CAPÍTULO 3Gratuito
A Notícia
Priya contou para Bianca às 19h34 de terça-feira, sentada na beira da cama de Bianca com a mochila ainda nas costas porque havia chegado em casa e ido direto ao quarto dela sem passar pelo próprio quarto primeiro, o que em retrospecto era dado sobre o estado de agitação interna que ela não havia procesado completamente.
Bianca estava deitada de lado com o laptop no travesseiro, revisando o que parecia ser um rascunho, e quando Priya abriu a porta disse "um segundo" sem levantar os olhos, e o segundo virou trinta segundos enquanto ela terminava o parágrafo, e nesse tempo Priya ficou ali com a mochila nas costas pensando que havia algo levemente absurdo em ser a pessoa que recebeu oferta de clerkship na CIJ e estar esperando alguém terminar um parágrafo para poder contar.
— Pronto — Bianca disse, finalmente levantando os olhos. — O que foi? Você está com a cara de análise.
— Tenho cara de análise?
— Você tem várias caras. Essa é a de análise. É quando você está organizando informação antes de falar. — Bianca fechou o laptop. — O que aconteceu?
— Recebi o resultado da candidatura para a CIJ.
Bianca sentou. Rápido.
— E?
— Fui aceita.
Havia um tipo de silêncio que precede a reação quando a reação é genuína — não performática, não calibrada para a situação, mas real. Priya havia ficado boa em distinguir os dois. O silêncio de Bianca era do segundo tipo.
— Priya — ela disse. — Meu Deus.
— É o clerkship de setembro. Para Haia.
— Haia. Países Baixos. Você vai para os Países Baixos.
— A posição é em setembro, sim.
— Priya. — Bianca levantou da cama e abraçou ela, o que era resposta física que Priya não havia calculado, e Priya ficou um segundo com os braços sem saber onde ir antes de retribuir. — Isso é incrível. Isso é exatamente — isso é o que você queria.
— É o que eu trabalhei para — Priya disse, com a voz levemente amortecida pelo ombro de Bianca.
— É a mesma coisa.
Elas ficaram assim por um momento. Depois Bianca se afastou com a expressão de quem ainda não terminou de processar.
— Conta tudo. Quando você soube? Você ligou para seus pais? O que o—
Ela parou. Fez uma pausa de 0,8 segundos.
— O que Marcus disse?
— Ele disse que era exatamente o que eu merecia.
Bianca ficou com isso.
— É verdade — ela disse finalmente. — Mas — ok, conta em ordem. Quando você soube?
Priya contou. O email às 14h03, os três fechamentos do laptop, o silêncio na biblioteca, a forma como havia esperado até as 15h11 para contar. Bianca ouviu com a atenção que Priya havia aprendido a reconhecer nela — presente, não interrompendo, processando à medida que recebia.
— Por que você esperou até as três? — Bianca perguntou quando ela terminou.
— Precisava de tempo com a informação antes de entregá-la.
— *Entregá-la.*
— Compartilhá-la.
Bianca não disse nada por um segundo. Depois: — Ok. E agora como você está?
Priya considerou a pergunta. Era o tipo de pergunta que merecia resposta honesta.
— Estou com muitos dados e nenhuma síntese — ela disse.
— Isso é o equivalente Priya de "não sei como me sinto."
— É uma forma mais precisa de dizer a mesma coisa, sim.
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Ela mandou mensagem para Diego às 20h17.
*recebi o resultado da CIJ. fui aceita. clerkship em Haia, setembro.*
Diego demorou quatro minutos para responder, que era um intervalo longo para Diego, que normalmente respondia em menos de um minuto. Quando respondeu, foi em maiúsculas:
*PRIYA.*
E depois, imediatamente:
*PRIYA SHARMA.*
E depois:
*eu preciso de um segundo para processar isso*
*ok processado*
*VOCÊ FOI ACEITA NA CIJ???*
Priya ficou olhando para a tela por um momento com algo que reconhecia como afeto. Diego Ferreira tinha, entre outras qualidades, a de reagir a boas notícias com a intensidade que elas mereciam sem calcular se essa intensidade era socialmente adequada.
*sim* — ela mandou.
*Priya isso é o maior negócio. sério. maior negócio.*
*você vai aceitar né*
*ainda estou processando*
*o que há para processar? CIJ. HAIA. você vai.*
*há variáveis*
*quais variáveis*
Ela ficou com o celular na mão por um momento. Depois:
*ainda calculando*
*é o Marcus né*
Priya não respondeu imediatamente. Diego mandou:
*não precisa responder se não quiser*
*mas se quiser falar estou aqui, Nat também*
*e Priya: você vai aceitar. você sabe que vai.*
Ela pousou o celular.
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Nat respondeu à mensagem de texto no dia seguinte de manhã, que era o padrão de Nat — ela verificava o celular em blocos, um hábito que Priya havia documentado e respeitava profundamente.
