CAPÍTULO 2Gratuito
Quarenta e Três
Capítulo 2 — Quarenta e Três
Iris arrancou o fio branco com a precisão cirúrgica de quem já fez isso vezes demais.
Segurou entre o polegar e o indicador, na frente do espelho do banheiro da Black Tide Ink, e contou sob a luz fluorescente que zumbia com aquele barulho de inseto agonizante. A mecha branca agora ocupava uma faixa larga na lateral esquerda do cabelo, agressiva contra o preto do restante, como uma cicatriz que insistia em crescer. Quarenta e três fios. Ela contava toda semana, como quem conta as batidas de um relógio que está desacelerando. Um ritual obsessivo que começara dois meses atrás, quando o primeiro fio apareceu do nada numa terça-feira qualquer.
Na semana passada eram trinta e nove.
— Quarenta e três — murmurou para o reflexo. — Parabéns, Navarro. Teu cabelo tá virando Cruella de Vil.
O reflexo não achou graça. Iris também não, mas o sarcasmo era a última armadura que ainda funcionava direito.
Iris prendeu o cabelo num coque frouxo, escondendo a mecha o máximo possível, e voltou ao estúdio. A Black Tide Ink cheirava ao que sempre cheirava: tinta, incenso de sândalo barato que ela comprava no mercadinho da esquina em pacotes de doze, o café que Nando fazia forte demais — quase xarope, denso como piche — e a terra úmida das plantas que Iris espalhava por todo canto. Cada uma tinha nome. A samambaia na vitrine era Gertrude. O filodendro na estante, Bowie. A suculenta ao lado da caixa registradora, Rita — porque era pequena, resistente e se recusava a morrer. Iris falava com elas quando o estúdio estava vazio, e se alguém achasse estranho, podia ir se tatuar em outro lugar.
Camden Town se mexia lá fora, cinzenta e barulhenta como sempre. Turistas com câmeras apontadas para os grafites, punks sobreviventes com moicanos desbotados pelo tempo, vendedores de comida de rua gritando promoções de falafel e pad thai, o canal com seu cheiro de alga e cerveja velha e a memória de todos os objetos que já foram jogados ali dentro. Iris gostava do barulho. O barulho significava normalidade, significava mundo humano funcionando como deveria. O silêncio é que a preocupava — porque no silêncio ela ouvia coisas que não queria ouvir, sentia coisas que não queria sentir.
— Próximo é a Beatrice, né? — Nando perguntou da estação dele, sem levantar os olhos. Estava tatuando uma serpente no antebraço de um rapaz que assistia vídeo no celular com fone de ouvido, completamente alheio à agulha perfurando sua pele. Nando trabalhava com a calma de um monge — linhas perfeitas, mão firme, zero drama. Seu talento era natural, humano, sem uma gota de magia. A tinta que ele aplicava fazia exatamente o que tinta deveria fazer: ficar bonita, ficar parada, não significar nada além de estética. Iris o invejava por isso mais do que jamais admitiria.
— Beatrice. Selo de proteção. Flanco esquerdo — confirmou Iris, preparando a estação. Organizou os tinteiros com cuidado, cada um no lugar certo, cada cor na sequência que Celeste lhe ensinara. Mãos ocupadas mantinham a mente quieta. Era a teoria, pelo menos.
O selo de proteção era trabalho rotineiro. Lobisomens da matilha de Callan pediam a cada três meses, sempre que as fronteiras territoriais precisavam de reforço. Iris os tatuava com tinta infundida de poder — a agulha levando não apenas pigmento, mas a energia antiga que corria nas veias de toda Marcadora. O resultado era uma tatuagem que funcionava como escudo: contra detecção, contra magia hostil, contra a fome voraz dos não mortos que não respeitavam tratados. Cada selo era uma promessa selada em pele — e Iris nunca tinha quebrado uma promessa dessas. Até agora.
Beatrice chegou pontual. Era uma mulher de quarenta anos, ombros largos, cabelo ruivo cortado rente, cicatriz na sobrancelha esquerda que ela ganhara num confronto territorial em Shoreditch, três anos atrás, quando um vampiro renegado decidiu que fronteiras eram sugestão. Lobisomem há dezesseis anos, membro da matilha de Hampstead Heath, olhos amarelos que só apareciam quando estava nervosa.
— Alright, Bea. Deita do lado direito — disse Iris, calçando as luvas. O látex estalou nos punhos com um som que era quase reconfortante de tão familiar.
