CAPÍTULO 2Gratuito
A Casa
Capítulo 2 — A Casa
A casa amarela apareceu no fim da rua de areia como uma miragem tropical. Camila parou, a mala de rodinhas enterrada até o eixo na areia fofa, e piscou três vezes. Na foto do anúncio, a fachada parecia saída de uma revista de decoração rústica-chique. Na vida real, parecia que alguém tinha derramado um balde de tinta açafrão numa construção colonial e rezado para dar certo.
Tinha dado.
A varanda se estendia por toda a frente, com colunas de madeira descascada pintadas de azul-turquesa. Uma rede de algodão cru pendia entre dois ganchos, balançando na brisa que vinha do rio. O jardim — se é que se podia chamar assim aquele caos botânico — transbordava de helicônias vermelhas, bananeiras-ornamentais e um maracujazeiro que escalava a lateral da casa com a determinação de um alpinista profissional.
— Mãe, é aqui? — Liz estava plantada atrás dela, os braços cruzados, a sandália de plataforma infantil (presente da avó, uso não autorizado por Camila, mas ela não tinha energia para essa batalha agora) afundando na areia. — Parece casa de bruxa. Bruxa boa, tipo, bruxa que faz bolo. Mas bruxa.
— É aqui, sim — Camila respondeu, tentando injetar entusiasmo na voz. — Olha que charme. A varanda, a rede, as flores...
— Tem bicho aqui — Bento disse, apontando para algo no chão da varanda.
— É uma formiga — Camila disse sem olhar. — Formiga existe em todo lugar.
— Não é uma formiga. São muitas formigas. Tipo, um exército.
Camila olhou. De fato, uma coluna organizada de saúvas marchava pela varanda carregando pedaços de folha como bandeirinhas de festa junina. Elas contornavam o vaso de samambaia e desapareciam por uma fresta na parede.
— Elas moram aqui — Bento observou, com genuína admiração. — Antes da gente.
— Vamos entrar — Camila disse, erguendo o queixo. Ela era diretora criativa. Já tinha montado desfile em galpão abandonado com goteira. Já tinha coordenado sessão de fotos num contêiner no porto de Santos. Um exército de formigas não ia derrotá-la.
A porta da frente não estava trancada. A chave pendurada num prego ao lado era mais decorativa do que funcional — a fechadura parecia ter sido instalada na época do Império e aposentada durante a República. Camila empurrou a porta e entrou.
O cheiro a atingiu primeiro: madeira antiga, maresia e um toque adocicado de alguma fruta que ela não conseguiu identificar. A sala era ampla, com piso de cerâmica em tons de terracota, paredes caiadas de branco e móveis que pareciam ter sido coletados ao longo de décadas sem qualquer critério estético. Um sofá de vime com almofadas floridas em rosa-choque encostava-se a uma parede onde pendia uma pintura naïf de pescadores em tons de azul-cobalto. Uma mesa de jantar de madeira rústica, claramente feita à mão, era ladeada por cadeiras que não combinavam entre si — duas de palha, uma de plástico verde, uma de ferro com assento de couro rachado.
O olho treinado de Camila fez o inventário em segundos: as cores eram lindas separadamente, mas juntas formavam uma cacofonia visual que faria qualquer designer de interiores precisar de um ansiolítico. Era como se alguém tivesse jogado o Pantone inteiro na sala e torcido para que o caos se organizasse sozinho.
— Legal — disse Bento, largando a mochila no sofá. — Parece casa de aventura.
— Parece casa de novela — disse Liz, girando no meio da sala com os braços abertos. — Novela das seis, mãe. Das seis, não das nove.
Camila não sabia se era elogio ou insulto, mas decidiu não investigar.
***
A cozinha era uma extensão do mesmo princípio de decoração aleatória. Armários de compensado pintados de verde-menta, uma geladeira que roncava como um gato velho, fogão de quatro bocas com marcas de uso que contavam histórias. Camila abriu a geladeira: uma garrafa de água, um limão solitário e um bilhete colado com fita adesiva.
"Bem-vinda! Deixei água e limão. Qualquer coisa, grita pela janela que a vizinha Neuza escuta. Beijos, Dona Marlene."
— Grita pela janela — Camila repetiu, em voz baixa. — Grita pela janela.
