CAPÍTULO 2Gratuito
O Beijo Roubado
A apresentação havia sido um sucesso. Helena desceu do palco sob aplausos entusiasmados, o discurso sobre a importância histórica de "Vênus Adormecida" ainda ecoando pelo salão. A tela, agora revelada em sua glória, dominava a parede principal — uma mulher nua reclinada em tecidos carmesim, seu rosto uma mistura perturbadora de êxtase e morte.
— Champanhe? — Gabriel Valdez surgiu ao seu lado, dois copos na mão.
Helena aceitou, notando como o cunhado havia mudado. O playboy despreocupado de antes agora tinha sombras sob os olhos, uma tensão constante no maxilar.
— Como está se adaptando ao retorno? — ela perguntou.
— São Paulo não mudou muito. As mesmas pessoas, os mesmos segredos — ele bebeu o champanhe de um gole só. — Beatriz odiava essas festas. Dizia que todo mundo aqui usava máscaras.
— Todos nós usamos máscaras, Gabriel.
— Algumas mais perigosas que outras — ele respondeu, seu olhar fixo em Ricardo, que conversava animadamente com investidores. — Meu irmão, por exemplo. Você sabe que ele tem se encontrado com Zhang Wei toda semana?
Helena sentiu o sangue gelar. Zhang Wei era conhecido no submundo da arte como um dos maiores falsificadores do mundo.
— Deve ser algum negócio da construtora — ela respondeu automaticamente.
Gabriel riu sem humor.
— Helena, querida cunhada, você sempre foi inteligente demais para se fazer de tola. Mas talvez... — ele se aproximou, o hálito com cheiro de whisky — talvez você tenha seus próprios segredos para guardar.
Antes que ela pudesse responder, Sofia apareceu, agarrando o braço de Gabriel.
— Querido, prometa que dança comigo mais tarde — ela ronronou, pressionando os seios contra ele de forma nada sutil.
— Sofia nunca muda — Gabriel comentou quando ela se afastou. — Ainda obcecada por tudo que não pode ter.
Helena estava prestes a perguntar o que ele queria dizer quando sua assistente, Mariana, aproximou-se apressada.
— Senhora Valdez, o senhor Martinelli solicita sua presença no escritório privado. Disse que é sobre a procedência da obra.
Helena atravessou o salão, consciente de que Ricardo estava distraído demais com seus negócios para notar sua ausência. O corredor que levava ao escritório estava mergulhado em penumbra, a música da festa chegando abafada.
Ela bateu na porta e entrou. Lorenzo estava de costas, observando a cidade através da janela panorâmica, um copo de whisky na mão.
— Você mentiu — ele disse sem se virar. — A tela não veio de uma coleção particular suíça.
— Não sei do que está falando.
Lorenzo virou-se, seus olhos agora perigosos.
— Sei exatamente de onde veio essa tela, Helena. A questão é: você sabe?
Ele se aproximou lentamente, como um predador. Helena recuou até sentir a porta nas costas.
— Meu pai a adquiriu legalmente há vinte anos...
— Seu pai — Lorenzo interrompeu, agora tão próximo que ela podia sentir o calor de seu corpo — era um homem com muitos segredos. Assim como você.
— O que você quer?
— A verdade — ele sussurrou, uma mão apoiando-se na porta ao lado de sua cabeça. — E talvez... algo mais.
Helena deveria se afastar, gritar, qualquer coisa exceto o que fez. Mas quando Lorenzo inclinou-se, seus lábios roçando os dela numa pergunta silenciosa, ela respondeu com uma fome que não sabia possuir.
O beijo explodiu entre eles como fogo em gasolina. As mãos dele em seus cabelos, puxando sua cabeça para trás, expondo seu pescoço. A boca descendo, mordendo, marcando. Helena gemeu, suas unhas cravando nos ombros dele através do tecido fino do smoking.
Lorenzo pressionou-a contra a porta, uma coxa entre as suas pernas, e Helena perdeu qualquer resquício de sanidade. Suas mãos exploraram o peito dele, descendo pelo abdômen definido, até...
— Helena? — A voz de Ricardo do outro lado da porta foi como água gelada.
Eles se separaram, ambos respirando pesadamente. Helena ajeitou o vestido com mãos trêmeis enquanto Lorenzo afastava-se, voltando a parecer perfeitamente composto exceto pelo brilho perigoso em seus olhos.
— Entre — Helena conseguiu dizer, abrindo a porta.
Ricardo entrou, seu olhar alternando entre os dois com suspeita.
— Está tudo bem aqui?
— Perfeitamente — Lorenzo respondeu suavemente. — Estava apenas discutindo com sua esposa alguns detalhes sobre a autenticação da obra. É um processo... delicado.
— Imagino que sim — Ricardo respondeu, seu tom deixando claro que imaginava muito mais. — Helena, sua mãe está procurando por você.
— Vou encontrá-la agora.
Helena saiu do escritório, as pernas ainda bambas, o gosto de Lorenzo ainda em seus lábios. Não viu o olhar que os dois homens trocaram — predador reconhecendo predador.
No banheiro feminino, ela jogou água fria no rosto, tentando recuperar a compostura. No espelho, notou uma pequena marca vermelha no pescoço, onde Lorenzo havia mordido. Cobriu com o cabelo e respirou fundo.
Quando saiu, Sofia estava encostada na parede, esperando.
— Então — a amiga disse com um sorriso malicioso — o italiano é tão bom de cama quanto parece?
— Sofia, eu não...
— Por favor, Helena. Conheço você há vinte anos. Está com a mesma cara que tinha quando transou com o Pedro Henrique no banheiro da festa de formatura.
— Não aconteceu nada.
— Ainda — Sofia corrigiu. — Mas cuidado, querida. Lorenzo Martinelli não é o tipo de homem com quem se brinca. Ouvi dizer que a última mulher que se envolveu com ele acabou morta em Veneza.
Helena sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— O que você sabe sobre ele?
— Apenas rumores. Conexões com a máfia italiana, negócios escusos com arte roubada, um passado violento. — Sofia aproximou-se, sussurrando — Mas também dizem que ele fode como um deus. Que faz coisas que deixariam qualquer mulher viciada.
Antes que Helena pudesse responder, um grito ecoou pelo salão principal. As duas mulheres correram de volta para a festa.
A multidão havia se aglomerado em um canto. Helena abriu caminho até a frente e congelou.
No chão, em uma poça de sangue que se espalhava pelo mármore italiano, estava o corpo de Zhang Wei. Um estilete de moldura cravado no pescoço, os olhos arregalados em surpresa eterna.
E ao lado do corpo, como uma assinatura macabra, estava o cartão de visitas de Lorenzo Martinelli.