Beatrice obedeceu. Iris preparou a tinta — a mesma fórmula que Celeste, sua avó, usava. Preta com veios de prata que brilhavam quando a luz batia certo, como fios de teia de aranha ao amanhecer. Desenhou o selo no transfer: um círculo com três linhas cruzadas e runas de contenção nos intervalos, cada símbolo carregando séculos de significado. Aplicou no flanco de Beatrice, entre as costelas e o quadril, onde o pelo da transformação crescia mais espesso.
Ligou a máquina. O zumbido familiar encheu o estúdio, sobrepondo-se à playlist de jazz que Nando sempre deixava tocando baixo. Iris respirou fundo, chamou o poder como fazia desde os dezoito anos — aquela sensação de puxar fogo de um poço profundo dentro do peito, de mergulhar a mão no escuro e encontrar calor — e encostou a agulha na pele.
A tinta não respondeu.
Iris sentiu o poder sair dela — mas fraco. Diluído. Como gritar através de uma parede de vidro. Como tentar acender uma fogueira com fósforos molhados. A tinta entrou na pele, a agulha fez seu trabalho mecânico, mas a vibração mágica que deveria acompanhar cada linha... vacilou. A primeira curva do selo saiu tremida. A segunda, torta. A terceira, correta mas sem peso — sem a densidade que transformava pigmento em proteção.
Iris apertou os dentes e forçou. Empurrou mais poder, mergulhou mais fundo no poço. Sentiu a dor familiar atrás dos olhos, aguda como agulha de gelo, e o gosto de ferro na língua — o sabor que sempre acompanhava o esforço excessivo. A tinta obedeceu — parcialmente. O selo saiu funcional, mas onde deveria haver uma barreira impenetrável, havia algo mais parecido com uma cerca de arame: presente, mas frágil. Qualquer coisa com força suficiente passaria por ela.
— Tudo certo? — Beatrice perguntou, sentindo a tensão. Os lobisomens sempre sentiam. Os corpos deles eram instrumentos afinados para detectar variações de humor, de temperatura, de intenção.
— Perfeito — mentiu Iris, com o sorriso profissional que praticara em milhares de clientes. A mentira saiu lisa, redonda, impecável. — Não se transforma nas próximas seis horas. Nada de correr na lua. Ibuprofeno se doer.
Beatrice agradeceu e foi embora. O sino na porta tilintou, e o som da rua entrou por um segundo antes de ser abafado de novo. Iris ficou olhando a porta se fechar.
A agulha tinha tremido. Pela primeira vez em nove anos de trabalho, a agulha tinha tremido. Ela baixou os olhos para as próprias mãos — ainda firmes agora, por fora. Por dentro, um terremoto silencioso.
***
Às onze da noite, depois que Nando foi embora com um aceno e a promessa de trazer rosquinhas na manhã seguinte, Iris ficou sozinha no estúdio. Camden se aquietava aos poucos — os bares ainda vomitavam música, graves que faziam o chão vibrar, mas as lojas de tatuagem fechavam, as luzes de neon piscavam para ninguém, e as ruas molhadas de chuva refletiam cores que pareciam pertencer a outro mundo.
Iris foi até a porta da frente. Do lado de dentro, invisível para olhos comuns, havia um selo de proteção que ela redesenhava toda semana. Um trabalho fino — tinta misturada com seu próprio sangue, três gotas colhidas da ponta do dedo indicador, aplicada diretamente na madeira da porta, runas que formavam uma rede de segurança ao redor de todo o prédio. Nenhum vampiro não autorizado entrava. Nenhum espírito hostil passava. Nenhuma magia invasiva penetrava. Era o trabalho mais importante que ela fazia, mais do que qualquer selo em pele de lobisomem, porque era o que mantinha o mundo de fora separado do refúgio de dentro.
Iris se ajoelhou e examinou o selo. O chão estava frio sob os joelhos, e ela sentiu a umidade da noite londrina infiltrando-se pelos jeans. A última aplicação tinha sido na segunda-feira — cinco dias atrás.
Havia uma rachadura. Uma fissura fina, quase invisível, cortando a terceira runa de contenção de cima para baixo como um corte de bisturi. Iris passou o dedo. Sentiu a textura da madeira exposta onde a tinta infundida deveria estar — crua, desprotegida, vulnerável. A rachadura não era física — era mágica. O poder dentro da tinta estava se dissolvendo, como sal na água. Como neve ao sol. Como tudo que ela construía ultimamente.
— Não — disse baixo, e a palavra carregava mais medo do que qualquer grito.
