem referencia. A mesma capacidade de fazer uma pessoa se sentir absurdamente pequena e, ao mesmo tempo, estranhamente livre. So que em vez de agua, tinha poeira. Em vez de sal, tinha silicio. E em vez do cheiro de maresia que ele conhecia desde moleque na Barra, tinha o cheiro de nada. De ar seco. De vazio mineral que entrava pelas narinas e secava a garganta antes de chegar aos pulmoes.
— ¡Oye, Rafael, mira eso! — Cami apontou pela janela, o corpo inteiro inclinado para a frente como se pudesse chegar mais perto do horizonte por forca de vontade. — ¿Eso es un volcan?
— Parece.
— ¡Es enorme! ¿Tiene nombre?
— Licancabur — disse o motorista, sem se virar. — Volcan sagrado.
— ¡Sagrado! — Cami tirou o celular e fotografou. Depois fotografou de novo. Depois filmou. — Mi mama no va a creer esto.
Rafael olhou pela janela e nao fotografou. Nao porque nao achasse bonito — achava. O vulcao se erguia contra o ceu azul-cobalto com a autoridade de algo que estava ali antes de qualquer nome, antes de qualquer foto, antes da ideia de sagrado. Era a paisagem mais estranha e mais impressionante que ja tinha visto. O cone nevado flutuando acima do planalto como uma aparicao geologica, as encostas passando de marrom a cinza a branco com a progressao da altitude, a sombra projetada no deserto como a silhueta de algo imenso que observasse do alto.
Mas Rafael Santos nao era o tipo de pessoa que parava para registrar. Era o tipo que absorvia, guardava em algum lugar impreciso entre a memoria e o corpo, e seguia em frente. O Rio inteiro cabia nele assim — nao em fotos, mas em reflexos, em cheiros guardados, em sensacoes que voltavam sem aviso quando o vento batia de um jeito especifico ou quando alguem ria de um jeito que lembrava alguem.
O vulcao nevado passou pela janela e ficou para tras.
A van estava cheia de equipamento: caixas de fibra optica, rolos de cabo, ferramentas, componentes eletronicos embalados em plastico bolha que estalava quando o veiculo passava por buracos. A equipe de campo da TeleCom Sur — a empresa chilena que havia contratado Rafael — consistia em seis pessoas: Rafael como engenheiro chefe de campo, Cami como engenheira junior, e quatro tecnicos chilenos que falavam pouco e trabalhavam muito. O projeto era simples na teoria, monumental na pratica: puxar fibra optica e instalar torres de comunicacao para conectar vilarejos isolados no Atacama. Internet, telefonia, acesso ao seculo vinte e um para comunidades que ainda dependiam de radio e viagens de doze horas ate a cidade mais proxima.
— ¿Cuanto falta? — perguntou Cami.
— Uma hora — disse Rafael, consultando o GPS.
— Ay, mi espalda.
— Po, Cami, voce tem vinte e seis anos.
— ¡Y mi espalda tiene cuarenta! — Ela se esticou no banco, a coluna estalando num protesto audivel que arrancou uma careta dos tecnicos no banco de tras. — Oye, ¿es verdad que no hay nada en Toconao? ¿Nada nada?
— Tem gente.
— Aparte de gente.
— Tem uma igreja. E poeira.
— ¿Y cerveza?
— Provavelmente.
— Bueno. Sobrevivo.
Rafael riu. Cami tinha esse efeito — preenchia o espaco com energia como se a natureza tivesse decidido compensar a baixa estatura dela com o dobro de volume. Cabelo escuro cortado curto, olhos grandes, boca que nao conhecia filtro. Primeira mulher na equipe de campo, primeiro emprego grande, zero medo. Rafael gostava dela do jeito que gostava de componentes eletronicos bem projetados: pela eficiencia, pela confiabilidade, pela certeza de que ia funcionar quando fosse preciso.
