CAPÍTULO 2Gratuito
Capítulo 2 — O Catálogo
A insônia tinha gosto de café requentado e decisões questionáveis.
Isabela acordou às 4h47 da manhã com o laptop ainda aberto sobre o peito, a tela do contrato da Élysée brilhando no escuro como um altar profano. Tinha sonhado com cláusulas em francês e com a voz de Rafael dizendo "invariavelmente" num loop que não fazia sentido algum. Fechou o laptop, virou para o lado e descobriu que o colchão parecia mais duro desde que começara a vendê-lo mentalmente junto com o apartamento.
Não voltou a dormir.
Às seis, já estava na cozinha com a terceira caneca de café, o celular na mão, navegando pelo perfil de R.M. na Élysée pela quarta vez. A foto não mudava — o mesmo perfil contra o mar, a mesma camisa de linho — mas Isabela encontrava detalhes novos a cada olhada, como se o homem na imagem decidisse revelar informações em camadas calculadas. A cicatriz fina no dorso da mão esquerda. O modo como os dedos seguravam a balaustrada — sem força, sem pose, a naturalidade estudada de quem não precisa provar que pertence a qualquer lugar.
Ou a naturalidade real de quem de fato pertence.
Isabela sacudiu a cabeça. Não importava. Ele era um produto num catálogo. Sofisticado, sim. Caro, certamente. Mas um produto. Ela estava comprando uma performance, não uma pessoa.
O e-mail de confirmação chegara às 23h da noite anterior, horário de Paris. O contrato estava assinado por ambas as partes. O pagamento, agendado. Restava o que Rafael chamara de "briefing detalhado" — um formulário de quarenta e duas perguntas que Isabela precisava responder antes da primeira sessão de preparação por videochamada.
Abriu o documento no laptop.
*1. Nome completo do(a) cliente: Isabela Montenegro* *2. Idade: 30* *3. Profissão declarada à família:*
Isabela parou. Profissão declarada versus profissão real. O formulário já presumia a mentira.
*Advogada tributarista. Sócia-fundadora do escritório Montenegro & Associados.*
Verdade técnica. O escritório existia. Ela era sócia-fundadora. O fato de que o "associados" era um fantasma e o escritório tinha mais dívidas que clientes era informação que o formulário não pedia.
As perguntas seguiam com precisão cirúrgica: nomes dos familiares, idades, profissões, dinâmicas de poder, assuntos proibidos, alergias alimentares, posição política do pai, se a mãe fazia perguntas diretas ou insinuava. Havia uma seção inteira sobre "narrativa do relacionamento" — como se conheceram, há quanto tempo namoravam, primeira viagem juntos, como ele a pediu em namoro.
Isabela respondeu cada uma com a dedicação que colocava em petições judiciais. Inventou uma história crível: conheceram-se num evento de vinicultura em São Paulo (justificava o sotaque francês dele e a conexão com enologia). Namoravam há cinco meses (tempo suficiente para ser sério, curto o bastante para justificar que a família não o conhecesse). Ele morava em Paris (explicava a distância). Trabalhava com consultoria no setor de vinhos e hospitalidade (vago o suficiente para resistir a perguntas, específico o bastante para parecer real).
Às 8h, enviou as respostas.
Às 8h04, recebeu uma mensagem:
*"Reçu. Videochamada às 14h, horário de Brasília? — R."*
Quatro minutos. Ele leu quarenta e duas respostas em quatro minutos. Ou não leu e apenas confirmou o recebimento. Isabela não sabia qual opção a incomodava mais.
§
Às 13h55, Isabela estava sentada na cadeira do escritório vazio — Beatriz tinha ido almoçar e levado consigo a única presença humana do andar inteiro. A luz de agosto entrava pelas janelas panorâmicas com aquela qualidade difusa de São Paulo, nem sol nem nuvem, uma claridade cinzenta que não se comprometia com nada. Tinha trocado de blusa duas vezes, passado batom e tirado, preso o cabelo e soltado. Depois se xingou mentalmente por se arrumar para um profissional que ela estava pagando.
