CAPÍTULO 2Gratuito
Rainhas do Atlântico
Capítulo 2 — Rainhas do Atlântico
O barracão do Império da Coroa não era silencioso nem nas horas de silêncio.
Mesmo nas terças à tarde, quando o ensaio oficial não tinha começado ainda e os ritmistas estavam chegando aos poucos, havia um murmúrio vivo no lugar — conversa de costureira, criança correndo entre araras de fantasia, o som metálico de alguém ajustando arame em cetim, o cheiro de cola quente misturado com suor e perfume barato e café do isopor que o Carlão mandava às 16h como se fosse obrigação contratual, porque para ele era.
Bela chegou às 14h30 carregando a sacola com as sapatilhas de cadarço das meninas — oito pares, tamanhos 28 ao 34, que ela mesma tinha comprado e marcado com fita colorida por nome porque quando menina de seis anos briga por sapatilha não é sobre sapatilha, é sobre ser vista, e Bela entendia isso de um jeito que não precisava ser explicado.
"Professora Bela!" A voz foi de Camila, sete anos, que tinha o cabelo crespo preso em dois pompons e corria como se o chão não fosse um obstáculo mas uma sugestão.
"Ei, ei, devagar perto das araras." Bela largou a sacola e abriu os braços no tempo certo para receber o impacto de Camila sem perder o equilíbrio. Hábito de corpo. "Cadê suas sapatilhas de ontem?"
"Minha mãe lavou."
"E ela secou?"
Camila fez a expressão de quem não tinha pensado nessa parte.
"Camila."
"Eu vou pegar a de empréstimo?"
"Vai pegar a de empréstimo e amanhã você me traz as suas de volta, secas, guardadas na sacolinha." Bela a pôs no chão. "Pode ir."
O ensaio das mirins começava às 15h e ia até as 17h, quando as crianças iam para casa e o ensaio dos adultos tomava conta do barracão. A sequência tinha sido estabelecida por Bela dois anos atrás quando o Império convidou a ONG para integrar oficialmente o desfile — dez meninas entre seis e onze anos que representariam "as sementes das rainhas" no enredo deste ano, que era "Rainhas do Atlântico": uma narrativa sobre mulheres negras no Oceano Atlântico, das navegadoras às Yabás, passando pelas que cruzaram o atlântico sem escolha e pelas que viraram divindades na memória coletiva.
Bela tinha chorado quando leu o enredo pela primeira vez. Não na frente de ninguém.
"Você vai ensinar a sequência da entrada hoje?" perguntou Tati, quinze anos, a mais velha das mirins e a que coordenava as menores durante os ensaios quando Bela precisava cuidar de algo. Tati tinha nascido ouvindo pagode no colo da avó e tinha no corpo aquele tipo de ritmo que não se ensina, só se acorda.
"Vou tentar a entrada e o primeiro arco." Bela tirou as sapatilhas da sacola e começou a distribuir pelos pares que chegavam. "Se a Luísa conseguir fazer o pivô sem cair de lado, a gente avança pro segundo arco."
"A Luísa vai cair de lado."
"A Luísa vai cair de lado, vai rir, vai se levantar e vai tentar de novo." Bela olhou para Tati com o olhar que significava exatamente o que significava. "É assim que funciona."
Tati sorriu com um lado da boca. "Tá bom."
O ensaio começou.
Bela tinha descoberto que ensinar dança para crianças era a coisa mais honesta que ela fazia. Não havia fingimento possível quando o corpo de uma criança de seis anos estava tentando aprender um passo — o erro era visível, a frustração era visível, e a alegria quando conseguia era a coisa mais incondicional que existia. Não havia performance de alegria. Era só a alegria.
Ela tinha começado a dar aulas na ONG quando tinha vinte e dois anos, recém-formada, porque o pai tinha comprado o espaço e ela tinha ficado com a responsabilidade de fazer algo com ele. Poderia ter contratado professores e ficado com o crédito de administradora. Contratou professores e ficou também como professora porque o espaço sem ela dentro era diferente do espaço com ela dentro, e ela sabia disso de uma forma que não sabia nomear mas que o corpo confirmava toda vez que cruzava a porta.
"Professora." Camila de novo, dessa vez séria. "A Luísa disse que eu tô pisando no lugar errado."
"A Luísa disse ou você acha que ela disse?"
Silêncio contemplativo. "As duas coisas."
"Vem cá." Bela ajoelhou para ficar na altura de Camila. "Olha pro meu pé."
Ela fez o passo devagar. Camila olhou com a concentração de alguém descobrindo que atenção é um músculo.
"Viu onde o calcanhar pousa primeiro?"
"Antes dos dedos."
"Sempre antes dos dedos, nesse passo. Porque você tá chegando, não tá saindo. Quando você tá saindo, os dedos primeiro." Ela se levantou. "Agora você faz."
