CAPÍTULO 2Gratuito
Encontros e Destinos
**Curitiba, 2023 - Vinte e cinco anos depois**
Gabriel Almeida ajustou a gravata diante do espelho do escritório, observando seu reflexo com olhar crítico. Aos vinte e oito anos, ele havia conquistado tudo o que planejara: um escritório de arquitetura respeitado, projetos em três estados, reconhecimento nacional na restauração de patrimônios históricos. Mas algo sempre pareceu faltar, um vazio inexplicável que nem mesmo o sucesso conseguia preencher.
— Gabi, o cliente de Gramado está na linha dois — anunciou Mariana, sua secretária, pela interfone. — Disse que é urgente.
Gabriel pegou o telefone, sua voz profissional e segura.
— Gabriel Almeida.
— Senhor Almeida, aqui é Rogério Martins, da Vinícola Vale dos Sonhos — a voz do outro lado era grave, respeitável. — Consegui seu contato através do arquiteto Henrique Telles. Ele disse que o senhor é o melhor em restauração de casarões antigos.
— Fico lisonjeado com a indicação — Gabriel respondeu, já abrindo seu laptop para fazer anotações. — Em que posso ajudá-lo, senhor Martins?
— Tenho uma propriedade em Gramado, um casarão de 1920 que pertenceu ao meu avô. Preciso restaurá-lo com urgência para transformá-lo na sede de eventos da vinícola. O problema é que tenho um prazo apertado — três meses até a inauguração. Sei que é pouco tempo, mas estou disposto a pagar o valor necessário pelo melhor trabalho.
Gabriel franziu o cenho. Três meses era realmente pouco para um projeto de restauração adequado. Mas algo na proposta o intrigou. Gramado. Havia algo naquele nome que sempre mexeu com ele, uma sensação estranha que nunca soube explicar.
— Posso fazer uma visita técnica semana que vem — ofereceu Gabriel. — Preciso avaliar o estado da estrutura antes de dar uma resposta definitiva.
— Perfeito! — Rogério pareceu aliviado. — Minha filha Sofia estará lá na quinta-feira para recebê-lo. Ela é fotógrafa e está documentando todo o processo da restauração para o portfólio da vinícola. Às dez da manhã está bom?
— Perfeito, senhor Martins. Até quinta-feira.
Gabriel desligou e ficou observando a tela do computador por um longo momento. Gramado. Por que aquele nome provocava uma inquietação tão profunda?
— Vai aceitar? — Mariana apareceu na porta com uma xícara de café.
— Ainda não sei — Gabriel admitiu. — Mas vou até lá descobrir.
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**Gramado, quinta-feira, 10h da manhã**
A caminhonete de Gabriel subiu pela estrada sinuosa que levava ao casarão da família Martins. A paisagem da serra gaúcha se desdobrava ao redor como um quadro vivo — hortênsias azuis margeando o caminho, pinheiros altivos, o ar fresco e perfumado.
Algo dentro dele se agitou. Uma sensação de déjà vu tão forte que precisou parar o carro por um momento.
"Estive aqui antes?" pensou, confuso. Mas sabia que não. Seus pais adotivos, Eduardo e Carmem, sempre haviam morado em Curitiba. Suas férias familiares eram na praia, nunca na serra.
Sacudindo a cabeça para afastar pensamentos estranhos, Gabriel seguiu em frente. Quando o casarão finalmente apareceu no topo da colina, ele prendeu a respiração.
Era magnífico. Arquitetura colonial preservada, varandas amplas com balaústres de madeira trabalhada, janelas altas com vitrais coloridos, um telhado de telhas francesas que haviam sobrevivido a um século de intempéries. O jardim ao redor estava um pouco selvagem, mas ainda mantinha traços da glória de outrora.
Gabriel estacionou e desceu da caminhonete, já tirando sua câmera profissional para fazer os primeiros registros. Estava tão concentrado nos detalhes arquitetônicos que não percebeu a presença de alguém até ouvir uma voz feminina.
— Impressionante, não é?
Gabriel virou-se.
E o mundo parou.
Sofia Martins estava parada na varanda, a luz da manhã criando um halo dourado ao redor de sua silhueta. Cabelos castanhos longos ondulados caíam sobre seus ombros, olhos cor de mel observavam Gabriel com curiosidade, lábios naturalmente rosados curvados em um sorriso tímido. Ela usava uma calça jeans, botas de couro e uma blusa branca simples, mas para Gabriel, ela era a visão mais deslumbrante que já contemplara.
— Eu... sim — conseguiu responder, sentindo-se idiota pela falta de eloquência. — É extraordinário.
Sofia desceu os degraus da varanda, carregando sua própria câmera profissional. Quando chegou mais perto, Gabriel notou as sardas delicadas em seu nariz, o modo gracioso como ela se movia, o perfume sutil de lavanda.
