CAPÍTULO 3Gratuito
O Inquilino
Capítulo 3 — O Inquilino
O barulho veio do andar de baixo como se alguém estivesse arrastando um corpo. Ou dois. Talvez três.
Camila largou a mala sobre a cama e ficou imóvel, a mão ainda segurando a alça. O chiado do ventilador de teto era o único som familiar naquela casa que ela mal conhecia. Depois veio outra pancada, seguida de uma risada aguda — de criança — e algo que soou como um saco de batatas sendo despejado no chão.
— Mãe? — Liz apareceu na porta do quarto com os olhos arregalados. — Tem gente lá embaixo.
— Eu ouvi.
— Será que é um ladrão?
— Ladrões não costumam rir, Liz.
— E se for um palhaço assassino?
Camila respirou fundo. Tinha acabado de sair de um voo de duas horas, uma conexão absurda em Porto Seguro, quarenta minutos de barco e mais vinte de caminhada com duas crianças, três malas e um orgulho que não cabia em nenhuma delas. Não tinha energia para palhaços assassinos.
— Fiquem aqui — disse, apontando para Bento, que já estava sentado no canto do quarto lendo um livro como se barulhos inexplicáveis em casas desconhecidas fossem parte da rotina. Com ele, talvez fossem.
Camila desceu a escada de madeira tentando fazer o mínimo de ruído possível, o que era difícil porque cada degrau rangia como se estivesse confessando um pecado. Na metade do caminho, ouviu uma voz masculina, grave e despreocupada:
— Theo, tira a areia do cabelo antes de entrar. Theo. Theo, estou falando sério. Theo!
Camila chegou ao pé da escada e virou para a sala.
Um homem estava parado no meio do cômodo. Alto, ombros largos, pele tostada de sol, barba de dois dias que parecia ter sido calculada para parecer acidental. Bermudão de linho desbotado, camiseta que já tinha visto dias melhores, pés descalços no piso de cerâmica. No colo, um menino de uns quatro anos com cachos castanhos e olhos enormes que pareciam ter sido desenhados por um ilustrador de livros infantis. Pela porta dos fundos, um garoto coberto de areia da cabeça aos pés entrava deixando um rastro no chão como se fosse um filhote de labrador depois da praia.
Camila e o homem se encararam.
— Quem é você? — disseram ao mesmo tempo.
Houve um segundo de silêncio, daqueles que precedem desastres naturais.
— Eu aluguei esta casa — disse Camila, endireitando a coluna. Sua blusa de linho bege ainda estava impecável, apesar das seis horas de viagem. Era uma questão de princípio.
— Eu também aluguei esta casa — disse o homem, ajeitando o menino no colo com a naturalidade de quem faz aquilo quinhentas vezes por dia.
— Isso não é possível.
— E, no entanto.
Camila apertou os olhos.
— Eu tenho um comprovante de reserva.
— Que coincidência. Eu também.
Os dois sacaram os celulares ao mesmo tempo, como pistoleiros num duelo de faroeste, e enfiaram as telas um na cara do outro.
Camila leu o comprovante dele. Casa Amarela, Caraíva, Bahia. Check-in: 15 de janeiro. Checkout: 15 de fevereiro. Confirmado e pago.
Era idêntico ao dela.
— Isso é um erro — disse Camila, guardando o celular no bolso com a precisão de quem arquiva um documento. — Claramente, o proprietário cometeu uma reserva dupla. Vou ligar agora mesmo e resolver.
— Boa sorte — disse o homem. — O Seu Agenor não atende telefone depois das quatro. Ele acha que celular dá câncer.
— São cinco e meia.
— Então você tem uma noite inteira para repensar sua estratégia.
Camila sentiu algo pulsar na têmpora. O menino no colo do homem a encarava com um sorriso tão aberto que era quase terapêutico. Tinha uma estrelinha de areia grudada na bochecha.
— Oi — disse o menino, acenando com a mão gordinha.
Camila vacilou. Era impossível não vacilar diante daquilo.
— Oi — respondeu, e imediatamente se arrependeu porque aquilo humanizava a situação e ela não queria humanizar nada. Queria resolver.
