CAPÍTULO 2Gratuito
Três Horas
São 19h47 quando o telefone vibra.
Simone está na mesa do escritório com o memorando aberto — direitos de reprodução de obra plástica para um cliente da galeria Salomé, caso relativamente simples que ela estava tornando complicado por querer que fosse preciso. O memorando tinha três versões. Ela estava na terceira, que estava melhor que a segunda, que estava melhor que a primeira, mas ainda faltava um parágrafo sobre a distinção entre direito de exibição e direito de reprodução que ela sabia como escrever mas ainda não tinha escrito da forma que queria.
O telefone vibra na mesa, a poucos centímetros do mouse.
Ela não olha imediatamente. Termina a frase que estava escrevendo. Relê a frase. A frase está correta. Então ela olha para o telefone.
*Cheguei em Montreal.*
Três palavras. Sem contexto, sem explicação, sem "oi" antes. Tomás Uchida.
Ela fica olhando para as três palavras. Não é que elas sejam ambíguas — não são. São três palavras que dizem exatamente o que dizem: ele está em Montreal. Chegou. Essa cidade. Ela lê de novo, como se uma segunda leitura fosse alterar o conteúdo. Não altera.
Jean-Paul aparece na porta da sala. Ele tem o casaco já vestido, a mochila no ombro, o sorriso ligeiramente irônico que usa quando quer perguntar algo sem parecer que está perguntando. Ele é seis anos mais velho que ela, sabe mais sobre direito internacional do que qualquer pessoa que ela conhece, e tem a tendência inconveniente de notar coisas.
"Você foi embora?" ele diz, o que é a forma que ele usa para dizer *você ainda está aqui às 20h, isso é tarde até para você.*
"Fui. Estou de volta." É a resposta que ela dá quando está presa num raciocínio e não quer interrompê-lo. Ele normalmente aceita.
Hoje ele fica por um segundo a mais na porta. Ela não levanta a cabeça do telefone. Ele vai embora. O corredor fica em silêncio, depois a porta do escritório fecha com o clique do sistema automático, e ela está sozinha com o memorando e as três palavras na tela do telefone.
Tomás Uchida em Montreal. Fotógrafo. Fotojornalista, na verdade — essa distinção importava para ele, ela sabia, porque fotojornalismo era sobre o que acontecia no mundo e fotografia artística era sobre o que acontecia dentro de você, e ele preferia o primeiro porque o segundo era mais difícil de controlar. Ele nunca tinha dito isso nesses termos. Era uma conclusão que ela tinha chegado sozinha a partir de como ele falava sobre o trabalho.
Em Toronto eles tinham ficado três horas num café no Annex falando sobre uma exposição de Sebastião Salgado. Não tinham planejado ficar três horas. Tinham planejado um café rápido — se é que tinham planejado, porque o encontro no café tinha sido tecnicamente acidental, ambos chegando ao mesmo lugar no mesmo momento, ela com câmera no pescoço, ele com a bolsa da câmera, os dois reconhecendo alguma coisa antes de reconhecer o rosto.
Em Haia tinha sido diferente — o TIJ, um corredor, uma conversa de quinze minutos sobre a acústica do tribunal. Ela não tinha ficado sem palavras em Haia. Tinha ficado com palavras insuficientes, que era diferente.
Em Toronto tinha ficado sem palavras uma vez, perto do final das três horas, quando ele estava descrevendo um trabalho que tinha feito no Timor-Leste e de repente havia parado no meio da frase e ficado olhando para ela de um jeito que ela ainda não tinha categorizado com precisão. Não era o olhar de fotógrafo — isso ela conhecia, tinha esse olhar, é o olhar que você usa quando está enquadrando algo sem a câmera. Era outra coisa. Ela tinha olhado de volta. Nenhum dos dois tinha terminado a frase.
Depois ele tinha pago o café — insistido em pagar — e eles tinham saído para a rua onde estava frio e luminoso, e ela tinha tirado a câmera e fotografado o mercado na esquina sem pensar, e então tinha virado e fotografado ele sem que ele visse.
A foto estava na janela do estúdio no Mile End.
Ela estava pagando aluguel do estúdio há três meses sem entrar. R$890 — não, $890 canadenses, ela tinha feito essa conversão errada mentalmente porque estava pensando em São Paulo por algum motivo, porque em São Paulo ela tinha visto Tomás de novo, brevemente, cruzando um café em Pinheiros, e ele tinha dito que ela estava diferente e ela tinha concordado sem explicar o que tinha mudado.
O que tinha mudado: ela tinha passado dois anos tentando conciliar a câmera com o escritório e finalmente tinha aceito que não conseguia fazer os dois ao mesmo tempo, que cada um pedia um tipo de atenção que excluía o outro, e que por enquanto o escritório precisava da atenção que ela tinha. A câmera ficava no estúdio. O estúdio ficava no Mile End. Ela ficava no Plateau.
Ela sabia que o caso de IA estava circulando nos círculos de PI. Representava Maëlle Dupont — uma das seis artistas da ação coletiva, pintora, ateliê no Mile End, trabalho que tinha sido coletado por pelo menos três modelos de imagem diferentes. Simone tinha construído uma parte significativa da argumentação jurídica do caso e estava em conversas com os outros cinco advogados sobre estratégia comum.