— Você deve ser o arquiteto Gabriel Almeida — ela estendeu a mão. — Sou Sofia Martins. Meu pai pediu para eu recebê-lo.
Quando suas mãos se tocaram, ambos sentiram. Uma corrente elétrica, uma conexão instantânea e inexplicável que os fez hesitar por um segundo a mais do que seria apropriado. Os olhos de Sofia se arregalaram ligeiramente, e Gabriel viu seu próprio espanto refletido naquele olhar cor de mel.
— Prazer em conhecê-la — Gabriel disse, sua voz saindo mais rouca do que pretendia.
Sofia retirou a mão rapidamente, corada, ajeitando nervosamente uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Meu pai me disse que você é especialista em restauração. O casarão pertenceu ao meu bisavô. É... tem muito significado para nossa família.
— Posso imaginar — Gabriel limpou a garganta, tentando recuperar sua compostura profissional. — A estrutura parece muito bem preservada para a idade. Seu bisavô deve ter sido um homem de bom gosto.
— Ele era — Sofia sorriu, e Gabriel sentiu seu coração disparar. — Minha avó sempre contava histórias sobre os bailes que aconteciam aqui. Dizem que era a propriedade mais bonita de Gramado na época.
Eles começaram a caminhar juntos em direção ao casarão. Gabriel tentava se concentrar nos aspectos técnicos — as fundações, o estado das vigas, a estrutura do telhado — mas seus olhos insistiam em desviar para Sofia. O modo como ela falava com paixão sobre a história familiar, como seus olhos brilhavam ao descrever memórias que nem eram suas, como ela parava ocasionalmente para fotografar detalhes que ele mesmo considerava importantes.
— Você realmente ama fotografia — Gabriel observou enquanto ela se ajoelhava para capturar o ângulo de uma coluna antiga.
— É minha forma de ver o mundo — Sofia respondeu, levantando-se e mostrando a tela da câmera para ele. — Arquitetura conta histórias, sabe? Cada rachadura, cada detalhe desgastado... são capítulos de vidas que vieram antes de nós.
Gabriel ficou impressionado. Era exatamente como ele sentia sobre seu trabalho.
— É verdade — concordou. — É por isso que restauração é tão importante. Não estamos apenas preservando prédios, mas memórias, histórias, legados.
Sofia o encarou com admiração genuína.
— Exatamente! — exclamou. — A maioria das pessoas não entende isso. Minha melhor amiga Júlia vive dizendo que sou muito sentimental com lugares velhos.
Eles riram juntos, e a tensão inicial começou a se dissolver em algo mais perigoso: química genuína, conexão real.
Passaram a manhã inteira explorando o casarão. Gabriel fazia medições, anotações, fotografias técnicas. Sofia o acompanhava, fazendo seu próprio registro artístico. Conversavam com facilidade surpreendente, descobrindo gostos em comum — literatura clássica, música jazz, arquitetura art nouveau, cafés escondidos em cidades antigas.
— Você já leu "Cem Anos de Solidão"? — Sofia perguntou enquanto examinavam a biblioteca empoeirada do segundo andar.
— Três vezes — Gabriel admitiu. — É meu livro favorito. A forma como García Márquez entrelaça tempo, memória e destino é...
— Magistral — Sofia completou, seus olhos brilhando. — Eu também! As pessoas geralmente acham muito denso, mas eu me perco naquelas gerações, naqueles segredos de família.
Gabriel sorriu.
— Segredos de família podem ser fascinantes... e perigosos.
Algo passou pelo rosto de Sofia — uma sombra rápida, um momento de hesitação.
— Sim... podem — concordou baixinho.
Ao meio-dia, saíram para o jardim. Sofia havia trazido uma cesta de piquenique preparada por Dona Lúcia, a governanta da família.
— Achei que você pudesse estar com fome depois de toda essa inspeção — explicou, estendendo um cobertor sob uma árvore antiga.
— Você não precisava — Gabriel disse, mas estava visivelmente tocado pela gentileza.
— Tradição gaúcha — Sofia brincou. — Hospitalidade é sagrada aqui na serra.
Eles se sentaram juntos, compartilhando pão caseiro, queijo colonial, salame artesanal e suco de uva da própria vinícola Martins. A conversa fluía naturalmente, como se já se conhecessem há anos.
— Posso fazer uma pergunta pessoal? — Sofia perguntou de repente, mordendo o lábio inferior com nervosismo.
— Claro.
— Você... você sente às vezes como se estivesse procurando algo? Tipo, sua vida está boa, você é bem-sucedido, mas tem um vazio que não consegue explicar?
Gabriel ficou em silêncio por um longo momento, surpreso pela percepção dela.
— Sim — admitiu finalmente. — Como você sabe?
— Porque eu sinto o mesmo — Sofia confessou, olhando para as mãos. — Meus pais são maravilhosos, tive uma infância perfeita, mas sempre senti... como se faltasse uma peça do quebra-cabeça. Como se houvesse uma parte de mim que eu não conheço.
