CAPÍTULO 3Gratuito
Capítulo 3 — O Consigliere
O silêncio que se seguiu a apresentação de Dante Moretti durou exatamente cinco segundos. Isabela os contou — um hábito que desenvolvera em zonas de conflito, quando os segundos entre um disparo e o próximo eram a única medida de distância entre a vida e a morte.
Naqueles cinco segundos, ela o estudou como estudava qualquer cenário antes de fotografar: luz, sombra, composicao. A luz do abajur recortava metade do rosto dele em ouro e deixava a outra metade em escuridão, como se Dante Moretti fosse literalmente dividido entre o que mostrava e o que escondia. As mãos — ela sempre olhava as mãos — estavam cruzadas a frente do corpo, longas, com dedos de pianista ou cirurgião. Mãos que podiam criar ou destruir com igual precisão.
— Como sabe meu nome? — A voz de Isabela saiu mais firme do que esperava. A teimosia tomando o lugar do terror, como sempre.
Dante não respondeu imediatamente. Puxou a cadeira do canto do quarto — um gesto doméstico, absurdamente educado para as circunstancias — e sentou-se a uma distância calculada: perto o suficiente para que ela visse cada expressão no rosto dele, longe o suficiente para que não se sentisse fisicamente ameacada. Tudo nele era calibrado. Cada centímetro de distância, cada grau de inclinacao da cabeça, cada microsegundo de pausa antes de falar.
— Seu passaporte estava na mochila — disse finalmente, cruzando as pernas com a naturalidade de quem esta numa entrevista de emprego e não num interrogatorio. — Isabela Duarte. Brasileira. Visto de residencia em Milao. Credencial de imprensa da Rivista Panorama. Três cartoes de memoria com aproximadamente setecentas e quarenta fotografias, incluindo quatro que sao... problematicas.
A palavra "problematicas" saiu da boca dele como se descrevesse uma mancha no tapete.
— Eu quero meu celular — disse Isabela. — E minha camera. E quero sair daqui.
— Entendo.
— Entende?
— Entendo que sao as coisas que você quer. Infelizmente, nenhuma delas esta disponivel no momento.
Ele falava como um advogado. Cada frase era um contrato verbal, sem brechas, sem ambiguidade. Isabela sentiu uma raiva quente subir pelo peito — raiva era melhor que medo, raiva era combustivel.
— Você não pode me manter aqui. Eu sou cidada brasileira, tenho residencia legal na Italia, e pessoas sabem onde eu estou.
— Ninguém sabe onde você esta, signorina. — A voz dele não subiu um decibel. — Seu celular foi desligado as vinte e duas e treze, no Rione Vaso sanitário. Seu hotel registra check-out automático em três dias. Sua editora espera fotos por e-mail. Ninguém vai procura-la pessoalmente antes de terca, no mínimo.
Isabela engoliu. Ele tinha razão. Cada palavra era um prego num caixao de lógica que a prendia tao eficientemente quanto a fechadura da porta.
— Vou ser direta — disse, porque a única arma que restava era a transparencia. — Eu vi um homem ser morto. Entendo que isso e um problema para vocês. Mas eu sou fotografa de festivais e guerras distantes. Não sei quem vocês sao. Não sei quem morreu. Não sei nada.
— Você sabe demais.
— Eu não sei nada — repetiu, e a insistência na voz era quase uma suplica, apesar de Isabela preferir arrancar a própria lingua a suplicar.
Dante inclinou a cabeça. O gesto tinha algo de animal — um lobo avaliando uma presa e decidindo se vale o esforco.
— Signorina Duarte, vou lhe explicar a situação com a honestidade que você merece, porque acredito que você e inteligente o suficiente para processa-la sem histerismo.
— Obrigada pela confiança — cuspiu Isabela com o sarcasmo que era seu escudo.
Um milímetro de algo — não um sorriso, não exatamente, mas uma alteração microscopica na pressão dos labios — apareceu e desapareceu no rosto de Dante.
