CAPÍTULO 2Gratuito
O Que a Maré Trazia
PASSADO — Terça-feira | 7 anos atrás
O barco de transferência chegou ao porto de Santo Antônio com vinte minutos de atraso, e Felipe foi o primeiro a desembarcar.
Isso era típico de Felipe — ele tinha o instinto de estar sempre na frente, como se a vida fosse uma fila em que a posição importava. Desceu a rampa com a mochila nas costas e o cílios entornados contra o sol de novembro, e quando pisou no cais de Fernando de Noronha ele esticou os braços para o lado como quem abraça o próprio horizonte.
"Aqui estamos", disse, para ninguém específico e para todos ao mesmo tempo.
O grupo desembarcou atrás dele em ordem aproximadamente aleatória: Camila prendendo o cabelo com uma mão e segurando a bolsa com a outra, Lucas ajudando Thiago com uma das malas de equipamento fotográfico, Marina olhando ao redor com aquela atenção silenciosa que ela tinha, como se estivesse catalogando. Ana veio por último, de óculos escuros e fone de ouvido no pescoço, o caderninho já na mão.
Rafael desceu sozinho, alguns passos atrás, e ficou parado no cais por um momento antes de seguir o grupo.
Era terça-feira. Tinham quatro dias pela frente.
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O traslado para a pousada levou quinze minutos por uma estrada estreita entre morros de vegetação seca e pedras escurecidas pelo vento marinho. No banco da frente do buggy alugado, Felipe apontava coisas com entusiasmo — "Olha aquela formação", "Dá para ver a Baía dos Porcos daqui", "Dizem que no fim do dia esse caminho fica cor de sangue por causa do sol" — e havia na voz dele uma energia que era difícil ignorar. Era o tipo de pessoa que preenchia o espaço. Não de maneira agressiva; era mais sutil que isso. Era como se, na presença de Felipe, o ar ficasse levemente mais denso.
Camila ria das coisas que ele dizia. Ela estava sentada do lado dele no banco do meio e ria com o corpo inteiro, jogando a cabeça para trás, e de tempos em tempos ele olhava para ela com um sorriso que era ao mesmo tempo afetuoso e proprietário.
No banco de trás, Thiago tinha a câmera no colo e fotografava pela janela. Clique, clique. A rocha. A vegetação. O céu largo. Thiago fotografava de uma maneira que parecia reflexa — como outros coçam a cabeça ou tamborilam os dedos. O obturador era uma extensão do pensamento dele.
Rafael olhava pela janela do outro lado e não dizia nada.
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O quarto de Felipe e Camila era o maior — "Sênior suite", ele tinha dito, quando fez as reservas. "Vocês vão adorar, eu conheço o dono." Esse era outro traço de Felipe: ele sempre conhecia o dono, o gerente, o sócio. O mundo dele era uma rede de conhecimentos úteis, e ele usava esses conhecimentos de maneira que parecia generosa mas que carregava uma subtensão de favor — de débito.
No primeiro dia, isso não pesava. No primeiro dia, era só um grupo de amigos numa ilha bonita, desmanchando malas e debatendo qual praia ir primeiro.
Felipe tinha uma opinião sobre cada praia. Ele sempre tinha uma opinião.
"Baía do Sancho de manhã cedo", ele disse, durante o almoço no terraço da pousada. "É a única hora que vale. Depois das dez vira bagunça."
"Eu queria ver a Atalaia à tarde", disse Ana, sem levantar os olhos do cardápio.
"Atalaia você pode ver qualquer hora." Felipe disse isso com um tom que não era de descortesia — era de autoridade. Como quem tem mais informação. "Mas não perca o Sancho cedo, Ana. Sério."
Ana o olhou por um segundo acima dos óculos. "Certo."
Thiago fotografou essa troca sem que nenhum dos dois percebesse. Depois baixou a câmera e olhou para a tela — a foto tinha ficado boa. A expressão de Ana era exatamente o que ele queria: não raiva, não concordância. Algo entre os dois, uma resistência contida.
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Havia uma dinâmica no grupo que qualquer observador externo levaria alguns horas para mapear, mas que Thiago — que era, por profissão e por natureza, um observador externo mesmo quando estava dentro — já tinha mapeado nos primeiros meses de faculdade.
Felipe era o centro de gravidade. Não por mal — pelo menos Thiago não achava que era por mal, não conscientemente. Era uma qualidade que algumas pessoas simplesmente tinham: um tipo específico de carisma que funcionava como massa, que curvava o espaço ao redor. As pessoas orbitavam Felipe mesmo sem perceber que estavam orbitando.
