CAPÍTULO 2Gratuito
O Buddy
O cartaz havia ficado bom, na opinião de Callum.
Ele havia feito à mão porque a impressora do apartamento estava sem tinta fazia duas semanas e ele não havia comprado mais porque havia decidido, em algum momento da semana anterior, que ia comprar depois. A letra era legível. BIANCA AVES. Preto sobre branco A4.
Ele ficou no saguão do Robarts com o cartaz na altura do peito por quinze minutos antes de ver uma garota de cabelo escuro, jaqueta que claramente não era adequada para a temperatura externa, e mochila nas costas parando na entrada e varrendo o saguão com um olhar sistemático que lembrava menos um estudante em orientation day e mais alguém fazendo reconhecimento de área.
Ela encontrou o cartaz. Encontrou ele.
E caminhou na direção de Callum com uma expressão que era neutra mas não era vazia — tinha textura, como se ela estivesse calculando algo que ele não tinha dado como variável.
— Falta um L no meu nome, — foi o que ela disse, chegando.
Ele olhou para o cartaz. BIANCA AVES.
— Alves, — ela disse. — A-L-V-E-S.
— Certo, — disse Callum. — Desculpa.
Ele não tinha pedido desculpa com muito entusiasmo, pela expressão dela. Mas ela não disse nada a respeito. Apenas ajustou a alça da mochila no ombro.
— Callum Reid, — ele disse.
— Eu sei. O e-mail veio com foto.
O e-mail havia vindo com foto? Ele não lembrava de ter mandado foto. Havia mandado foto? Ele ia ter que checar isso depois.
— Bom, — disse ele. — Vamos começar pelo tour.
O programa de buddy da universidade existia porque alguém, em algum momento, havia decidido que estudantes internacionais precisavam de um guia local para os primeiros dias. Callum havia se inscrito no semestre anterior porque Diego havia dito que era "fácil, cara, são tipo três encontros", o que havia sido uma descrição otimista para algo que na realidade era um tour de campus, uma orientation session, e disponibilidade teórica para dúvidas gerais.
Ele havia tido duas buddies antes. Uma era de Taiwan, chegou sabendo mais sobre Toronto do que ele, e basicamente conduziu o tour sozinha enquanto ele apenas confirmava informações. A outra era de Amsterdã, chegou com um guia impresso que havia baixado no site da universidade e passou o tour corrigindo detalhes do próprio guia em tempo real. Ambas haviam sido satisfatórias. Haviam precisado pouco dele. Era como funcionava melhor.
Bianca Alves fotografava tudo.
Não com o celular — com uma câmera analógica pequena, cor de prata opaca, que ela tirou da mochila antes mesmo de saírem do saguão. Ela fotografou o painel de avisos. Fotografou o corredor. Fotografou, por algum motivo, a fonte de água bebável perto da saída.
— Isso, — disse Callum, quando eles saíram para o pátio e ela parou para fotografar Robarts de fora, — vai demorar mais do que eu planejei.
— Então a gente pode ir mais devagar, — disse ela, abaixando a câmera.
Ela disse isso como se fosse uma solução razoável, não uma provocação. Callum não conseguiu decidir se era uma ou outra.
Eles foram pela King's College Circle em direção ao University College. Callum deu as informações padrão — fundada em 1827, maior biblioteca de pesquisa do Canadá, esse prédio foi construído em 1859 — no ritmo que ele sempre usava, que era eficiente sem ser apressado. Ela andava a uns dois passos atrás. Não porque estivesse lenta: porque parava.
Parava para fotografar as gárgulas do University College.
Parava para ler a placa comemorativa na entrada do Convocation Hall.
Parou, por um tempo desconcertante, na frente de uma bicicleta abandonada com neve acumulada no selim.
— A bicicleta, — disse Callum.
— É bonito, — disse ela. — Parece que a pessoa vai voltar mas não volta.
Ele ficou alguns segundos decidindo se ia comentar isso. Não comentou.
— Convocation Hall, — disse ele, indicando o prédio à frente. — Usado para formaturas e eventos oficiais. Capacidade para...
— Você estudou aqui, — ela disse. Não era pergunta.
— Sim.
— Graduação em quê?
— Ciência Política.
— E agora?
— Mestrado. Ciência Política.
Ela processou isso. — É muita Ciência Política.
— É o suficiente.
— Você gosta?
Ele olhou para ela. Era a terceira vez em dez minutos que ela fazia uma pergunta pessoal no meio de uma informação sobre o campus, com aquela mesma naturalidade de quem não percebia a distinção entre as duas categorias.
