CAPÍTULO 2Gratuito
O Edifício
A mala pesava vinte e três quilos e o elevador tinha uma placa que dizia CAPACIDADE MÁXIMA 3 PESSOAS ou 200 KG, o que Nat calculou rapidamente como sendo matematicamente inconsistente se as três pessoas fossem adultas médias com bagagem. Mas São Paulo não era Toronto e ela estava aqui para adaptar, não para reclamar, então ela entrou no elevador com a mala, a mochila, o bolso do casaco cheio de documentos da fellowship e a resolução firme de não ter opiniões sobre a infraestrutura nos primeiros dois dias.
O prédio tinha cinco andares, estava no Consolação, e era exatamente o tipo de lugar que faz sentido para jornalistas e estudantes: antigo o suficiente para ser barato, bem localizado o suficiente para ser conveniente, cheio o suficiente para ser barulhento. A coordinadora da fellowship tinha mandado um e-mail com instruções detalhadas — chave com o porteiro, apartamento 34, andar três, não use o interfone porque estava quebrado desde fevereiro. Nat leu o e-mail três vezes no avião, que era seu processo padrão para qualquer situação nova.
O porteiro tinha entregado a chave com um sorriso simpático e um "bem-vinda" que soou genuíno, que ela apreciou, e tinha dito algo mais em sequência que ela entendeu talvez sessenta por cento porque o homem falava rápido e com o r paulistano que ela ainda estava calibrando. Ela sorriu de volta, disse "obrigada, obrigado" — masculino ou feminino, ela ainda não tinha certeza de quando usar qual, havia uma regra que ela claramente estava errando — e foi para o elevador.
O elevador subiu com uma lentidão contemplativa. No segundo andar, as portas abriram para o corredor e depois fecharam de novo sem ninguém entrar. No terceiro andar, as portas abriram para o corredor do apartamento 34.
Diego Ferreira estava parado no corredor com uma mala.
Nat processou isso em frações de segundo. A mala era grande, com uma etiqueta de bagagem de voo internacional ainda presa no zíper. Ele carregava a mochila que ela reconhecia do semestre passado em Toronto. Estava de camiseta cinza e parecia exatamente o mesmo que ela lembrava — mesmo sorriso rápido, mesma postura ligeiramente relaxada demais para a situação — exceto que agora estava parado no corredor de um prédio residencial em São Paulo às quatro da tarde com uma expressão de quem claramente não esperava encontrar ninguém que conhecia.
A pausa durou talvez dois segundos. Dois segundos longos.
"O que você está fazendo aqui?" disse Nat.
"O que você está fazendo aqui?" disse Diego, ao mesmo tempo.
Silêncio.
"Fellowship," disse Nat.
"Pesquisa de mestrado," disse Diego.
Outro silêncio, esse mais curto, de processamento.
"A coordinadora da fellowship mencionou que haveria outros residentes," disse Nat.
"Gustavo mencionou estudantes e jornalistas," disse Diego.
"Então faz sentido."
"Faz todo o sentido."
O elevador, atrás de Nat, emitiu um som de impaciência mecânica e as portas começaram a fechar. Ela colocou a mão para segurar sem tirar os olhos de Diego, puxou a mala para fora, e as portas fecharam atrás dela com um baque satisfeito.
Eles ficaram no corredor, cada um com a respectiva bagagem, no espaço neutro entre o elevador e os apartamentos do terceiro andar.
Nat tinha conhecido Diego Ferreira quatro meses antes, numa coletiva de imprensa em Toronto sobre políticas de imigração. Ele estava lá por conta do mestrado, ela por conta de uma pauta para o jornal universitário que depois virou uma pauta para um veículo maior. Tinham trocado informações de contato de forma profissional. Tinham se encontrado por acidente mais umas três vezes em contextos sobrepostos — Toronto não era São Paulo em termos de tamanho, e as esferas de política e jornalismo e academia se cruzavam com frequência. Não eram amigos. Não eram conhecidos casuais exatamente, porque havia tido conversas substantivas. Eram algo no meio, sem nome específico.
"Qual é o seu apartamento?" perguntou ela.
"34."
"Esse é o meu apartamento."
Diego olhou para a chave na mão dele. Olhou para a chave na mão dela. As chaves eram idênticas, do tipo antigo, com uma etiqueta vermelha e um número escrito a caneta.
"34," ele confirmou.
Nat considerou a situação. "Apartamento compartilhado?"
"Presumivelmente."
Ela não respondeu imediatamente porque estava fazendo cálculos rápidos: seis meses, mesmo espaço, pessoa que ela conhecia superficialmente mas o suficiente para que a dinâmica tivesse sido estabelecida de certa forma em Toronto, o que tanto facilitava quanto complicava. Estranhos completos eram mais simples. Estranhos completos não tinham histórico, não tinham expectativas pré-formadas. Diego Ferreira ela havia observado em contextos específicos e tinha formado uma opinião que não era negativa mas também não era neutra.
Ele era engraçado. Isso ela havia registrado de forma objetiva. O tipo de engraçado que funciona em grupo porque ele lia a sala e escolhia o momento — não o tipo que tenta ser engraçado continuamente porque precisa da atenção. Isso a impressionava mais do que deveria, provavelmente porque a maioria das pessoas que tentavam ser engraçadas a todo momento a cansava em vinte minutos.
Ele também falava muito quando estava nervoso, o que ela havia notado nas coletivas quando havia uma pausa incomoda ou quando a discussão virava para território tenso. Era um mecanismo, não um traço — havia diferença, e ela era treinada para notar.