Se Tomás estava em Montreal para uma pauta, e ele era fotojornalista, e o caso estava nos jornais — essas três coisas formavam uma equação com uma resposta provável.
Ela fecha o memorando. Salva. Apaga a tela do computador.
As três palavras continuam na tela do telefone. *Cheguei em Montreal.* Ela pensa nas respostas possíveis. Há várias, começando pelas que custam menos e terminando pelas que custam mais. Ela sempre começa pelas que custam menos.
A resposta mais segura disponível: uma pergunta. Perguntas não afirmam nada. Perguntas pedem informação. Informação é neutra.
*Quando você chegou?*
Ela escreve a resposta mas não envia imediatamente. Fica olhando para ela. É a pergunta mais segura e também a mais honesta — ela genuinamente quer saber quando ele chegou, não porque isso muda algo, mas porque é uma coordenada. Quando ele chegou determina quanto tempo ele vai ficar, que pauta está cobrindo, por que escolheu avisar em vez de simplesmente aparecer de alguma forma profissional.
Três palavras que não diziam nada sobre o porquê. Mas as diziam porque existiam.
Ela deixa a resposta escrita e não enviada e vai até a janela do escritório. O Plateau lá fora — a Rue Bernard, as luzes dos restaurantes, a neve nas calçadas. Um homem passa com um cachorro grande, os dois andando com a mesma velocidade deliberada de quem sabe que o gelo está escorregadio. Ela observa até virarem a esquina.
Quando ela voltou de Toronto, dezoito meses atrás, ela tinha impresso a foto e levado para o estúdio e colocado na janela com a luz de tarde. Não tinha explicação clara para o gesto. Era o tipo de coisa que ela fazia quando queria processar algo sem usar palavras — colocar a imagem onde podia ser olhada repetidamente, deixar o olhar trabalhar o que o pensamento ainda não sabia nomear.
Depois tinha começado a não ir ao estúdio.
Não tinha sido uma decisão ativa. A demanda do escritório tinha crescido — o caso de Maëlle, depois outros dois casos de PI, depois a parceria com Jean-Paul que tinha triplicado a carga de trabalho. O estúdio ficava a vinte minutos a pé. Ela tinha começado a dizer "vou amanhã" e o amanhã tinha se multiplicado até ser três meses.
A foto estava lá. Ela sabia disso sem ter verificado.
Ela volta para a mesa. O telefone com a mensagem escrita e não enviada. Ela lê de novo: *Quando você chegou?*
Pensa em adicionar algo. Não adiciona nada.
Havia algo que ela tinha aprendido na câmera e que tinha transferido para a advocacia sem perceber: o momento de pressão era o momento de menos movimento. Quando você via algo que queria fotografar, o instinto era levantar a câmera rápido. Mas os melhores fotógrafos esperavam. Deixavam o momento se completar. Às vezes o que você estava fotografando ainda não tinha chegado.
Ela não sabia o que Tomás estar em Montreal significava além das três palavras que ele tinha enviado. Não sabia se era pauta, circunstância, escolha, os três ao mesmo tempo. Não ia saber sem mais informação.
A pergunta era a resposta certa.
Ela envia.
O telefone marca 22h53 quando ela envia. Três horas depois da mensagem original. Ela nota o horário — não conscientemente, mas o número fica registrado em alguma parte. Três horas era quanto tempo tinham ficado no café em Toronto. Era uma coincidência sem significado. Ela não a anota nem a descarta.
Fecha o computador. Pega o casaco do gancho perto da porta. O corredor do escritório está vazio a essa hora, as outras salas escuras. Ela passa pela sala de Jean-Paul — sua mesa tem sempre uma pilha de papéis que nunca diminui, uma xícara que ele sempre esquece de levar para a cozinha. Ela não entra. Passa em frente.
Na rua, o frio entra imediato — diferente do frio de dentro do prédio, que era o frio domesticado do ar condicionado de inverno, e o frio lá fora que era o frio real, o que você tinha que respirar. Ela anda os seis quarteirões até casa com o ritmo que usa quando está processando algo — passos regulares, atenção dividida entre a calçada (gelo nas junções da calçada, mais seguro andar no meio) e o pensamento que ainda não tinha forma definida.
Em casa, ela coloca a bolsa no gancho, o casaco no armário, acende a luminária baixa da sala — não a luz do teto, a de canto, que faz o apartamento parecer menos clínico às 23h. Faz chá. Senta na mesa da cozinha com o chá e o telefone.
Nenhuma resposta de Tomás ainda. Era tarde. Ele talvez tivesse dormido — ele tinha chegado de avião, estava em fuso diferente, a noite em Montreal era às 23h ainda branca de neve lá fora.
Ela toma o chá devagar.
Havia uma pergunta por baixo da pergunta que ela tinha enviado, e ela sabia qual era mas não ia nomear ainda. As coisas que não eram nomeadas podiam continuar sendo o que eram antes de você decidir o que eram. Era uma estratégia de manutenção que funcionava até parar de funcionar.
Por enquanto funcionava.
Ela foi dormir com o telefone no carregador, tela para baixo, e a neve caindo lá fora sobre o Plateau como se Montreal estivesse cobrindo algo com cuidado.
