CAPÍTULO 3Gratuito
O Baile das Máscaras
Três dias. Setenta e duas horas de silêncio.
Desde o desaparecimento de Tiago Santos no beco da Lapa, Júlia Tavares vivia num estado de paranoia induzida por cafeína e medo. Ela não dormia em casa. Alternava entre o sofá de Ricardo e um hotel barato na Glória, pagando em dinheiro vivo.
Ela verificou hospitais, delegacias e o IML. Nada. Tiago tinha evaporado.
Na quarta-feira à tarde, um envelope chegou à redação da Folha Carioca, endereçado a ela. Papel creme, gramatura alta, brasão dourado em relevo.
Era um convite.
O Senhor Marcelo Sampaio tem a honra de convidar V.Sa. para o Baile de Gala Beneficente de Inverno no Copacabana Palace.
Dentro do convite formal, um cartão de visita preto com uma única frase manuscrita em tinta branca:
"Traga o pen drive. Vamos conversar. - R."
Não era um convite. Era uma intimação. Uma convocação para a cova do leão.
— É uma armadilha, Júlia — Ricardo disse, analisando o cartão. — Eles querem te atrair para um lugar controlado, pegar o pen drive e te jogar num porta-malas.
— É o Copacabana Palace, Ricardo. Vai ter imprensa, embaixadores, celebridades. Eles não podem me sequestrar no meio de um baile de gala.
— Eles podem tudo. Eles são os Sampaio.
— É a única chance de saber se o Tiago está vivo. O Rodrigo quer negociar. Se ele quisesse me matar, já teria feito. Ele sabe onde eu trabalho.
Júlia tomou sua decisão. Ela iria. Mas não iria indefesa.
Ela passou a tarde se preparando. Comprou um vestido vermelho sangue, longo, com uma fenda profunda que permitia correr se necessário. Não era um vestido de festa; era uma armadura de seda. Prendeu o cabelo num coque severo. Fez uma maquiagem que endurecia seus traços.
Ela fez três cópias do conteúdo do pen drive. Uma ficou com Ricardo. Outra foi enviada para um servidor seguro na nuvem. A terceira, ela colocou numa bolsa de mão minúscula, cravejada de cristais falsos.
— Se eu não te ligar até meia-noite — ela disse a Ricardo na porta da redação —, publique tudo. O texto está pronto na pasta "Rascunhos".
— Júlia...
— Meia-noite, Ricardo.
Às nove da noite, o Copacabana Palace parecia um castelo de fadas erguido no meio do caos carioca. Holofotes varriam o céu. Limusines e carros blindados formavam uma fila na Avenida Atlântica.
Júlia desceu do táxi. A segurança na entrada checou seu nome na lista. Ela prendeu a respiração.
— Senhorita Tavares — o segurança disse, sem expressão. — VIP. Pode entrar.
Ela entrou. O salão nobre era um delírio dourado. Lustres gigantescos, garçons servindo champanhe em taças de cristal, uma orquestra tocando valsas de Strauss. A elite do Rio usava máscaras venezianas — plumas, paetês, bicos longos. Era um baile de máscaras. A metáfora perfeita para uma cidade onde ninguém mostra a verdadeira face.
Ela viu Marcelo. Ele estava no centro do salão, usando uma máscara dourada em forma de sol. Ele ria, gesticulava, o rei sol de um império de lama.
Mas Júlia não procurava o sol. Ela procurava a sombra.
Ela circulou pelo salão, recusando taças de champanhe. Seus sentidos estavam em alerta máximo.
Uma mão tocou seu cotovelo nu. O toque foi suave, mas firme como uma algema de aço.
— Vermelho — uma voz sussurrou em seu ouvido, causando um arrepio na nuca. — Uma cor ousada para quem deveria estar invisível.
Júlia se virou.
Rodrigo Sampaio estava atrás dela. Ele vestia um smoking preto impecável. No rosto, uma máscara negra, simples, que cobria apenas a área dos olhos, dando-lhe a aparência de um carrasco ou de um bandido de estrada de luxo.
— Onde está o Tiago? — Júlia perguntou, ignorando o elogio.
— Vamos dançar.
— Eu não vim aqui para dançar com você, Rodrigo. Eu vim pelo garoto.
— Sorria, Júlia. Estamos sendo observados. Se você fizer uma cena, meus seguranças vão te tirar daqui por "embriaguez e desordem". E aí, a conversa acaba.
Ele pegou a mão dela e a puxou para a pista de dança. A orquestra começou a tocar uma valsa lenta e melancólica.
Rodrigo colocou a mão na cintura dela, puxando-a para perto. O corpo dele era duro, tenso, irradiando um calor que atravessava o tecido fino do vestido dela. Ele conduzia com uma autoridade absoluta.
