CAPÍTULO 3Gratuito
Amanhecer Turbulento
TÍTULO: Amanhecer Turbulento
Laura acordou com o som de pássaros tropicais que não conseguia identificar. Por um momento de desorientação completa, não tinha a menor ideia de onde estava. O teto de palha trançada acima dela, as cortinas de voile branco balançando suavemente na brisa, o cheiro intenso de flores que entrava pela janela aberta.
Então tudo voltou de uma vez. Bali. O resort. O jantar. Enzo. Camila.
Gemeu e puxou o travesseiro sobre o rosto.
Seu celular mostrava seis e quinze da manhã. Cedo demais para estar acordada depois de uma noite tão turbulenta, mas seu corpo ainda estava confuso com o fuso horário. Além disso, havia dormido mal, a mente girando em círculos entre a sensação dos dedos de Enzo em seu rosto e a humilhação das palavras venenosas de Camila.
"Divórcio fracassado."
As palavras ecoavam em sua cabeça como um mantra cruel.
Laura levantou-se, vestiu um biquíni simples azul-marinho e um pareo leve por cima, e decidiu que talvez um mergulho na piscina privativa ajudasse a clarear seus pensamentos.
A água estava perfeita. Morna o suficiente para ser confortável, fresca o suficiente para ser revigorante. Ela flutuou de costas, olhando para o céu que mudava lentamente de índigo para tons de rosa e laranja enquanto o sol começava a nascer.
Precisava de um plano. Havia vindo a Bali para se curar, para se encontrar. Não para se envolver num triângulo amoroso digno de novela mexicana. O sensato seria manter distância de Enzo. Focar em si mesma. Aproveitar as atividades do resort, conhecer a cultura balinesa, talvez fazer algumas amigas no grupo.
Mas mesmo enquanto formava esse plano racional e seguro, tudo que conseguia pensar era na forma como Enzo a havia olhado no mirante. Como se a visse de verdade. Não a versão editada e comportada que ela mostrava ao mundo, mas algo mais profundo.
Quando foi a última vez que alguém a havia olhado daquele jeito?
Uma batida na porta da vila a tirou de seus pensamentos. Laura saiu da piscina, enrolou-se no pareo e foi atender, pingando água pelo caminho.
Era uma das funcionárias balinesas, segurando uma bandeja coberta.
— Bom dia, Senhorita Laura — cumprimentou com um sorriso gentil. — Café da manhã especial. Do Senhor Enzo.
O coração de Laura deu um salto irregular.
— Do Enzo?
— Sim. Ele pediu que eu entregasse pessoalmente.
A funcionária colocou a bandeja na mesa do deck e se retirou com uma reverência graciosa antes que Laura pudesse fazer mais perguntas.
Laura aproximou-se da bandeja com uma mistura de curiosidade e apreensão. Havia frutas tropicais perfeitamente cortadas — manga, papaia, rambutan, lichia. Pão fresco ainda quente. Geleia de flores que cheirava a lavanda. Ovos mexidos cremosos. Suco de laranja espremido na hora. E uma única flor de frangipani branca ao lado de um bilhete escrito à mão.
Com dedos tremendo levemente, Laura pegou o bilhete.
*"Laura,*
*Desculpe pela forma como a noite terminou. Você merecia melhor. Merece melhor.*
*Se estiver disposta, gostaria muito de conversar. Sem interrupções desta vez.*
*Encontre-me no templo de lótus às 8h. É o pavilhão octogonal ao lado do lago principal. Você vai reconhecer pelas flores.*
*Se não quiser vir, vou entender. Mas espero que venha.*
*— E."*
Laura leu o bilhete três vezes, como se as palavras pudessem mudar entre uma leitura e outra.
Toda a sua resolução de manter distância evaporou como névoa sob o sol tropical.
***
Às oito horas em ponto, Laura estava parada em frente ao templo de lótus. Enzo não havia exagerado. O pavilhão octogonal de madeira escura estava literalmente cercado por um lago coberto de flores de lótus em tons de rosa e branco. Uma ponte arqueada de pedra conduzia até ele. O sol da manhã refletia na água, criando padrões dançantes de luz.
Era o lugar mais bonito que Laura já tinha visto.
Enzo estava sentado na borda do pavilhão, os pés descalços quase tocando a água. Virou-se quando ouviu os passos dela na ponte de pedra, e o sorriso que iluminou seu rosto fez o estômago de Laura dar aquele nó familiar.
— Você veio — ele se levantou, e Laura notou que havia duas esteiras de yoga estendidas no chão de madeira, com almofadas e mais frutas dispostas entre elas.
