CAPÍTULO 4Gratuito
Capítulo 4 — A Villa
O avião tocou o solo de Nice com a delicadeza de um gato saltando de uma mesa — suave, preciso, com uma arrogância implícita que só máquinas francesas pareciam dominar.
Isabela não dormira durante o voo. Doze horas entre Guarulhos e Nice, com escala em Paris que serviu apenas para trocar de terminal, comprar um croissant que comeu sem sentir gosto e verificar a conta bancária uma última vez. R$4.230,17. Era o que restava depois do pagamento à Élysée. Quatro mil reais e trinta anos de vida, uma mala com roupas que escolhera para parecer a versão de si mesma que a família esperava, e a sensação espinhosa de que cada passo dentro daquele aeroporto a afastava um pouco mais da pessoa que era de verdade.
O Terminal 2 de Nice era menor do que esperava — um corredor amplo de vidro e mármore claro onde a luz do Mediterrâneo entrava sem pedir licença, dourada, insistente, completamente diferente da claridade anêmica de São Paulo. O ar-condicionado lutava contra o calor de setembro que tentava se infiltrar pelas portas automáticas, e perdia. Isabela sentiu o calor antes de sair do prédio — um calor seco, perfumado, que trazia consigo cheiro de asfalto quente, pinheiro e algo cítrico que poderia ser limão ou poderia ser a Riviera simplesmente cheirando a si mesma.
Ajustou a alça da bolsa no ombro. Empurrou a mala. Escaneou a área de desembarque com o olhar clínico de advogada que procura provas num mar de irrelevâncias.
E o encontrou.
Rafael estava encostado numa coluna de vidro a dez metros da saída, com a postura de quem poderia esperar ali por horas sem que parecesse espera. Vestia calça de linho creme, camisa branca com as mangas dobradas nos antebraços, mocassins de couro sem meias. A pasta de couro pendia de uma mão. Na outra, como prometido, um livro. Capa vermelha escura. Isabela estreitou os olhos. "De l'Amour", de Stendhal. Não "O Vermelho e o Negro."
Desgraçado espirituoso.
Ele a viu no mesmo instante. Os olhos verdes a localizaram no fluxo de passageiros com uma precisão que era quase tátil — como se o olhar dele tivesse peso, temperatura. Não acenou. Não sorriu. Apenas a observou se aproximar com uma atenção que fazia Isabela sentir cada centímetro da distância que diminuía entre eles.
Seis metros. Quatro. Dois.
De perto, Rafael era maior do que a tela mostrava. Um metro e oitenta e sete de presença silenciosa que ocupava espaço sem fazer esforço. A foto do perfil, as videochamadas — nada a preparara para o efeito tridimensional. O maxilar, que na tela parecia angular, era esculpido. Os fios grisalhos nas têmporas, que na foto pareciam charme calculado, tinham a textura real de cabelos que envelheciam antes do tempo porque o dono carregava peso demais. E os olhos — verde-escuros, com sulcos finos nos cantos — não sorriam, mas não eram frios. Eram atentos.
— Stendhal — ela disse, parando a um metro dele. — "De l'Amour." A ironia, pelo menos, é mais elegante que eu previ.
— Bonjour, Isa.
O nome abreviado na voz dele, ao vivo, sem filtro digital, sem latência transatlântica, atingiu um nervo que Isabela não sabia que tinha. A voz era a mesma — grave, sem pressa — mas o corpo por trás dela mudava tudo. Ondas sonoras contra a pele. Vibração real no ar real.
— Oi, Rafael.
Ele se inclinou. Um beijo na bochecha direita, depois na esquerda — à francesa. O perfume dele a alcançou antes dos lábios: cedro, algo amadeirado, uma nota de limão siciliano que era sutil demais para ser acidental. A barba por fazer raspou a pele dela por uma fração de segundo. A mão dele pousou em seu cotovelo — não no ombro, não na cintura, o cotovelo — com uma pressão que durou exatamente o tempo de transmitir familiaridade sem invadir.
Profissional, ela lembrou a si mesma. Cada gesto é calculado. É o que você está pagando.
