CAPÍTULO 2Gratuito
Vestindo uma Morta
A água quente do chuveiro fazia pouco para relaxar os músculos tensos de Sophia. Ela fechou os olhos, tentando processar as últimas horas, mas a imagem de Marina Santos continuava queimando atrás de suas pálpebras. Aquele rosto. *Seu* rosto.
Não era apenas semelhança. Era como olhar para um espelho.
O vapor embaçava os vidros do banheiro quando ela finalmente saiu, envolta em um roupão de seda que encontrara no guarda-roupa — ainda com etiqueta da Loro Piana. Tudo naquele apartamento cheirava a novo, intocado, como se tivesse sido preparado especificamente para ela.
*Ou para alguém que se parecia com ela.*
Às 19h45, Sophia estava diante do guarda-roupa, observando as roupas que inexplicavelmente estavam em seu tamanho perfeito. Vestidos de grife, sapatos, até lingerie. Tudo azul, em diferentes tonalidades.
*"Use algo azul. É minha cor favorita."*
Um calafrio percorreu sua espinha. Ela escolheu um vestido midi de seda azul-petróleo — o menos revelador que encontrou — e sandálias douradas. Manteve a maquiagem suave, os cabelos soltos em ondas naturais. Quando se olhou no espelho, por um momento viu Marina olhando de volta.
A campainha tocou exatamente às 20h.
Alexander estava impecável em um terno azul-marinho sem gravata, os três primeiros botões da camisa branca abertos. Seus olhos percorreram Sophia com uma intensidade que a fez corar.
— Perfeita — ele murmurou, estendendo uma caixa de veludo azul. — Um presente de boas-vindas.
Dentro, um colar de safiras e diamantes que provavelmente custava mais que seu carro.
— Alexander, eu não posso aceitar isso—
— É um empréstimo — ele interrompeu suavemente, pegando o colar. — Para combinar com o vestido.
Quando seus dedos roçaram a nuca dela ao fechar o fecho, Sophia sentiu um arrepio involuntário. Alexander percebeu, um sorriso mínimo curvando seus lábios.
— Pronta para conhecer a realeza de Sapphire Cove?
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A mansão dos Pemberton era uma catedral de vidro e mármore construída diretamente sobre o penhasco. Centenas de lanternas japonesas flutuavam sobre a piscina infinita, criando um reflexo de estrelas na água. Garçons em smokings brancos circulavam com champanhe Cristal e canapés que eram obras de arte comestíveis.
— Os Pemberton são velha riqueza — Alexander explicou em voz baixa enquanto atravessavam o terraço lotado. — Richard fez fortuna em tecnologia nos anos 90, mas Vivienne vem de dinheiro de petróleo do Texas. Ela é... exigente sobre quem entra em seu círculo.
Como se invocada, uma mulher surgiu das sombras. Vivienne Pemberton tinha uns sessenta anos, mas sua pele esticada e cabelos platinados perfeitamente cortados faziam parecer uma boneca de porcelana. Seus olhos castanhos eram afiados como bisturis.
— Alexander, querido — ela beijou o ar perto das bochechas dele. — Finalmente. E esta deve ser a famosa nova curadora.
Havia algo em sua voz que fez Sophia se endireitar.
— Sophia Winters — Alexander colocou a mão nas costas dela, possessivo. — Sophia, Vivienne Pemberton, nossa maior colecionadora e patrona das artes em Sapphire Cove.
— Winters — Vivienne repetiu, seus olhos se estreitando. — Que nome... comum. Mas o rosto... — ela inclinou a cabeça, estudando Sophia como se fosse uma pintura. — O rosto é extraordinário. Não acha, Richard?
Um homem alto e grisalho apareceu ao lado dela, segurando dois copos de martini. Richard Pemberton tinha o tipo de beleza envelhecida que vinha de bons genes e melhores cirurgiões.
— Extraordinário mesmo — ele concordou, seus olhos demorando-se mais do que o apropriado no decote de Sophia. — Bem-vinda a Sapphire Cove, Srta. Winters. Espero vê-la frequentemente.
— Richard — uma voz cortante fez todos se virarem. Uma mulher de uns quarenta anos, loira impecável em um vestido vermelho justo, avançou sobre eles. — Apresentando-se à nova vítima?
— Celeste — Vivienne suspirou. — Seja civilizada.