— Seu bilhete foi muito... convincente — disse Laura, subindo os degraus do pavilhão. — E o café da manhã estava delicioso.
— Fico feliz — Enzo gesticulou para uma das esteiras. — Por favor, sente-se. Achei que poderíamos começar de novo. Sem plateia desta vez.
Laura sentou-se, cruzando as pernas sob o vestido leve de algodão branco que havia escolhido. Enzo acomodou-se na esteira oposta, mantendo uma distância respeitosa.
Por um momento, nenhum dos dois disse nada. O silêncio era preenchido apenas pelo som de água corrente de uma fonte próxima e o canto distante de pássaros.
— Sinto muito pelo que aconteceu ontem — começou Enzo finalmente. — Camila não tinha o direito de falar daquele jeito com você.
— Ela estava marcando território — Laura surpreendeu-se com a firmeza de sua própria voz. — Deixando claro que há história entre vocês dois.
— Havia — corrigiu Enzo. — Passado. Há dois anos. E foi breve.
— Ela não parece achar que está no passado.
Enzo passou a mão pelos cabelos com frustração.
— Camila vê o que quer ver. Eu fui muito claro quando terminamos. Mas ela... é complicado. Ela não aceita bem rejeição.
— Notei — Laura pegou um pedaço de manga da tigela entre eles. — Posso perguntar uma coisa?
— Qualquer coisa.
— Por que me trouxe aqui? — Laura gesticulou ao redor. — Para este lugar específico. O que você quer de mim, Enzo?
Ele segurou seu olhar, e havia uma intensidade ali que fez Laura esquecer de respirar.
— Honestidade? Não sei exatamente — admitiu. — Quando te vi ontem, senti algo que não sentia há muito tempo. Uma conexão. Como se nos conhecêssemos de algum outro lugar, algum outro tempo. Sei que parece maluco...
— Não parece — interrompeu Laura baixinho. — Eu senti também.
— Eu não quero te pressionar — continuou Enzo. — Nem te colocar numa posição difícil. Mas também não quero fingir que não sinto o que sinto. Então estou te dando uma escolha. Podemos explorar essa conexão e ver aonde ela nos leva. Ou podemos manter distância, ser educados e profissionais, e você pode aproveitar sua viagem sem complicações.
— E Camila?
— Camila é problema meu. Não seu — a voz de Enzo era firme. — Vou deixar muito claro para ela, novamente, que não há e nunca haverá nada entre nós. Mas preciso saber... o que você quer, Laura?
Laura olhou para aquele homem à sua frente. Bonito, sim. Mas era mais que isso. Havia uma autenticidade nele que era rara. Uma vulnerabilidade que ele não tentava esconder. E pela primeira vez em anos, Laura sentia que alguém a via. Realmente a via.
Mas havia Camila. Havia a complicação de estar num país estrangeiro, num resort que ele gerenciava, cercada por colegas de trabalho. Havia seu coração ainda machucado tentando se reconstruir.
— Eu quero ser honesta também — começou Laura, escolhendo as palavras cuidadosamente. — Vim para Bali fugindo. De um casamento que me fez esquecer quem eu era. De uma vida que não era minha. Eu preciso deste tempo para me encontrar. Para me curar.
Viu a decepção começar a se formar nos olhos de Enzo e continuou rapidamente.
— Mas... também não quero fingir que não sinto o que sinto. Você me faz sentir algo que achei que não conseguiria mais sentir. Viva. Vista. Real.
— Então? — Enzo inclinou-se ligeiramente para frente.
— Então talvez possamos ir devagar? Conhecer um ao outro sem pressão. Sem expectativas. Ver o que acontece naturalmente.
Um sorriso lento e genuíno iluminou o rosto de Enzo.
— Devagar eu consigo fazer.
— E quanto a Camila?
— Vou conversar com ela hoje. Deixar tudo claro — Enzo estendeu a mão através do espaço entre eles. — Mas preciso que você saiba uma coisa, Laura. Não tenho o hábito de jogar jogos. Se eu digo que vou fazer algo, eu faço. Você pode confiar em mim.
Laura olhou para a mão estendida. Era mais que um gesto. Era uma promessa. Uma escolha.
Ela aceitou a mão dele, sentindo aquela corrente elétrica familiar.
— Devagar — repetiu.
— Devagar — concordou Enzo, apertando suavemente seus dedos.
***
Eles passaram a próxima hora conversando. Não sobre Camila, ou relacionamentos, ou complicações. Mas sobre coisas reais. Enzo contou sobre sua infância no Rio, filho de um empresário bem-sucedido que nunca tinha tempo para a família. Sobre como havia entrado em finanças para agradar o pai, apenas para descobrir que era brilhante nisso mas infeliz. Sobre o colapso nervoso que tivera aos vinte e oito anos, escondido de todos exceto de seu melhor amigo que o convencera a vir para Bali.
