CAPÍTULO 2Gratuito
Capítulo 2 — O Que a Câmera Viu
Terca-feira amanheceu com o barulho de Napoles — motorinos acelerando, vozes brigando, a melodia distante de alguém praticando opera numa janela aberta. Isabela acordou com o sol furando as cortinas finas do hotel e o gosto de café napolitano ainda fantasma na boca.
O festival comecava as dez na Galleria Borbonica, um complexo subterraneo que servia como espaço de exposicao. Isabela passou a manha entre fotografos de todo o mundo, absorvendo o trabalho alheio com aquela mistura de admiração e inveja silenciosa que todo artista conhece. As imagens eram fortes — guerra, fome, migracao —, mas nada que ela não tivesse visto. O fotojornalismo era um clube de pessoas que tinham visto demais e encontrado na camera uma maneira de processar o horror sem enlouquecer.
Tirou fotos dos visitantes, dos espaços, da luz que filtrava pelas aberturas no teto de pedra e criava feixes dramaticos que qualquer fotografo mataria para ter naturalmente. O briefing de Marcello era amplo: cobrir o festival, capturar o espírito do evento, mas também produzir material paralelo sobre Napoles — a cidade como cenário, como personagem, como metafora.
Era a parte paralela que interessava Isabela.
No intervalo do almoço, escapou do circuito oficial e perdeu-se propositadamente pelos vicoli do centro storico. A camera era sua bussola. Seguia sombras, cores, rostos — uma cesta de tomates dependurada numa corda entre predios, um altar improvisado a Maradona numa esquina com velas acesas e flores de plástico, uma porta de madeira entalhada que levava a lugar nenhum.
Napoles era fotograficamente inesgotavel. Cada beco era um ensaio completo, cada rosto um retrato pronto. Isabela sentia a adrenalina familiar — aquela pulsacao nos dedos que significava que estava produzindo algo bom, algo verdadeiro.
Quando o sol começou a descer, voltou ao festival para a sessão da tarde. Assistiu a uma palestra sobre etica no fotojornalismo de guerra — irônico, pensou, já que a etica era a primeira baixa de qualquer guerra — e trocou contatos com uma fotografa sul-africana que trabalhava para a Reuters.
As nove da noite, o festival encerrou as atividades do dia. Os fotografos migraram para os bares do centro, onde o vinho corria barato e as conversas sobre f-stops e tempos de exposicao se misturavam com fofocas da industria. Isabela ficou uma hora, bebeu um copo de aglianico — vinho tinto campano que era terroso e quente como a terra vulcanica de onde vinha — e depois se separou do grupo.
Queria fotografar Napoles a noite. A cidade real. Não a Napoles dos festivais e dos turistas, mas a que se revelava quando as luzes oficiais se apagavam e as sombras assumiam o controle.
Era imprudente. Sabia que era imprudente. Giulia a mataria se soubesse. Mas Isabela Duarte tinha construido uma carreira inteira sobre a imprudencia — sobre ir aonde outros não iam, ver o que outros não viam, clicar o obturador quando outros fugiam.
*
A noite napolitana tinha uma qualidade diferente de qualquer outra.
Em Milao, a noite era sofisticada e previsível — luzes de neon refletidas em vitrines de grife, casais elegantes saindo de restaurantes com estrela Michelin. Em Napoles, a noite era visceral. Os vicoli se tornavam tuneis de escuridão pontilhados por lâmpadas amareladas que faziam as paredes parecerem douradas e doentes ao mesmo tempo. O cheiro mudava — menos fritura, mais umidade, mais sal do mar próximo, e, debaixo de tudo, um odor metalico que Isabela não conseguia identificar mas que fazia seus instintos ficarem em alerta.
Caminhou pelo Rione Vaso sanitário, um bairro que os guias turisticos descreviam com eufemismos — "autentico", "popular", "colorido" — e que os napolitanos descreviam com uma palavra: perigoso. Mas perigoso para Isabela nunca fora sinonimo de proibido. Perigoso era onde as historias moravam.
