CAPÍTULO 3Gratuito
Regras de Sobrevivência
O café da manhã de São Paulo acontecia em velocidade diferente do café da manhã de Toronto.
Em Toronto, Diego comia cereal ou torrada em pé na cozinha entre seis e quarenta e cinco e sete e dez, de olho no celular, pronto pra sair. Em São Paulo — na versão de São Paulo que Gustavo estava apresentando a ele na cozinha compartilhada do apartamento na manhã seguinte à chegada — o café da manhã era uma operação. Pão de queijo do pacote colocado no forno de microondas, o que Gustavo fez com o nível de protocolo de quem sabe que a temperatura exata importa. Café coado, não Nespresso, porque "Nespresso é para quem não tem tempo pra viver direito". Mamão com limão porque Gustavo disse "você precisa de vitamina C pra aguentar o trânsito" com um nível de seriedade que Diego não conseguiu determinar se era irônico.
"Então," disse Gustavo, sentado à mesa com o café nas mãos, "vou te explicar as regras."
"Tem um manual?"
"Tem tradição oral. Melhor do que manual." Gustavo ergueu um dedo. "Regra um: o metrô Linha 2-Verde é o mais eficiente. Linha 1-Azul é okay. Ônibus só se você souber exatamente o que está fazendo, que você não sabe. Uber funciona mas o trânsito vai te matar de espera nos horários de pico."
"Quais são os horários de pico?"
"Seis a dez da manhã. Onze e meia ao meio-dia e meio. Dezessete a vinte. E às vezes o resto."
"Então não tem janela."
"Tem janela. É estreita." Segundo dedo. "Regra dois: SP tem bairros com personalidade própria. Vila Madalena é onde eu moro, é artista, barzinho, preço inflacionado por turista mas ainda bom. Consolação onde você está é misto, estudante, boate, farmácia a qualquer hora. Pinheiros é parecido com Vila Madalena mas se acha menos. Lapa é onde a cidade começa a ser outra coisa. Ipiranga, onde a sua avó mora, é mais quieto, mais antigo."
"Eu vou visitar ela essa semana."
Gustavo fez uma pausa mínima. "Ela sabe que você está vindo?"
"Falei com ela antes de embarcar. Ela disse 'tá bom, filho'."
"Ela chama todo mundo de filho."
"Eu sei. Mas ela pareceu feliz."
Gustavo não disse nada por um segundo, que Diego interpretou como concordância silenciosa. A avó, Letícia, era um assunto que a família tratava com um cuidado específico — não porque havia problema, mas porque havia camadas. Ela era a mãe do pai de Diego, que tinha ido embora e nunca voltado de verdade, e a relação entre os dois era uma coisa que Diego conhecia de forma fragmentada através de ligações de Natal e aniversário e dois encontros nos últimos vinte e dois anos.
"Terceira regra," disse Gustavo, levantando o terceiro dedo. "Ninguém vai te explicar piada nenhuma."
"Como assim?"
"Se você fizer uma referência que não pegou ou uma piada com timing errado e ninguém rir, ninguém vai te explicar o que estava errado. O silêncio é o feedback. Você aprende a ler o silêncio."
"Em Toronto o silêncio costuma significar constrangimento."
"Aqui também. Mas é um constrangimento diferente. Aqui o silêncio diz 'você não pegou o ritmo ainda', não 'você ofendeu alguém'. É mais diagnóstico do que julgamento."
Diego considerou isso. "Útil."
"É o que eu tenho." Gustavo pegou o pão de queijo que tinha esfriado ligeiramente e comeu metade de uma vez. "Tem mais regras mas você vai aprender no campo. A principal é: a cidade vai parecer que não tem lógica mas tem. Só que a lógica é dela, não sua. Você tem que aprender a lógica dela, ela não vai aprender a sua."
"Isso é profundo ou é óbvio?"
"As duas coisas." Gustavo terminou o café. "E uma última: o trânsito não tem lógica mesmo. Esse é o único caso em que a exceção é a regra."
Diego estava formulando uma resposta quando ouviu a porta do apartamento — ele e Gustavo eram os únicos na cozinha, mas o apartamento tinha mais moradores, e o corredor que levava da área de quartos até a cozinha compartilhada era curto. Passos. Depois Nat apareceu na entrada da cozinha com um caderno debaixo do braço e uma expressão de alguém que acordou há tempo suficiente para estar funcional mas não para ser social.
Ela parou quando viu Gustavo.
"Bom dia," disse ela, em português, com sotaque.
"Bom dia," disse Gustavo. E então, em inglês: "You must be the fellowship journalist."
A expressão de Nat ficou ligeiramente mais relaxada — não porque ela precisasse, mas porque havia um nível de esforço em operar em segunda língua que se aliviava quando a opção de primeira língua aparecia. "Natasha Kowalski. Nat."
"Gustavo Ferreira. Primo." Ele apontou para Diego. "Do Canadá."
"Eu sei quem é o Diego."
"Ah." Gustavo olhou para Diego com o tipo de olhar que os primos guardam para situações que vão render conversa depois. Diego reconheceu o olhar. Era o olhar de quem está arquivando informação.