— Vocês são monstros — ela sibilou, mantendo um sorriso falso congelado no rosto para os fotógrafos. — O garoto tem vinte anos. A mãe dele está doente.
— O garoto roubou a família. Ele baixou arquivos confidenciais e tentou vendê-los para a imprensa. No nosso mundo, a pena para traição é capital. Ele sabia disso quando aceitou o emprego.
— Você o matou? — A pergunta saiu como um gemido.
Rodrigo girou-a na pista. O movimento foi fluido, quase violento.
— Eu o coloquei num ônibus para o Paraguai ontem à noite. Dei a ele cinco mil dólares e um passaporte falso. Disse para ele nunca mais voltar ao Brasil. Se ele for esperto, está em Assunção agora, vendendo eletrônicos.
Júlia parou de dançar por um segundo, perdendo o passo. Ela olhou nos olhos dele através da máscara negra. Eram poços escuros, insondáveis.
— Por quê? — ela perguntou.
— Porque eu não sou o monstro que você acha que eu sou.
— Você é o Lobo. Você faz o serviço sujo.
— Eu sou o escudo, Júlia. Eu aparo os golpes para que o Marcelo possa governar. Mas eu não mato crianças se eu puder evitar. E eu sabia que se ele morresse... você não pararia. Você viraria uma mártir. Uma cruzada. E eu não posso deixar você destruir o Marcelo.
— Você o protege. Sempre. Por quê? Ele te usa, Rodrigo. Ele é o príncipe narcisista, você é o cão de guarda. Ele despreza você.
— Ele é meu irmão. — A voz de Rodrigo endureceu. — E ele é a única coisa que impede o Rio de virar o caos total. O Marcelo é corrupto? Talvez. Mas ele mantém a ordem. Ele negocia. Sem ele, as facções se matam nas ruas. A milícia toma o Palácio Guanabara. É o mal menor.
— Não existe mal menor. Existe o mal. E você faz parte dele. Você é cúmplice.
— Todos somos cúmplices neste país, Júlia. Até você, que vende jornal com a desgraça alheia.
A música chegou a um crescendo. Eles estavam no centro do salão, girando sob os cristais, uma mancha vermelha e preta no mar de ouro.
— Me dê o pen drive — Rodrigo disse, parando a dança.
— Não.
— Júlia... olhe para cima. Mezanino. Duas horas.
Júlia olhou discretamente. Dois homens de terno observavam. Eram os mesmos que invadiram o sebo. Os assassinos.
— Se você sair daqui com esse pen drive, você não chega em casa. O Marcelo deu a ordem hoje de manhã. "Resolva o problema da jornalista. Definitivamente".
Júlia sentiu o sangue gelar.
— Ele mandou me matar?
— Ele mandou resolver. Eu estou tentando resolver do meu jeito. O jeito que te mantém respirando.
Rodrigo aproximou o rosto do dela. Seus lábios roçaram a orelha dela.
— Me dê o pen drive. Eu prometo... eu juro pela memória da minha mãe... que vou investigar as creches pessoalmente. Vou garantir que o dinheiro chegue onde deve. Vou limpar essa sujeira específica. Mas não publique isso agora. Não destrua a eleição. Se o Marcelo cair agora, o vácuo de poder vai gerar uma guerra civil.
— Você quer que eu me venda? Que eu traia minha profissão?
— Eu quero que você sobreviva. E quero salvar o que resta da alma do meu irmão. Por favor.
Júlia olhou para Rodrigo. Viu a tensão na mandíbula dele. Viu o suor na testa. Ele estava jogando um jogo perigoso, desobedecendo uma ordem direta de Marcelo para salvá-la.
Ela pensou em Tiago, vivo no Paraguai. Pensou em Ricardo, esperando a ligação.
Ela tomou uma decisão.
Ela abriu a bolsa de mão. Tirou o pen drive prateado.
Ela pegou a mão de Rodrigo e colocou o dispositivo na palma dele, fechando os dedos dele ao redor do metal frio.
— Se o Tiago estiver morto... ou se você estiver mentindo sobre as creches... eu tenho cópias. E da próxima vez, Rodrigo, eu não trago um pen drive para o baile. Eu trago um isqueiro e gasolina.
Rodrigo segurou a mão dela por um segundo a mais do que o necessário.
— Obrigado.
Ele se inclinou e beijou o rosto dela, um toque suave e inesperado.
— Saia daqui, Júlia. Agora. Antes que o Marcelo perceba que eu não cumpri a ordem original.
Ele soltou a mão dela e se afastou, desaparecendo na multidão de máscaras, levando a prova do crime.
Júlia ficou sozinha no meio do salão. Ela se sentia nua, exposta e estranhamente viva. Ela tinha acabado de fazer um pacto com o diabo. E, no fundo de sua alma jornalística, ela sabia que aquela dança estava longe de acabar.