Refez o selo. Concentrou tudo o que tinha. Mordeu o dedo até sangrar, misturou as gotas na tinta, traçou cada runa com a atenção feroz de quem sabe que não pode errar. A tinta brilhou prata ao entrar na madeira, as runas se reconfiguraram como constelações encontrando seus lugares, e a rede de proteção se estendeu pelo prédio como uma exalação longa e quente. Iris sentiu a drenagem — mais forte que o normal, muito mais forte, como se estivesse correndo uma maratona onde antes caminhava ao redor do quarteirão. Quando terminou, estava suando. As mãos tremiam. A dor atrás dos olhos voltou, e com ela o gosto de ferro, persistente e amargo.
O selo ficou perfeito. Brilhante. Forte. Bonito como um vitral sob o sol.
Iris sentou no chão do estúdio, encostada no balcão, e ficou olhando. Esperando. O piso de madeira velha era duro e irregular, e ela sentia cada nó e cada tábua desalinhada contra a coluna, mas não se moveu. Precisava ver. Precisava saber.
Passou uma hora. Duas. Ela lutou contra o sono, beliscando a palma da mão toda vez que as pálpebras pesavam, bebendo o resto do café de Nando que já estava frio e amargo como remédio. Na terceira hora, quando o relógio da parede marcava duas da manhã e Camden estava finalmente em silêncio — aquele silêncio profundo e raro que Londres só permitia entre as duas e as quatro —, a primeira rachadura apareceu.
Uma linha fina cortando a segunda runa. Depois outra na quarta. Depois uma terceira, serpenteando pela borda do círculo externo como a ramificação de uma raiz seca procurando água que não existe.
Três horas. O selo durou três horas. Na semana passada, durava sete dias.
Iris sentiu o frio subir pela espinha, vértebra por vértebra, lento e deliberado. Não o frio de Londres — esse ela conhecia, era companheiro velho, parceiro de oito invernos. Esse frio vinha de dentro. Do mesmo lugar de onde puxava o poder. Do poço que estava ficando mais raso a cada dia, a cada selo, a cada tatuagem que custava mais do que devia custar. O poço que um dia ia secar. E quando secasse, Iris não sabia o que sobraria dela.
A porta da frente se abriu. Callan entrou trazendo cheiro de chuva e lã molhada, o cabelo castanho grudado na testa, os olhos verdes encontrando os dela com aquela preocupação automática que lobisomens Alpha carregam como segunda pele — o instinto de cuidar antes de perguntar, de proteger antes de entender.
— Hey. Ainda tá aqui? — Ele se ajoelhou na frente dela, mão grande no joelho, quente através do jeans. O toque era firme e suave ao mesmo tempo, como tudo em Callan. — Iris. Que houve?
Iris olhou para ele. Callan Wren, trinta e um anos, paramédico do NHS de dia e Alpha da matilha de Hampstead Heath de noite, com as mãos mais gentis que ela já conhecera e um faro — literal — para mentiras. A chuva escorria do casaco dele e pingava no chão do estúdio, formando uma pequena poça entre os dois.
— Nada — disse. — Só fiquei trabalhando até tarde.
Os olhos de Callan se estreitaram. Ele fungou o ar — uma vez, duas vezes, as narinas dilatando com aquela sutileza que só outro sobrenatural notaria — e ela soube que ele estava sentindo alguma coisa. A química do medo. O sal do suor frio. A assinatura olfativa de alguém que estava com medo de verdade, medo do tipo que se instala nos ossos e não sai com banho quente nem com mentira ensaiada.
— Tu tá mentindo — disse ele, sem acusação. Apenas fato. Como quem diz que está chovendo.
— Eu sei. — Iris sorriu, e o sorriso doeu nos cantos da boca, nos músculos da mandíbula, em algum lugar perto do coração. — Mas hoje eu preciso que tu finja que acredita. Pode fazer isso por mim?
Callan a olhou por um longo momento. Os olhos verdes escureceram — não com raiva, mas com algo mais pesado. Preocupação, talvez. Ou a certeza de que havia coisas que Iris não contava, e que cada uma delas era uma pedra a mais no muro que ela construía entre si mesma e o resto do mundo. Depois se sentou ao lado dela no chão, puxou-a para perto com o braço ao redor dos ombros e encostou o nariz no topo da cabeça dela, como lobos fazem — verificando, protegendo, guardando. O cheiro dele era chuva e cedro e algo selvagem que não tinha nome em nenhum idioma humano.
— Aye — disse, baixo. — Hoje eu finjo.
Iris fechou os olhos e ouviu o coração dele bater — constante, forte, vivo. Um metrônomo que não falhava. E tentou não pensar que o selo na porta já tinha mais uma rachadura. Tentou não contar os fios brancos que iam aparecer amanhã. Tentou não calcular quanto tempo restava até o poço secar de vez.
Tentou. E quase conseguiu.