*Priya. Isso é enorme. Parabéns. Você merece completamente.*
E depois, depois de uma pausa de dois minutos:
*Como você está? (não a versão profissional, a versão real)*
Priya gostava de Nat. Havia algo na forma como ela fazia perguntas — direta, sem decoração, sem transformar a pergunta em declaração disfarçada — que tornava honestidade mais fácil.
*processando* — ela mandou. *A versão profissional e a versão real são a mesma resposta neste caso.*
*Faz sentido. Me fala quando quiser.*
*como está SP → Toronto?*
*diferente do esperado em formas melhores do que esperado* — Nat respondeu. *Diego está em modo de adaptação mas está bem. A cidade está sendo gentil.*
*fico feliz*
*você vai aceitar, né?*
*você é a terceira pessoa a perguntar isso*
*o que as outras duas disseram quando você não respondeu diretamente?*
*que eu ia aceitar*
*elas têm razão*
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Na quinta-feira, Bianca fez chá.
Era um ritual que havia emergido no outono — Priya não bebia chá por preferência, bebia por funcionalidade quando o café era tarde demais, mas havia algo na cerimônia de Bianca com a chaleira e as xícaras e a forma de escolher a erva específica que havia se tornado, sem que Priya houvesse planejado, uma forma de conversa. O chá significava que Bianca queria falar de algo que precisava de mais do que trinta segundos.
A erva era camomila, o que significava que Bianca achava que Priya estava em estado de agitação e queria ajudar com isso. Priya não estava em estado de agitação. Estava em estado de dados acumulados sem framework de síntese, que era diferente.
Sentaram na mesa da cozinha. Lá fora a neve havia recomeçado — flocos finos, o tipo que não acumula logo, fica suspenso no ar por tempo suficiente para parecer intencional.
— Você já respondeu? — Bianca perguntou.
— Ainda não.
— O prazo é quando?
— Duas semanas.
Bianca segurou a xícara com as duas mãos. Era postura de ouvir, não de opinar.
— O que está te segurando? — ela perguntou.
— Não estou sendo segurada. Estou processando o escopo completo antes de responder.
— Ok. Qual é o escopo?
Priya olhou para o chá. Camomila tinha uma cor específica — amarelo-palha, levemente turvo, com a erva ainda em suspensão se você não esperasse tempo suficiente. Ela havia esperado tempo suficiente.
— A posição começa em setembro — ela disse. — É compromisso de doze meses. Em Haia. O que significa que o mestrado termina em abril, eu tenho o verão para organizar, e em setembro estou na Holanda por um ano.
— Eu ouço a parte logística. O que mais?
Priya ficou com a xícara.
— Marcus disse que era o que eu merecia — ela disse.
Bianca esperou.
— É tudo que ele disse?
— Foi o que ele disse na hora.
— Na hora da biblioteca. — Bianca inclinou levemente a cabeça. — E depois?
— Depois saímos, fomos para o metrô, eu desci na minha parada, boa noite.
— E desde terça?
— Rotina normal. Ontem foi quarta, biblioteca como sempre. Não voltamos ao assunto.
Bianca ficou quieta por um momento que Priya reconhecia como o momento em que ela estava escolhendo com cuidado o que dizer em seguida.
— Priya. — Ela falou com voz cuidadosa mas não gentil-demais, que era a versão de Bianca que significava que ela ia dizer algo real. — Você está esperando que ele diga alguma coisa ou você está esperando que o problema se resolva sem que ninguém diga alguma coisa?
Priya considerou a distinção.
— Não sei se há problema — ela disse.
— Não está dizendo que tem. Estou perguntando se você está esperando.
Era uma pergunta boa. Priya tinha que admitir que era uma pergunta muito boa.
— Estou com os dados — ela disse finalmente. — Mas não estou certa do que a análise revela ainda.
— Que dados?
— Que ele disse a coisa certa. Que a coisa certa cobriu algo que ainda não foi dito. Que nós não voltamos ao assunto em quarenta e oito horas e nenhum dos dois iniciou a conversa. — Ela fez uma pausa. — Que eu não sei se o fato de nenhum de nós ter iniciado é dado sobre conforto ou dado sobre evitação.
Bianca ficou com isso por um momento longo.
— O que você quer que ele diga? — ela perguntou por fim.
Priya abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
— Não sei — ela disse.
E aquilo, descobria, era a parte mais complicada: não saber o que queria ouvir, o que tornava impossível avaliar se estava recebendo ou não. Era problema metodológico. Você não pode medir ausência de dado que não sabe definir.
Bianca não disse nada por um tempo. Depois passou a mão brevemente no antebraço de Priya, que era o tipo de gesto que havia aprendido a receber sem catalogar como dado a ser analisado.
— Chá — disse Bianca.
— Chá — concordou Priya.
E beberam o chá em silêncio, enquanto a neve fina continuava lá fora, o tipo que fica suspenso no ar por tempo suficiente para parecer intencional, antes de pousar.