— O homem que você viu ser executado era alvo de uma operação em andamento. A pessoa que executou a operação trabalha para uma organização que não tolera testemunhas. Normalmente, você já estaria morta. O fato de estar sentada nessa cama e uma anomalia que eu criei.
Normalmente, você já estaria morta. A frase perfurou Isabela como uma agulha — fina, precisa, impossível de ignorar. Ela abriu a boca e fechou. Abriu de novo.
— Obrigada pela anomalia — disse, e a voz rachou na última silaba.
Dante continuou como se não tivesse ouvido a rachadura.
— A organização que controla esta regiao esta em um momento delicado. Ha um julgamento em curso que envolve interesses significativos. Qualquer exposicao pública — uma testemunha, uma fotografia, uma jornalista brasileira contando para a policia o que viu — seria catastrófica.
— Então me deixa ir. Eu não conto nada. Eu volto para Milao e esqueço que —
— Você não esqueceria. — Ele a interrompeu sem elevar a voz, e isso era pior do que um grito. — Você e filha de Ricardo Duarte.
O nome do pai na boca daquele homem foi como um soco no estômago. Isabela sentiu o ar sair dos pulmões e não voltar. Os olhos arderam. As mãos, que já tremiam, cerraram-se em punhos.
— Não fala o nome do meu pai.
— Ricardo Duarte, jornalista investigativo. Assassinado em 2017 no interior de Minas Gerais enquanto investigava redes de crime organizado com conexões internacionais. Caso arquivado. — Dante recitou os fatos como leria uma ficha catalografica. — Sua filha, Isabela, seguiu a mesma carreira. Fotojornalismo de conflito. Zonas de risco. Atracao pelo perigo que não e coragem — e compulsao. Você não esqueceria o que viu porque não consegue. Esta no seu sangue.
Isabela o odiou. Naquele momento, com uma intensidade que a surpreendeu, odiou Dante Moretti — não por prende-la, não por ameaça-la, mas por olhar dentro dela e descrever o que via com a precisão cirúrgica de alguém que lia pessoas como contratos.
— O que você quer? — perguntou, e a voz agora era pedra.
Dante descruzou as pernas. Inclinou-se para frente. Os olhos verdes escuros — cor de lago profundo, cor de garrafa de veneno — encontraram os dela sem desviar.
— Quero que você viva. Essa e a minha preferência. Não e a de todos.
— O que isso significa?
— Significa que o Don — o homem que comanda esta familia — quer resolve-la da maneira mais simples. Um corpo não depoe. — Isabela sentiu a bile subir. — Eu propus uma alternativa. Ele aceitou, provisoriamente. Você tem até amanha de manha para decidir se aceita também.
— Que alternativa?
Dante se levantou. Abotoou o paletó com o gesto automático de alguém para quem elegância era reflexo, não escolha. Caminhou até a porta e, com a mão na macaneta, virou-se.
— Você vai se tornar minha noiva.
O silêncio que seguiu foi de uma qualidade diferente — não era medo, não era raiva. Era o silêncio absurdo de quando a realidade se dobra de uma maneira que o cérebro se recusa a processar.
— Sua o que?
— Noiva. Fidanzata. Uma farsa, evidentemente. Você será apresentada como Sofia Menezes, brasileira, minha noiva ha seis meses. Vivia em Milao, mudou-se para ca. A historia será construida com detalhes suficientes para convencer qualquer um que pergunte.
— Você esta louco.
— Estou sendo prático. O julgamento que mencionei deve durar entre três e quatro meses. Durante esse período, você vivera na propriedade da familia como minha prometida. Será tratada com o respeito devido a posição. Tera conforto, roupas, alimentação, liberdade limitada nos terrenos da propriedade.
— Liberdade limitada — repetiu Isabela, e a ironia na voz era afiada como vidro. — Que nome bonito para prisao.
— Prisao seria o quarto onde esta agora pelo resto da sua vida, que não seria longa. O que estou oferecendo e uma alternativa.
