CAPÍTULO 3Gratuito
O Que Não Se Diz à Mesa
PRESENTE — Dia 1 | Noronha
O restaurante da pousada tinha uma varanda com vista para o mar que às oito da noite estava iluminada por lanternas de palha e cheirava a peixe grelhado com limão. Era o tipo de lugar que aparecia em matérias de viagem com frases como "ambiente acolhedor" e "culinária local com toque contemporâneo". Eu tinha lido a descrição no site antes de reservar e na época me pareceu perfeito — neutro o suficiente para não evocar memórias específicas.
Não tinha previsto que a memória não precisa de gatilhos específicos. A memória de Noronha era onipresente como o barulho do mar.
Cheguei cinco minutos antes das oito e todos já estavam lá, exceto Thiago.
A mesa era redonda — deliberadamente escolhi uma mesa redonda, sem cabeceira, sem hierarquia geométrica. Camila estava ao lado de Marina; Lucas do outro lado; Rafael num ângulo entre eles. Um assento vazio esperava por mim, e outro esperava por Thiago.
"Ele respondeu alguma coisa?" perguntei, me sentando.
"Mandei mensagem às sete e meia", disse Camila. "Leu, mas não respondeu."
"Eu fui bater na porta antes de descer", disse Lucas. "Ouvi barulho lá dentro. Ele está no quarto, só não quer vir."
"Ou está cansado", disse Marina.
Essa era Marina: sempre a alternativa razoável. A hipótese que alivia. Não era necessariamente falso — Thiago poderia estar cansado. Mas havia algo na prontidão com que ela oferecia essa explicação que eu notei e cataloguei sem saber ainda o que fazer com a informação.
"Então vamos pedir", disse Rafael, e havia no tom dele uma determinação que era também um fechamento de assunto. Ele abriu o cardápio e o restante do grupo fez o mesmo.
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O jantar começou com a qualidade específica de conversas que existem para cobrir ausências.
Camila falou sobre um projeto que estava fazendo para uma marca de cosméticos — uma série de conteúdo sobre viagens. "Noronha ia aparecer mesmo assim", ela disse com um sorriso que era genuíno em partes, "então pelo menos estou aqui por uma boa razão." Ela tirou o telefone e fotografou o prato antes de comer.
Eu me perguntei se a boa razão era o trabalho ou se o trabalho era a boa razão.
Lucas falou sobre o hospital — um caso complicado que tinha fechado na semana anterior, uma cirurgia de doze horas. Falou com a precisão técnica que os médicos usam quando estão em modo seguro, descrevendo procedimentos em vez de sentimentos. Era uma maneira de estar presente sem se expor.
Rafael ouviu mais do que falou. Quando falou, foi sobre o escritório — um processo trabalhoso, um cliente difícil. Frases curtas, bem construídas, que não deixavam abertura para perguntas de acompanhamento.
Marina não falou sobre trabalho. Marina raramente falava sobre trabalho. Ela fez perguntas para os outros — boas perguntas, do tipo que demonstrava que ela tinha ouvido a resposta anterior — e enquanto ouvia mantinha uma expressão de atenção genuína que eu sabia, por ter vinte anos de convívio intermitente com ela, ser absolutamente real. Marina era de fato atenta. Era sua característica mais consistente.
Eu falei sobre uma reportagem que estava escrevendo para uma revista — uma investigação sobre práticas de turismo predatório em áreas protegidas. "Por isso Noronha também faz sentido", disse, e soava verdadeiro porque era verdadeiro, ainda que incompleto.
Ninguém perguntou o que era o restante.
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Às nove e meia, Camila olhou para o assento vazio de Thiago e disse, mais para si mesma do que para o grupo: "Ele vai aparecer amanhã."
Era mais um desejo do que uma afirmação.
"Sete anos é muito tempo", disse Lucas, de repente, sem que ninguém tivesse dito nada que justificasse a frase diretamente. Mas todo mundo entendeu a que ele se referia, porque naquela mesa havia um silêncio de fundo que a conversa superficial não conseguia preencher — a presença de uma ausência mais antiga do que a de Thiago.
Felipe.
