CAPÍTULO 2Gratuito
Colisão de Órbitas
A manhã seguinte em São Paulo amanheceu com aquela cor indefinida de cinza-chumbo, uma garoa fina e persistente cobrindo a cidade como um véu de melancolia úmida, típica da terra da garoa que insistia em desafiar a chegada da primavera. O céu parecia pesar sobre os prédios, sufocando o horizonte.
No Fórum Trabalhista da Barra Funda, o ambiente era o oposto absoluto da elegância silenciosa e perfumada do restaurante Paladar. Era um ecossistema de ansiedade. O ar cheirava a café requentado em copos de plástico, produtos de limpeza industriais e suor frio. Era um caos organizado de vozes sobrepostas, passos apressados ecoando no piso de granito, e a tensão palpável de conflitos humanos sendo reduzidos a pilhas de papel, carimbos e burocracia digital lenta.
No meio desse turbilhão, Júlia Mendes caminhava com a determinação de quem carrega o peso do mundo, mas se recusa, por teimosia ou princípio, a dobrar os joelhos.
Júlia não tinha o luxo da herança ou o conforto do nepotismo que abria portas douradas. Cada centímetro de sua carreira como advogada trabalhista fora conquistado com noites em claro debruçada sobre livros de doutrina, bolsas de estudo disputadas a unhas e dentes contra candidatos mais ricos e bem preparados, e uma vontade inabalável, quase raivosa, de defender aqueles que, como seu pai, foram esmagados pelas engrenagens indiferentes do sistema.
Ela ajeitou os óculos de aro fino que escorregavam pelo nariz e conferiu os documentos na pasta de couro sintético, já um pouco desgastada nas bordas. Hoje era um dia importante; ela representava um grupo de cozinheiros e auxiliares de limpeza demitidos injustamente, sem direitos, por uma grande rede de hotéis internacionais. A ironia da situação não lhe escapava, ardia como uma farpa sob a pele. Ela defendia os oprimidos da cozinha, os invisíveis que sustentavam o luxo alheio, o mesmo ambiente que, segundo as poucas cartas e relatos fragmentados que sua avó materna lhe deixara ler antes de morrer, fora a grande paixão e a perdição absoluta de seu pai. Ricardo Mendes. Um nome que para ela era apenas um conceito, uma silhueta borrada por histórias contraditórias de talento e criminalidade.
Ao sair da audiência, vitoriosa mas exaurida, sentindo a adrenalina do debate jurídico dar lugar a um cansaço profundo nos ossos, Júlia decidiu não voltar direto para o escritório apertado que dividia com dois colegas. Precisava respirar. Decidiu cortar caminho por uma livraria antiga no centro, um sebo labiríntico que cheirava a poeira, mofo e histórias esquecidas. Era seu refúgio, um santuário de silêncio onde o caos do tribunal não conseguia entrar.
Foi ali, na seção de Gastronomia e Enologia — uma seção que ela frequentava com uma curiosidade mórbida, tentando entender o mundo que seduzira seu pai —, que o destino, com seu senso de humor peculiar e cruel, resolveu mover suas peças no tabuleiro.
Gabriel Sampaio estava sentado no chão de madeira estaladiça, as pernas longas esticadas, bloqueando parcialmente o corredor estreito. Ele folheava com reverência um livro raro, de capa dura e desgastada, sobre as origens da culinária molecular francesa. Gabriel era a antítese viva de tudo o que sua mãe, Helena, e seu pai, Otávio, representavam e prezavam. Enquanto eles vestiam a armadura da alta sociedade, Gabriel usava jeans rasgados, uma camiseta de banda desbotada sob uma jaqueta de couro surrada que vira dias melhores, e mantinha os cabelos desalinhados propositalmente. Ele usava sua rebeldia estética como um escudo contra as expectativas sufocantes de ser o herdeiro do império Paladar. Ele amava a comida, a alquimia pura dos sabores, a mágica de transformar ingredientes brutos em emoção, mas odiava o negócio. Odiava a política, a falsidade dos sorrisos nos jantares beneficentes, a frieza com que seus pais tratavam a comida como commodity e não como arte.
Júlia, distraída respondendo a uma mensagem urgente de um cliente no celular, virou a esquina da prateleira apressada e tropeçou nas botas pesadas de Gabriel.