***
O homem se chamava Rafael. Rafa, como ele fez questão de corrigir, como se a formalidade do nome completo fosse uma ofensa pessoal. Tinha mais dois filhos além do bebê de colo — que não era bebê, tinha quatro anos, se chamava Gael e aparentemente já tinha decidido que Camila era a pessoa mais interessante do universo, porque não tirava os olhos dela.
Theo, o de oito anos, continuava espalhando areia pela casa como se fosse uma instalação artística. E havia Nina, que apareceu pela porta dos fundos com a cara de quem tinha acabado de ser condenada à forca.
— Pai, eu não vou dividir quarto com o Theo. Ele ronca.
— Nina, a gente acabou de chegar.
— E eu já estou reclamando pra ficar registrado.
Nina tinha doze anos e a energia de uma promotora de justiça. Olhou para Camila de cima a baixo com uma avaliação tão minuciosa que faria um diretor de casting chorar de inveja.
— Quem é essa?
— Boa pergunta — disse Rafa. — Estamos no meio de uma negociação diplomática.
— Não estamos negociando nada — cortou Camila. — Eu cheguei primeiro, eu tenho reserva, eu fico.
— Tecnicamente — disse Rafa, apoiando Gael no sofá com um movimento fluido —, eu tenho a mesma reserva e três filhos que precisam de teto.
— Eu tenho dois filhos que também precisam de teto.
— Então somos cinco crianças sem teto em Caraíva. Muito bom.
Camila abriu a boca para retrucar quando ouviu passos na escada. Bento desceu primeiro, em silêncio, como sempre. Atrás dele, Liz, que parou no último degrau e avaliou a cena com a dramaticidade de quem entra no segundo ato de uma novela.
— Mãe, você disse que era para ficar lá em cima!
— E era.
— Mas o Bento disse que era seguro.
Bento deu de ombros, como quem pede desculpas sem realmente pedir.
As cinco crianças se encararam. Gael, do sofá, sorriu para Liz, que sorriu de volta imediatamente — solidariedade entre os caçulas. Theo olhou para Liz como quem avalia uma adversária em potencial. Nina olhou para todo mundo com o desprezo universal da pré-adolescência. Bento observou tudo em silêncio, catalogando informações como fazia com tudo na vida, sem pressa de chegar a nenhuma conclusão.
— Cinco crianças — disse Rafa, cruzando os braços. O gesto fez os músculos do antebraço se contraírem de um jeito que Camila registrou e imediatamente descartou como irrelevante. — Casa de três quartos. Sei que parece um problema, mas problemas têm solução.
— A solução é simples — disse Camila. — Você procura outra hospedagem.
— Em Caraíva. Em janeiro. Na alta temporada.
O silêncio que se seguiu foi eloquente.
— Tem a pousada da Dona Neuza — disse Rafa, pensativo. — Mas ela transforma o café da manhã num interrogatório. Última vez que fiquei lá, ela descobriu meu tipo sanguíneo antes do segundo pão de queijo.
— Isso não é problema meu.
— Não, é problema dos meus filhos. Que vão dormir onde, exatamente?
Camila abriu a boca. Fechou. Aquilo era golpe baixo e os dois sabiam. Rafa não tinha jogado a carta dos filhos com maldade — havia uma honestidade irritante no jeito como ele falava, como se simplesmente não soubesse manipular. O que, para alguém como Camila, que passara os últimos dez anos cercada de gente que sabia manipular muito bem, era desorientador.
***
Vinte minutos depois, estavam na varanda. As crianças tinham migrado naturalmente para o quintal — Theo já escalava uma árvore, Gael sentara na areia com a concentração zen de um monge budista, Nina digitava furiosamente no celular encostada no muro e Liz narrava em voz alta uma história envolvendo uma princesa e um dragão para ninguém em particular. Bento encontrara uma rede e estava lendo.
Rafa apoiou os cotovelos na mureta da varanda. Camila permanecia de pé, braços cruzados, costas retas.
— Olha — disse ele —, eu entendo que não é o ideal. Mas são nove da noite, a gente tem cinco crianças cansadas, e nenhum de nós vai encontrar outro lugar agora. Minha proposta: a gente divide a casa por esta noite, amanhã de manhã eu ligo pro Seu Agenor e a gente resolve.