Não tínhamos dito o nome. Não ainda. Mas Felipe estava naquela mesa com a mesma consistência do barulho do mar — fundo, constante, impossível de ignorar se você parar de fazer barulho suficiente para não ouvi-lo.
"É", disse Camila. Ela olhou para o copo de vinho. "É muito tempo."
Marina se virou levemente para a janela. Eu observei o perfil dela — a mandíbula, a linha do pescoço. Ela estava olhando para a escuridão lá fora, onde o mar ficava.
Rafael levantou o copo. "Por estarmos aqui", ele disse. Não era exatamente um brinde. Era mais uma tentativa de dar a alguma coisa um contorno que ela não tinha naturalmente.
Levantamos os copos. Chocamos. O som do cristal foi limpo e breve.
"Por estarmos aqui", eu repeti.
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Enquanto esperávamos a sobremesa, houve um momento de silêncio real — não o silêncio de pausa entre conversas, mas o silêncio de quando todo mundo para ao mesmo tempo. E nesse silêncio o mar ficou audível, largo e indiferente lá embaixo, e a brisa moveu as lanternas de palha projetando sombras que oscilavam nas paredes brancas.
Olhei para cada um deles.
Camila tinha os olhos levemente úmidos — ela estava tentando não demonstrar, olhando para a mesa com atenção excessiva na taça de vinho.
Lucas tinha a expressão fechada de quem contém alguma coisa, as mãos planas sobre a mesa.
Marina olhava para a janela com uma tranquilidade que era real demais — tranquilidade que tinha sido construída, não encontrada.
Rafael olhava para mim.
Quando nossos olhos se encontraram, ele não desviou imediatamente. Ficou me olhando por um segundo que era longo o suficiente para ser um recado, mas eu não sabia exatamente qual recado era. Depois desviou para o copo.
Eu anotei mentalmente: *Rafael me observa.*
Depois: *Ou eu o observo a ele.*
Depois: *Difícil distinguir quem está vigiando quem nessa mesa.*
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A sobremesa veio e foi embora. Pedimos café. Lucas bostejou e disse que estava morto de sono — "o plantão antes de vir foi pesado" — e esse foi o sinal para que a mesa se dissolvesse com a velocidade de quem estava esperando a desculpa certa.
Na escada de volta aos quartos, Camila me segurou pelo braço.
"Ana." A voz dela era baixa, mas não porque havia outras pessoas perto — era baixa porque o assunto pedia. "Você acha que Thiago está bem?"
Eu quis dizer: não sei. Era a resposta honesta. Mas havia outra pergunta embutida na dela — *você acha que Thiago vai falar sobre o que aconteceu?* — e eu não sabia responder essa tampouco.
"Acho que amanhã ele aparece", disse, usando as palavras que ela mesma tinha usado antes, devolvendo-as como um espelho.
Camila me olhou por um segundo. Depois acenou com a cabeça.
"Boa noite, Ana."
"Boa noite."
Fui para o quarto. Abri o caderno. Escrevi as impressões da noite enquanto ainda estavam frescas — as mãos de Lucas, o silêncio de Marina, o olhar de Rafael, o assento vazio de Thiago. A frase que ninguém disse mas que estava em todo lugar: o nome de um homem morto que continuava ocupando espaço entre nós.
Depois fechei o caderno e fui até a varanda.
O mar estava negro e largo. As estrelas sobre Noronha eram obscenas em quantidade — sem a poluição luminosa do continente, o céu aqui parecia mais próximo, mais presente. Lembrei que, sete anos atrás, Felipe tinha apontado para as estrelas e dito o nome de algumas constelações, inventando metade delas com a confiança de quem não precisa saber o que está dizendo para fazer os outros acreditarem.
Todos tínhamos acreditado.
Ou fingido acreditar.
Às vezes dá no mesmo.
Fiquei na varanda até a brisa ficar fria o suficiente para me fazer entrar. O assento de Thiago no jantar continuava vazio na minha cabeça — não como ausência simples, mas como algo mais pesado. Como uma advertência que eu ainda não sabia ler.
Deitei. Não apaguei a luz imediatamente.
Pensei: amanhã Thiago aparece e conversamos. Amanhã isso fica mais claro.
Apaguei a luz.
O barulho do mar continuou, constante, como sempre.