— E se eu disser não?
Dante a olhou. Não disse nada. Não precisava. A resposta estava nos olhos dele, naquela escuridão verde que não piscava, não hesitava, não pedia desculpas. Se ela dissesse não, não seria Dante quem a mataria — mas ele não a salvaria de novo.
— Você tem até amanha — repetiu. — Descanse. Ha água no criado-mudo. O banheiro esta a direita.
— E se eu gritar?
— As paredes sao grossas. E estamos a quarenta minutos de qualquer vizinho.
Saiu. A porta fechou. A fechadura clicou.
Isabela ficou sentada na cama por um tempo que não soube medir. O corpo inteiro tremia — não de frio, mas daquela tremedeira interna que vem quando o sistema nervoso processa informação demais e não sabe o que descartar. Assassinato. Sequestro. Noivado falso. O nome do pai na boca de um estranho que vestia Armani e decidia sobre vidas com a mesma tranquilidade com que encomendava um espresso.
Levantou-se. Pernas bambas. Caminhou até o banheiro — de fato, a direita. Marmore branco, chuveiro amplo, toalhas felpudas. Prisao com toalhas felpudas. A absurdidade da situação a fez rir — uma risada curta, rouca, que soou mais como um soluco.
Abriu a torneira e jogou água no rosto. O espelho devolveu uma mulher que parecia dez anos mais velha que naquela manha: olhos vermelhos, cabelo grudado na testa pelo suor seco, a cicatriz no queixo mais visível quando o rosto estava pálido.
— Pensa, Isabela — disse ao espelho. — Pensa como o pai pensaria.
Ricardo Duarte teria pensado como jornalista. Teria avaliado as opções. Teria buscado a brecha na armadura. Teria sobrevivido para contar a historia.
Ou não. Ricardo Duarte estava morto.
Isabela voltou ao quarto. Sentou-se no chão, as costas contra a cama, e encarou a porta trancada. As opções eram binarias e brutais: aceitar a farsa ou morrer. Não havia porta C. Não havia fuga heroica, não havia policia a um telefonema de distância, não havia Giulia para abrir uma garrafa de prosecco e resolver tudo com uma risada.
Havia apenas ela. E a decisão.
O absurdo da proposta era quase tao aterrador quanto a alternativa. Fingir ser noiva de um homem que trabalhava para assassinos. Viver entre eles, comer com eles, sorrir para eles. Usar outro nome, vestir outra pele, ser outra pessoa por três a quatro meses enquanto o mundo la fora girava sem ela.
Mas estaria viva. Viva significava possibilidade. Viva significava que podia observar, aprender, encontrar uma saída que ninguém previu. Viva significava que a camera — quando a recuperasse, se a recuperasse — ainda teria uma fotografa para opera-la.
Isabela pensou em Giulia. Pensou na foto do pai na parede do apartamento em Milao. Pensou no café napolitano que tomara naquela tarde — ha mil anos, em outra vida — e na pizza que comera na primeira noite.
Pensou nos olhos verdes de Dante Moretti, na maneira como ele dissera "quero que você viva" com a convicção de quem esta habituado a decidir sobre a vida alheia.
Não confiava nele. Não confiava em ninguém ali. Mas confiava em si mesma — na teimosia que a trouxera até Napoles, na mesma compulsao que Dante identificara com a precisão cruel de um diagnóstico.
Quando a porta se abriu na manha seguinte — se era manha; a luz atrás das cortinas sugeria que sim —, Dante Moretti estava la novamente. Mesmo terno, ou talvez outro identico. Mesma postura. Mesmos olhos de lago envenenado.
— E então, signorina?
Isabela levantou-se do chão onde passara a noite. Os músculos doiam. O joelho latejava onde raspara no pavimento horas — séculos — antes. O orgulho ardia mais que qualquer ferida.
Olhou para ele com o mesmo olhar que usava antes de clicar o obturador em zonas de guerra — o olhar que dizia: estou aqui, estou vendo, e você não vai me quebrar.