A paisagem mudou de novo. O deserto se aplanou — menos formacoes rochosas, mais chao liso, mais ceu. O ceu do Atacama era uma coisa a parte. Azul que nao parecia real, azul de tinta recem-aplicada, azul que fazia os olhos doerem se voce olhasse direto por tempo demais. Rafael olhou. Os olhos doeram. Ele olhou mais. Porque a dor tinha qualidade, tinha textura, era o tipo de dor que vinha junto com algo bonito demais pra desviar.
Nao tinha mar.
Era a primeira coisa que o corpo registrava toda manha desde que saira do Rio: nao tem mar. O som, o cheiro, a umidade, a presenca liquida que acompanhava cada dia da vida dele desde que nascera na Tijuca e passara a infancia inteira indo pra praia com a avo — nada disso existia aqui. O Atacama era o anti-oceano. Seco, duro, mineral. O ar nao tinha sal. O vento nao tinha agua. O horizonte nao ondulava. E o silencio — o silencio era diferente do silencio do mar. O mar, mesmo calmo, murmurava. O deserto nao murmurava nada. O deserto era mudo com convicção.
Rafael engoliu o incomodo e olhou para frente. Tava aqui por um motivo. Varios motivos, na verdade, mas so um que ele dizia em voz alta: conectar vilarejo, instalar torre, fazer internet funcionar onde nunca tinha funcionado. O resto — a fuga, a culpa, o silencio do WhatsApp do irmao — ficava guardado no mesmo lugar impreciso onde guardava a paisagem. Sem foto. Sem legenda. So a sensacao.
***
Toconao apareceu no horizonte como um punhado de casas de adobe jogadas no deserto por algum deus distraido. Seiscentos habitantes, uma praca, uma igreja de pedra vulcanica, poeira em tudo. A van estacionou na beira da estrada principal — principal sendo um eufemismo generoso para a unica rua pavimentada. O pavimento, rachado e emendado, exibia o historico de estacoes secas como aneis de uma arvore contam anos.
Rafael desceu e esticou as costas. O ar era seco como lixa e quente apesar da altitude. O sol batia sem piedade, refletindo na terra clara, e ele sentiu a pele do braco arder antes mesmo de lembrar do protetor solar. O cheiro era terra — terra pura, sem vegetacao, sem organica, apenas mineral e poeira e o fio de enxofre distante que vinha dos salares ao norte.
— Isso aqui e real? — perguntou para ninguem.
— Real como la sed — disse um dos tecnicos, ja carregando equipamento.
A equipe descarregou a van em vinte minutos. Cami organizava as caixas com a precisao de quem havia decorado o inventario — fibra, conectores, emendas, ferramentas de fusao. Rafael supervisionava, mapeava mentalmente o terreno, calculava distancias. A torre ia ficar no morro atras da igreja — elevacao natural, linha de visada boa, cobertura para todo o vilarejo e parte da estrada ate Socaire. Ja via a torre na imaginacao — trinta metros de aco galvanizado perfurando o ceu azul como uma agulha costurando o chao ao espaco.
— ¿Y donde dormimos? — perguntou Cami, olhando ao redor com a expressao de quem calculava as probabilidades de encontrar um hotel e chegava a zero.
— Alojamento do ALMA. Fica a quarenta minutos daqui.
— ¿Cuarenta minutos de que? ¿Desierto?
— De paisagem, Cami. Chama de paisagem.
Ela fez um som que era meio riso, meio reclamacao, e voltou a organizar caixas.
Rafael se afastou da van e subiu uns metros no morro. De cima, via Toconao inteiro — as casas de adobe, a igreja, a praca com um banco solitario, uma escola com o patio de terra. Uma mulher estendia roupa no varal — roupas claras contra a parede de barro, dançando no vento seco como bandeiras de um pais que so existia ali. Duas criancas corriam atras de um cachorro. Um homem velho sentava no banco da praca e nao fazia nada, com a dedicacao de quem nao fazer nada era uma ocupacao seria.