Laura compartilhou sobre crescer como filha única de pais divorciados, sempre tentando agradar os dois, sempre se sentindo dividida. Sobre como havia conhecido o ex-marido na faculdade, jovem demais para saber que amor não deveria significar apagar-se. Sobre sua paixão por livros, por histórias, por descobrir vozes que mereciam ser ouvidas.
— Você deveria voltar a fazer isso — disse Enzo. — Editar. Descobrir novos talentos. É como seus olhos brilham quando fala sobre isso.
— Talvez — Laura sorriu. — Depois que descobrir quem eu sou além de todas as máscaras que usei.
— Quer saber o que eu acho? — Enzo inclinou-se mais próximo. — Acho que você já sabe quem é. Só precisa de coragem para admitir.
Antes que Laura pudesse responder, vozes altas romperam a bolha de intimidade que haviam criado.
— Lá está você!
Laura e Enzo viraram-se para ver Marcelo atravessando a ponte, e atrás dele, inevitavelmente, Camila.
A expressão de Camila quando viu os dois juntos, sentados tão próximos, foi de fúria mal disfarçada.
— Enzo, precisamos conversar — disse Marcelo, sem perceber ou ignorando a tensão. — O fornecedor de Jacarta ligou. Aquele problema que você estava esperando.
Enzo suspirou, claramente frustrado com a interrupção.
— Pode esperar uma hora?
— Não realmente. Eles precisam de uma decisão agora ou vão cancelar o pedido.
Enzo olhou para Laura com um pedido de desculpas nos olhos.
— Eu preciso resolver isso. Questões do resort.
— Claro — disse Laura, já se levantando. — Eu entendo.
— Laura, espera — Enzo segurou sua mão mais uma vez. — Hoje à tarde há uma cerimônia tradicional balinesa no templo Tirta Empul. É um dos templos de purificação mais sagrados da ilha. Pensei que você talvez gostasse de ir. Comigo.
— Seria incrível — respondeu Laura sinceramente.
— Ótimo. Te pego às três?
— Estarei pronta.
Enquanto Enzo se afastava com Marcelo, discutindo questões de negócios em voz baixa, Camila permaneceu.
Laura começou a se afastar, mas a voz da loira a deteve.
— Acha mesmo que é especial? — perguntou Camila, toda a pretensão de polidez abandonada. — Que você é diferente das outras?
Laura virou-se lentamente.
— Não sei do que está falando.
— Enzo tem um padrão — Camila aproximou-se, seus saltos altos repicando na madeira. — Mulheres quebradas vêm ao resort buscando curar suas feridas. Ele oferece atenção, romance, faz vocês se sentirem especiais. E então, quando vocês vão embora, ele já está de olho na próxima.
— Se é assim, por que você está tão desesperada para tê-lo de volta?
As palavras saíram antes que Laura pudesse censurá-las, afiadas e diretas.
Camila piscou, claramente não esperando o contra-ataque.
— Porque eu fui a única que realmente importou — recompôs-se rapidamente. — Diferente de você e todas as outras turistas em busca de um romance tropical. Enzo e eu temos história. Temos conexão real. Você é apenas a distração do momento.
— Se você realmente acredita nisso, por que está tão ameaçada por mim?
Camila abriu a boca e a fechou. Duas manchas de vermelho apareceram em suas bochechas.
— Não estou ameaçada. Estou tentando te salvar de fazer papel de idiota. Ele vai te usar para passar o tempo, fazer você se apaixonar, e então quando você for embora, vai seguir em frente como se você nunca tivesse existido. É o que ele faz.
— Ou — disse Laura, surpresa com sua própria coragem — é o que aconteceu com você e você está projetando.
— Você não me conhece — a voz de Camila estava perigosamente baixa.
— E você não me conhece. Mas vou te dizer uma coisa, Camila. Não vim a Bali procurando romance. Vim procurando a mim mesma. Se algo acontecer entre Enzo e eu, será porque nós dois escolhemos. Não porque ele me manipulou ou eu estou desesperada. E certamente não é da sua conta.
— Tudo que acontece com Enzo é da minha conta.
— Não é. Vocês terminaram há dois anos. Ele deixou isso muito claro.
— Ele disse isso a você? — Camila riu, mas o som era amargo. — Claro que disse. É parte do script dele.
— Ou talvez seja a verdade e você simplesmente não consegue aceitar.
Camila deu um passo tão próximo que Laura podia sentir seu perfume caro.
