CAPÍTULO 3Gratuito
Sombras do Passado
**Mansão Martins, Gramado - Noite de quinta-feira**
Helena trancou-se no quarto alegando uma enxaqueca terrível. Rogério, sempre atencioso, ofereceu-se para chamar o médico, mas ela recusou veementemente. Como poderia explicar que a dor que sentia não estava na cabeça, mas no coração?
Sentada na penteadeira, Helena abriu a gaveta secreta onde guardava seus maiores segredos. Suas mãos tremiam quando retirou uma caixinha de veludo azul desbotado. Dentro, cuidadosamente preservada, estava uma fotografia antiga — a única que tirara de Gabriel bebê, escondida no hospital antes de fugir.
O rosto pequeno e angelical olhava para ela através do tempo. Olhos verdes recém-abertos, uma mechadinha de cabelo escuro, aquela expressão serena dos recém-nascidos. Helena acariciou a foto com o polegar, lágrimas escorrendo silenciosamente.
— Meu menino — sussurrou. — Meu Gabriel...
Ao lado da foto, havia a cópia da certidão de nascimento original, antes de ser oficialmente entregue ao orfanato. E uma pequena foto Polaroid amarelada — ela própria, segurando o bebê, tirada por uma enfermeira compassiva nas últimas horas que passaram juntos.
Um toque suave na porta a fez guardar tudo rapidamente.
— Mãe? — a voz de Sofia soou do corredor. — Você está bem? Posso entrar?
Helena limpou as lágrimas às pressas e trancou a gaveta.
— Entre, querida.
Sofia entrou com uma bandeja contendo chá de camomila e torradas. Mesmo aos vinte e três anos, ela mantinha aquele jeito carinhoso de cuidar dos outros que sempre aquecera o coração de Helena.
— Trouxe algo leve para você — Sofia colocou a bandeja na mesinha lateral. — Dona Lúcia disse que você não comeu nada no jantar.
— Obrigada, filha — Helena forçou um sorriso. — É só uma dor de cabeça passageira.
Sofia sentou-se na beirada da cama, estudando o rosto da mãe com preocupação.
— Tem certeza que é só isso? Você tem andado tão distante ultimamente. Desde que papai mencionou o projeto da restauração...
Helena sentiu o coração apertar. Sofia era perspicaz demais.
— É só o estresse, querida. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.
— Mãe... — Sofia hesitou, depois continuou com empolgação mal contida. — Hoje eu conheci o arquiteto. Gabriel Almeida.
Helena fechou os olhos por um breve instante, lutando contra a onda de emoção.
— Ah, sim? E como ele é?
— Mãe, ele é... incrível — os olhos de Sofia brilharam de um jeito que Helena conhecia muito bem. O brilho da atração, do interesse genuíno. — Inteligente, sensível, apaixonado pelo trabalho dele. Conversamos por horas e foi como se... como se nos conhecêssemos há anos. Parece loucura, eu sei, mas—
— Sofia — Helena interrompeu, mais bruscamente do que pretendia. — Você acabou de conhecer esse homem. Não deve criar expectativas.
Sofia piscou, surpresa com o tom da mãe.
— Eu sei, mãe. Não estou criando expectativas. É só que... foi especial. Diferente de qualquer coisa que já senti.
Helena levantou-se, virando de costas para esconder a expressão angustiada.
— Homens podem ser enganadores, Sofia. Principalmente os charmosos e bem-sucedidos. Você precisa ter cuidado.
— Você está falando sério? — Sofia levantou-se também, confusa. — Mãe, você nem o conheceu. Por que está sendo tão... negativa?
— Porque eu sou sua mãe e quero protegê-la — Helena virou-se, tentando suavizar o tom. — É só isso, querida. Não quero vê-la machucada.
Sofia observou a mãe por um longo momento, sentindo que havia algo mais, algo não dito pairando no ar.