O impacto foi sutil fisicamente, mas as consequências foram barulhentas. Os livros que ela carregava — dois códigos penais pesados como tijolos e um romance de ficção que pretendia ler há meses — foram ao chão com um estrondo que quebrou o silêncio sagrado da livraria, fazendo alguns clientes próximos olharem com reprovação.
— Ai, meu Deus, me desculpe! Que desastrada... Eu não vi você aí — exclamou Júlia, o rosto queimando de vergonha, agachando-se rapidamente para recolher a bagunça espalhada.
Gabriel ergueu os olhos do livro, surpreso, e naquele momento exato, o tempo no corredor empoeirado pareceu desacelerar. Era um clichê, sim, algo que ambos ridicularizariam se vissem em um filme romântico barato, mas que sentiram na pele com a força física de um soco no estômago.
Ele viu uma mulher de beleza austera e inteligente. Havia olheiras suaves sob seus olhos, denotando cansaço, mas o olhar era vivo, focado. Seus cabelos estavam presos num coque frouxo, de onde alguns fios rebeldes escapavam, desafiando a rigidez do seu terninho cinza. Havia nela uma seriedade que o intrigou instantaneamente, uma gravidade que contrastava com as influenciadoras digitais vazias com quem ele costumava cruzar nos eventos da mãe.
Ela, por sua vez, viu um rapaz com olhos de um castanho profundo, quase líquido, que pareciam rir e chorar ao mesmo tempo. Havia uma intensidade artística naqueles olhos, uma sensibilidade que a desarmou completamente. Ele não parecia pertencer àquele mundo de pressa e eficiência em que ela vivia.
— A culpa foi toda minha, eu confundi o corredor da livraria com a sala da minha casa — disse Gabriel, sua voz rouca e suave. Ele abriu um sorriso torto, quase tímido, que iluminou seu rosto de uma maneira devastadora. Ele começou a ajudá-la a recolher os livros, seus movimentos ágeis e gentis. Ele pegou um dos códigos penais, pesando-o na mão. — Uau. Leitura leve para uma manhã de quarta-feira chuvosa?
— Necessária. Infelizmente, o mundo não se conserta sozinho — retrucou Júlia, recuperando sua postura defensiva habitual, mas sentindo o rosto corar ainda mais sob o escrutínio divertido dele. Ela apontou para o livro no colo dele. — E você? A Química do Sabor? Tentando aprender a fazer espuma de vento ou desconstruir um ovo frito?
Gabriel riu, uma risada genuína, grave e quente, que ecoou pelas prateleiras e pareceu vibrar no peito de Júlia. — Algo assim. Tentando entender como transformar essência em algo palpável. Como fazer com que uma memória tenha gosto. Sou Gabriel. — Ele estendeu a mão, ignorando a pilha de livros que equilibrava na outra.
— Júlia. — Ela hesitou por uma fração de segundo antes de apertar a mão dele.
O toque foi elétrico. A pele dele era quente, calejada — mãos de quem cozinhava, de quem cortava, queimava e trabalhava com texturas, não mãos macias de quem apenas assinava cheques, o que a surpreendeu.
Eles ficaram ali, agachados no corredor de uma livraria velha, as mãos unidas por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Não sabiam, naqueles breves segundos de conexão química e espiritual, que suas linhagens eram rios de sangue e mágoa correndo em direções opostas, prestes a colidir. Não sabiam que o sobrenome dele, Sampaio, era o veneno que amargurara a vida da família dela por duas décadas. E Gabriel não fazia ideia de que a existência daquela mulher à sua frente era o segredo nuclear que poderia detonar a fundação da sua família.
Enquanto a faísca do romance improvável se acendia no centro da cidade, na cobertura duplex nos Jardins, onde o ar era sempre condicionado e o silêncio custava caro, o telefone de Otávio tocou.
Era um toque estridente, que quebrou a quietude do escritório minimalista. Otávio olhou para o visor. "Número Desconhecido". Ele sabia quem era. Era a linha que apenas seus "solucionadores de problemas", homens pagos para manter o submundo longe de sua porta, possuíam.
Ele atendeu, caminhando até a varanda ampla, o copo de uísque matinal — um hábito que se tornara vício — já na mão, o gelo tilintando contra o vidro.
— Fale — ordenou Otávio, a voz seca, autoritária.
