CAPÍTULO 3Gratuito
10h
Às 7h da manhã a Rue Saint-Laurent tinha luz de inverno específica — não a brancura plana que viria depois quando o sol subisse, mas a luz azulada que precedia o branco, quando as sombras ainda tinham temperatura e os objetos projetavam comprimentos que não teriam mais em duas horas. Era a luz que Tomás buscava quando tinha escolha de horário. Raramente tinha escolha de horário.
Hoje tinha.
Ele estava na calçada com a câmera desde as 6h50, tendo acordado sem alarme como sempre acontecia nos primeiros dias num lugar novo — o corpo ainda calibrando, o sono raso, os olhos abrindo antes da luz porque alguma parte dele não queria perder a luz quando chegasse. Ele tinha bebido o café do hotel em pé na janela, tinha verificado a resposta de Simone que tinha chegado enquanto dormia (*Quando você chegou?* — três palavras também, ela era precisa mesmo nas perguntas mínimas), tinha colocado a câmera no pescoço e saído.
A Saint-Laurent era a espinha dorsal da cidade, a linha que dividia o leste francófono do oeste anglófono, e de manhã cedo ela era de entregadores, de comerciantes abrindo grades, de pessoas que tinham dormido mal ou que trabalhavam antes do resto da cidade acordar. Ele andou quatro quarteirões para o sul e quatro para o norte antes de levantar a câmera — se orientando primeiro, mapeando o lugar no corpo antes de fixá-lo na imagem.
Havia uma padaria cujo dono estava colocando o letreiro do dia na calçada — letras brancas em quadro negro, *croissant au beurre* e um preço, e embaixo, rabiscado como adendo: *bonne journée quand même.* Boa jornada de qualquer jeito. Era o tipo de detalhe que existia em qualquer lugar mas que em Montreal tinha sabor específico — o *quand même* que era concessão e encorajamento ao mesmo tempo.
Ele fotografou o letreiro. Fotografou o dono de costas entrando no estabelecimento. Fotografou a calçada com a sombra comprida do letreiro projetada na neve.
Às 9h30 ele estava de volta no hotel, câmera no estojo, documentos abertos, a lista de artistas a contatar. Respondeu a mensagem de Simone com o horário de chegada e a pergunta: *Tem tempo para um café mais tarde?* Tinha ficado olhando para a pergunta por um momento antes de enviar. Era profissional e pessoal ao mesmo tempo — a formulação certa para uma situação que ainda não estava definida como uma coisa ou outra.
Ela tinha respondido rápido, esta vez. *10h. Café Olimpico, Avenue du Parc. Você conhece?*
Ele não conhecia. Tinha pesquisado. Era um lugar no Plateau, não no Annex onde tinham ficado as três horas em Toronto — ele tinha notado isso. Ela tinha sugerido um lugar diferente do lugar que eles tinham dividido antes. Isso podia significar logística (estava mais próximo do escritório dela) ou podia significar outra coisa. Ele tinha guardado a observação sem tirar conclusões.
O Café Olimpico ficava numa esquina da Avenue du Parc, janelas grandes dando para a rua, interior com aquela densidade de bom café europeu — mesas pequenas, muito próximas, barulho de conversas sobrepostas em francês e inglês e às vezes português, que ele ouvia quando passava por certas áreas da cidade e que ainda o deslocava um segundo toda vez, porque português no Canadá soava ligeiramente estrangeiro mesmo para ele. Ele chegou às 9h55. Pediu um café simples, ficou de pé perto da janela por um momento olhando para a rua antes de sentar.
A Avenue du Parc tinha o Parc Jeanne-Mance do outro lado — o parque branco de neve, as árvores sem folhas com a arquitetura de galhos que o inverno revelava. Era o tipo de cena que seria banal fotografada e era exata ao vivo. Ele ficou olhando.
Às 10h em ponto ela entrou.
Ele a conhecia de coat mostarda e câmera no pescoço, de passos rápidos no Annex e do jeito que ela olhava para as exposições — de lado primeiro, sem se aproximar, avaliando a distância certa antes de chegar perto. Em São Paulo ela estava diferente — ele tinha dito isso, ela tinha concordado, mas nenhum dos dois tinha especificado em quê.
Agora ele via em quê.
Blazer escuro, cachecol cinza, bolsa de couro que era claramente a bolsa de uma advogada — não grande demais, não pequena, funcional com discrição. Cabelo preso. Passos iguais aos de São Paulo, rápidos e certos, mas a energia diferente — não urgência, mas propósito. A diferença entre ir em direção a algo porque você quer e ir porque você decidiu que quer.
Ela o viu quando ainda estava tirando o cachecol. Não sorriu imediatamente — e isso era familiar nela, o registro sempre um segundo atrás da percepção, como se ela processasse o que via antes de reagir. Depois sorriu. Pequeno, preciso.
Ele ficou de pé.
Havia um segundo, quando você estava de pé em frente a uma pessoa que você não via há meses e cujos contornos tinham começado a ganhar imprecisão na memória — havia um segundo de recalibração, quando o que você estava vendo sobrescrevia o que você tinha lembrado, e o que você tinha lembrado ficava um pouco mais nítido e um pouco mais claro, porque agora você tinhas os dois.
"Você cresceu," ele disse.