— Está bem — concordou finalmente, embora não totalmente convencida. — Mas ele vai estar aqui pelos próximos três meses, trabalhando no casarão. Vai ser difícil não conviver com ele.
Helena sentiu o pânico subir.
— Talvez você devesse se concentrar em outros projetos fotográficos. Não precisa estar lá todos os dias.
— Mãe, é meu trabalho! — Sofia protestou. — Papai me contratou especificamente para documentar a restauração. Como vou fazer isso de longe?
— Sofia, eu—
— Sabe de uma coisa? — Sofia interrompeu, magoada. — Eu vim aqui para cuidar de você, trazer chá, conversar. Mas parece que você só quer me julgar e controlar minha vida.
— Filha, não é isso—
— Boa noite, mãe. Espero que sua dor de cabeça melhore.
Sofia saiu do quarto, fechando a porta com mais força do que o necessário. Helena afundou na cama, cobrindo o rosto com as mãos. Estava fazendo tudo errado, afastando Sofia quando deveria estar mais próxima.
Mas como poderia explicar? Como poderia dizer: "Esse homem por quem você está se apaixonando pode ser meu filho, o bebê que abandonei há vinte e cinco anos"?
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**Curitiba - Apartamento de Gabriel**
Gabriel não conseguia parar de pensar em Sofia. Enquanto preparava o jantar — um hábito solitário que mantinha há anos — sua mente voltava constantemente àquele sorriso, àqueles olhos cor de mel, ao modo como ela entendia exatamente o que ele sentia sobre arquitetura e história.
O telefone tocou. Era sua mãe, Carmem.
— Oi, mãe.
— Gabriel! Como foi a reunião em Gramado? Você aceitou o projeto?
Gabriel sorriu ao ouvir a voz carinhosa.
— Aceitei. É um trabalho desafiador, mas interessante. Vou passar os próximos três meses entre Curitiba e Gramado.
— Gramado... — Carmem fez uma pausa. — Querido, você... você nunca quis conversar sobre sua adoção. Mas agora que vai passar tempo lá...
Gabriel ficou tenso. Era um assunto que sempre evitara.
— Mãe, não vamos por esse caminho agora.
— Gabriel, você tem vinte e oito anos. Tem direito de saber suas origens, se quiser. Seu pai e eu nunca escondemos que você foi adotado, mas também nunca pressionamos. Porém... Gramado é onde você nasceu, filho. O orfanato Santa Clara—
— Mãe, por favor — Gabriel interrompeu, sentindo uma mistura confusa de emoções. — Eu tenho você e pai. Vocês são minha família. O resto... o resto não importa.
— Mas importa, querido — Carmem insistiu gentilmente. — Eu vejo em seus olhos, naquele vazio que você carrega. As perguntas que você não faz, mas que estão sempre lá. Quem foi sua mãe biológica? Por que ela te entregou? Você tem irmãos?
Gabriel apertou a ponte do nariz, sentindo uma dor de cabeça começando.
— Mãe, eu realmente não quero falar sobre isso agora. Tive um dia longo e—
— Está bem, filho. Desculpe pressionar — Carmem cedeu. — É só que... mãe sente essas coisas. E eu sinto que algo importante está prestes a acontecer na sua vida.
— Você e suas intuições — Gabriel tentou aliviar o clima. — Está tudo bem, mãe. Prometo.
Depois que desligaram, Gabriel ficou parado na cozinha, olhando para o vazio. Gramado. O orfanato Santa Clara. Vinte e oito anos de perguntas não respondidas.
E agora, Sofia. Uma mulher que mexeu com ele de um jeito que ninguém nunca havia conseguido.
Seria coincidência? Ou destino?
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**Mansão Veríssimo - Casa de Beatriz**
Beatriz Veríssimo servia vinho para seu filho Maurício enquanto revisavam os documentos espalhados sobre a mesa de jantar. Aos trinta e dois anos, Maurício era um advogado competente, mas excessivamente influenciado pela mãe manipuladora.