"Devemos checar com a coordinadora," disse ela.
"Sim." Diego tirou o celular. "Você tem o contato dela?"
"Tenho." Nat digitou rápido, mandou a mensagem, guardou o celular. "Enquanto isso."
Ela pegou a mala, foi até a porta marcada 34, inseriu a chave. A fechadura funcionou. Ela abriu a porta e entrou.
O apartamento era maior do que ela esperava pela descrição. Dois quartos com portas separadas, sala pequena com sofá e mesa, cozinha integrada, uma janela grande que dava para a rua barulhenta lá embaixo. Havia sinais de que outros ocupantes tinham estado aqui antes — as marcas nas paredes onde quadros tinham ficado, a sombra de móveis no chão, uma lista de supermercado esquecida pregada na geladeira de uma gestão anterior. O apartamento cheirava a pintura recente e a essa qualidade especial de ar de espaço que ficou fechado por tempo demais.
Diego entrou atrás dela, parou no meio da sala, avaliou.
"O quarto da esquerda tem uma janela maior," disse ele.
"Como você sabe?"
"Posição do prédio na rua. O quarto da esquerda dá para a lateral, não para o corredor. Mais luz, mais barulho provavelmente."
"Eu prefiro o da direita," disse Nat, sem hesitar.
"Ótimo."
Ela foi até o quarto da direita. Era compacto, com cama de solteiro, escrivaninha, guarda-roupa embutido com espelho. A janela dava para um poço de ventilação que recebia alguma luz mas não barulho de rua. Perfeito.
Ela colocou a mala sobre a cama e começou a desempacotar com o método que usava em qualquer viagem — documentos importantes primeiro, objetos de trabalho segundo, roupas por último. Em dez minutos estaria operacional. Em trinta minutos estaria instalada.
Do lado de fora do quarto ela ouvia Diego movendo a mala, abrindo armários, fazendo os sons de alguém se instalando. Depois um silêncio, depois o som de ele sentando em algum lugar, depois o som do celular dele tocando em vídeo — ele estava falando com alguém, a voz baixa demais para ela distinguir palavras mas com a cadência de conversa com familiar.
A coordinadora respondeu a mensagem de Nat dezesseis minutos depois: sim, o apartamento era compartilhado, dois quartos, esperava-se que os residentes fossem dois jornalistas ou pesquisadores de fellowship, havia uma confusão de comunicação, ela lamentava não ter informado com antecedência. Uma linha de desculpas que soava razoavelmente sincera.
Nat respondeu com "entendido, sem problema" porque era a resposta funcional.
Ela ficou sentada na borda da cama por um momento, olhando para a janela que dava para o poço de ventilação. Lá longe, passando pelo teto do edifício vizinho, havia uma faixa de céu cinzento-azulado de São Paulo. Não era o céu de Toronto. Era mais baixo de alguma forma, mais cheio, como se a umidade o puxasse para baixo.
Seis meses.
Ela sabia se adaptar. Havia sido repórter em três países diferentes, havia dormido em hotéis que compartilhavam paredes com bares, havia entrevistado pessoas em idiomas que ela falava com sotaque pesado e improvisado. São Paulo seria mais fácil do que Nairóbi, que tinha sido mais fácil do que Praga, que tinha sido inesperadamente mais difícil do que Ciudad de México por razões que ela ainda não entendia completamente.
Dividir apartamento com Diego Ferreira ela conseguia lidar.
Provavelmente.
A única variável era o humor. Não porque era irritante — já havia estabelecido que não era — mas porque criava uma textura de convivência que exigia gerenciamento. Ela não era naturalmente boa em convivência descontraída. Era boa em convivência funcional: as regras claras, os espaços respeitados, o calendário de limpeza na geladeira que ela ia fazer amanhã de manhã porque era mais fácil estabelecer padrões cedo do que renegociar depois.
Diego bateu na porta do quarto, dois toques leves.
"Tem resposta da coordinadora?" perguntou ele, de fora.
"Sim. Apartamento compartilhado, confusão de comunicação, ela lamenta."
"Então somos vizinhos de quarto." Uma pausa. "Tem regra de silêncio no prédio?"
"A coordinadora não mencionou. Posso perguntar ao porteiro."
"Eu pergunto amanhã. Vou sair pra explorar um pouco antes do jantar. Você precisa de alguma coisa?"
Ela considerou isso. Era um oferecimento genuíno, não performático — ele ia sair de qualquer jeito e estava perguntando por cortesia funcional, não por tentar estabelecer uma dinâmica de cuidado que ela não havia pedido.
"Não, obrigada."
"Okay." Os passos dele se afastando. A porta da frente abrindo, fechando.
Nat ficou no quarto por mais dois minutos, depois voltou para a sala, abriu o laptop, e começou a preparar as notas para o primeiro dia no Correio Paulistano. Havia pesquisa para fazer, fontes para identificar, o contexto político local para mapear com precisão suficiente para que as reportagens tivessem substância real e não a superficialidade de quem chegou de avião ontem.
Pela janela da sala, que dava para a rua, São Paulo fazia o ruído constante de São Paulo. Carros, motos, uma música de algum andar acima, alguém gritando alguma coisa que soava como cumprimento e não como conflito. A cidade não tinha consideração para quem precisava se concentrar, o que na opinião de Nat era a característica mais honesta de qualquer cidade grande.
Ela gostava de honestidade. Mesmo quando era barulhenta.
Especialmente quando era barulhenta.