— O carro está ali. Vinte minutos até a villa. — Ele pegou a mala dela antes que ela pudesse protestar. — Como foi o voo?
— Longo. Ruim. O passageiro do meu lado roncava com a dedicação de um motor a diesel.
O canto da boca dele se ergueu. Aquele quase-sorriso que ela já catalogara nas videochamadas.
— Bien. Então está pronta para a próxima turbulência.
Não era uma pergunta.
§
O carro — um Audi preto com motorista, naturalmente — tomou a Basse Corniche em direção a Saint-Jean-Cap-Ferrat, e Isabela viu a Côte d'Azur pela primeira vez com olhos de verdade.
A estrada serpenteava entre encostas de pinheiros e muros de pedra clara, com o Mediterrâneo aparecendo em flashes entre as curvas — não o azul turístico de cartão-postal, mas um azul profundo, quase violeta na intensidade, que refletia a luz da tarde com a generosidade de quem tem beleza de sobra. As villas pontilhavam as colinas como joias espalhadas por uma cômoda de veludo verde: fachadas em tons de ocre, terracota, branco-pérola, com buganvílias cascateando sobre portões de ferro forjado.
O ar que entrava pela fresta da janela carregava o cheiro que Isabela nunca sentira e que, de alguma forma, já conhecia: sal marinho misturado com alecrim, o calor da pedra ao sol, aquela nota de lavanda que parecia impregnar tudo no sul da França como um perfume impossível de tirar.
— A villa fica na pointe — Rafael disse, apontando com o queixo para a extremidade do promontório que se estendia ao mar como um dedo apontando para o horizonte. — Acesso privado. Seu pai alugou bem.
— Meu pai não faz nada que não seja à altura.
— Entendo. — A voz dele tinha uma inflexão que Isabela não conseguiu decifrar. Concordância? Reconhecimento? Juízo?
— Rafael. — Ela se virou no banco para encará-lo. O couro do assento rangeu sob suas pernas. — Antes de chegarmos. Eu preciso que você saiba de uma coisa.
Ele a olhou. Esperou.
— Minha família... — Isabela escolheu as palavras com o cuidado de quem caminha em campo minado. — Nós nos amamos. De verdade. Mas nos amamos da maneira que famílias ricas brasileiras amam: com muita pressão, muita expectativa e muito silêncio sobre as coisas que realmente importam. Minha mãe vai sorrir para você enquanto cataloga cada detalhe para discutir comigo depois. Meu pai vai ser cordial mas vai decidir se você presta nos primeiros dez minutos. Fernanda, minha irmã, vai ser doce e distraída, mas preste atenção no marido dela. E Lucas...
— Lucas vai me testar de formas que eu não espero.
— Exatamente.
Rafael assentiu. A mão dele, que descansava no joelho, se moveu — subiu até o espaço entre os dois bancos, os dedos longos relaxados, palma para cima. Uma oferta.
— Chegamos em cinco minutos. A partir de agora, somos um casal. Se precisar de âncora, aperte minha mão. Se precisar de espaço, toque o colar. Se precisar sair, diga que quer "ver o jardim." Combinamos nas sessões.
Isabela olhou a mão dele. Os dedos. As veias que subiam pelo antebraço bronzeado. A naturalidade com que ele oferecia algo tão simples quanto uma palma aberta, como se fosse a coisa mais fácil do mundo estender a mão para uma estranha e dizer: estou aqui.
Colocou a mão na dele.
O toque foi quente. Seco. Firme sem apertar. A pele dele era mais áspera do que esperava — mãos de quem usava as mãos para algo além de digitar, embora ela não soubesse para quê. A palma dele se fechou ao redor dos dedos dela com a exatidão de quem praticou aquilo mil vezes.
Ou nenhuma. Isabela não sabia qual opção a perturbava mais.
§
A Villa Mireille apareceu como aparece tudo que é verdadeiramente belo: de repente e sem aviso.
O carro passou por um portão de ferro entre muros cobertos de hera, desceu por uma alameda de ciprestes tão retos que pareciam ter sido disciplinados individualmente, e então a villa se revelou — uma construção Belle Époque em pedra clara e persianas azul-lavanda, com três andares, um terraço coberto de glicínias e uma vista frontal para o Mediterrâneo que fazia o mar parecer um lago particular.
