CAPÍTULO 2Gratuito
Primeiro Jantar
TÍTULO: Primeiro Jantar
Laura passou a tarde inteira tentando decidir o que vestir para o jantar de boas-vindas. Espalhou sobre a cama todas as roupas que havia trazido, a maioria escolhida às pressas durante aqueles três dias caóticos de preparação. Vestidos leves demais pareciam tentar demais. Calças e blusa pareciam formal demais. Tudo parecia errado.
— Que ridículo — murmurou para si mesma, pegando pela terceira vez o vestido midi azul-marinho com pequenas flores brancas. — Você tem trinta e dois anos, não é uma adolescente indo ao primeiro encontro.
Mas era exatamente assim que se sentia. Como se borboletas tivessem feito um ninho permanente em seu estômago desde aquele momento no lobby quando os olhos de Enzo encontraram os seus.
Finalmente decidiu-se pelo vestido azul, prendeu os cabelos castanhos num coque despretensioso deixando algumas mechas soltas emoldurando o rosto, aplicou uma maquiagem leve e um batom rosado. Simples, mas arrumada. Natural, mas cuidadosa.
Quando saiu de sua vila às oito menos dez, o sol já havia começado a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados que pareciam saídos de uma pintura. O caminho até o restaurante principal era ladeado por tochas de bambu acesas que crepitavam suavemente, e o ar estava carregado com o perfume de jasmim e frangipani.
O restaurante ficava numa estrutura elevada, completamente aberta para os elementos, com vista panorâmica para o vale. Mesas de madeira escura estavam dispostas em diferentes níveis, criando espaços íntimos apesar do ambiente amplo. Lanternas de papel balançavam suavemente na brisa noturna, projetando sombras dançantes.
Laura foi uma das primeiras a chegar. Apenas Ricardo e sua esposa, Márcia, já estavam lá, bebericando drinks coloridos enquanto conversavam com um homem que Laura não reconheceu.
— Laura! — chamou Ricardo, acenando entusiasticamente. — Venha conhecer Marcelo, o sócio de Enzo.
Marcelo era o oposto físico de Enzo. Onde Enzo era alto e esguio, Marcelo era baixo e compacto, com uma musculatura que sugeria horas de academia. Cabelos castanhos penteados para trás com gel, barba perfeitamente aparada, um sorriso comercial que mostrava dentes brancos demais para serem naturais.
— Prazer, Laura — ele apertou sua mão com firmeza calculada. — Ricardo me contou que você é a corajosa que aceitou vir de última hora.
— Parece que essa vai ser minha marca registrada nesta viagem — Laura sorriu educadamente. — Prazer em conhecê-lo.
— O drink que você está bebendo está delicioso, Laura — ofereceu Márcia, levantando seu copo. — É feito com rum local e frutas tropicais. Deixe-me pedir um para você.
Antes que Laura pudesse responder, uma voz grave e familiar soou atrás dela.
— Permita-me.
Laura virou-se e encontrou Enzo parado a poucos centímetros, segurando dois copos altos decorados com flores de hibisco. Ele havia trocado a camisa de linho branca por uma camisa azul-escura que realçava a cor dos seus olhos, as mangas dobradas casualmente até os cotovelos.
— Achei que você pudesse gostar de experimentar nosso coquetel especial — disse ele, oferecendo-lhe um dos copos. — É feito com arak, o destilado local, frutas da paixão, limão e um toque de gengibre. Não é muito forte, prometo.
Os dedos de Laura roçaram nos dele quando aceitou o drink, e aquela corrente elétrica voltou a percorrê-la.
— Obrigada — conseguiu dizer, tomando um gole. O sabor era perfeito. Doce, mas não enjoativo. Refrescante com um toque picante do gengibre. — Está delicioso.
— Fico feliz que tenha gostado — o sorriso de Enzo era genuíno, aquecendo seus olhos. — Como foi sua primeira tarde em Bali? Conseguiu descansar?
— Mais ou menos — admitiu Laura. — Passei a maior parte do tempo na varanda da minha vila, hipnotizada pela vista. É tão diferente de tudo que conheço.
— Bali tem esse efeito — Enzo deu um passo ligeiramente mais próximo, como se estivesse criando uma bolha de privacidade em meio ao espaço aberto. — A primeira vez que vim aqui, há seis anos, era apenas para férias. Duas semanas. Acabei ficando.
— Você deixou tudo no Brasil para trás?
— Digamos que não havia muito para deixar — algo sombrio passou rapidamente pelos olhos dele antes de desaparecer. — Às vezes recomeçar do outro lado do mundo é exatamente o que precisamos.
Laura abriu a boca para perguntar mais, sentindo uma conexão estranha com aquela afirmação, mas foi interrompida pela chegada barulhenta do resto do grupo.
Daniela, Rodrigo e Paulo do departamento de vendas chegaram juntos, já visivelmente animados. Júlia e Fernando do financeiro vieram logo atrás. E então, como uma aparição calculada para causar impacto máximo, Camila fez sua entrada.
