CAPÍTULO 2Gratuito
Jogo de Poder
TÍTULO: Jogo de Poder
Valentina sobreviveu ao primeiro dia por pura teimosia.
Quando finalmente deixou o edifício da Bellanti às oito da noite — três horas além do horário que Chiara havia mencionado —, seus pés sangravam dentro dos sapatos e sua cabeça latejava. Ela mal se lembrava de ter comido algo além de um pedaço de pão que Leo gentilmente lhe oferecera no meio da tarde.
O apartamento minúsculo que alugara na periferia de Milão parecia um palácio quando finalmente atravessou a porta. Valentina tirou os sapatos, deixou a bolsa cair no chão e se jogou na cama estreita sem nem trocar de roupa.
Suas últimas economias haviam pago o primeiro mês de aluguel. Agora, ela dependia inteiramente do salário de estagiária — que era vergonhosamente baixo — para sobreviver em uma das cidades mais caras da Europa.
Mas não importava. Ela estava dentro da Bellanti.
Bem no inferno, como Leo havia dito, mas estava dentro.
Enquanto a exaustão a puxava para o sono, uma imagem persistia em sua mente: olhos cinzentos tempestuosos encarando-a através do andar aberto. Matteo Bellanti. O homem era ainda mais magnético pessoalmente do que nas raras fotos que ela encontrara na internet. Ele evitava a imprensa como praga, mantinha sua vida pessoal trancada a sete chaves e, segundo as fofocas que Valentina ouvira ao longo do dia, não se envolvia com ninguém desde a morte de sua esposa.
Cinco anos sozinho. Cinco anos transformando dor em poder, construindo um império ainda maior sobre as cinzas de sua tragédia pessoal.
Valentina adormeceu pensando naquele olhar.
---
Na manhã seguinte, ela acordou antes do alarme, tomou um banho rápido e escolheu outro vestido simples de sua coleção limitada — este azul-marinho, com um corte que valorizava sua silhueta sem ser provocante. Prendeu os longos cabelos castanhos em um coque baixo, passou um gloss discreto nos lábios e olhou-se no espelho rachado do banheiro.
— Você consegue — disse para seu reflexo. — É só mais um dia.
Chegou à Bellanti às oito e quinze, decidida a não repetir o "atraso" do dia anterior.
O décimo primeiro andar ainda estava vazio, exceto por uma pessoa.
Matteo Bellanti estava de pé diante das janelas que davam para Milão, uma xícara de café na mão, observando a cidade despertar. Ele usava calça social cinza e camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços definidos. Sem gravata. Sem paletó. Mais acessível do que no dia anterior, mas não menos imponente.
Valentina congelou na entrada, sem saber se devia cumprimentá-lo ou fazer-se invisível.
Ele resolveu o dilema por ela.
— Você é a nova estagiária. — Não era uma pergunta. Sua voz era grave, com aquele sotaque italiano do norte que soava ao mesmo tempo refinado e autoritário.
— Sim, senhor. Valentina Rossi. — Ela deu um passo à frente, o coração acelerado.
Matteo virou-se para encará-la, e novamente Valentina sentiu o impacto daqueles olhos cinzentos. Ele a examinou de cima a baixo, não de forma desrespeitosa, mas com a precisão de alguém que avaliava cada detalhe.
— Você fez esse vestido — disse ele.
Não era uma pergunta, mas Valentina respondeu mesmo assim.
— Sim. Eu... costumo fazer minhas próprias roupas.
— O corte é interessante. Limpo. A escolha do tecido, questionável. — Ele tomou um gole do café, ainda observando-a. — Mas você tem olho para proporção.
Valentina não sabia se aquilo era um elogio ou uma crítica. Com Matteo Bellanti, provavelmente era ambos.
— Obrigada, senhor.
— Não me agradeça por uma observação objetiva. — Ele colocou a xícara sobre a mesa mais próxima. — Chiara disse que você deixou cair uma das sedas de Como ontem.
O coração de Valentina afundou.
— Foi um acidente. Não acontecerá novamente.
— Acidentes não existem. Apenas falta de atenção. — Ele cruzou os braços, e o movimento fez os músculos sob a camisa se contorcerem sutilmente. — Na Bellanti, não há espaço para falta de atenção. Um erro em um desfile, uma costura mal feita em uma peça, um tecido cortado incorretamente — tudo isso custa milhões. Reputação. Confiança.
— Eu entendo.
— Entende? — Ele inclinou a cabeça levemente, e algo perigoso brilhou em seus olhos. — Você tem vinte e quatro anos. Vem de Nápoles. Formação em design pela Academia, notas medianas, nenhuma experiência relevante exceto trabalhar na alfaiataria da sua mãe. — Ele recitava seu currículo de memória, e Valentina sentiu-se nua, exposta. — Me diga, Valentina Rossi, por que eu deveria acreditar que você entende o que está em jogo aqui?