Abriu o link da videochamada.
A tela carregou. E lá estava ele.
Rafael.
A foto do perfil não mentia — mas também não contava tudo. Na tela, em tempo real, o impacto era diferente. Ele estava sentado diante de uma estante de livros numa sala que parecia um escritório residencial: paredes em tom de creme, uma luminária de mesa projetando luz quente, prateleiras cheias mas organizadas. Vestia uma camisa azul-marinho com o botão de cima aberto, os cabelos escuros penteados para trás sem esforço visível, os olhos — verdes, ela não esperava que fossem tão verdes, um verde escuro como garrafas de vinho antigas — fixos na câmera com uma atenção que era quase tátil.
— Bonjour, Isabela.
A voz era a mesma do telefone, mas com rosto ganhava peso. Grave, sem pressa, com uma textura que lembrava tecido caro — macio na superfície, com estrutura por baixo.
— Boa tarde, Rafael.
— Li suas respostas. Detalhadas. Você tem talento para construir narrativas.
— Sou advogada. É literalmente meu trabalho.
Um canto da boca dele se ergueu — não um sorriso completo, apenas o esboço de um. Era o tipo de expressão que oferecia pouco e sugeria muito.
— Vamos ao trabalho, então. — Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos. As mãos eram grandes, dedos longos, bronzeados. — Sua mãe. Cláudia. Pelo que você descreveu, ela é o público mais difícil.
— Minha mãe é uma tomografia ambulante. Ela não olha para as pessoas, ela as escaneia. Vai medir a qualidade do seu sapato, o corte do seu cabelo, se você segura o garfo certo, se abre a porta para mim, se coloca a mão nas minhas costas ou no ombro. Cada detalhe é dado para ela.
— Entendido. Seu pai?
— Henrique é mais direto. Vai testar sua inteligência, não sua aparência. Espere perguntas sobre economia, negócios, política. Ele gosta de opiniões firmes. Detesta quem concorda com tudo.
— Marcos. O cunhado.
— Marcos é... — Isabela escolheu as palavras como quem desativa uma bomba. — Marcos é o tipo de homem que sorri enquanto procura sua fraqueza. Financista. Ambicioso. Casado com minha irmã Fernanda. Ele vai testá-lo de formas que parecem brincadeira mas não são. Vai provocar sobre dinheiro, sobre status, sobre por que um homem como você está com uma mulher como eu.
— Uma mulher como você?
A pergunta veio sem inflexão. Isabela não soube se era curiosidade, gentileza ou técnica.
— Uma mulher que está mais interessada em trabalho do que em joias. Para Marcos, isso é defeito.
— Para Marcos. — Ele repetiu, e na forma como falou, a frase ficou pendurada no ar como uma pergunta que não foi feita.
Isabela desviou o olhar por um instante — para a janela, para São Paulo, para qualquer lugar que não fosse aquele verde escuro na tela. Profissional. Ele era um profissional.
— E Lucas? — Rafael continuou, como se não tivesse notado nada.
— Lucas é meu irmão mais novo. Vinte e cinco anos, fotógrafo, gay, assumido, namora um chef francês chamado Théo. É o mais perceptivo da família inteira. Ele não analisa roupas nem faz perguntas de negócios. Ele observa como as pessoas existem juntas. Se tem alguém que pode perceber que estamos fingindo, é ele.
— Então é com ele que precisamos ser mais genuínos.
A palavra "genuínos" no contexto de uma farsa contratada teria arrancado uma risada de Isabela em qualquer outro momento. Mas a forma como Rafael disse — sem ironia, quase com respeito pelo desafio — a fez apenas assentir.
— Exatamente.
— Bom. — Ele se recostou na cadeira. — Agora a parte difícil. Precisamos construir nossa história não apenas com fatos, mas com tiques. Um casal de cinco meses tem ritmos. Você encosta nele sem perceber. Ele termina a frase dela. Existe uma linguagem corporal que não se ensina, mas se ensaia.