— Sempre sou — Celeste Hartley sorriu, mas não havia calor no gesto. Ela era bonita de um jeito predatório, como um gato estudando um pássaro. — Celeste Hartley. Moro três casas abaixo dos Blackwood. Ou morava, antes de meu ex-marido decidir que preferia sua secretária de vinte e dois anos.
— Divorciada há seis meses e ainda amarga — Richard murmurou para ninguém em particular.
— Ouvi isso, Richard — Celeste pegou uma taça de champanhe de uma bandeja passante. — Sophia, querida, um conselho: em Sapphire Cove, os homens são lindos, ricos e absolutamente tóxicos. Especialmente os Blackwood.
Alexander tensionou ao lado de Sophia.
— Você está bêbada, Celeste.
— Estou lúcida — ela retrucou. — Pela primeira vez em anos. E posso ver exatamente o que você está fazendo. De novo.
Antes que Alexander pudesse responder, um grito agudo cortou o ar.
— ALEXANDER!
Uma mulher jovem atravessava a multidão como um furacão. Cabelos loiros platinados, corpo esguio em um vestido branco que mais parecia lingerie, saltos impossíveis. Ela se jogou nos braços de Alexander, que a afastou gentilmente mas firmemente.
— Isabella — sua voz era cuidadosamente neutra. — Não sabia que você estaria aqui.
— É claro que estou! — ela fez beicinho, então seus olhos azuis gelados pousaram em Sophia. — Quem é *esta*?
— Sophia Winters, nossa nova curadora — Alexander fez as apresentações com um suspiro quase imperceptível. — Sophia, Isabella Crane. Ela... frequenta a galeria.
— Frequento — Isabella ecoou, seu braço entrelaçando-se possessivamente no de Alexander. — Sou muito próxima da família Blackwood. *Muito* próxima.
A mensagem estava clara. Sophia sentiu uma pontada de... ciúmes? Irritação? Ela mal conhecia Alexander.
— É um prazer — Sophia disse diplomaticamente.
— Hmm — Isabella a estudou da cabeça aos pés. — Cabelos bonitos. Naturais?
— Isabella — Alexander a advertiu.
— O quê? Estou sendo amigável! — ela se virou para Sophia novamente. — Você se parece com alguém que conheci. Não consigo lembrar quem...
— Chega — Alexander a cortou, sua voz subitamente afiada. — Sophia, vamos buscar bebidas.
Ele a guiou para longe, sua mão firme em suas costas. Sophia podia sentir os olhos de Isabella perfurando suas costas.
— Peço desculpas por Isabella — Alexander disse quando estavam longe. — Ela é... persistente.
— Ex-namorada?
— Deus, não — ele pareceu genuinamente horrorizado. — Ela tem vinte e um anos e a maturidade emocional de uma adolescente. Seu pai é dono da metade dos hotéis em Malibu, então somos obrigados a tolerá-la.
Antes que Sophia pudesse responder, uma nova voz os interrompeu.
— Bem, bem. A substituição.
Nicholas Blackwood estava encostado no bar, um copo de uísque na mão. Ele havia trocado a camiseta por uma camisa preta de linho, mas mantinha a mesma aura de perigo controlado. Seus olhos verdes estavam fixos em Sophia.
— Nicholas — Alexander disse friamente. — Pensei que você odiasse estas festas.
— Odeio — Nicholas tomou um gole lento. — Mas não perderia a estreia de Sophia na sociedade de Sapphire Cove por nada. Como está indo? Todos sendo adoráveis e civilizados?
— Na verdade, sim — Sophia respondeu, encontrando seus olhos.
— Dê tempo — ele sorriu, mas havia tristeza no gesto. — A civilidade aqui é apenas uma camada fina sobre a podridão.
— Você está bêbado — Alexander disse.
— Estou sóbrio — Nicholas corrigiu. — O que é pior. Sóbrio, eu me lembro de tudo.
Ele empurrou-se do bar, aproximando-se de Sophia até estar perto demais. Ela podia sentir o calor dele, o cheiro de algo amadeirado e selvagem.
— Você ainda está linda — ele disse suavemente, e por um momento Sophia teve certeza de que ele não estava falando com ela. — Mesmo vestindo as roupas dela.
— Do que você está falando? — Sophia sussurrou.
— Pergunte ao meu irmão sobre o guarda-roupa — Nicholas recuou, seus olhos encontrando os de Alexander. — Diga a ela, Alex. Diga de quem eram aquelas roupas antes.
Alexander ficou pálido.
— Você não sabe do que está falando.