A camera capturou um gato preto dormindo sobre um altar de rua, uma velha fechando a janela com pressa ao vê-la passar, dois adolescentes fumando num portal de igreja com a indiferenca de quem já desistiu do futuro. Isabela movia-se como aprendera — discreta, rápida, a camera erguida e abaixada num movimento fluido que durava menos de dois segundos. Ninguém notava. Ou, se notava, não se importava.
Virou numa rua que não conhecia. Mais estreita que as outras, sem lâmpadas, iluminada apenas pela lua que se enfiava entre os predios como uma intrusa. O silêncio era anormal — Napoles não fazia silêncio, Napoles era barulho, era vida, era caos. O silêncio era uma anomalia, e anomalias, na experiência de Isabela, eram ou muito bonitas ou muito perigosas.
Ergueu a camera por instinto. Ajustou o ISO para 3200, abriu o diafragma ao máximo, e deixou a lente buscar o que havia na escuridão.
Havia dois homens.
Isabela congelou.
Estavam a talvez trinta metros. Um de pé, o outro ajoelhado. O que estava de pé era grande — ombros largos, cabeça raspada, um casaco escuro que parecia absorver a pouca luz disponivel. O que estava ajoelhado tinha as mãos atrás da cabeça. Tremia.
A fotografa nela processou a cena antes da mulher. Enquadramento. Luz. Sombra. O dedo apertou o obturador por reflexo — um clique silencioso que a noite engoliu.
E então o homem de pé ergueu o braco.
Isabela viu a arma. Preta, compacta, uma extensão natural da mão que a segurava. Viu o gesto praticado — sem hesitação, sem drama. E ouviu o som.
Não era como no cinema. Não era um estouro grave e dramático. Era seco, rápido, quase administrativo. Um estalo que perfurou o silêncio e morreu logo em seguida, como se a noite se recusasse a ecoar violência.
O homem ajoelhado tombou para o lado. O sangue — ela podia ver o sangue mesmo na escuridão, escuro contra o pavimento mais escuro — se espalhou devagar, com a preguica de algo que não tem mais pressa.
O cheiro chegou um segundo depois. Polvora. Metalico e quente e impossível de confundir com qualquer outra coisa. Era o cheiro que estivera debaixo de todos os outros durante a noite — Isabela percebia agora. Napoles cheirava a polvora do mesmo jeito que cheirava a pizza: como parte de sua essencia.
O homem de pé guardou a arma com a mesma naturalidade com que guardaria um celular no bolso. Disse algo para as sombras — uma frase curta em dialeto napolitano que Isabela não entendeu — e dois outros homens emergiram de uma porta lateral. Moviam-se com eficiência, sem correria. Envolveram o corpo em plástico. Limparam o chão. Tinham feito aquilo antes.
Isabela não conseguia respirar.
Não conseguia mover-se. Seus músculos tinham petrificado numa posição absurda — a camera ainda erguida, o dedo ainda no obturador, o corpo curvado contra a parede de um predio como se a alvenaria pudesse absorve-la. Cada celula gritava para que corresse, mas correr significava movimento, e movimento significava ser vista.
O homem grande — o atirador — acendeu um cigarro. A chama do isqueiro iluminou por um segundo seu rosto: maxilar quadrado, nariz quebrado, olhos pequenos e inexpressivos como os de um peixe. Ele tragou com calma. Soltou a fumaca para o ceu. E então virou a cabeça.
Não para Isabela. Para o lado oposto da rua, onde um dos soldados apontava para algo no chão. Isabela aproveitou. Corpo contra a parede, passos silenciosos, a camera pressionada contra o peito para que não balancasse. Um metro. Dois. Três. A esquina estava a dez metros. Podia chegar. Podia —
Seu pé encontrou uma garrafa.
O som de vidro contra pedra explodiu no silêncio como um segundo disparo.
Tudo aconteceu em fragmentos. O atirador girando com a arma já na mão. Os soldados reagindo. Uma voz gritando algo — "La! Chi e?" — e passos, passos rápidos, pesados, o som de homens que corriam com a certeza de predadores.
Isabela correu.
Não pensou. Não planejou. Correu com a força do desespero puro, os tenis batendo contra o pavimento irregular, a mochila sacudindo nas costas, a camera batendo contra o peito como um segundo coração. Os vicoli eram um labirinto e ela os percorreu sem lógica — esquerda, direita, escadaria, beco — tentando colocar distância entre seu corpo e aquele som de polvora que ainda ecoava dentro do seu cranio.