— Então, mãe, o que exatamente você está tramando? — Maurício perguntou, examinando as fotos antigas que Beatriz havia tirado há vinte e cinco anos. Fotos de Helena entregando o bebê.
— Estou apenas protegendo nossos interesses, querido — Beatriz respondeu com um sorriso frio. — Você sabe que tudo que seu avô deixou foi para Rogério quando ele se casou com Helena. Nós ficamos com as migalhas.
— Mas isso foi há mais de vinte anos, mãe. Rogério sempre foi justo conosco—
— Justo? — Beatriz riu amargamente. — Ele nos trata como parentes pobres, Maurício. Enquanto isso, Helena vive como rainha, Sofia é a princesinha mimada, e nós... nós precisamos trabalhar.
Maurício suspirou. Era uma conversa antiga.
— E o que essas fotos têm a ver com isso?
Beatriz pegou uma foto específica — Helena entregando o bebê para Irmã Benedita.
— Este bebê é Gabriel Almeida. Tenho quase certeza. Passei a semana investigando. Ele foi adotado do Orfanato Santa Clara exatamente na data em que Helena entregou o filho. É muito específico para ser coincidência.
— E daí? — Maurício não estava entendendo.
— E daí, meu filho burro, que Sofia está se apaixonando pelo próprio irmão! — Beatriz exclamou triunfante. — Biológico, por parte de mãe. Imagina o escândalo quando isso vier à tona?
Maurício ficou pálido.
— Mãe, isso é... isso é terrível. Precisamos contar para eles imediatamente!
— Não! — Beatriz segurou o pulso do filho com força. — Não vamos contar nada. Ainda não. Vamos deixar o romance florescer, deixar as coisas progredirem. E quando o momento certo chegar, quando Helena estiver mais vulnerável... aí usaremos essa informação para finalmente conseguir o que merecemos.
— Que você merece, mãe. Eu não quero parte nisso — Maurício afastou-se. — Isso é chantagem. É cruel com Sofia, com Gabriel, com todos os envolvidos.
— Ah, por favor — Beatriz revirando os olhos. — Não se faça de santo, Maurício. Você sabe quanto dinheiro está em jogo. A vinícola vale milhões. As propriedades, os investimentos... Se conseguirmos provar que Helena escondeu um filho ilegítimo, que ela tem um passado sujo, Rogério pode reconsiderar o testamento. Ou no mínimo, nos dar uma fatia maior para manter o segredo.
Maurício olhou para a mãe com uma mistura de nojo e pena.
— Você realmente se tornou uma pessoa horrível.
— Não — Beatriz corrigiu friamente. — Eu me tornei uma sobrevivente. E você deveria fazer o mesmo.
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**Casarão antigo - Sexta-feira à noite**
Sofia não conseguira parar de pensar em Gabriel o dia inteiro. Depois da discussão com a mãe, ela precisava de um lugar para pensar, e o casarão vazio sempre fora seu refúgio desde criança.
Ela entrou pela porta dos fundos, usando a chave que sempre carregava. A lua cheia iluminava os cômodos vazios através das janelas altas, criando sombras dramáticas. Sofia caminhou pelos quartos, lembrando-se das histórias que sua avó contava sobre bailes, romances e tragédias que aconteceram ali.
— Vovó — sussurrou para o vazio. — Eu acho que conheci alguém especial. Mas a mãe está sendo tão estranha sobre isso...
Um rangido a fez virar-se bruscamente. Seu coração disparou.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Sofia respirou fundo, rindo de si mesma. Estava ficando paranoica. Era só uma casa velha com seus ruídos naturais.
Mas então, uma sombra passou rapidamente pela janela do andar de cima.
— Quem está aí? — chamou, com voz mais firme. — Esta é propriedade privada!
Nada.
Sofia pegou o celular, pronta para ligar para a segurança, quando ouviu passos descendo a escada.