— Você quer jogar esse jogo? Ótimo. Mas te aviso, Laura. Sou muito melhor nisso do que você. Eu sempre consigo o que quero. Sempre.
— Então talvez seja hora de aprender que algumas coisas não podem ser compradas, manipuladas ou forçadas.
Por um momento, Laura achou que Camila fosse explodir. Mas então ela sorriu, frio e calculado.
— Veremos. Afinal, temos quatro semanas inteiras pela frente. Muito pode acontecer em quatro semanas.
E com isso, Camila virou-se e se afastou, seus saltos repicando na ponte de pedra com golpes afiados e deliberados.
Laura percebeu que suas mãos estavam tremendo. Onde havia encontrado coragem para confrontar Camila daquela forma? Ela que sempre evitava conflito, que sempre cedia, que sempre tentava manter a paz.
Mas havia algo em estar num lugar completamente novo, longe de tudo que conhecia, que a fazia sentir... diferente. Mais forte. Mais verdadeira.
Seu celular vibrou. Uma mensagem de Beatriz.
*"Como está o paraíso? Já fez alguma loucura? Por favor me diga que sim!"*
Laura olhou ao redor. O templo de lótus. As flores flutuando na água. O sol da manhã pintando tudo em tons dourados.
Digitou a resposta.
*"Acho que acabei de fazer a primeira de muitas."*
***
Laura passou o resto da manhã explorando os jardins do resort. Descobriu um canto com fontes naturais onde água cristalina brotava da rocha vulcânica. Encontrou um pavilhão escondido cheio de estátuas de divindades hindus que pareciam observá-la com olhos sábios e antigos. Atravessou pontes suspensas sobre córregos onde peixes dourados nadavam preguiçosamente.
Cruzou com alguns membros do grupo. Daniela estava no spa fazendo uma massagem balinesa. Rodrigo e Paulo haviam saído para uma trilha de bicicleta pelos arrozais. Ricardo e Márcia estavam na piscina principal, bebendo drinks coloridos.
Todos pareciam relaxados, felizes, imersos na experiência de Bali.
E então havia Camila, que Laura viu de relance sentada no restaurante, falando animadamente com Marcelo. Os dois riam de algo, e quando Camila olhou na direção de Laura, o sorriso transformou-se em algo predatório.
Laura apressou o passo e voltou para sua vila.
Tinha três horas até Enzo vir buscá-la. Decidiu usar o tempo para escrever. Havia trazido um caderno, meio como uma piada para si mesma. "Para anotar insights profundos sobre autocura" havia dito a Beatriz sarcasticamente.
Mas agora, sentada no deck com vista para o vale, encontrou-se escrevendo. Não insights. Não diário.
Uma história.
Sobre uma mulher que viaja para um lugar mágico tentando fugir de seu passado. Sobre um homem que construiu um paraíso tentando esquecer o dele. Sobre a forma como duas pessoas quebradas podem se encontrar no meio do caos e, talvez, se curar uma à outra.
Ou se destruir completamente.
Laura escreveu por duas horas sem parar, as palavras fluindo como não fluíam há anos. Desde antes do casamento. Desde antes de ter esquecido que amava escrever tanto quanto amava ler.
Quando finalmente parou, olhando para as páginas cobertas de sua caligrafia inclinada, sentiu algo estranho no peito.
Esperança.
***
Às três em ponto, uma batida na porta anunciou a chegada de Enzo.
Laura havia trocado de roupa, escolhendo um vestido longo de algodão em tons terrosos que Beatriz havia insistido que ela comprasse. "Você vai precisar de algo para visitar templos", dissera. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo solto e aplicou apenas protetor solar e gloss labial.
Quando abriu a porta, Enzo estava ali com aquele sorriso que fazia seu estômago dar cambalhotas.
— Pronta para uma aventura? — perguntou.
— Depende. Que tipo de aventura?
— Do tipo espiritual — ele piscou. — Confie em mim.
E pela primeira vez em muito tempo, Laura descobriu que confiava.
Completamente.
***
O trajeto até Tirta Empul levou cerca de quarenta minutos, serpenteando por estradas estreitas ladeadas por arrozais em terraços e pequenas aldeias. Enzo dirigia um jipe aberto, e o vento bagunçava os cabelos de ambos enquanto conversavam sobre tudo e nada.
— Você conversou com Camila? — Laura finalmente perguntou.
— Tentei — Enzo franziu a testa. — Mas ela está... resistente. Diz que só quer renovar nossa amizade. Que estou interpretando mal suas intenções.
— E você acredita nela?