Saiu antes de ter sido aprovado. Era o tipo de frase que ele dizia apenas quando não tinha revisado o que ia dizer — o que não acontecia frequentemente com pessoas que importavam. Com estranhos ele era observacional, econômico, certo. Com pessoas que importavam ele ficava menos certo.
Ela ficou um segundo com a frase. Não pareceu ofendida. Não pareceu lisonjeada. Pareceu que estava catalogando a informação.
"Tem sido um tempo," ela disse.
Eles sentaram. O garçom trouxe o menu para ela, ela pediu sem olhar — *un allongé, s'il vous plaît,* o francês natural, primeiro idioma — e então ficaram os dois sentados com a luz de inverno entrando pelas janelas grandes e a Ave du Parc lá fora.
"Você está em Montreal para o caso de IA," ela disse. Não era pergunta.
"Sim."
"Vi seu nome algumas vezes em buscas sobre cobertura jornalística do caso. Os artistas estão preocupados com exposição não mediada."
"É uma preocupação legítima."
"É." Ela olhou para o café que o garçom tinha trazido. "Você sabia que eu estava envolvida antes de vir."
Também não era pergunta.
"Li seu nome no Le Devoir," ele disse. Era verdade. Era verdade incompleta, mas era a parte que ele tinha verificado como fato.
Ela assentiu levemente. Estava processando. Ele conhecia esse ritmo nela — não hesitação, mas o intervalo entre receber e responder, que ela nunca encurtava por pressão social. Era uma qualidade que ele tinha notado em Toronto e que era rara o suficiente para ser notável.
"Há um conflito potencial," ela disse. "Você cobre o caso, eu represento os artistas. As declarações que eles fazem para você podem ter implicação jurídica."
"Posso trabalhar com restrições."
"Posso te ajudar a entender o que é sensível juridicamente e o que não é. Mas não posso ser sua fonte sobre o caso em si."
"Entendo."
"Isso é um limite de trabalho, não de outra coisa."
Ele registrou a precisão da frase. *Não de outra coisa.* Ela estava nomeando o que não estava sendo nomeado, mas sem nomear — mantendo aberta a categoria sem preenchê-la. Era uma habilidade, provavelmente desenvolvida em anos de negociação jurídica, mas ele suspeitava que ela tinha sido assim antes do escritório.
"Posso te apresentar a Maëlle Dupont," ela disse. "Ela é a voz pública do caso, já deu entrevistas, tem mais controle sobre o que quer dizer. As condições seriam dela."
"Quando?"
"Amanhã à tarde, se ela concordar. Vou perguntar hoje."
Ele assentiu. Era bom. Era mais do que ele tinha esperado do café.
Fora a pauta, havia o resto — a luz pelas janelas, o barulho do café, ela do outro lado da mesa com o allongé entre as duas mãos. Ela tinha mãos que ele conhecia de memória do Toronto — não porque as tivesse fotografado (não tinha), mas porque tinha olhado para elas durante três horas enquanto ela gesticulava ao falar e tinha guardado sem querer o detalhe.
"O que trouxe você especificamente para o caso," ela disse, "além da pauta."
Era a segunda pergunta que não era pergunta. Ela estava fazendo isso deliberadamente ou era o jeito que ela construía frases quando queria dar à outra pessoa a opção de não responder.
"O aspecto humano," ele disse. "O que se perde quando uma imagem é separada do gesto que a criou."
Ela ficou olhando para ele por um momento. Depois olhou pela janela.
"É uma boa forma de colocar," ela disse.
Eles ficaram em silêncio por um momento. Não desconfortável — o tipo de silêncio que acontecia quando uma coisa tinha sido dita suficientemente bem que não precisava de adição imediata. Lá fora, um homem atravessava o parque com passos cuidadosos na neve compactada, deixando rastro de dois pontos regulares que se afastavam em direção às árvores.
Ela terminou o café antes dele. Estava verificando o horário — discretamente, mas ele notou.
"Você precisa ir," ele disse.
"Reunião às 11h." Ela pegou o casaco, o cachecol. "Eu mando mensagem sobre Maëlle."
"Obrigado."
Ela ficou de pé, vestindo o casaco, e havia um momento — o tipo de momento que ele fotografaria se fosse outra pessoa: a luz pelas janelas, o casaco escuro, o cachecol cinza que ela estava enrolando no pescoço com movimentos práticos. A cena comum de alguém se preparando para sair que por algum enquadramento específico ficava precisa. Ele não levantou a câmera.
"Foi bom te ver," ela disse. Direta, sem ornamento.
"Foi," ele disse.
Ela foi. Ele ficou olhando pela janela enquanto ela saía à calçada, virava à esquerda, desaparecia na direção do Plateau. Depois ficou olhando para a xícara que ela tinha deixado — um giro de allongé no fundo, a marca da xícara na mesinha. O tipo de coisa que Simone fotografava. Que Simone tinha fotografado. Que ela já não fotografava mais, pelo que ele entendia — e ele não tinha perguntado o porquê ainda porque havia coisas que você não perguntava até haver mais contexto.
Ele deixou dinheiro na mesa, pegou a câmera, saiu.
A Avenue du Parc tinha luz de meio da manhã agora — não a azulada da madrugada, mais direta, menos sombra. Ele andou um quarteirão antes de levantar a câmera. Fotografou o parque, as árvores, o rastro de pegadas na neve se afastando em direção ao centro do parque como uma linha que conduzia o olho até um ponto que não estava na fotografia.
