CAPÍTULO 2Gratuito
Tatami
Capítulo 2 — Tatami
O ryokan da Sra. Nakamura ficava no fim de uma rua de pedra em Higashiyama que o GPS insistia não existir. Luna arrastou as malas pela ladeira — pedras irregulares, rodas travando, suor escorrendo pelas costas apesar do frio de março — e parou diante de um portão de madeira escura com um letreiro em caracteres que ela não conseguia ler e uma planta que parecia estar ali antes do Japão ser o Japão.
O portão era baixo, feito de cedro envelhecido com a cor de mel escuro, e as dobradiças de ferro tinham a patina verde-escura de décadas expostas à umidade. Um musgo discreto subia pela base, verde profundo contra madeira marrom, e Luna sentiu vontade de tocar — a textura parecia convidar, áspera e suave ao mesmo tempo, como as coisas que envelhecem com intenção.
Empurrou o portão. Rangeu. Uma trilha de pedras levava a uma entrada coberta onde pares de sapatos descansavam alinhados como soldados numa parada. Chinelos de madeira, sandálias, pantufas. Todos organizados com a ponta virada pra fora, prontos pra calçar. O chão sob o beiral era de madeira escura e polida, e o cheiro que vinha de dentro era madeira, incenso queimado e algo que Luna só podia descrever como tempo — o cheiro de uma casa que existia há gerações e que tinha absorvido cada estação no grão da madeira.
Luna olhou pros próprios tênis rosa e sentiu que eles estavam julgando ela.
— Sumimasen? — chamou, espiando pelo vão da porta de correr. — Olá? Hello? Oi?
Passos leves no corredor. A porta deslizou e uma senhora apareceu — baixinha, rosto redondo de rugas gentis, cabelos brancos presos num coque perfeito, avental sobre quimono simples de algodão azul-índigo. Olhos escuros que mediam Luna dos pés à cabeça numa varredura eficiente de três segundos. O olhar era raio-X, tomografia e auditoria fiscal condensados numa única expressão que durou menos que uma respiração e capturou tudo.
— Ferreira-san? — perguntou.
— Sim! Sou eu! Luna Ferreira! — Luna abriu o sorriso inteiro, o que geralmente assustava pessoas reservadas e encantava crianças e cachorros.
A senhora não se assustou. Também não sorriu. Assentiu uma vez, firme, e apontou pros pés de Luna.
— Sapato. Tira.
— Ah! Claro, claro, desculpa —
Luna se abaixou pra tirar o tênis e quase derrubou a mala no corredor. A mala vermelha bateu na parede de madeira com um baque que ecoou pelo silêncio do ryokan como trovão em dia claro. O som reverberou pela casa inteira — Luna ouviu o eco subindo pela escada, percorrendo o corredor, provavelmente alcançando os quartos dos outros hóspedes que dormiam ou meditavam ou faziam qualquer coisa que pessoas normais faziam num ryokan às sete da manhã. Luna congelou.
— Desculpa. Sumimasen. Desculpa.
A senhora olhou pra mala, olhou pra Luna, e disse algo que soou como uma observação sobre elefantes em loja de porcelana. Depois, em português que Luna não esperava:
— Você é barulhenta.
Luna piscou. Abriu a boca. Fechou.
— A senhora fala português?
— Pouco. Meu marido, Toshio, era nikkei de Londrina. Paraná. Falava assim, igual você. Barulhento.
— Eu... não sou tão barulhenta assim.
A Sra. Nakamura olhou pra mala que tinha quase derrubado a parede e não disse nada. Não precisava.
***
O quarto era o menor cômodo que Luna já tinha visto usado como moradia humana. Não era claustrofóbico — era compacto com intenção, cada centímetro pensado como peça de quebra-cabeça. Tatami no chão, textura de palha trançada sob os pés descalços, um cheiro que Luna não conhecia mas que imediatamente classificou como chão de tempo — terra e fibra e anos e passos que vieram antes. A palha era morna sob a sola dos pés, e quando Luna pisou, o tatami cedeu levemente, como um suspiro.