Era pequeno. Era quieto. Era real de um jeito que o escritorio da TeleCom Sur em Santiago — com seus quadros brancos e reunioes de planejamento e graficos de cobertura — nunca conseguiria capturar. Real como a terra sob as botas. Real como o calor nas costas. Real como as seiscentas pessoas que viviam ali sem fibra optica e iam continuar vivendo, com ou sem Rafael Santos e sua van cheia de cabo.
Para aquelas criancas, internet era YouTube. Era video chamada com o primo em Santiago. Era dever de casa sem ter que pedir emprestado o radio do vizinho. Para a mulher no varal, era consulta medica sem doze horas de onibus. Para o velho no banco — bom, talvez pro velho nao mudasse nada. Mas para o neto dele, para a bisneta, para quem viesse depois, mudava tudo.
Rafael sentiu o peso familiar no peito — o peso de quem sabe que o trabalho importa e, ao mesmo tempo, carrega a suspeita de que importar nao e suficiente. De que conectar Toconao ao mundo nao ia consertar o que ele nao conseguiu conectar em casa. De que todas as torres do mundo, todas as fibras, todos os sinais que ele instalasse nao mudariam o fato de que o unico sinal que importava — o de Lucas, ha um ano, pedindo socorro em silencio — ele nao captou.
Tirou o celular do bolso. Abriu o WhatsApp. O nome de Lucas estava la — foto de perfil um desenho abstrato, circulos concentricos que pareciam ondas. Ou orbitas. Ou os dois.
Segurou o celular perto da boca e gravou.
— E ai, irmao. Cheguei no lugar mais seco do planeta. Literal e emocionalmente. — Pausa. O vento do deserto entrou no audio como ruido de fundo — seco, constante, o som de um lugar que nao se importa com gravacoes. — Toconao. Seiscentas pessoas, uma igreja, poeira pra caramba. Vou instalar uma torre aqui que vai dar internet pra essa galera toda. Don Emilio — o cara que meio que manda aqui — ja ta esperando como se eu fosse o Papai Noel da fibra optica.
Pausa mais longa. Rafael olhou o horizonte. O deserto se estendia em todas as direcoes, indiferente. Um lagarto cruzou uma pedra a dois metros dele — rapido, silencioso, a unica prova de que algo vivia ali alem de poeira.
— Mano, e diferente daqui. Nao tem mar, nao tem onda, nao tem nada que eu conhesso. O silencio aqui e... sei la, grande. Tipo, muito grande. Mas e diferente do silencio la do ape, sabe? Aqui tem estrela. Ontem a noite eu vi o ceu e, cara, e absurdo. Tipo, absurdo de verdade. Voce ia pirar desenhando isso. Ia encher uns dez cadernos so com as estrelas daqui.
Respirou. O ar seco arranhou a garganta. O sol queimava a nuca.
— Te amo, ta? Se cuida. Come direito. Faz os bagulho da terapia. Eu to aqui, mesmo longe, eu to aqui. E nois.
Enviou.
O icone azul apareceu. Mensagem entregue. Nenhuma confirmacao de leitura. Nenhuma resposta.
Como sempre.
Rafael guardou o celular, olhou o deserto mais uma vez — as antenas brancas do ALMA brilhando no horizonte distante como flores alienigenas viradas para o ceu, cada uma uma orelha parabólica de doze metros escutando o que nenhum ouvido humano jamais ouviria — e desceu o morro assobiando Tom Jobim, porque era o que fazia quando nao sabia o que sentir e precisava preencher o silencio com alguma coisa que nao fosse pensamento.
A torre ia ficar bonita ali em cima. A torre ia funcionar. A torre ia conectar Toconao ao mundo e o mundo a Toconao, e se isso nao consertava nada dentro de Rafael Santos, pelo menos consertava alguma coisa fora dele.
Por enquanto, tinha que servir.