— Anda, — disse ele.
Ela andou.
O frio havia piorado desde de manhã. Callum estava com a jaqueta correta, gorro, luvas — equipamento padrão de novembro em Toronto. Ela estava com uma jaqueta que provavelmente havia parecido pesada o suficiente no contexto brasileiro, mais uma cachecol enrolado duas vezes no pescoço e luvas finas que não eram luvas de inverno mas de outono tardio.
Ela não estava reclamando do frio. O que era, de alguma forma, mais perturbador do que se estivesse.
Passaram pela Sidney Smith Hall, pelo Sid Smith como todo mundo chamava, e ela fotografou a escada externa. Passaram pelo Bahen Centre e ela fotografou o telão com horários. Callum ia dando as informações. Ela ia ouvindo — ele tinha essa percepção, que ela estava ouvindo, mesmo quando estava com a câmera na frente do rosto.
Quando chegaram na Hart House, ela parou no caminho e ficou olhando para a fachada.
— Parece saído de um livro, — disse ela.
— Provavelmente foi, — disse Callum.
Ela olhou para ele.
Ele explicou: — É arquitetura collegiate gothic. O estilo foi desenvolvido especificamente para universidades no século XIX. Então vários livros de época a descrevem como cenário. Na prática foi o livro que veio antes do estilo.
Ela ficou quieta por um segundo. E então riu.
Não era uma risada longa ou demonstrativa. Era curta, genuína, ligeiramente surpresa — como se a observação tivesse chegado de um ângulo que ela não esperava.
Callum não entendeu por que isso o incomodou.
Era uma informação. Ele havia dado uma informação. Pessoas ríam de informações às vezes, por razões que ele nem sempre conseguia seguir. Era normal.
— Hart House, — disse ele, retomando o tom de tour, — foi inaugurada em 1919. Funciona como centro estudantil, tem teatro, academia, salas de estar, restaurante...
— Você come aqui? — ela interrompeu.
— Raramente.
— Por quê?
— É caro.
— Ah. — Ela fotografou a porta principal. — Então você sabe onde é barato.
— Isso está no e-mail de orientação.
— O e-mail de orientação tem catorze páginas.
— Doze.
— Li cinco. Ficou chato.
Ele a olhou de lado. Ela tinha dito isso com uma tranquilidade que sugeria que era um fato, não uma confissão.
— Tem um lugar na Bloor que faz pho por oito dólares, — disse ele, sem saber exatamente por que estava dizendo. — Fica lotado no almoço mas o jantar é rápido.
Ela anotou num caderno pequeno que havia tirado do bolso do casaco. Um caderno de verdade, papel, caneta esferográfica. Ele não havia visto alguém anotar coisas à mão assim, dessa forma reflexa, fazia tempo.
O tour seguiu. Callum tinha mais três paradas — a biblioteca Gerstein, o escritório de assuntos internacionais, o prédio do departamento dela. Ele as fez no tempo estimado, sem nenhuma parada extra.
No fim, na frente do departamento de Jornalismo e Mídia, ela virou para ele.
— Obrigada, — disse ela. — Foi útil.
— O e-mail tem o restante das informações, — disse Callum.
— As doze páginas.
— Doze.
Um segundo de silêncio que não era exatamente desconfortável mas tampouco era fácil.
— Tem alguma coisa específica que você precisa? — disse ele. Era a pergunta padrão do encerramento do buddy program. Ele sempre fazia. Ninguém nunca tinha uma resposta específica.
Ela pensou.
— Sim, — disse ela. — Onde fica a redação do jornal do campus?
— The Meridian? — disse ele. — Não é no roteiro do buddy program.
— Eu sei. Mas você sabe onde é?
Ele sabia onde era. Havia passado pela placa centenas de vezes indo ao departamento.
— Bloor com St. George, — disse ele. — Segundo andar.
— Obrigada. — Ela já estava andando. — A gente vai se ver, Callum.
Ele ficou parado vendo ela ir, câmera balançando na alça do pescoço, caderno de volta no bolso.
No metrô de volta para casa, ele ficou olhando para o reflexo da janela do vagão e pensando que havia dado as informações todas corretas, havia feito o tour no tempo certo, havia respondido às perguntas — exceto as que ele havia optado por não responder. Havia sido adequado.
Não havia razão nenhuma para que a risada dela ainda estivesse ocupando espaço no dia.