Uma mesa baixa no centro, de madeira clara com veio visível. Uma almofada pro chão, roxa e firme. Um armário de portas de correr com futon dobrado dentro. Uma luminária de papel washi no canto, apagada, que filtraria a luz em dourado suave quando acesa. E nada mais. O vazio era proposital — não era ausência, era espaço. Espaço pra respirar, pra existir, pra ser o que quisesse dentro daquelas quatro paredes de madeira e papel.
E pela janela — bambu.
Um jardim inteiro de bambu do outro lado do vidro, hastes verdes subindo retas e finas como pinceladas, folhas farfalhando com vento que Luna não sentia mas ouvia. Luz filtrada, verde-dourada, caindo no tatami em retângulos que pareciam ter sido colocados ali de propósito. O som era constante — um farfalhar suave, orgânico, como se o bambu estivesse conversando consigo mesmo numa língua de folhas e vento.
Luna ficou parada na porta por cinco segundos inteiros sem falar. Pra ela, isso era recorde.
Depois:
— Cadê a cama?
A Sra. Nakamura, que tinha subido atrás carregando uma das malas com força surpreendente pra uma senhora de setenta e poucos anos, apontou pro armário.
— Futon. Abre à noite, guarda de manhã.
Luna abriu o armário. Um futon dobrado, edredom branco, travesseiro que parecia firme demais pra cabeça e fino demais pra pescoço. O tecido do futon cheirava a sol — aquele cheiro específico de roupa secada ao ar livre, limpo e vegetal.
— Mas... é no chão.
— Isso é cama. Você dorme no chão. Como japonês.
— No chão.
— No tatami.
— Que é no chão.
A Sra. Nakamura cruzou os braços. Luna olhou o futon, olhou o chão, olhou o jardim de bambu que brilhava lá fora como se Kyoto inteira estivesse rindo da cara dela.
— Eu vim pra outro planeta — murmurou.
— Não. Veio pro Japão. Mais organizado que planeta.
Luna soltou uma risada que encheu o quarto inteiro e provavelmente vazou pro jardim. A Sra. Nakamura quase sorriu. Quase. Os cantos da boca fizeram o movimento, mas a disciplina venceu.
— Banheiro no corredor. Ofurô no térreo. Café da manhã às sete. Se atrasar, come frio.
— Ofurô é a banheira, né?
— Banheira quente. Muito quente. Brasileira gosta de quente?
— Brasileira gosta de tudo, Sra. Nakamura. Principalmente quando tá com jet lag e chorou no avião inteiro.
A senhora parou na porta. Olhou pra Luna com expressão que ela não conseguiu ler — algo entre compaixão e reconhecimento, como quem olha pra uma versão mais jovem de si mesma e decide não avisar sobre os próximos capítulos. Os olhos escuros ficaram parados no rosto de Luna por um segundo a mais do que o necessário — lendo o inchaço dos olhos, a vermelhidão no nariz, os sinais de alguém que tinha chorado até o corpo pedir trégua.
— Come. Depois chora. Nessa ordem.
Saiu. Porta deslizou e fechou com um clique suave que era o som mais gentil que Luna tinha ouvido em semanas.
***
Sozinha. Quarto de tatami. Japão.
Luna sentou no chão — no tatami, que rangia levemente sob o peso, palha trançada pressionando a pele das pernas cruzadas. Tirou a câmera do pescoço. As mãos estavam tremendo. Jet lag, fome, cansaço, emoção, tudo misturado num coquetel que fazia os olhos arderem e o peito apertar.
Abriu a câmera. Fotografou o quarto: a mesa baixa, a luz no tatami, o bambu pela janela, o espaço vazio que deveria parecer austero mas parecia, de algum modo, acolhedor. Como se o vazio fosse o ponto. Como se não ter nada ali fosse o convite pra ela colocar o que quisesse. A luz entrava pela janela em ângulo baixo, e onde tocava a madeira da mesa, acendia um brilho dourado que parecia quase intencional, quase sagrado.
