CAPÍTULO 2Gratuito
O Príncipe e a Sombra
A ressaca moral do Rio de Janeiro é uma entidade física. Ela pesa sobre a cidade na manhã seguinte a uma grande festa, como uma névoa de culpa e oportunidade perdida.
No sábado de manhã, o sol batia impiedoso nas janelas sujas da redação da Folha Carioca, no Centro. O ar condicionado central roncava, lutando uma batalha perdida contra o calor de trinta e cinco graus às nove da manhã.
Júlia estava em sua mesa, cercada por pilhas de jornais, copos de café vazios e anotações frenéticas em post-its amarelos.
Na tela do computador, a foto de Marcelo Sampaio dominava a homepage de todos os portais. "A Nova Esperança do Rio". "Sampaio Lança Pré-Candidatura com Apoio Maciço do Empresariado". As fotos mostravam um homem iluminado, abraçando crianças pobres (provavelmente contratadas) e apertando mãos de homens ricos.
— Ele é teflon, Júlia — Ricardo, seu editor, jogou uma pilha de provas na mesa dela, interrompendo seu transe de ódio. Ricardo era um homem de cinquenta anos, com a pele curtida por décadas de jornalismo policial e cigarros baratos. Ele já vira heróis virarem vilões tantas vezes que perdera a capacidade de se surpreender, mas não a de se indignar.
— Ninguém é teflon, Ricardo. Nem o Papa. Todo mundo tem uma mancha. Uma fresta na armadura.
— O Marcelo tem o dono do jornal almoçando com ele todo domingo. Tem o Ministério Público comendo na mão dele. Tem a milícia fazendo a segurança "não oficial" dos comícios dele na Zona Oeste. Ele não tem frestas, ele tem fossos com crocodilos.
— Ele tem o Rodrigo — Júlia disse, apontando para uma foto menor, no canto de uma página social.
Na imagem, Rodrigo estava em segundo plano, focado em algo fora do quadro, enquanto Marcelo brilhava. A sombra atrás do príncipe.
— O Rodrigo é o ponto fraco. E o ponto forte. Ele é o operador. O Marcelo brilha, o Rodrigo sangra. Se eu pegar o Rodrigo, eu pego o Marcelo.
Ricardo suspirou, sentando-se na ponta da mesa.
— O Rodrigo Sampaio é perigoso de um jeito diferente, Júlia. Dizem que ele matou um cara numa briga de bar em Angra há cinco anos. Um playboy que insultou a mãe deles, a falecida Dona Lúcia. O inquérito sumiu. As testemunhas mudaram de cidade ou sofreram amnésia coletiva. Ele não é político. Ele é o executor. Se você for atrás dele, ele não vai te processar. Ele vai te fazer desaparecer.
— Ele é humano. — Júlia lembrou do olhar dele no mezanino. Da exaustão. — Eu vi nos olhos dele ontem. Ele não gosta do que faz. Ele faz por lealdade. Ou por culpa. Existe uma dívida ali, Ricardo. Uma dinâmica tóxica. Se eu descobrir a origem dessa lealdade... eu quebro o elo.
Júlia pegou sua bolsa e o gravador.
— Onde você vai? Não me diga que vai invadir a casa deles.
— Não. Vou encontrar uma fonte. Um ex-contador júnior da Fundação Sampaio. Tiago Santos. Ele me mandou um e-mail criptografado ontem à noite, depois da festa. Disse que tem documentos.
— Cuidado, Júlia. Por favor.
Júlia saiu para o forno da Avenida Rio Branco. O trânsito estava parado, um rio de metal fumegante. Ela pegou um táxi para a Lapa.
O local do encontro era um sebo de livros usados na Rua do Lavradio. Um lugar escuro, cheiroso a papel velho e mofo, onde o tempo parecia passar mais devagar.
Tiago Santos estava escondido atrás de uma estante de filosofia alemã. Ele era um garoto de não mais que vinte e dois anos, magro, com acne no rosto e olheiras que pareciam hematomas. Ele vestia um moletom com capuz, apesar do calor, e tremia como se estivesse em abstinência.
— Você trouxe o gravador? — ele sussurrou, os olhos disparando para a porta a cada segundo.
— Não. Só bloquinho. É mais seguro. Gravadores podem ser apreendidos. Minhas anotações são cifradas. O que você tem, Tiago?
— Planilhas. — Ele tirou um pen drive minúsculo do bolso, apertando-o na mão suada. — Cópias das doações "anônimas" do último trimestre. Elas não vêm de empresas de fachada normais. Vêm de laranjas ligados ao jogo do bicho da Baixada. E tem mais... tem pagamentos mensais saindo da conta da Fundação para uma conta numerada na Suíça.