Isabela soltou a mão de Rafael sem perceber. Ou percebeu, mas a paisagem era uma desculpa legítima.
— Mon Dieu — ela murmurou, e se arrependeu do francês involuntário.
— Seu pai tem bom gosto — Rafael disse, e algo na voz dele soou como quem reconhece, não como quem se impressiona. Isabela arquivou a observação.
O motorista parou diante da entrada principal — uma escadaria de pedra com vasos de lavanda nos degraus. E ali, no topo, como uma comissão de boas-vindas que era também tribunal, estava a família Montenegro.
Cláudia primeiro, naturalmente. Cabelos loiros platinados presos em um coque que desafiava a gravidade e as leis da termodinâmica, vestido de linho branco que parecia ter sido costurado nela, brincos de pérola, sandálias douradas. Um sorriso que era ao mesmo tempo acolhimento e perícia.
Ao lado, Henrique. Maior do que Isabela lembrava — ou talvez fosse o cenário, ou os três meses sem vê-lo. Camisa polo azul-clara, bermuda cáqui, mocassins sem meias que poderiam ter sido irmãos dos que Rafael usava. Óculos de sol empurrados para o topo da cabeça. A postura de um homem que comprou o direito de estar em qualquer lugar.
Atrás, Fernanda — mais magra, Isabela notou imediatamente, com olheiras que a maquiagem tentava esconder. Vestido floral, cabelos castanhos presos, sorriso que não alcançava os olhos. Marcos ao lado dela, de bermuda e polo escura, segurando um copo do que parecia gin-tônica às quatro da tarde. O sorriso dele alcançava os olhos — mas era o tipo de sorriso que alcançava também os cantos onde se escondia segundas intenções.
E Lucas. Encostado na coluna do terraço com a câmera Leica pendurada no pescoço, camiseta preta, bermuda jeans, descalço. Cabelos cacheados, olhos iguais aos de Isabela — cor de mel, observadores. Quando viu o carro, não se moveu. Apenas ergueu a câmera e fotografou.
— Pronta? — Rafael murmurou, a mão dele encontrando as costas dela com a leveza de quem pousa uma folha sobre água.
— Não. Vamos.
Saíram do carro.
O calor a recebeu como um abraço insistente — o sol da Riviera em setembro ainda tinha força, e a pedra clara da villa irradiava uma quentura que subia pelos pés através das sandálias. O cheiro era de alecrim, sal e linho quente ao sol.
— FILHA! — Cláudia desceu os degraus com a agilidade de uma mulher que passava três manhãs por semana na academia e as outras quatro fingindo que não precisava. Os braços de Isabela foram envolvidos por perfume Chanel, cabelo platinado e o abraço apertado de uma mãe que demonstra amor com a mesma intensidade com que faz cobranças. — Meu Deus, você emagreceu. Está comendo? Esse voo é desumano. Deixa eu olhar pra você.
Cláudia segurou o rosto de Isabela entre as mãos — os anéis pressionaram as bochechas dela — e a examinou com o olhar de quem avalia uma peça de porcelana em leilão.
— Linda. Cansada, mas linda. — Os olhos de Cláudia já se moviam. Já saíam de Isabela. Já se dirigiam ao homem parado dois passos atrás com as mãos nos bolsos e a postura de quem não precisa se apresentar porque sabe que os outros farão isso por ele.
— E este — Cláudia disse, soltando Isabela e ajustando o sorriso para um registro que era parte hospitalidade, parte interrogatório — é o famoso Rafael.
Rafael se adiantou. Tomou a mão de Cláudia com ambas as suas — um gesto que não era aperto de mão nem beija-mão, mas algo entre os dois que transmitia respeito sem subserviência.
— Encantado, Cláudia. Isabela me preparou para muitas coisas, mas não para a semelhança entre vocês.
Cláudia pestanejou. Um segundo — talvez menos. Mas Isabela, que conhecia cada micromovimento do rosto da mãe como quem lê jurisprudência, viu: o elogio aterrissou. Não porque Cláudia fosse vaidosa ao ponto da tolice, mas porque Rafael entregou a frase com a naturalidade de quem constata um fato, não de quem bajula. A diferença era cirúrgica.