Camila fez. Errou. Fez de novo. Errou menos. Fez uma terceira vez e o calcanhar pousou no lugar certo e ela própria sentiu porque parou e olhou para o pé com uma expressão de descoberta genuína que Bela tinha memorizado em dezenas de crianças e que nunca ficava menos bonita de ver.
Às 17h10, quando as mães começaram a chegar e o barracão trocou de energia — a concentração infantil se dissolvendo na bagunça alegre da saída — Bela estava sentada num canto com o caderninho de coreografia aberto no colo quando o telefone vibrou.
Era o pai.
Ela atendeu antes do segundo toque, hábito de anos.
"Meu amor." A voz de Antônio Drummond no telefone era a mesma de sempre — grave, calma, com aquele aquecimento específico que ele usava só com ela. "Você ainda no barracão?"
"Acabando de fechar a aula das mirins. O ensaio dos adultos começa agora."
"Vai ficar até tarde?"
"Provavelmente até as onze." Ela apoiou o caderno na coxa. "O que foi, Pai?"
"Queria confirmar o jantar de sexta. Vou mandar a Beatriz fazer o frango com quiabo."
Bela sorriu antes de saber que estava sorrindo. "Tô confirmada. Pode mandar fazer."
"Tem certeza? Não tem ensaio?"
"Tem, mas é às oito. Consigo jantar cedo com você e chegar no horário."
"Ótimo." Uma pausa curta. "Como foram as meninas hoje?"
E aqui era o momento onde os dois planos da vida de Bela se tocavam com a naturalidade que ela nem questionava mais: o apartamento em Ipanema que o pai comprara, as contas que ela pagava, o frango com quiabo na sexta-feira, o barracão em Vila Isabel onde ela era a professora Bela e não a filha do Drummond. As duas coisas eram reais. As duas coisas eram dela. A distância entre elas era de menos de vinte quilômetros mas era também de uma vida inteira de escolhas que tinham sido feitas por ela, para ela, dentro da estrutura que o pai construíra ao redor dela com o amor que ele sabia dar.
"A Luísa conseguiu o pivô," disse ela.
A voz do pai aqueceu ainda mais. "Conta."
Ela contou. Ele escutou — genuinamente escutou, com as perguntas certas no lugar certo, como ele sempre fazia quando era assunto dela. Antônio Drummond tinha muitas falhas que Bela vislumbrava de longe sem nunca mirar direto — a forma como alguns homens o tratavam com deferência excessiva que ela interpretava como respeito pelo dinheiro, os telefonemas que ele atendia saindo do cômodo, os momentos em que olhava para algum ponto além dela com uma expressão que desaparecia antes de poder ser nomeada. Mas como pai, ele era o que ela tinha aprendido a amar: presente, atento, e com o coração escancarado na direção dela.
A mãe tinha morrido quando Bela tinha nove anos. Câncer, rápido, sem aviso adequado. O que ficou foi o pai e o corpo de Bela aprendendo que amor era também o que sobrevive à perda.
"Até sexta, meu amor," disse o pai.
"Até sexta."
Ela desligou e ficou um momento com o telefone na mão antes de levantar.
O ensaio dos adultos estava começando — o som da bateria chegando em ondas do fundo do barracão, aquele pulso que ela sentia mais no esterno do que nos ouvidos. Ela fechou o caderninho, guardou na sacola e foi para o centro do barracão onde estava o Mestre Silvino distribuindo posições.
"Bela!" Dinha apareceu do nada como sempre aparecia — de repente, com cafezinho do isopor e expressão de quem sabe de algo. "Presta atenção nisso aqui."
Ela entregou o café. Bela tomou um gole.
"No quê?"
Dinha apontou discretamente com o queixo em direção à entrada do barracão, onde Mãe Jacira estava conversando com um homem que Bela não reconhecia.
Alto. Pele negra. Postura que não era daqui mas que estava fazendo esforço para ser.
"Quem é?" perguntou Bela.
"Não sei ainda. Mas tô descobrindo." Dinha tomou um gole do próprio café. "Parece ser de negócios. Chegou com nome de alguém da Mangueira."
Bela olhou mais uma vez. O homem estava ouvindo Mãe Jacira com atenção que parecia genuína, mas havia algo na forma como ele segurava o corpo — não tensão, não exatamente, mas uma espécie de contenção, como quem está acostumado a observar mais do que ser observado.
"Você acha que vai aparecer no ensaio?" perguntou Bela.
"Acho que já tá aparecendo." Dinha olhou para ela com aquela expressão. "E você já tá olhando."
"Tô avaliando."
"Sei."
A bateria aumentou de volume e Silvino chamou as alas para posição. Bela deu as costas para a entrada, colocou o corpo no ritmo que o barracão pedia, e se concentrou no que sabia fazer.
Mas o homem na entrada ficou numa parte da atenção que ela não tinha se autorizado a usar.
Corpo que continha mais do que mostrava.
Ela conhecia esse tipo. Só não sabia ainda o que fazer com isso.