— Em nome de quem?
— De uma offshore chamada "Fênix Negra". Mas a assinatura digital de autorização... a chave de acesso... é do Rodrigo.
Júlia sentiu a adrenalina disparar. Ela pegou o pen drive e o guardou dentro do sutiã, perto do coração.
— Isso é ouro, Tiago. Isso prova lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crime eleitoral. Podemos derrubar a candidatura antes mesmo de começar.
— Isso prova minha sentença de morte. — O garoto começou a chorar, lágrimas silenciosas correndo pelo rosto. — O Rodrigo... ele foi no meu apartamento ontem.
Júlia congelou.
— O Rodrigo Sampaio?
— Sim. Ele não arrombou. Ele tinha a chave. Ele estava sentado no meu sofá quando eu cheguei da faculdade. Ele não gritou. Ele não me bateu. Ele nem estava armado, eu acho. Ele só me ofereceu um copo d'água.
Tiago engoliu em seco, revivendo o terror.
— Ele disse: "O Marcelo gosta de lealdade, Tiago. A Fundação é uma família. E família não trai". Ele falou com uma calma... uma calma terrível, Dona Júlia. Como se estivesse discutindo o tempo. Ele disse que sabia da minha mãe doente em Duque de Caxias. Sabia o nome do remédio dela.
— É terror psicológico. Ele quer te assustar.
— Funcionou! Eu não quero morrer!
— Eu vou te proteger, Tiago. Vou falar com um promotor de confiança no Ministério Público. Vamos conseguir inclusão no programa de proteção a testemunhas hoje mesmo.
— Você não entende! — Tiago aumentou a voz, histérico. — O MP é deles! A Polícia é deles! Não tem proteção!
Nesse momento, o sino da porta do sebo tocou. Um som agudo, alegre, que soou como um tiro naquele ambiente tenso.
Tiago olhou para a entrada. Seus olhos se arregalaram em pânico absoluto.
— Eles.
Júlia olhou.
Dois homens entraram. Eram grandes, usavam camisas polo apertadas e calças táticas. Tinham o cabelo cortado em estilo militar e aquela postura inconfundível de "polícia mineira" — policiais fora de serviço que trabalham como seguranças ou milicianos.
Eles não olharam para os livros. Olharam direto para o fundo da loja. Direto para Tiago.
— Corre — Júlia sussurrou, empurrando o garoto. — Pelos fundos. Vai!
Tiago não precisou ouvir duas vezes. Ele disparou como um coelho assustado, derrubando uma pilha de livros de Direito.
— EI! PARADO AÍ! — um dos homens gritou, sacando uma pistola da cintura.
Júlia fez a única coisa que podia. Ela empurrou uma estante pesada de madeira maciça no caminho dos homens. A estante tombou com um estrondo de trovão, espalhando poeira e clássicos da literatura pelo chão, criando uma barreira momentânea.
— VADIA! — um dos homens gritou, tropeçando em Nietzsche e Kant.
Júlia correu atrás de Tiago. Eles saíram pela porta dos fundos, num beco estreito e malcheiroso da Lapa.
Tiago já estava lá na frente, virando a esquina.
Júlia tentou segui-lo, mas ouviu os passos pesados atrás dela. Ela se escondeu atrás de uma caçamba de lixo.
Os dois homens passaram correndo, armas em punho, ignorando-a. Eles queriam o garoto.
Júlia esperou, o coração batendo na garganta. Ela ouviu gritos. Ouviu o som de um carro cantando pneu. E depois, silêncio.
Ela saiu do esconderijo. O beco estava vazio. Tiago tinha sumido.
Seu celular tocou no bolso. O som a fez pular.
Número desconhecido.
Ela atendeu, a mão tremendo.
— Alô?
— Eu avisei para não brincar com fogo, Júlia. — A voz de Rodrigo. Calma. Fria. Controlada.
— Onde ele está? — Júlia gritou. — O que vocês fizeram com ele?
— Ele está sendo... reeducado. Esqueça o pen drive. Esqueça a matéria. Queime tudo.
— Eu vou publicar! Eu vou acabar com vocês!
— Não, você não vai. Porque se você publicar uma linha... a próxima ligação não será para o seu telefone. Será para o IML, para você ir reconhecer um corpo. E não será o do Tiago.
A linha caiu.
Júlia ficou parada no beco sujo, sentindo o calor do pen drive contra a pele. Ela tinha a prova do crime. Mas o preço da verdade acabara de subir drasticamente. E ela não sabia se tinha saldo para pagar.