Subiu a escada de madeira que rangia a cada degrau como se protestasse contra a presença humana. O andar de cima tinha dois quartos e um banheiro. O quarto maior dava para a frente, com uma cama de casal coberta por uma colcha de crochê multicolorida e uma janela que emoldurava a rua de areia, as árvores, o céu absurdamente azul. Não tinha vidro. Só uma tela de mosquiteiro esticada na moldura, que deixava passar a brisa, os sons, os cheiros e possivelmente qualquer inseto com determinação suficiente.
— Sem vidro — Camila constatou.
— Sem ar-condicionado — constatou de novo, girando a cabeça em busca do aparelho salvador que não existia.
— Sem... — Ela abriu a porta do banheiro. O chuveiro era um cano de PVC com uma ducha simples. Abriu a torneira. Um fio d'água desceu como se pedisse desculpas por existir. — Sem pressão.
Sentou na cama e respirou fundo. A colcha de crochê era bonita, tinha que admitir. Cada quadradinho de cor diferente, feito à mão por alguém com paciência infinita. Camila não tinha paciência para crochê. Mal tinha paciência para esperar o elevador do prédio em Pinheiros.
— Mãe! — O grito de Liz subiu pela escada com a força de uma sirene antiaérea. — MÃE! TEM UM BICHO NO BANHEIRO!
Camila desceu correndo. Encontrou Liz colada na parede oposta ao banheiro do andar de baixo, os olhos arregalados, o dedo indicador apontando para dentro como se denunciasse um criminoso.
— Ali. Na parede. Perto do espelho. É verde. Tá me olhando.
Camila se aproximou da porta do banheiro com a cautela de quem desarma uma bomba. Espiou para dentro. Na parede de azulejo branco, a uns trinta centímetros do espelho, uma lagartixa verde-limão a encarava com seus olhos redondos e brilhantes, completamente imóvel.
— É uma lagartixa — Camila disse.
— EU SEI QUE É UMA LAGARTIXA — Liz respondeu, com a indignação de quem foi subestimada. — O problema não é o que ela é, mãe. O problema é que ela tá ali. No banheiro. Onde eu preciso ir. Porque eu preciso fazer xixi desde a canoa.
Bento apareceu na porta da sala, atraído pelo grito.
— Que lagartixa bonita — disse, se aproximando. — Parece as do canal de biologia. Sabia que elas comem mosquito? São tipo ninjas da natureza.
— Eu não me importo com a dieta dela — Liz declarou. — Eu quero ela fora dali.
— Se a gente tirar ela, vão ter mais mosquitos — Bento argumentou, com a lógica inabalável de quem assiste documentário demais.
— ENTÃO COLOCA ELA NO QUARTO DELA, NÃO NO MEU BANHEIRO!
Camila esfregou as têmporas. Eram quatro da tarde de um sábado, ela tinha atravessado um rio numa canoa, estava num vilarejo sem asfalto, sem ar-condicionado, sem pressão no chuveiro, e seus filhos estavam debatendo política de imigração de lagartixas.
— Bento, tira a lagartixa. Liz, usa o banheiro de cima. Ninguém morre hoje.
Bento entrou no banheiro e tentou pegar a lagartixa com as duas mãos em concha. O bichinho disparou parede acima com uma velocidade impressionante e desapareceu atrás do espelho.
— Ela é rápida — ele disse, com respeito genuíno.
— Problema resolvido — Camila declarou. — Ela se escondeu.
— Ela não foi embora — Liz corrigiu, estreitando os olhos. — Ela tá esperando.
***
Camila decidiu que o melhor antídoto contra o pânico era a ação. Arrastou as duas malas para o quarto de cima e começou a desempacotar com a eficiência metódica de quem montava araras de backstage de Fashion Week.
Mala um: roupas. Peças de linho em tons neutros — areia, cru, terracota. Três vestidos midi, dois conjuntos de alfaiataria leve, blusas de seda que não tinham absolutamente nenhum motivo para estar em Caraíva. Camila pendurou cada peça nos ganchos atrás da porta (não havia guarda-roupa, apenas uma arara improvisada de bambu) e percebeu, com um aperto no estômago, que tinha trazido roupas para uma mulher que ela não era mais. Ou que nunca tinha sido, dependendo do ângulo.