— Dividir a casa.
— Você fica com o andar de cima. Eu fico com o de baixo. Tem um banheiro em cada andar, cozinha é área comum. Cessar-fogo até o amanhecer.
Camila olhou para ele. Rafa sustentou o olhar com aquela tranquilidade que ela não conseguia decifrar — se era segurança, preguiça ou simplesmente falta de noção. Ele tinha olhos castanhos, do tipo que fica dourado quando a luz pega de um certo jeito, e ela odiava ter reparado nisso.
— Cessar-fogo implica que estamos em guerra — disse ela.
— Estamos?
— Eu não sei. Você invadiu minha casa.
— Nossa casa. Temporariamente.
— Não existe "nossa" nada. Eu não te conheço.
Rafa inclinou a cabeça e esticou a mão.
— Rafael Mendes. Trinta e seis anos. Pai de três. Cozinheiro. Capricorniano, se isso importar. Não ronco, não fumo, e a única coisa perigosa que faço é colocar pimenta demais na moqueca.
Camila olhou para a mão estendida como se fosse uma armadilha. Que talvez fosse.
— Camila Duarte — disse, sem apertar. — E eu vou falar com o Seu Agenor amanhã às sete em ponto.
— Ele acorda às nove.
— Às sete em ponto — repetiu, e entrou na casa.
Rafa ficou na varanda, olhando o ponto onde ela tinha estado. Balançou a cabeça, guardou as mãos nos bolsos do bermudão, e sorriu — um sorriso pequeno, involuntário, do tipo que aparece quando a gente encontra uma pessoa que claramente vai complicar a vida e, por alguma razão inexplicável, isso não parece inteiramente ruim.
Do quintal, Gael gritou:
— Pai, a moça bonita vai ficar?
Rafa olhou para o filho. Olhou para a porta por onde Camila tinha desaparecido. Suspirou.
— Parece que sim, parceiro.
Lá dentro, subindo a escada com passos firmes, Camila ouviu a pergunta e sentiu as bochechas esquentarem. Culpa do calor da Bahia, obviamente. Só do calor.
No quarto, Liz a esperava sentada na cama com as pernas cruzadas e a expressão de quem acabou de descobrir uma fofoca de proporções épicas.
— Mãe.
— O quê?
— O pai do menininho é bonito.
— Liz.
— Que foi? Eu tenho olhos.
— Vai escovar os dentes.
— Mas eu ainda não jantei!
— Então vai jantar e depois escovar os dentes.
— Mas...
— Elizabeth.
Liz saiu do quarto resmungando sobre a injustiça de ter uma mãe que não reconhecia a beleza masculina quando ela aparecia descalça na sala com uma criança no colo.
Camila sentou na beira da cama, tirou os sapatos e olhou para o teto. O ventilador girava devagar, fazendo um barulho ritmado que lembrava uma respiração. Lá embaixo, ouvia os passos dele arrumando as coisas, a voz grave explicando alguma coisa para Theo, a risada de Gael. Sons de uma família se instalando. De alguém que pertencia a algum lugar.
Ela pegou o celular e tentou ligar para o Seu Agenor. Caixa postal. Tentou de novo. Caixa postal. Na terceira tentativa, uma mensagem automática informava que o número estava temporariamente indisponível.
Camila largou o celular na cama e esfregou os olhos.
Trinta dias em Caraíva. Era para ser um recomeço silencioso, organizado, planejado com a mesma precisão com que ela organizava desfiles. As crianças, a praia, talvez um livro ou dois. Nenhum homem. Nenhuma complicação. Nenhuma variável imprevista.
E agora tinha um ex-chef descalço com três filhos instalado no andar de baixo da sua casa.
Do quintal, Gael gritou de novo:
— Pai, ela é uma princesa?
E Liz, da janela do andar de cima, gritou de volta:
— Ela é uma RAINHA!
Camila fechou os olhos, encostou a cabeça na parede e, apesar de tudo — apesar de toda a irritação, do cansaço, do plano perfeito que acabara de explodir —, sentiu o canto da boca subir.
Só um milímetro.
Mas subiu.