Fotografou os próprios pés no tatami — pés morenos com esmalte descascado, unhas que precisavam de atenção, pele seca de avião. Pés de Luna Ferreira. Em Kyoto. No chão. Os dedos se curvavam na palha trançada como se tentassem se agarrar, encontrar raiz num solo estrangeiro.
Mandou a foto pra Tom: meu quarto. não tem cama. tem bambu. estou dormindo no chão como samurai. se eu não mandar mensagem amanhã é porque morri de jet lag e eles me enterraram com educação.
Tom respondeu: pelo menos vai ser o enterro mais organizado do mundo.
Luna riu. Depois parou de rir. Porque no silêncio do quarto — e era um silêncio denso, não vazio, cheio de coisas que ela ainda não sabia ouvir — a voz de Marcos voltou. Baixinha, insistente, como goteira numa noite insone.
Você é demais, Luna. Demais pra qualquer um.
A voz tinha a mesma cadência de sempre — calma, racional, como se estivesse explicando um fato óbvio a uma criança que se recusava a entender. O tom que fazia a frase parecer gentil quando na verdade era uma faca. Quatro anos ouvindo variações daquilo — Luna, abaixa a voz. Luna, por que você precisa chorar agora? Luna, todo mundo tá olhando. Quatro anos aprendendo a pedir desculpa pelo próprio tamanho.
Luna abraçou os joelhos. A palha do tatami rangia baixinho, como se o chão também estivesse tentando falar.
— Eu não sou demais — sussurrou pro quarto vazio, pro bambu, pra Kyoto inteira. — Eu sou exatamente isso. Isso aqui.
Mas a voz não acreditou nela. Ainda não.
Abriu a mala — a vermelha, que tinha roupas e caos. Tirou três vestidos, dois casacos, uma nécessaire transbordando, um kit de aquarela que não devia ter trazido mas não conseguiu deixar, e o caderno de anotações onde escrevia ideias de fotos. Na primeira página, a anotação que tinha feito no avião: Kyoto escondida. Encontrar o que os roteiros não mostram. O real por trás do bonito.
Fechou o caderno. Olhou o jardim.
O bambu se movia devagar, metódico, como se dançasse uma música que só Kyoto conhecia. A luz mudou — o sol subindo, os retângulos no tatami alongando, a cor do verde se transformando de escuro em dourado. O vento mudou de direção e trouxe um cheiro novo — terra molhada, como se tivesse chovido durante a noite, e por cima da terra, incenso. Sempre incenso. Kyoto cheirava a incenso como São Paulo cheirava a asfalto quente: era a nota de fundo, a base olfativa, a identidade.
Luna pegou a câmera automaticamente, instinto de fotógrafa, e clicou.
Clique.
O som encheu o silêncio. Pequeno, mecânico, preciso.
Ela não sabia ainda, mas aquele seria o som que definiria seus próximos três meses — um clique no silêncio. Uma interrupção num ritmo que não era o dela. Um barulho pequeno e exato num mundo que funcionava sem barulho nenhum.
Luna Ferreira em Kyoto. Demais pra qualquer lugar.
Mas talvez — talvez — exatamente o suficiente pra este.
Pegou o celular. Mandou áudio pra Tom:
— Mano, eu tô no futuro e o futuro não tem cama. Mas tem bambu, tem uma senhora japonesa que fala português e me mandou comer antes de chorar, e tem um silêncio que eu juro que tá tentando me dizer alguma coisa. Eu não sei o que é. Mas eu tô ouvindo. Pela primeira vez em muito tempo, eu tô ouvindo.
Desligou. Deitou no tatami mesmo, sem futon, sem travesseiro, rosto na palha que cheirava a terra e tempo. A fibra era áspera contra a bochecha, mas não desconfortável — era real. Sólida. Presente. Diferente de tudo que Luna tinha sentido nos últimos cinco meses, que era algodão e distância e anestesia emocional.
Dormiu em dois minutos.
Kyoto esperava. Não tinha pressa.