— Não por um segundo — ele olhou brevemente para Laura antes de voltar os olhos para a estrada. — Mas também não posso simplesmente expulsá-la do resort. Seria não profissional e causaria problemas para Ricardo.
— Então estamos presos nesta situação por mais quatro semanas.
— Parece que sim — Enzo estendeu a mão e entrelaçou seus dedos com os dela sobre o console. — Mas não vou deixar que ela estrague isso. O que quer que 'isso' seja.
Laura apertou a mão dele, permitindo-se desfrutar daquele simples contato.
Quando chegaram ao templo, Laura entendeu porque Enzo havia escolhido aquele lugar.
Tirta Empul era antigo, construído em 962 d.C. ao redor de uma nascente sagrada. O complexo do templo era uma obra-prima arquitetônica, com pátios em níveis diferentes, portões ornamentados, estátuas de guardiões com expressões ferozes. Mas o coração do templo eram as piscinas de purificação.
Longas piscinas retangulares onde água cristalina jorrava de dezenas de fontes esculpidas em pedra. Balineses e turistas, vestidos em sarongs tradicionais, caminhavam de fonte em fonte, mergulhando a cabeça sob cada jato de água num ritual de purificação.
— É costume passar por todas as fontes — explicou Enzo. — Cada uma representa algo diferente. Purificação física, mental, espiritual. Dizem que você sai daqui renovado.
— Parece que é exatamente o que eu preciso — murmurou Laura.
Enzo sorriu.
— Pensei que talvez fosse.
Eles alugaram sarongs no templo — Laura recebeu um lindo tecido azul e dourado que amarrou sobre seu vestido, Enzo um simples marrom. Juntaram-se à fila de pessoas esperando para entrar nas piscinas.
A água estava surpreendentemente fria. Laura estremeceu quando mergulhou, mas havia algo incrivelmente revigorante nisso. Ela seguiu o exemplo das pessoas à sua frente, indo de fonte em fonte, inclinando a cabeça sob cada jato de água.
Enzo estava alguns passos atrás dela, e Laura podia senti-lo observando. Não de forma invasiva, mas protetora. Presente.
Quando chegou à última fonte, parou e fechou os olhos. A água fria escorria por seu cabelo, seu rosto, lavando não apenas o suor e a poeira do dia, mas algo mais profundo.
A vergonha do divórcio. O medo de nunca ser suficiente. A dor de ter se perdido.
Quando abriu os olhos, Enzo estava diante dela, gotejando água, sorrindo.
— Como se sente?
— Limpa — respondeu Laura sinceramente. — Pela primeira vez em muito tempo, me sinto limpa.
Ele estendeu a mão debaixo d'água, e ela aceitou, deixando que ele a conduzisse para fora da piscina.
Eles se sentaram numa pedra aquecida pelo sol para secar, observando outras pessoas passarem pelo ritual.
— Obrigada — disse Laura. — Por me trazer aqui.
— Eu queria que você visse — Enzo olhou para a água, para o templo, para as pessoas. — Que há beleza em recomeçar. Em se limpar do passado. Em começar de novo.
— É isso que você fez quando veio para Bali?
— Tentei — ele virou-se para ela. — Mas descobri que você nunca se livra completamente do passado. Ele sempre está lá, fazendo parte de quem você é. A chave é aprender a carregar isso sem deixar que te defina.
Laura pensou sobre isso. Sobre seu casamento falido. Sobre os anos perdidos. Sobre a mulher que havia sido e a mulher que estava tentando se tornar.
— Acho que ainda estou aprendendo isso — admitiu.
— Todos estamos — Enzo tocou seu rosto gentilmente, afastando um fio de cabelo molhado. — Mas você não precisa aprender sozinha.
E ali, sentados numa pedra antiga num templo sagrado em Bali, cercados por estranhos realizando rituais de purificação, Enzo inclinou-se e beijou Laura.
Foi suave. Terno. Uma pergunta mais que uma afirmação.
E Laura respondeu, derretendo-se contra ele, permitindo-se sentir pela primeira vez em anos.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes.
— Desculpa — sussurrou Enzo. — Eu disse que íamos devagar.
— Aquilo foi devagar — Laura sorriu. — Confie em mim.
Eles riram, e o som ecoou pelo pátio do templo, misturando-se com o som de água corrente e orações sussurradas.
Nenhum dos dois notou a figura observando das sombras.
Camila, que havia seguido o jipe de Enzo, tinha visto tudo.
E a expressão em seu rosto era de pura, fria determinação.
Se Laura Mendes achava que poderia simplesmente aparecer e roubar o que era dela, estava muito enganada.
O jogo estava apenas começando.
E Camila sempre, sempre vencia seus jogos.