A raiva começou a borbulhar dentro dela. Raiva por ser diminuída, por ter sua história reduzida a "medianas" e "nenhuma experiência relevante".
— Porque eu não estou aqui para fazer o mínimo — respondeu, erguendo o queixo. — Estou aqui porque moda não é apenas meu trabalho. É minha linguagem. É como eu vejo o mundo. Cada tecido conta uma história, cada costura é uma decisão, cada peça carrega a alma de quem a criou. — Ela deu um passo à frente, ousada. — Talvez minhas notas fossem medianas porque eu estava ocupada demais criando, ao invés de apenas estudar teoria. Talvez minha experiência não esteja em um currículo impressionante, mas nas centenas de peças que costurei à mão, nas madrugadas que passei entendendo como um tecido se comporta, como uma cor pode mudar completamente o significado de uma silhueta.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Matteo Bellanti a encarava com uma intensidade renovada, e Valentina percebeu tarde demais que havia acabado de confrontar o CEO bilionário da empresa no segundo dia de estágio.
Ela estava demitida. Sem dúvida.
Mas então, surpreendentemente, algo mudou no rosto dele. Não exatamente um sorriso, mas um leve relaxamento na linha da mandíbula. Um brilho diferente nos olhos.
— Interessante — murmurou ele. — Chiara disse que você era quieta. Submissa.
— Chiara não me conhece.
— Aparentemente. — Ele pegou a xícara de café novamente. — Você tem paixão. Isso é raro. A maioria das pessoas que passam por aqui quer apenas o nome Bellanti no currículo. Querem a foto no Instagram. Querem dizer que trabalharam aqui.
— Eu quero aprender. Quero criar.
— Então terá sua chance. — Matteo caminhou até o elevador. — Hoje à tarde, décimo segundo andar, quinze horas. Reunião de desenvolvimento da coleção de inverno. Você estará lá.
Valentina piscou, confusa.
— Mas... estagiários não participam dessas reuniões.
— Agora participam. — Ele pressionou o botão do elevador. — E Valentina?
— Sim?
— Vista algo melhor. — As portas do elevador se abriram. — Você pode fazer suas próprias roupas, mas se vai sentar naquela mesa, precisa parecer que pertence à Bellanti, não a uma boutique de bairro.
E então ele desapareceu, deixando Valentina sozinha no andar vazio, o coração batendo descompassado.
---
— Você está brincando comigo — disse Leo duas horas depois, quando Valentina contou o que havia acontecido. — Matteo Bellanti pessoalmente te convidou para a reunião de desenvolvimento?
Eles estavam na pequena copa do décimo primeiro andar, supostamente organizando amostras de botões, mas na verdade Leo estava bombardeando Valentina de informações.
— Ele disse para eu ir. Não sei se é um convite ou uma armadilha.
— Com Matteo, geralmente é ambos. — Leo olhou ao redor, certificando-se de que estavam sozinhos. — Escuta, eu trabalho aqui há cinco anos. Nesse tempo, vi o homem comparecer a talvez dez reuniões criativas. Ele geralmente deixa tudo nas mãos de Chiara e da diretoria. Ele cuida dos negócios, das aquisições, dos investidores. Não de tecidos e coleções.
— Então por que ele quer que eu esteja lá?
— Essa é a pergunta de um milhão de euros. — Leo mordeu o lábio. — Olha, vou te falar uma coisa que ninguém comenta abertamente. Há uma guerra acontecendo aqui.
— Guerra?
— Chiara quer controle total da empresa. Ela é cunhada de Matteo — casada com o irmão mais novo dele, Alessandro. Quando a esposa de Matteo morreu, Chiara viu uma oportunidade. Matteo afundou no trabalho e no luto, e Chiara foi assumindo cada vez mais poder criativo. — Leo baixou a voz ainda mais. — Mas recentemente, os lucros estão caindo. As últimas coleções não tiveram o impacto esperado. Os investidores estão inquietos. E Matteo está começando a prestar atenção novamente.
— E eu entro nisso como?
— Não sei. Mas se Matteo está te colocando naquela sala, é porque quer provar algo. Ou para Chiara. Ou para si mesmo. — Leo tocou seu braço gentilmente. — Apenas tome cuidado. Chiara não perdoa ameaças, reais ou percebidas.
Valentina passou o resto da manhã em estado de nervos. Às quatorze horas, quando Chiara atravessou o andar como uma tempestade, parando diante de sua mesa, ela soube que os problemas haviam começado.
— Você vai à reunião das quinze horas — disse Chiara, e não havia nada de acolhedor em seu tom.
— Sim, Matteo me...
— Sei o que Matteo fez. — Chiara inclinou-se sobre a mesa, seu perfume caro invadindo o espaço de Valentina. — Deixe-me ser clara. Você é uma estagiária. Você não opina. Você não sugere. Você não fala a menos que seja diretamente questionada. Você senta, observa e aprende. Entendido?
— Perfeitamente.