Nat foi até a cafeteira, avaliou o que havia restado, tomou a decisão de fazer mais. Diego observou que ela localizou o pacote de café, o filtro, a proporção de forma totalmente intuitiva, o que sugeria que ou ela havia inspecionado a cozinha na véspera ou era o tipo de pessoa que processa logística doméstica automaticamente.
"Você chegou ontem também?" perguntou Gustavo.
"Sim. No mesmo voo de conexão de Guarulhos."
"Não se encontraram no aeroporto?"
"Aeroporto de Guarulhos tem dois terminais e o internacional é grande," disse Diego. "E não estávamos procurando um pelo outro."
"Justo." Gustavo continuava com o olhar de quem está catalogando. Diego conhecia o primo bem o suficiente para saber que aquilo era afeto, não malícia — Gustavo era o tipo de pessoa que se importava com as pessoas através de observação cuidadosa. Mas também tinha uma agenda bem-intencionada que Diego havia notado nas últimas horas: havia uma qualidade de empurrar sutil nas conversas, como alguém que quer ver você atravessar uma porta mas espera você dar o primeiro passo.
Nat ficou parada esperando o café coar, abrindo o caderno, escrevendo alguma coisa em inglês com letra pequena e regular.
"Você também vai pro Correio Paulistano?" perguntou Diego.
"Primeiro dia." Ela não levantou a cabeça.
"Como jornalista política ou social?"
Agora ela levantou. "As duas coisas, às vezes indistinguíveis. Você vai pra USP?"
"Biblioteca e uns contatos esta semana. A orientação formal é na semana que vem."
Gustavo os olhava alternadamente com a expressão de um homem assistindo a uma partida de tênis onde os dois jogadores não sabem que estão jogando tênis.
Diego decidiu que a melhor resposta para isso era uma piada. Era sempre a resposta para silêncios que tinham textura de coisa não dita. "São Paulo como campo de pesquisa tem a vantagem de que a diáspora que estou estudando está literalmente fora daqui, então não tem conflito de interesse."
Gustavo riu — um ri genuíno, de garganta. "Isso foi bom."
"Obrigado."
"Não ia funcionar em SP."
Diego piscou. "Funcionou. Você riu."
"Eu sou seu primo. Eu não conto." Gustavo terminou o mamão. "Você ri da sua própria piada, além disso."
"Eu não ri da minha piada."
"Você deu aquela pausa satisfeita depois de 'conflito de interesse'. É a versão interna de rir da própria piada."
Nat estava olhando para eles com a expressão de alguém que entende o contexto mas não tem certeza se foi convidada a participar.
"Ele está errado," Diego disse para ela.
"Sobre a pausa satisfeita?"
Uma pausa. Diego considerou. "Okay, a pausa existiu. Mas não foi satisfeita, foi expectante. Há uma diferença técnica."
"Nenhuma das duas é recomendada," disse Gustavo.
O café de Nat ficou pronto. Ela serviu numa caneca, tomou o primeiro gole com a expressão de alguém verificando que a substância tem a temperatura e concentração corretas, e depois fechou o caderno.
"Eu vou sair em vinte minutos," disse ela, aparentemente para os dois, ou para o ar. "Alguém sabe qual é o metrô mais rápido até a Paulista a partir do Consolação?"
"Linha 2-Verde, estação Consolação," disseram Diego e Gustavo ao mesmo tempo.
Ela olhou para os dois. "Certo." E saiu da cozinha.
Gustavo esperou o som dos passos desaparecer no corredor e então olhou para Diego com aquele sorriso que Diego conhecia desde que tinha onze anos.
"Você a conhece de Toronto," disse Gustavo. Não era pergunta.
"Sim. Contextos profissionais sobrepostos."
"E ela mora no mesmo apartamento que você."
"Parece que sim."
"E você vai estar aqui seis meses."
"Isso está estabelecido, sim."
Gustavo levantou a caneca de café em direção a Diego, como um brinde. "São Paulo vai ser mais interessante do que você esperava."
"Está fazendo inferências com dados insuficientes."
"Estou fazendo inferências com dados suficientes." Gustavo levantou da cadeira, colocou a caneca na pia com o hábito de quem lavará depois. "Ela é direta."
"É."
"Você é evasivo."
"Sou eficiente."
"Você é evasivo e usa palavras mais longas para soar mais preciso." Gustavo pegou as chaves do carro da bancada. "Vai ser interessante."
Diego comeu o último pedaço de pão de queijo que tinha esfriado completamente e que ainda assim era bom — melhor do que qualquer coisa com o mesmo nome que ele havia comido em Toronto, o que provavelmente dizia algo sobre o que a diáspora conseguia preservar e o que inevitavelmente ficava distorcido pela distância.
Lá fora, São Paulo estava no meio do horário de pico da manhã. Ele ouvia o trânsito pela janela da cozinha — um barulho constante, multidirecional, que não crescia nem diminuía mas simplesmente era, como temperatura ambiente.
Seis meses.
Diego lavou a caneca, pegou a mochila, e foi enfrentar o metrô.