Os passos atrás dela não diminuiam.
Eram rápidos, coordenados. Conheciam aquelas ruas. Ela não.
Virou numa escadaria estreita que descia em espiral e tropeçou no último degrau. O joelho bateu no chão — dor aguda, quente — e ela se levantou num único movimento, mas perdeu meio segundo. Meio segundo que custou metros.
Uma mão agarrou a alca da mochila.
Isabela gritou. O som morreu entre os predios — Napoles sabia guardar segredos. O puxao a desequilibrou e ela caiu de costas, a mochila arrancada, a camera — ainda presa ao pescoco — batendo no pavimento com um estalo que doeu nela como se fosse osso.
Dois homens. Jovens, nervosos, armados. Falavam rápido em napolitano, as armas apontadas para ela como perguntas que não precisavam de resposta. Isabela ergueu as mãos. O gesto universal de quem não tem mais nada além do corpo.
— Per favore — ofegou em italiano. — Sono una fotografa. Solo una fotografa. Non ho visto niente.
A mentira era patética. A camera pendurada no pescoco dela era a prova de que tinha visto tudo.
Um dos homens sacou o celular e fez uma ligação. Falou por menos de trinta segundos. Desligou. Olhou para o colega e fez um gesto com a cabeça — para cima, de volta por onde vieram.
— Cammina — ordenou, apontando a arma para a escadaria. — Adesso.
Isabela caminhou. As pernas tremiam tanto que cada degrau era uma negociação com a gravidade. O suor escorria pelas costas e a noite napolitana, que antes era quente, agora era gelida contra sua pele molhada. O gosto na boca era de metal e medo — o mesmo gosto, percebeu com clareza horrivel, que o homem ajoelhado deve ter sentido antes do estalo.
Levaram-na de volta a rua onde tudo acontecera. O corpo não estava mais la. O chão estava limpo. Era como se nada tivesse acontecido — o que, para Napoles, significava exatamente que algo tinha acontecido.
O homem grande — o atirador — estava encostado num carro. O cigarro pendia do canto da boca, já pela metade. Olhou para Isabela com a curiosidade breve de quem examina um inseto antes de decidir se vale a pena esmagá-lo.
Estendeu a mão. Não para ela — para a camera.
Um dos soldados arrancou a Nikon do pescoco de Isabela. A alca queimou sua nuca ao ser puxada. Ela quis gritar "não" — a camera era uma extensão de seus olhos, era como arrancar um órgão — mas o som morreu na garganta.
O atirador examinou a camera com desinteresse. Olhou a tela de revisão. Viu a foto. Viu mais fotos — os vicoli, os rostos, o festival. Disse uma palavra que Isabela entendeu mesmo em dialeto: "Giornalista."
Não era uma pergunta. Era uma sentenca.
Ele fez outra ligação. Essa durou mais. Sua voz era grave, monotona, com a cadência de quem relata fatos sem edicao. Isabela captou fragmentos: "brasileira", "fotografa", "viu tudo."
Desligou. Olhou para os soldados.
— Portatela dal consigliere.
Isabela não entendeu a palavra. Consigliere. Mas entendeu o tom. Era o tom de quem passa adiante um problema que prefere não resolver sozinho.
Alguém colocou um capuz sobre sua cabeça. Escuridão. O cheiro de tecido sujo e suor alheio. Mãos a empurraram para dentro de um carro. Portas batendo. Motor ligando. Movimento.
Isabela fechou os olhos debaixo do capuz — um gesto absurdo, fechar os olhos quando já não se pode ver — e tentou respirar. Contou as curvas. Direita, esquerda, subida longa, curva a direita. Tentou memorizar o trajeto como uma fotografia feita as cegas.
Não funcionou. As curvas se multiplicaram, o tempo se distorceu, e em algum momento ela perdeu a contagem e ficou apenas com o barulho do motor e o peso do medo, que era físico, concreto, tao real quanto as mãos que a seguravam pelos ombros.
O carro parou. Portas abrindo. Ar fresco — mais fresco que o da cidade, com cheiro de jardim e limão e, debaixo de tudo, mar. Estavam num lugar alto. Isabela sentiu a diferença de pressão nos ouvidos.