— Não? — Nicholas riu, amargo. — Então por que você manteve tudo? Por três anos, você manteve o apartamento dela intocado, como um maldito santuário. E agora coloca uma substituta lá, vestindo as roupas dela, usando as joias dela—
Ele agarrou o colar no pescoço de Sophia, e ela ofegou.
— Este colar. Marina usava este colar na noite em que morreu.
O mundo pareceu parar. Sophia olhou para Alexander, esperando que ele negasse, que explicasse. Mas ele estava congelado, sua máscara finalmente rachada.
— É verdade? — ela sussurrou.
Antes que Alexander pudesse responder, Nicholas puxou Sophia para longe.
— Vem comigo. Agora.
— Nicholas, solte-a — Alexander ordenou, sua voz perigosa.
— Ou o quê? Vai me bater de novo? — Nicholas o desafiou. — Na frente de toda Sapphire Cove?
A multidão começou a perceber a tensão, cabeças se virando. Vivienne Pemberton observava com interesse faminto, como se estivesse assistindo a um espetáculo.
— Por favor — Sophia disse em voz baixa, para ambos. — Não aqui.
Nicholas a soltou, mas seus olhos permaneceram em Alexander.
— Meia-noite — ele disse apenas para Sophia. — Penhasco dos Sussurros. Se você quer a verdade.
Ele desapareceu na multidão, deixando Sophia tremendo.
Alexander finalmente se moveu, sua mão tocando suavemente o braço dela.
— Sophia, eu posso explicar—
— O apartamento — ela o interrompeu, sua voz surpreendentemente firme. — Era dela?
Um longo silêncio.
— Sim.
A palavra caiu como uma pedra. Sophia recuou, e Alexander a seguiu.
— Mas não é o que você está pensando—
— E as roupas? O colar?
— Sophia—
— Você me trouxe aqui de propósito — ela disse, e não era uma pergunta. — Por causa da minha semelhança com ela.
— Não — Alexander disse fervorosamente. — Sim. No começo. Mas depois que vi seu trabalho, seu talento—
— Você está mentindo — Sophia sentiu lágrimas queimando, mas se recusou a deixá-las cair. Não aqui, na frente de todos. — Você me trouxe aqui para substituir uma mulher morta.
— Eu trouxe você aqui porque você merecia a oportunidade — Alexander tentou segurar sua mão, mas ela se afastou. — E porque sim, você se parece com ela. Mas você não é ela, Sophia. Você é—
— Uma substituta conveniente? — ela completou, sua voz cortante. — Uma boneca de reposição para você vestir e exibir?
— Não — a voz dele quebrou. — Por favor, deixe-me explicar. Tudo. Apenas... não agora. Não aqui.
Sophia olhou ao redor. Dezenas de olhos curiosos os observavam. Celeste Hartley sorria por trás de sua taça. Isabella parecia confusa e furiosa. Vivienne Pemberton tomava notas mentais, seu rosto uma máscara de fascínio.
— Me leve de volta — Sophia disse finalmente. — Agora.
O caminho de volta foi feito em silêncio. Alexander dirigia rápido demais, sua mandíbula tensa. Quando pararam no Edifício Coral, ele finalmente falou:
— Marina era especial. Mas ela está morta, Sophia. E você... você é viva. Real. Melhor.
— Melhor? — Sophia riu sem humor. — Porque sou obediente? Porque não vou morrer inconvenientemente e estragar seus planos?
— Porque você é você — ele disse desesperadamente. — Por favor. Dê-me uma chance de explicar. Amanhã, com calma. Eu conto tudo.
Sophia olhou para ele, para este homem bonito e quebrado que havia orquestrado sua vida sem ela saber.
— Boa noite, Alexander — ela disse, saindo do carro.
— Sophia—
Ela fechou a porta e entrou no prédio sem olhar para trás.
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No apartamento silencioso, Sophia ficou parada por longos minutos. Então, metodicamente, começou a arrancar as roupas do guarda-roupa. Cada vestido azul, cada sapato perfeitamente numerado. As roupas de uma mulher morta.
As roupas de Marina.
Às 23h45, Sophia estava vestida com suas próprias roupas — jeans e uma camiseta que havia trazido de Nova York. Pegou as chaves do Porsche e desceu.
Se ia descobrir a verdade sobre Marina Santos, seria nos próprios termos dela.
O Penhasco dos Sussurros a esperava na escuridão.
E Nicholas Blackwood tinha muito o que explicar.
