CAPÍTULO 2Gratuito
Altitude de Chegada
Capítulo 2 — Altitude de Chegada
A descida começa sobre o Mediterrâneo.
Eu sei porque olhei pela janela exatamente no momento em que o avião inclinava para a curva final e o mar apareceu lá embaixo — azul-escuro, liso demais de cima, como uma superfície que alguém esqueceu de terminar de texturizar. Ao lado do mar, a cidade. Ao lado da cidade, montanhas.
Fiquei olhando por um tempo que provavelmente foi menos de trinta segundos mas pareceu mais.
São Paulo vista de cima é uma mancha marrom-cinza que se estende até onde o olho alcança sem bordas definidas, sem princípio ou fim visível, só densidade e mais densidade. Barcelona é outra coisa. Você consegue ver os limites dela — a montanha de um lado, o mar do outro, a cidade arrumada entre os dois como se alguém tivesse feito um projeto. O Eixample tem o padrão de octógonos visível do avião, os quareirões cortados nos cantos por Cerdà em 1859. Eu aprendi isso na aula de história da arquitetura no segundo ano, sentada num banco de madeira no prédio da FAU que cheira a papel velho e tinta acrílica, e agora estava vendo de cima e era completamente diferente.
Iara dormiu por todo o voo Lisboa-Barcelona. Eu sacudi o ombro dela.
— Iara.
— Hmm.
— Olha pela janela.
Ela abriu um olho. Olhou. Fechou de novo.
— Bonita — ela disse, com o sono que não era fingido. — Me avisa quando a gente pousar.
Isso é Iara Santana em síntese: não é que ela não se impressiona com nada, é que as coisas que a impressionam têm uma lista específica e Barcelona vista de avião não estava nessa lista. A lista inclui: cavalos, documentários sobre polvos, cachaça boa, e aparentemente a ideia de passar seis meses na Europa porque ela passou dois meses processando o formulário de intercâmbio e mandou no prazo com doze horas de sobra.
O avião pousou. Ela acordou completamente e imediatamente, como faz — Iara não tem estado intermediário entre dormindo e acordada. Acordo-dorme, ela chama isso.
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O apartamento fica no Gràcia, na Carrer de la Providència, terceiro andar sem elevador.
Chegamos com duas malas cada uma e uma mochila e subimos os três lances de escada em silêncio porque não havia energia verbal disponível depois de SP-Lisboa-Barcelona com escala de quatro horas num aeroporto onde eu comi um croissant ruim e bebi um café que custou quatro euros e tinha gosto de arrependimento.
A porta tem uma chave que gira para o lado errado — para a esquerda para abrir, para a direita para trancar, exatamente o oposto do que você espera. Eu aprendi isso lendo as instruções do contrato de locação duas vezes antes de vir porque sou o tipo de pessoa que lê as instruções.
O apartamento tem dois quartos, um banheiro, uma cozinha pequena com azulejos brancos e verdes que são os azulejos de apartamento catalão genérico mas que naquele momento me pareceram bonitos, e uma sala de estar com uma janela grande que dá para o pátio interno do prédio.
Eu fui direto para a janela.
O pátio interno de um prédio antigo de Barcelona é uma coisa que nenhuma fotografia do aplicativo de locação transmite direito. É um espaço que não é interno nem externo completamente — tem céu em cima, mas as paredes de quatro prédios ao redor, com varandas e roupas penduradas e uma planta que cresceu pelo muro de um jeito que parece planejado e definitivamente não foi. A luz que chegava eram quatro da tarde de setembro, e batia de cima em ângulo de uns setenta graus, criando sombra nas varandas do segundo andar mas não do terceiro. Eu fiquei na janela por uns dois minutos calculando o movimento dessa luz ao longo do dia.
Iara jogou a mochila no sofá e foi para o quarto que ela tinha decidido que seria o dela desde que viu as fotos.
— O meu tem vista para a rua — ela gritou de dentro. — O seu tem vista para o pátio. Você prefere pátio mesmo, né?
— Prefiro pátio.
— Eu sabia. — Pausa. — A cama parece boa.
— Ótimo.
— Você está bem?
Eu ainda estava olhando o pátio.
— Estou — eu disse.
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"Bem" era a palavra certa mas não a palavra completa.
Tinha saído de SP três dias antes — de um apartamento que dividia com mais três colegas no Butantã, com a bolsa aprovada, com o formulário da ETSAB preenchido, com os cadernos de esboços nas laterais da mala porque não confiava em despachá-los. Tinha dito tchau pra mãe no aeroporto de Guarulhos às seis da manhã, e a mãe tinha abraçado com aquela qualidade específica de abraço que tem um segundo a mais que o necessário — não dramático, não choroso, só um segundo a mais para registrar.
Tinha também, no bolso da calça, uma mensagem de Henrique que eu li no aeroporto e não respondi: *Boa viagem, Ana. Me conta como foi quando chegar.* Seis meses de relacionamento terminados com a calma de quem está encerrando uma conta bancária e foi isso. Não havia briga ou traição ou drama de novela — havia só aquela coisa que às vezes acontece entre pessoas que se gostam mas não no tamanho certo, onde os dois terminaram achando que provavelmente foi a decisão certa e então ficaram com a estranheza de não conseguir sentir mais do que deveriam sentir.
Eu não sabia se vir a Barcelona tinha relação com o Henrique. Não acho que tinha, não diretamente. A bolsa era uma coisa que eu queria faz tempo, a ETSAB é um dos melhores cursos de arquitetura da Europa, o período de intercâmbio ia abrir o segundo semestre do terceiro ano de uma forma que me interessava conceitualmente.
Mas também não é que não teve relação nenhuma. Às vezes você precisa de seis meses em algum lugar que não seja o lugar onde você ficou parado por tempo demais.