— Charmoso — Cláudia disse, virando-se para Isabela com uma sobrancelha milimetricamente erguida. — Vejamos se é só na superfície.
Henrique desceu os degraus com menos cerimônia. Aperto de mão. Firme. Os dois mediram um ao outro em silêncio — dois homens comunicando em frequências que mulheres captam mas que eles juram que não existem.
— Bem-vindo, Rafael. Beba bastante água, o calor aqui engana. — Henrique olhou para a filha. — Isa, bom te ver. Você está magra.
— Obrigada, pai, eu também te amo.
Henrique quase sorriu. Quase.
Fernanda abraçou Isabela com braços macios e olhos tristes, sussurrou "depois a gente conversa" de um jeito que fez o estômago de Isabela se contrair. Marcos estendeu a mão para Rafael com um sorriso largo demais.
— Então você é o cara. — Marcos falou em tom de brincadeira que não era brincadeira. — A Isa é tão misteriosa com a vida pessoal que chegamos a achar que o namorado era invenção.
A frase pairou no ar como fumaça de charuto. Isabela sentiu a temperatura do corpo subir.
Rafael não perdeu um batimento.
— Isabela é discreta. É uma das coisas que mais admiro nela. — Pousou a mão nas costas dela — o ponto exato entre as omoplatas que eles tinham ensaiado. O toque atravessou o tecido fino da blusa como corrente elétrica disfarçada de gentileza. — E, pelo que ela me contou, discrição é uma virtude rara nesta família.
Marcos riu. Uma risada que mostrava dentes e escondia avaliação.
— Touché. Bom, pelo menos tem senso de humor. Vem, vou mostrar o bar. Isa, o gin aqui é da Provence, vai te curar da cara de cansaço.
Isabela abriu a boca para responder, mas antes que pudesse, uma voz cortou o ar com a precisão de uma lâmina fotográfica.
— Rafael.
Lucas. Parado a três metros, câmera no peito, a cabeça inclinada num ângulo que Isabela conhecia — o ângulo de avaliação, de catalogação, de Lucas decidindo se o que via era genuíno ou encenação.
— Lucas — Rafael respondeu. — Isabela falou muito de você.
— Engraçado. Dela eu ouvi quase nada sobre você. — Lucas deu um passo à frente. Estendeu a mão. Rafael apertou. — Mas adoro surpresas. Bem-vindo à loucura montenegrina.
Rafael assentiu com algo que, se Isabela não soubesse que era impossível, teria chamado de respeito genuíno.
Lucas soltou a mão. E, voltando-se para Isabela com os olhos de mel que eram espelho dos dela, disse em voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse:
— Ele é bonito, mana. Bonito demais. Gente bonita demais sempre esconde alguma coisa.
Isabela engoliu. Não tinha resposta para aquilo que não fosse uma confissão.
Felizmente, Cláudia salvou a situação com a eficiência involuntária de uma anfitriã nata.
— Vamos, vamos! Os quartos estão prontos, Marie fez limonada, o jantar é às oito. Isabela, vocês estão na suíte azul, segundo andar, vista para o mar. Toalhas no banheiro, lençóis de linho. — Cláudia deu uma piscadela que era para ser cúmplice e que Isabela recebeu como uma punhalada de constrangimento. — Lençóis de linho, querida. Para vocês dois.
Suíte azul. Cama de casal. Lençóis de linho. Para ela e o homem que pagara para estar ali.
Isabela subiu as escadas ao lado de Rafael, os dedos dele no cotovelo dela — o ponto combinado — e sentiu a brisa do Mediterrâneo nas costas como um empurrão suave em direção a uma semana que, a cada minuto, parecia mais um campo minado revestido de buganvílias e sal marinho.
No topo da escada, antes de entrar, ela olhou para trás. Lucas ainda estava no terraço, a câmera erguida, apontada para eles.
O click do obturador atravessou o ar quente da tarde como uma sentença sendo registrada.
E Isabela soube, com a certeza fria que só advogadas e mentirosas possuem, que aquela seria a semana mais longa da sua vida.