Gabriel sentiu um aperto no peito. Era exatamente o que ele sentia, mas nunca soubera expressar em palavras.
— Talvez todo mundo sinta isso — tentou racionalizar. — A busca por significado, propósito...
— Talvez — Sofia concordou, mas não parecia convencida. — Ou talvez algumas pessoas carreguem segredos que nem sabem que existem.
Seus olhos se encontraram, e por um momento, o ar entre eles pareceu eletrificado. Gabriel teve o impulso louco de beijá-la ali mesmo, de puxá-la para seus braços e descobrir se aqueles lábios eram tão macios quanto pareciam.
Mas ele se conteve. Mal a conhecia. Era cliente. Havia limites profissionais.
Ainda assim, quando Sofia sorriu novamente — um sorriso genuíno e radiante — Gabriel soube que estava em sérios problemas.
— Então — Sofia quebrou o momento, voltando a um tom mais leve. — Você acha que consegue restaurar o casarão em três meses?
Gabriel respirou fundo, tentando recuperar seu modo profissional.
— Vou ser honesto: é um prazo apertado. Mas... — ele olhou para o casarão, depois para Sofia. — Sim. Eu aceito o projeto.
O sorriso de Sofia iluminou o jardim inteiro.
— Meu pai vai ficar muito feliz! E eu também — acrescentou, corando ligeiramente. — Quer dizer, para a vinícola. Para o portfólio fotográfico.
— Claro — Gabriel concordou, tentando ignorar o calor que subia pelo seu próprio pescoço.
Eles passaram mais uma hora discutindo detalhes técnicos, prazos, orçamento. Quando Gabriel finalmente precisou partir, já era meio da tarde e ele sentia como se tivesse vivido um dia inteiro em poucas horas.
Na despedida, na varanda do casarão, eles ficaram parados por um momento desconfortavelmente longo.
— Foi um prazer conhecê-lo, Gabriel — Sofia disse suavemente.
— O prazer foi meu, Sofia.
Ela estendeu a mão novamente, e quando se tocaram pela segunda vez naquele dia, ambos sentiram novamente aquela conexão inexplicável.
— Nos vemos na próxima semana, então? — Sofia perguntou. — Quando você começar o projeto?
— Sim. Próxima segunda-feira.
Gabriel entrou na caminhonete, mas antes de ligar o motor, olhou pelo retrovisor. Sofia ainda estava na varanda, observando-o partir, o vento brincando com seus cabelos castanhos.
Ele sorriu involuntariamente.
O que Gabriel não sabia era que, a apenas cinco quilômetros dali, na mansão principal da família Martins, Helena Veríssimo Martins olhava pela janela do quarto com o coração apertado.
Sua irmã Beatriz acabara de ligar com uma informação perturbadora.
— Helena, você não vai acreditar quem Rogério contratou para restaurar o casarão do vovô — a voz de Beatriz tinha um tom estranho, quase divertido. — Um arquiteto jovem de Curitiba. Nome dele é Gabriel Almeida. Bonito, bem-sucedido... e tem olhos verdes muito interessantes.
Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
"Não pode ser," pensou, agarrando o parapeito da janela para se equilibrar. "Não depois de todos esses anos."
— Você está bem, irmã? — Beatriz perguntou do outro lado da linha, malícia evidente em sua voz. — Você ficou tão quieta...
— Estou bem — Helena mentiu, sua voz trêmula. — Só... estou surpresa que Rogério não me consultou sobre o arquiteto.
— Ah, mas Helena... — Beatriz continuou, venenosa. — A Sofia está absolutamente encantada com ele. Disse que nunca conheceu alguém tão interessante. Eles passaram o dia inteiro juntos hoje. Imagina só se...
— Beatriz, preciso desligar — Helena interrompeu bruscamente, sentindo náusea subir pela garganta.
Ela desligou o telefone e correu para o banheiro, onde vomitou tudo que havia comido no almoço. Quando finalmente conseguiu se levantar, encarou seu reflexo no espelho.
O rosto que a encarava de volta estava pálido, olhos verdes arregalados de horror.
"Gabriel," sussurrou para si mesma. "Meu Gabriel..."
Mas não podia ser. Seu filho teria sido adotado, levado para longe. Que probabilidade haveria de ele retornar exatamente para Gramado? Exatamente para sua família?
Helena amava Sofia incondicionalmente, sua filha do coração.
"Não," Helena negou com veemência, agarrando a pia do banheiro. "Não pode ser. É só coincidência. Tem muitos Gabriéis no mundo. Muitos homens de olhos verdes."
Mas no fundo de seu coração, onde guardava vinte e cinco anos de culpa e saudade, Helena sabia.
O destino estava cobrando sua dívida.
E o preço seria mais alto do que qualquer um poderia imaginar.