— Ele saiu, Sr. Sampaio. — A voz do outro lado era metálica, desprovida de emoção. — Houve uma mudança nos protocolos. Liberdade condicional por bom comportamento e superlotação do sistema carcerário. O juiz de execução penal adiantou a soltura. Ele já está em São Paulo.
Otávio sentiu o chão sob seus pés de mármore vacilar.
— Como "já está"? Eu pago vocês para saberem antes que aconteça! — ele sibilou, a fúria trincando sua máscara de calma.
— Foi rápido, senhor. Perdemos o rastro dele na rodoviária do Tietê. Ele não usou cartões de crédito, não ativou nenhum celular antigo, não procurou parentes conhecidos. Ele sumiu no fluxo. É um fantasma.
Otávio sentiu o sangue gelar nas veias, uma sensação física de pânico que ele não experimentava há vinte anos. O copo de cristal, importado da Boêmia, estalou em sua mão sob a pressão convulsiva dos dedos, mas não quebrou. Ricardo Mendes estava solto. O homem a quem ele incriminou com provas plantadas, o homem cuja vida e talento ele roubou para ficar com Helena e construir a fortuna que ela geraria, estava livre. E estava na mesma cidade.
— Encontrem-no. Não me importa o custo. Virem essa cidade do avesso. Quero saber onde ele dorme, o que ele come e com quem ele fala. Agora! — Otávio desligou e atirou o celular no sofá de couro.
Ele olhou para dentro do apartamento, através das portas de vidro. Helena estava sentada à mesa de café da manhã, lendo o jornal com aquela postura régia, tomando um gole de chá, completamente alheia à tempestade radioativa que se aproximava de sua costa. Ele precisava agir rápido, cirurgicamente. Ricardo Mendes não podia se aproximar dela. Se Helena descobrisse que a prova final, aquele documento bancário forjado que a convenceu da traição e do roubo de Ricardo vinte anos atrás, fora obra de Otávio... não. O pensamento era insuportável. Ele não perderia seu império. Ele mataria de novo se fosse preciso, mas não perderia.
Longe dali, no bairro nobre onde o O Último Aroma — o novo nome do antigo Paladar, uma mudança de marca que Helena insistira anos atrás — estava localizado, Ricardo caminhava.
Ele se movia pelas sombras das árvores frondosas da rua Oscar Freire, invisível para os passantes apressados e ricos. Ele parou do outro lado da rua, escondido pela folhagem de um Ipê. O restaurante era imponente, uma fachada moderna de vidro e aço que gritava poder. Ele viu o manobrista estacionar carros que custavam mais do que ele ganharia em dez vidas honestas.
E então, a porta se abriu.
O tempo parou para Ricardo.
Helena saiu pela porta principal, acompanhada de um gerente, gesticulando algo sobre a decoração da entrada. Ela estava mais velha, sim. Havia linhas de expressão ao redor dos olhos que ele não conhecia, uma rigidez na postura que a Helena de Diamantina jamais tivera. Mas ela ainda possuía aquela aura magnética, aquela beleza dolorosa que o fizera se apaixonar perdidamente e entregar seu coração sem reservas.
O coração de Ricardo bateu descompassado no peito, uma mistura violenta e nauseante de amor profundo, saudade e um ódio corrosivo. Ele deu um passo involuntário à frente, saindo das sombras, impulsionado por uma força gravitacional que não conseguia controlar.
— Helena... — o nome escapou de seus lábios, um sussurro que morreu no ruído do trânsito.
Nesse instante, um carro preto blindado, com vidros escuros como a noite, parou bruscamente na frente do restaurante, bloqueando sua visão. Seguranças desceram, abrindo a porta para ela. Quando o carro saiu, cantando pneus suavemente, Helena já havia entrado, engolida pela segurança de seu mundo inatingível.
Ricardo recuou para a sombra, tremendo. Ainda não era a hora. O confronto direto agora seria suicídio. Ele não tinha nada: nem dinheiro, nem nome, nem poder. Mas tinha a verdade. E tinha a paciência de quem esperou duas décadas.
O primeiro movimento no tabuleiro fora feito, mas o jogo seria longo e brutal. Ele virou as costas para o império reluzente de Helena e de Otávio e começou a caminhar em direção ao centro velho da cidade, onde as sombras eram mais densas, os aluguéis eram baratos e onde ele começaria, tijolo por tijolo, a construir sua própria justiça. A caçada havia começado.