Camila era a mais próxima. Namoravam há dois anos, e havia entre eles a familiaridade íntima de quem passou por muitas noites juntos, mas também uma tensão que Thiago reconhecia — a tensão de dois planetas que orbitam muito perto um do outro, cuja gravidade mútua às vezes é abraço e às vezes é trituração.
Ana era a mais independente. Ela participava do grupo sem nunca ceder o centro de si mesma — mantinha sempre uma parte reservada, observava com aquela atenção jornalística que às vezes parecia clínica. Era a amiga de todos sem ser propriedade de ninguém. Felipe gostava de Ana, mas havia entre eles um respeito que guardava distância.
Lucas era o mediador. Quando as tensões subiam — e sempre subiam, em grupos assim — era Lucas quem fazia a piada certa, quem propunha o desvio de assunto, quem oferecia outra rodada de drinks. Era o tipo de pessoa que aprendera cedo que o conflito era perigoso e que a paz, mesmo a artificial, era preferível.
Rafael era a incógnita.
Thiago tinha dificuldade de ler Rafael. Eram amigos — ou pelo menos se chamavam de amigos, que às vezes é a mesma coisa e às vezes não é. Rafael era inteligente, cuidadoso, ambicioso da maneira silenciosa que às vezes era mais perigosa do que a ambição barulhenta. Ele e Felipe tinham história — estudado juntos no mesmo cursinho, passado no mesmo curso de Direito, trabalhado por um semestre no mesmo escritório antes de Rafael mudar de empresa. Uma história paralela que em algum momento tinha se cruzado de uma maneira que Thiago não sabia exatamente qual.
No buggy, Rafael tinha olhado pela janela em silêncio.
Na mesa do almoço, Rafael comeu de bom humor, fez piadas, pediu a segunda rodada de suco. Mas quando Felipe falou sobre as praias — aquele tom de autoridade benevolente — Rafael ficou quieto por um segundo antes de sorrir. E o silêncio antes do sorriso era visível, se você soubesse onde olhar.
Thiago sabia onde olhar.
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À tarde foram à Praia do Cachorro porque era perto e a maré estava baixa. Felipe entrou na água imediatamente, nadando com a facilidade de quem cresceu no litoral. Camila ficou na beira, molhando os pés, fotografando ele com o telefone.
Marina ficou sentada numa pedra afastada, lendo.
Ana andou ao longo da linha d'água sozinha, com os pés na água rasa, olhando para o horizonte como quem está pensando em outra coisa.
Lucas e Thiago jogaram frescobol por vinte minutos até Lucas errar uma raquetada e a bola ir para o mar. Ficaram rindo enquanto esperavam a maré trazê-la de volta.
Rafael ficou na areia, de costas para a água, olhando para os morros.
Não nadou. Não jogou frescobol. Ficou na areia.
Thiago levantou a câmera e fotografou o grupo inteiro numa composição — Felipe ao fundo na água, Camila na beira, Ana caminhando, Marina na pedra, Lucas rindo, Rafael de costas.
Depois olhou para a foto na tela pequena.
Havia algo naquela imagem que o incomodou. Não conseguiu nomear o quê — era uma sensação, não um pensamento. A sensação de que aqueles seis corpos naquele espaço formavam uma geometria que não estava em equilíbrio.
Guardou a câmera e foi nadar.
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No final da tarde, quando voltavam para a pousada no buggy empoeirado, Felipe disse algo que Thiago quase não ouviu por cima do barulho do vento.
Estava dizendo para Rafael, num tom casual, quase de passagem.
"Aquele seu antigo sócio, o Bernardo — você ainda tem contato com ele?"
Rafael virou levemente a cabeça. "Por quê?"
"Ouvi umas coisas." Felipe deu de ombros. "Nada concreto. Só curiosidade."
Rafael ficou em silêncio por um momento. "Não tenho mais contato, não."
"Ah." Felipe olhou para frente, para a estrada. "Tudo bem."
Não era tudo bem. Thiago não sabia exatamente o que não era, mas reconhecia o peso específico de uma conversa que parece casual e não é. Reconhecia o jeito que Rafael segurou a alça do banco — firme demais — enquanto Felipe olhava para a estrada com um sorriso tranquilo.
A ilha estava cor de sangue, como Felipe tinha previsto.
Thiago não tirou foto.