Ela usava um vestido branco justo que parecia pintado em seu corpo, decote generoso, fenda lateral que mostrava a extensão completa de suas pernas longas. Os cabelos loiros caíam em ondas perfeitas sobre os ombros nus. Saltos altíssimos que a faziam parecer ainda mais imponente.
Laura olhou para seu próprio vestido modesto e sentiu-se subitamente inadequada.
Os olhos de Camila varreram o ambiente e, previsivelmente, fixaram-se em Enzo. Ela atravessou o restaurante com a graça de uma predadora, ignorando completamente todos os outros.
— Enzo — sua voz era mel e seda. — Que lugar maravilhoso você criou aqui. Muito mais impressionante do que as fotos no site.
— Obrigado, Camila — Enzo respondeu educadamente, mas Laura notou como ele havia dado um passo quase imperceptível para trás, aumentando a distância entre eles.
— Precisamos marcar aquele passeio privado que você me prometeu — continuou Camila, como se Laura e os outros simplesmente não existissem. — Você disse que conhece lugares secretos que não estão em nenhum guia turístico.
— Claro — respondeu Enzo, mas sua voz havia perdido a calidez. — Fale com a recepção e eles organizarão um tour para você.
— Não um tour qualquer — Camila pousou a mão no braço dele. — Um tour com você. Pessoalmente. Como nos velhos tempos.
Laura sentiu uma pontada desconfortável no estômago. Velhos tempos?
Antes que Enzo pudesse responder, Marcelo interveio com uma risada alta.
— Camila, você não mudou nada! Sempre conseguindo o que quer. — Ele piscou para Enzo com uma cumplicidade masculina que fez Laura querer derramar seu drink em cima dos dois. — Mas tenho que avisar, o Enzo aqui está muito ocupado tocando o resort. Não tem mais tempo para passeios românticos.
A forma como ele disse "românticos" deixou claro que sabia exatamente da história entre Enzo e Camila.
— Pessoal! — Ricardo bateu palmas, chamando a atenção de todos. — Que tal nos sentarmos? Estou faminto!
O grupo se acomodou em torno de uma grande mesa retangular. Laura ficou entre Daniela e Paulo, aliviada por não estar muito perto nem de Enzo nem de Camila. Mas é claro que Camila manobrou para ficar diretamente ao lado de Enzo, com Marcelo do outro lado completando um triângulo estratégico.
O jantar começou com uma sequência de pequenos pratos balineses. Satays de frango com molho de amendoim, rolinhos primavera crocantes, saladas picantes de manga verde, pequenos bolinhos de peixe temperados. Tudo era uma explosão de sabores que Laura nunca havia experimentado.
— Então, Enzo — começou Júlia, a analista financeira. — Como você acabou em Bali? É uma mudança e tanto para um brasileiro.
Enzo tomou um gole de vinho antes de responder, e Laura percebeu que ele estava escolhendo as palavras cuidadosamente.
— Eu trabalhava em finanças no Rio — começou. — Mercado de ações, trading, aquela loucura toda. Ganhava bem, mas estava... vazio. Depois de um período particularmente difícil, um amigo me convenceu a tirar férias. Vim para Bali sem expectativas. E me apaixonei.
— Pelo lugar ou por alguém? — perguntou Camila com um sorriso que não disfarçava a intenção.
Enzo a ignorou completamente.
— Pelo estilo de vida. Pela filosofia balinesa de equilíbrio. Pela ideia de que trabalho e vida não precisam ser inimigos. Voltei para o Rio, vendi tudo que tinha, e seis meses depois estava de volta aqui com capital suficiente para começar algo pequeno.
— E encontrou Marcelo — completou o sócio. — Eu já estava aqui há dois anos, tocando um negócio menor. Unimos forças e criamos o Navarro Resort.
— Por que Navarro? — perguntou Laura, surpresa com sua própria voz. — É seu sobrenome?
Enzo sorriu para ela, e foi como se o resto da mesa tivesse desaparecido.
— É. Enzo Navarro. Meu avô paterno era espanhol, daí o sobrenome. E você, Laura? Qual é a sua história?
Laura sentiu todos os olhos se voltarem para ela. Engoliu em seco.
— Não há muito o que contar — começou, mas Daniela a cutucou.
— Mentira! Laura é editora numa das maiores editoras de São Paulo. Trabalha com autores incríveis.
— Assistente de editora — corrigiu Laura rapidamente. — E ultimamente tenho trabalhado mais com processos administrativos do que com manuscritos propriamente ditos.
— Mas você gosta de livros — afirmou Enzo. Não era uma pergunta.
— Amo — admitiu Laura. — Desde criança. Meu sonho sempre foi descobrir novos talentos, ajudar a dar vida a histórias que merecem ser contadas.
— E por que não está fazendo isso? — a pergunta de Enzo era genuína, curiosa.
Laura abriu a boca e a fechou. Como explicar que nos últimos anos sua vida havia sido consumida por um casamento que desmoronava lentamente? Que havia deixado seus sonhos em segundo plano para apoiar as ambições do ex-marido? Que havia acordado um dia e percebido que não se reconhecia mais?