— Ótimo. — Chiara endireitou-se, alisando a saia impecável. — E Valentina? — Seu sorriso era de predador. — Esse vestido azul é adequado para organizar tecidos. Não para sentar ao lado dos tomadores de decisão desta empresa. Mas suponho que você fará o melhor que puder com o que tem.
A humilhação queimou nas bochechas de Valentina, mas ela forçou-se a manter o rosto impassível. Chiara queria uma reação. Ela não daria esse gostinho.
Às quinze horas menos cinco, Valentina respirou fundo e subiu ao décimo segundo andar.
Se o décimo primeiro andar era impressionante, o décimo segundo era outro universo. Tudo ali gritava poder e dinheiro. As paredes eram revestidas de madeira escura, o piso era mármore negro, e obras de arte que Valentina tinha certeza serem originais decoravam cada espaço.
Uma assistente impecavelmente vestida a guiou até uma sala de reuniões enorme. A mesa de vidro e aço podia acomodar facilmente vinte pessoas. Cadeiras de couro preto. Uma parede inteira de vidro revelando Milão aos pés deles.
Já havia pessoas sentadas. Chiara à cabeceira da mesa, ao lado de uma cadeira vazia que presumivelmente era de Matteo. Três homens de meia-idade que Valentina não reconheceu. Duas mulheres elegantes que a olharam com curiosidade mal disfarçada. E Leo, que lhe lançou um olhar encorajador do outro lado da mesa.
Valentina escolheu uma cadeira no meio da mesa, longe demais para ser presunçosa, mas perto o suficiente para ver e ouvir tudo.
Às quinze horas em ponto, Matteo Bellanti entrou.
Ele havia colocado o paletó — cinza carvão, combinando com a calça — e a gravata azul-escura adicionava uma elegância letal ao conjunto. Seu cabelo negro estava perfeitamente penteado, e quando seus olhos varreram a sala, pousando brevemente em Valentina antes de seguir em frente, ela sentiu aquele aperto familiar no peito.
— Vamos começar — disse ele, sentando-se. Sua voz cortou o silêncio como uma lâmina. — Chiara, apresente os conceitos para a coleção de inverno.
Chiara levantou-se, conectando um laptop ao projetor. A parede oposta ganhou vida com imagens.
— A coleção deste inverno se chama 'Gelo e Fogo' — começou ela, sua voz confiante e clara. — A proposta é contrastar texturas: pelos luxuosos com couros envernizados, sedas leves com lãs pesadas. A paleta de cores varia entre brancos glaciais, cinzas profundos e vermelhos sangue.
As imagens que apareciam eram tecnicamente perfeitas. Elegantes. Sofisticadas.
E completamente sem alma.
Valentina observava, mordendo o lábio. Cada peça era bonita, mas havia algo faltando. Não havia emoção. Não havia história. Era moda para ser admirada em uma vitrine, não para ser sentida, vivida, desejada.
— Pensamentos? — Matteo dirigiu-se à mesa.
Os três homens teceram elogios cuidadosos. As duas mulheres concordaram entusiasticamente. Leo permaneceu diplomaticamente neutro.
O olhar de Matteo passou pela mesa e pousou em Valentina.
— E você? O que achou?
O silêncio foi instantâneo. Todos se viraram para ela. Chiara a fuzilou com os olhos, um aviso silencioso.
Valentina sabia que deveria concordar. Deveria elogiar. Deveria ser segura.
Mas então se lembrou da conversa da manhã. Da paixão que havia declarado. E se lembrou de por que estava ali.
— É lindamente executado — começou ela, escolhendo as palavras com cuidado. — As combinações de texturas são interessantes e a paleta de cores é elegante.
— Mas? — Matteo inclinou-se levemente para frente, e ela percebeu que ele havia detectado a hesitação em sua voz.
— Mas falta desejo — disse Valentina, e sentiu Chiara enrijecer na cadeira. — Essas peças são bonitas de olhar, mas não fazem a mulher querer possuí-las. Não fazem ela se sentir poderosa, sensual, inesquecível. Elas são... corretas. E moda que é apenas correta não é memorável.
O silêncio que se seguiu era tão denso que Valentina podia ouvi-lo pulsar em seus ouvidos.
Chiara estava lívida, os nós dos dedos brancos onde agarrava a mesa.
Os outros pareciam chocados de que uma estagiária tivesse ousado criticar a diretora criativa.
Leo parecia impressionado e aterrorizado ao mesmo tempo.
E Matteo...
Matteo Bellanti a observava com aquela intensidade devastadora, e então, pela primeira vez desde que Valentina o conhecera, ele sorriu.
Não foi um sorriso grande. Apenas uma curvatura sutil nos lábios. Mas transformou completamente seu rosto, revelando uma beleza quase perigosa.
— Explique — disse ele.
E Valentina respirou fundo, sabendo que havia acabado de pular de um penhasco sem saber se havia rede de segurança esperando lá embaixo.