— Tenho condições — disse.
Uma sobrancelha de Dante se ergueu. Milimetricamente. Calculadamente.
— Condições.
— Quero um telefone. Supervisionado, gravado, não me importa. Mas preciso falar com uma pessoa para que saibam que estou viva. Se eu simplesmente desaparecer, vao chamar a policia, e ai seu plano vai por água abaixo.
Dante a estudou. Isabela sentiu-se como uma radiografia — transparente, exposta, cada osso e cada segredo visível sob aqueles olhos que não perdoavam opacidade.
— Uma ligação. Monitorada. Você dira que conheceu alguém, que esta viajando pelo sul, que vai se desconectar por um tempo. Nada de codigos, nada de sinais.
— Feito. Segunda condição: quero minha camera de volta.
— Sem as fotos do incidente.
— Sem as fotos. Mas a camera e minha.
— Aceito.
— Terceira condição. — Isabela deu um passo a frente. Estava perto demais, sabia que estava, mas precisava que ele a visse como algo além de um problema a ser resolvido. — Ninguém me toca. Nenhum soldado, nenhum membro da familia, ninguém. Se alguém levantar a mão para mim, o acordo acaba e eu prefiro a alternativa.
A frase era bravata pura e ambos sabiam. Mas Dante a olhou — olhou de verdade, não como se examinasse uma peças num tabuleiro, mas como se a visse pela primeira vez. Uma mulher de vinte e cinco anos, sozinha, sem armas, sem aliados, sem nada além da voz e da vontade, impondo condições a um homem que poderia destrui-la com um telefonema.
— Ninguém vai toca-la — disse Dante, e havia algo na voz dele que não estava la antes. Não era gentileza. Não era empatia. Era algo mais complicado — o reconhecimento de que Isabela Duarte era um tipo de problema que ele não sabia resolver com lógica. — Você tem a minha palavra.
— A palavra de um homem que me mantem presa — disse Isabela.
— E a única que você vai receber.
Ficaram se olhando por um tempo que não pertencia a nenhum relógio. Era o tipo de olhar que estabelece algo — não confiança, não ainda, talvez nunca. Mas um reconhecimento mutuo, como dois animais de especies diferentes que se encontram numa clareira e decidem não atacar. Por enquanto.
— Prepararemos sua transferência para a propriedade principal hoje — disse Dante, quebrando o olhar primeiro. — Sofia Menezes. Brasileira de Sao Paulo. Fotografa de moda. Nos conhecemos em Milao num evento de caridade. Noivamos ha seis meses. Você usa aliança no anelar esquerdo.
— Que romântico — disse Isabela, e o sarcasmo era a única proteção que lhe restava.
Dante não sorriu. Não franziu a testa. Não reagiu de maneira alguma. Apenas se virou e saiu, deixando a porta aberta pela primeira vez.
Isabela olhou para o corredor além da porta. Largo, iluminado, com piso de marmore e paredes cobertas de quadros a oleo que provavelmente valiam mais do que o prédio inteiro onde ela morava em Milao. No final do corredor, uma janela mostrava o azul impossível do Golfo de Napoles, e atrás dele, como uma sentinela adormecida, o Vesuvio.
A prisao mais bonita do mundo.
Isabela respirou fundo. O ar cheirava a limão e a algo que ela levaria dias para identificar — café, marmore, colônia masculina e, debaixo de tudo, o cheiro inconfundivel do perigo.
Deu o primeiro passo para fora do quarto. O corredor se estendia como a garganta de um animal enorme, bonito e faminto.
Bem-vinda a familia, pensou. E caminhou para dentro da boca do monstro com os olhos bem abertos, porque Isabela Duarte podia ser muita coisa — imprudente, teimosa, condenada —, mas nunca seria alguém que fecha os olhos diante do que a espera.
Mesmo quando o que a esperava tinha olhos verdes, mãos perigosas e um sorriso que não existia.