Eu olhei o pátio por mais um tempo. Depois peguei o caderno da mochila.
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O caderno tem capa dura de tecido azul escuro, comprado na papelaria da Paulista no começo do segundo ano. Está na metade — esboços de projetos da faculdade, de coisas que via na cidade, de janelas e grades e detalhes que me prenderam por alguma razão. Tem um esboço do pátio do prédio da FAU que fiz espera de uma aula cancelada. Tem a fachada de um prédio art déco da Avenida Ipiranga que foi derrubado no ano passado — eu fui no dia antes de derrubarem só para desenhar.
Abri o caderno em página nova e sentei na janela que dava para o pátio interno.
Comecei pela estrutura: os quatro lados do pátio, a proporção entre altura e largura, a linha dos telhados. Depois os detalhes — as varandas em ferro fundido, as molduras das janelas que tinham aquele trabalho em gesso típico de prédio catalão dos anos vinte. A planta no muro que sobe pela parede de uma forma que não faz sentido estático mas funciona visualmente porque não está tentando fazer sentido estático.
Iara apareceu na porta do quarto com o cabelo solto e uma expressão de quem acabou de tirar uma soneca de quinze minutos que não foi planejada.
— Você já está desenhando — ela disse.
— Estou.
— Você acabou de chegar.
— Eu sei.
Ela sorriu — aquele sorriso específico dela que é meio incredulidade e meio afeto, que eu conheço desde o primeiro dia de aula do primário em Santo André quando nos sentamos juntas por ordem alfabética e ficamos juntas por razões que têm a ver com afinidade real e não com letras do alfabeto.
— Belo Horizonte — ela disse, que é como às vezes ela se refere a si mesma quando está orgulhosa de uma observação. — Eu vim de BH para aqui com você e você já está desenhando.
— Minas Gerais — respondi, que é o que respondo quando ela faz isso.
Ela foi para a cozinha verificar se havia café. (Não havia.) Voltou com informação de que havia açúcar, o que não ajudava.
— Amanhã a gente descobre onde fica o mercado — ela disse, se instalando no sofá. — Tem um mercado a duas quadras, eu vi no mapa. E tem uma praça — Plaça del Sol, que nome, Ana, Praça do Sol — que dizem que é o lugar onde o bairro acontece.
— Ótimo.
— Você está feliz, né? — ela perguntou, com o tom direto de Iara que não é invasivo mas também não é retórico. — Com o intercâmbio, com estar aqui?
Eu parei de desenhar por um segundo. Olhei para o pátio e para a luz que tinha mudado de ângulo nos últimos vinte minutos — mais baixa agora, batendo nas paredes laterais em vez do chão.
— Estou — eu disse. — Com aquela leveza cansada de quem precisava de um recomeço e não sabia o tamanho que o recomeço ia ter.
Iara ficou quieta por um segundo. Depois:
— Isso foi muito articulado para quatro da tarde depois de dois voos.
— Fui ensaiando durante a escala em Lisboa.
Ela riu. Eu voltei para o desenho.
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O pátio às seis da tarde é diferente do pátio às quatro. A luz saiu quase completamente do chão e ficou só numa faixa alta nas paredes do quarto andar. As roupas nas varandas — uma toalha azul, uma camisa branca, algo que podia ser um avental — tinham uma qualidade de natureza-morta involuntária, o tipo de coisa que você não propõe mas que existe.
Eu desenhei por mais uma hora.
Não o pátio inteiro — uma janela. A janela do apartamento em frente, segundo andar, que tem um arco suave na parte de cima com uma moldura em gesso trabalhada, o tipo de detalhe que construtores dos anos vinte colocavam porque achavam que valia a pena. O arco tem uma proporção específica que eu precisei medir visualmente várias vezes antes de desenhar — não perfeitamente semicicircular, mais rebaixado, tipo 60% de um semicírculo. É esse tipo de detalhe que faz diferença e que desaparece quando você substitui por alumínio e vidro.
Iara tinha saído para explorar a rua. Voltou com pão e queijo manchego e azeitonas e uma garrafa de Moritz, que é a cerveja de Barcelona, disse ela, com a autoridade de quem descobriu essa informação há uns quarenta minutos.
Comemos na sala. Ela falou sobre o que tinha visto — a padaria na esquina que parecia boa, a farmácia, o senhor que estava sentado na porta do prédio do lado que acenou para ela como se a conhecesse.
Eu ouvi e comi e olhei de vez em quando para a janela do pátio, que agora estava escura porque o sol tinha saído completamente.
Antes de dormir, voltei para o caderno.
Abri na página do pátio e fiquei olhando o esboço. Tinha as linhas certas, as proporções certas, os detalhes que eu queria. Não era um esboço bonito no sentido que você mostra para alguém e a pessoa diz *que bonito* — era um esboço funcional de quem estava registrando um espaço.
Mas havia também aquela coisa que às vezes acontece com esboços: a janela do segundo andar ficou maior do que estava na realidade, não por erro, mas porque foi o que o olho quis ver.
Eu olhei para o desenho por um tempo.
Depois escrevi embaixo, em letra pequena: *Barcelona, dia 1. A janela do pátio tem um arco que é quase um semicírculo mas não é. As melhores coisas raramente são exatamente o que parecem ser.*
Fechei o caderno. Apaguei a luz. Ouvi a cidade lá fora — tráfego distante, vozes em espanhol ou catalão que não conseguia separar ainda, um motor de moto, silêncio breve, outra voz. O apartamento cheirava a apartamento vazio que vai sendo habitado — aquele cheiro de ar parado que muda devagar conforme as pessoas entram e deixam marcas.
Dormi bem pela primeira vez em semanas.