E então, uma figura emergiu das sombras.
Era Laura Rodrigues — a antiga parteira da família, agora com setenta anos, que havia ajudado no nascimento de várias gerações de Martins e Veríssimos.
— Dona Laura! — Sofia levou a mão ao peito, aliviada. — A senhora me assustou! O que está fazendo aqui a essa hora?
Laura parecia perturbada, seus olhos arregalados e preocupados.
— Sofia, querida... eu precisava vir. Precisava ver se o casarão ainda guarda os segredos como antes.
— Segredos? — Sofia franziu a testa. — Do que a senhora está falando?
— Sua mãe... Helena — Laura aproximou-se, agarrando as mãos de Sofia com urgência. — Há algo que você precisa saber. Algo que ela escondeu por anos demais.
O coração de Sofia acelerou.
— O que é, Dona Laura? A senhora está me assustando.
— O arquiteto... Gabriel Almeida — Laura continuou, sua voz trêmula. — Eu vi ele hoje na cidade. E Sofia... ele tem os olhos dela. Os exatos olhos verdes de Helena.
— Muitas pessoas têm olhos verdes — Sofia tentou racionalizar, embora sentisse um frio na espinha.
— Não como aqueles — Laura insistiu. — São iguais. E a idade... ele tem vinte e oito anos, não é?
— Sim, mas—
— Vinte e oito anos atrás, eu ajudei Helena em algo terrível — Laura confessou, lágrimas escorrendo. — Ela me fez prometer nunca contar. Mas agora... agora eu vejo que o silêncio pode causar um mal ainda maior.
— Dona Laura, o que a senhora está tentando dizer?
A velha parteira respirou fundo.
— Sofia... Gabriel pode ser—
Um barulho súbito de vidro quebrando interrompeu a conversa. Ambas se viraram, assustadas.
— Quem está aí? — Sofia gritou.
Silêncio absoluto. Então, uma risada baixa e sinistra ecoou do andar de cima.
— Beatriz — Laura sussurrou, reconhecendo. — Ela está aqui. Ela ouviu tudo.
— Tia Beatriz? — Sofia estava confusa. — Por que ela—
— Fuja, criança — Laura empurrou Sofia em direção à porta. — Corra e não olhe para trás. Há forças se movendo que você não entende ainda. Vá!
Sofia, apesar da confusão, obedeceu ao tom urgente. Ela correu para seu carro e acelerou para longe do casarão, o coração batendo descompassado.
No retrovisor, viu duas silhuetas na janela do segundo andar. Laura... e outra pessoa.
E então, tudo escureceu dentro do casarão.
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**Delegacia de Gramado - Sábado de manhã, 6h**
O telefone de Rogério tocou cedo demais. Era o delegado Cardoso.
— Senhor Martins, preciso que o senhor venha até o casarão. Imediatamente.
— O que aconteceu? — Rogério sentou-se na cama, alarmado.
— É a Dona Laura Rodrigues. Houve... um acidente.
Quando Rogério chegou ao casarão, acompanhado de Helena e Sofia, encontraram uma cena perturbadora. Laura estava sendo levada em uma maca, inconsciente, uma grande contusão na cabeça.
— Ela caiu da escada — explicou o delegado. — Ou foi empurrada. Ainda não sabemos. Mas havia sinais de luta. E olha isso...
Ele mostrou uma foto antiga encontrada agarrada na mão de Laura. Uma foto de Helena, vinte e cinco anos mais jovem, segurando um bebê.
Helena ficou branca como papel.
Sofia pegou a foto, estudando-a com atenção crescente.
— Mãe... — sua voz estava estranha. — Quem é esse bebê?
Helena abriu a boca, mas nenhum som saiu.
E naquele momento, enquanto o sol nascia sobre Gramado, os segredos de vinte e cinco anos começaram a rachar, prontos para explodir e destruir tudo em seu caminho.