— Você quer ensaiar uma linguagem corporal.
— Quero que você me diga três coisas: onde gosta de ser tocada em público sem que pareça íntimo demais, qual é o gesto que faz quando está confortável com alguém e que palavra ou expressão usa quando está relaxada.
Isabela piscou. Ninguém nunca tinha feito perguntas assim. Nem Gustavo, que namorara por dois anos antes de roubar suas economias.
— Eu... — ela passou a mão pelo cabelo, soltando os fios que insistiam em cair sobre a testa. — Toque no antebraço. É onde aceito contato sem pensar. Quando estou confortável, cruzo as pernas e inclino levemente para o lado da pessoa. E digo "tá" quando concordo de verdade. Não "sim" formal. "Tá."
Rafael fez algo que Isabela não esperava: pegou uma caneta e escreveu. Num caderno de verdade, papel de verdade, tinta de verdade. O som do bico da caneta contra o papel atravessou o microfone com uma intimidade estranha, como se ela estivesse ouvindo alguém escrever uma carta.
— Antebraço. Inclinação. "Tá." — Ele ergueu os olhos da página. — E quando está nervosa?
— Falo rápido. Minha advogada de acusação interna assume o controle.
— Vou ficar atento.
— Para quê?
— Para segurar sua mão quando acontecer. É o que um namorado de cinco meses faria.
Isabela engoliu seco. A frase era técnica — ela sabia que era técnica. Mas a forma como a voz dele desceu meio tom na palavra "mão" criou algo na boca do seu estômago que não era fome e não era medo, era algo entre os dois, incômodo e quente, como engolir chá fervendo rápido demais.
— Mais alguma coisa? — ela perguntou, e odiou que sua voz saiu meio tom mais aguda.
— Uma última. — Ele se inclinou para frente. Na tela, o rosto dele ocupou mais espaço, e Isabela notou detalhes que a distância escondia: a sombra de barba no maxilar, uma pinta pequena abaixo do olho esquerdo, a forma como as sobrancelhas dele se moviam antes das palavras, como se o rosto decidisse a expressão antes que a boca decidisse a frase. — Como quer que eu a chame?
— Isabela.
— Não. Namorados não chamam pelo nome completo. Diminutivo, apelido, algo que seja só nosso.
Ela abriu a boca. Fechou. Lucas a chamava de Isa. A mãe, de "minha filha." O pai, de Bela. Gustavo a chamava de Bel, e essa opção estava permanentemente vetada.
— Isa — disse. — Minha família me chama de Isa. Se usar algo diferente, vai parecer forçado.
— Isa, então. — Ele testou o nome como quem prova um vinho — girando na boca antes de decidir. — Funciona. É curto, íntimo, e posso usá-lo na frente de todos sem parecer encenação.
— E eu? Como chamo você?
— Rafael. Sem diminutivo. Ninguém nunca me chamou de outra forma.
— Ninguém?
— Ninguém que importasse.
A frase ficou ali, suspensa entre dois continentes e uma conexão de internet. Isabela não sabia se era parte do personagem que ele estava construindo ou se era verdade. E percebeu, com um desconforto agudo, que a diferença entre as duas coisas ia ser impossível de detectar durante uma semana inteira.
§
Desligaram quarenta minutos depois. Isabela tinha a cabeça cheia de instruções: como se posicionar em fotos de grupo ("sempre do lado esquerdo dele, mão na cintura dele, nunca o contrário — transmite igualdade, não posse"), como reagir a perguntas invasivas ("olhe para mim antes de responder, como se quisesse minha aprovação — famílias conservadoras leem isso como sinal de casal sólido"), como lidar com o quarto compartilhado ("dormirei no sofá ou no chão; o contrato proíbe qualquer intimidade real").
O contrato proíbe qualquer intimidade real.
A frase voltava como um refrão inconveniente enquanto Isabela encarava o reflexo no espelho do banheiro, escovando os dentes com uma agressividade que o esmalte não merecia. Cuspiu. Enxaguou. Encarou seus próprios olhos cor de mel no espelho.