A puxaram para fora. Seus pés encontraram chão de cascalho, depois pedra lisa, depois marmore. Marmore. O som dos passos mudou — ecoava, o que significava um espaço grande. Corredores. Portas. O capuz foi retirado.
Luz.
Isabela piscou, cega por um momento. Quando a visão se ajustou, viu um quarto. Não era uma cela — era um quarto de verdade, com cama, criado-mudo, uma janela com cortinas pesadas. Os móveis eram antigos, a madeira escura, o lencol branco. Parecia um quarto de hotel de luxo, se hoteis de luxo trancassem seus hospedes por fora.
A porta fechou. O clique da fechadura foi o som mais aterrador que Isabela já ouvira — mais que o tiro, mais que os passos, mais que a palavra giornalista dita como uma sentenca de morte. Porque o tiro era rápido. A fechadura era o som de algo lento, deliberado, interminavel.
Estava presa.
A camera, o celular, a mochila — tudo confiscado. Isabela só tinha o corpo, as roupas que vestia, e a memoria do que vira. Sentou-se na cama. As mãos tremiam. O joelho sangrava através do jeans rasgado. O suor secava no rosto, deixando uma mascara de sal.
Passou os dedos pela cicatriz no queixo — um gesto automático que fazia quando o mundo perdia o sentido. A cicatriz era da infância, uma queda de bicicleta aos oito anos. O pai a levara ao hospital e contara piadas durante os pontos para que ela não chorasse. Ricardo Duarte. O homem que investigava o crime organizado e morreu por isso. E agora a filha dele estava trancada num quarto por homens que executavam pessoas em ruas desertas com a eficiência de quem carimba documentos.
A ironia era tao brutal que Isabela quase riu. Quase.
As horas passaram. Ou pareceram passar — sem celular, sem relógio, o tempo era uma estimativa baseada na luz que mudava atrás das cortinas. Isabela tentou a janela: trancada, com grades discretas do lado de fora. Tentou a porta: sólida, sem ceder um milímetro. Vasculhou o quarto inteiro — nenhum telefone, nenhum objeto que pudesse ser usado como arma, nenhuma saída.
Pensou em Giulia, que estaria mandando mensagens para um celular que ninguém iria responder. Pensou em Marcello, que esperava fotos do festival. Pensou no pai, que provavelmente sentira esse mesmo medo, esse mesmo gelo, esse mesmo gosto de metal na boca antes dos dois tiros numa estrada de terra.
Não vou morrer aqui, disse a si mesma. Não era confiança. Era teimosia — o mesmo traço de personalidade que a fazera se tornar fotografa, que a empurrara para zonas de guerra, que a levara a caminhar sozinha pelos vicoli de Napoles a noite com uma camera no pescoco como se fosse um escudo.
A teimosia não era suficiente. Mas era tudo o que tinha.
Quando a porta finalmente se abriu, Isabela não soube quanto tempo tinha passado. Horas, com certeza. Talvez a noite inteira. A luz do corredor era branca e fria e recortava a silhueta de um homem na soleira.
Alto. Magro mas com a solidez de quem não precisa de volume para ser perigoso. Terno escuro, impecavel, como se fossem quatro da manha numa sala de reunioes e não no corredor de uma prisao. Cabelo negro, maxilar angular, e olhos — quando ele deu um passo para dentro e a luz do quarto o alcançou — de um verde escuro que lembrava o fundo de um lago onde coisas apodreciam.
Ele a olhou. Não como os soldados olhavam — com nervosismo, com urgência. Ele a olhou com a calma devastadora de quem tem todo o tempo do mundo e sabe que você não tem nenhum.
Quando falou, a voz era baixa, precisa, sem sotaque regional. Italiano perfeito. Cada palavra colocada como uma peça de xadrez.
— Signorina Duarte. Mi chiamo Dante Moretti. E precisamos conversar sobre o que você viu esta noite.
Isabela sentiu o sangue gelar. Não por causa da ameaça implicita. Não por causa do terno ou da postura ou dos olhos verdes que a dissecavam sem piscar.
Mas porque ele sabia seu nome.
E ela não tinha dito seu nome a ninguém.