Mala dois: sapatos e produtos de beleza. Três pares de sandálias de tira — elegantes, impraticáveis na areia. Um par de mules de couro que não sobreviveria a uma semana de umidade. E, no fundo, envolvidos em papel de seda como relíquias sagradas, seus produtos: sérum de vitamina C, retinol, ácido hialurônico, protetor solar fator setenta, óleo capilar, leave-in, máscara de argila, esfoliante enzimático. Uma farmácia inteira de autopreservação.
Liz apareceu na porta do quarto.
— Mãe, você trouxe a mala de maquiagem?
— Trouxe.
— Posso usar o gloss de cereja?
— Pode. Não perde.
Liz saiu saltitando. Bento estava sentado na rede da varanda, caderno no colo, desenhando. Camila espiou pela janela sem vidro. Ele desenhava a rua de areia, as casinhas coloridas, uma canoa. No canto da página, um personagem de mangá com olhos grandes olhava o cenário com expressão que misturava curiosidade e medo. Ela reconheceu a expressão. Era a mesma que Bento fazia quando o pai cancelava o fim de semana pela terceira vez seguida.
Voltou às malas. Organizou os produtos no banheiro de cima — ocupou toda a prateleira de madeira e parte da pia. Pendurou a toalha de banho que tinha trazido (egípcia, seiscentos fios, branca) ao lado da toalha da casa (algodão fino, estampa de tucano). Arrumou os sapatos em fila debaixo da cama. Dobrou as roupas de Bento e Liz e colocou nos cubos organizadores — que, por sua vez, foram encaixados na cômoda de três gavetas que cheirava a naftalina e nostalgia.
Quando deu um passo para trás e olhou o quarto, sentiu uma pontada de satisfação. Estava longe de perfeito. A colcha de crochê gritava com o linho cru das roupas, o bambu da arara brigava com a madeira escura da cômoda, e o chão de cerâmica fria pedia um tapete que ela não tinha trazido. Mas havia ordem. Ordem era o idioma que Camila falava quando o mundo ficava incompreensível.
Desceu para conferir o quarto das crianças. Bento e Liz dividiriam o segundo quarto, que tinha duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo com um abajur de palha. Liz já tinha reivindicado a cama perto da janela e espalhado três bonecas e um estojo de glitter sobre o travesseiro. Bento colocou apenas o carregador do tablet e o caderno de desenho no criado-mudo, com a parcimônia de um monge.
— Tá bom — Camila disse para si mesma, passando a mão pelo batente da porta. — A gente sobrevive.
***
O sol começava a descer e a luz que entrava pelas janelas sem vidro ficou dourada, espessa, quase comestível. Camila estava na cozinha tentando fazer uma lista de compras no celular quando percebeu que o sinal oscilava entre uma barra e nenhuma barra, como se a internet estivesse brincando de esconde-esconde.
— Mãe, a wi-fi não funciona — Bento apareceu na porta da cozinha, tablet na mão, com a expressão de quem recebeu uma notícia de falecimento.
— Eu sei. Vou resolver amanhã.
— Amanhã? — Ele repetiu, como se ela tivesse dito "no próximo milênio".
— Amanhã. Hoje a gente... — Ela olhou ao redor, buscando alternativas. — Conversa.
— Conversa? — Bento e Liz disseram em uníssono, com o mesmo tom de horror.
Camila ia responder quando ouviu um barulho. Vinha do andar de baixo. Ou melhor — da sala. Um rangido de porta, passos na cerâmica. O som inequívoco de alguém se movendo dentro da casa.
Os três se entreolharam. Bento arregalou os olhos. Liz abriu a boca para gritar, mas Camila cobriu-a com a mão, rápido, instinto de mãe.
— Fica aqui — sussurrou. — Os dois. Não saiam da cozinha.
Pegou a única coisa ao alcance que parecia remotamente ameaçadora — um rolo de macarrão de madeira pesada — e caminhou em direção à sala, o coração batendo na garganta. A porta da frente estava aberta. Alguém estava ali, de costas, examinando a sala como se a conhecesse de cor.
Camila ergueu o rolo de macarrão.
— Quem é você — disse, com a voz mais firme que conseguiu — e o que está fazendo na minha casa?
A pessoa se virou.