— Você está pagando um homem para fingir que gosta de você — disse ao reflexo. — Isso é o fundo do poço.
O reflexo não discordou.
Seu celular vibrou na bancada. Mensagem de Lucas.
*"Mana, acabei de ver a villa no Google Maps. MANA. Tem heliponto. Théo quase chorou. Quando a gente se vê em Cap Ferrat? E POR FAVOR traga esse namorado fantasma, preciso auditar pessoalmente. Bjs do seu irmão favorito (único aceitável)."*
Isabela riu — uma risada curta, quase contra a vontade. Lucas era a única pessoa na família que a fazia rir sem cobrança embutida. Respondeu:
*"Ele vem. Se prepara."*
Lucas mandou uma sequência de emojis de lupa que Isabela preferiu ignorar.
§
Os dias seguintes passaram no ritmo frenético de quem prepara uma operação militar disfarçada de férias em família. Isabela teve mais três videochamadas com Rafael — cada uma mais detalhada que a anterior.
Na segunda, ele a fez descrever a planta da casa onde crescera, os pratos que a mãe servia em ocasiões especiais, o time de futebol do pai, a marca de vinho favorita de Marcos ("para discordar educadamente — nada cria camaradagem como uma divergência sobre vinhos"). Isabela falou durante uma hora. Rafael ouviu, anotou e, no final, recitou de volta cada detalhe com precisão assustadora.
— Você tem memória fotográfica?
— Tenho prática.
Na terceira, ensaiaram o toque. Pela câmera, impossível de praticar de verdade, mas Rafael a conduziu por um exercício mental que a deixou com as bochechas quentes: "Imagine que estamos sentados à mesa. Minha mão está no seu joelho, sob a toalha. Não é sexual — é âncora. Você sabe que estou ali. Quando alguém fizer uma pergunta difícil, pressiono levemente. Esse é o sinal para respirar antes de responder."
Isabela se perguntou se advogadas em falência sentiam calor por causa de joelhos imaginários, ou se isso era exclusividade dela.
Na quarta e última sessão, dois dias antes do embarque, Rafael resumiu:
— Nossa história: nos conhecemos num evento de vinicultura da Wine Connection em São Paulo, em abril. Você estava lá com uma amiga. Eu, a trabalho. Pedimos o mesmo vinho no bar — um Sancerre. Conversa. Jantar na semana seguinte. Desde então, viagens entre SP e Paris quando as agendas permitem. Ainda em fase de descoberta, mas sério o suficiente para conhecer a família.
— Parece... real.
— É a intenção.
— Rafael. — Isabela hesitou. — Eu preciso perguntar uma coisa.
— Oui?
— Isso já deu errado alguma vez? Uma cliente... se complicou?
Ele a olhou pela tela. Os olhos verdes tinham camadas — a superfície profissional, e algo por baixo, mais antigo, que Isabela não conseguia nomear.
— Eu nunca permiti que desse errado.
Não era uma resposta. Era uma muralha elegante disfarçada de frase.
— Nos vemos em Nice, Isabela.
— Nos vemos em Nice, Rafael.
A tela ficou preta. Isabela ficou olhando o reflexo do próprio rosto no monitor escuro. Uma mulher de trinta anos, cabelos castanhos, olhos cor de mel, cicatriz no queixo — prestes a embarcar para a Côte d'Azur com um estranho que sabia onde ela gostava de ser tocada, como ela agia nervosa e o que significava quando dizia "tá."
Um estranho que, em quatro sessões de vídeo, já a conhecia melhor do que Gustavo em dois anos.
Essa constatação devia assustá-la. Assustou. Mas não do jeito que esperava.
Assustou porque, em algum canto do estômago que a lógica não alcançava, entre o amargo do café e a acidez da ansiedade, Isabela percebeu que a parte mais perigosa dessa farsa não seria convencer a família.
Seria lembrar, a cada segundo, que nada daquilo era real.