— É complicado — foi tudo que conseguiu dizer.
— As melhores coisas sempre são — Enzo segurou seu olhar por um momento que se estendeu, carregado de um entendimento tácito.
— Bom, para quem veio a Bali recomeçar, você escolheu o lugar perfeito — interferiu Camila, sua voz doce mas com uma ponta afiada. — Este resort é famoso por... renovações. Não é, Enzo?
Havia uma insinuação clara nas palavras dela. Laura viu Marcelo esconder um sorriso atrás do copo de vinho.
— Bali é um lugar de cura — respondeu Enzo com firmeza, seus olhos ainda em Laura. — Para quem está aberto a isso.
O prato principal chegou: pato assado com especiarias balinesas, arroz aromático, legumes grelhados e um molho complexo que combinava doce, salgado e picante em camadas.
A conversa fluiu para tópicos mais leves. Ricardo contou histórias embaraçosas do escritório. Daniela falou sobre suas viagens anteriores à Ásia. Paulo tentou flertar desajeitadamente com Júlia, que o ignorou completamente.
Laura observava tudo com um misto de divertimento e melancolia. Havia tanto tempo que não participava de um jantar social, que não ria de piadas bobas, que não se sentia parte de algo.
— No que você está pensando?
Laura piscou e encontrou Enzo de pé ao lado de sua cadeira. Ele havia se levantado em algum momento que ela não notara.
— Desculpe?
— Você parecia estar a quilômetros daqui — ele estendeu a mão. — Quer dar uma volta? Tenho algo que gostaria de mostrar a você.
Laura sentiu seu coração acelerar. Olhou rapidamente ao redor da mesa. Camila os observava com olhos estreitados, as mãos apertadas em punhos sobre a mesa. Marcelo tinha uma expressão divertida. O resto do grupo estava envolvido demais em suas próprias conversas para notar.
— Eu... — Laura hesitou.
— Só uma vista rápida — insistiu Enzo, o sorriso brincando nos cantos da boca. — Prometo não sequestrar você.
Contra todo bom senso, Laura aceitou sua mão e se levantou.
***
Enzo a conduziu para fora do restaurante, descendo uma escadaria de pedra iluminada por lanternas que serpenteava pela lateral da montanha. Laura podia ouvir a música suave e as risadas do jantar desaparecendo gradualmente atrás deles.
— Para onde estamos indo? — perguntou ela, de repente muito consciente de que estava sozinha com um homem que praticamente não conhecia, num país estrangeiro, no escuro.
Como se lendo seus pensamentos, Enzo parou e virou-se para ela.
— Desculpe, não quis ser misterioso. Há um mirante logo ali embaixo. Achei que você gostaria de ver Ubud à noite. Mas se preferir voltar...
— Não — Laura surpreendeu-se com a firmeza de sua própria voz. — Quero ver.
Eles continuaram descendo por mais alguns minutos até chegarem a uma plataforma de madeira suspensa sobre o vale. E Laura entendeu porque Enzo havia trazido ela ali.
Ubud se estendia abaixo deles como um mar de luzes douradas pontuando a escuridão. Ao longe, silhuetas escuras de templos se recortavam contra o céu estrelado. O som distante de gamelões — a música tradicional balinesa — flutuava no ar junto com o canto noturno de cigarras.
— Meu Deus — sussurrou Laura. — É mágico.
— Eu venho aqui sempre que preciso lembrar porque fiz as escolhas que fiz — disse Enzo, apoiando-se na grade de madeira ao lado dela. — Às vezes ficamos tão presos no dia a dia que esquecemos de levantar os olhos e ver onde realmente estamos.
Laura virou-se para olhá-lo. Sob a luz suave das estrelas e das lanternas distantes, seu perfil parecia esculpido. Forte, mas com uma vulnerabilidade que ela não havia notado antes.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou, sua voz mal passando de um sussurro.
Enzo virou-se para encará-la, e Laura sentiu o ar condensar entre eles.
— Honestamente? Não sei — ele riu baixo, passando a mão pelos cabelos. — Desde o momento em que te vi no lobby esta manhã, senti que... não sei. Que você veio aqui pelo mesmo motivo que eu vim há seis anos.
— E que motivo é esse?
— Fugir de algo que nos estava matando por dentro.
As palavras caíram entre eles como pedras jogadas num lago, criando ondulações que se expandiam.
Laura sentiu lágrimas inesperadas picarem seus olhos. Como aquele homem, um estranho, podia ver tão claramente o que ela mal admitia para si mesma?
— Eu era casada — ouviu-se dizer. — Por sete anos. Achei que tínhamos um plano. Uma vida. E então um dia acordei e percebi que havia desaparecido. Não Laura esposa, mas Laura pessoa. Não sei nem quando aconteceu. Foi gradual. Como se eu tivesse sido apagada uma camada de cada vez até não sobrar nada além de uma sombra.
Enzo não disse nada, apenas escutou. E havia algo incrivelmente poderoso nisso.
— O divórcio foi finalizado há seis meses — continuou Laura, as palavras fluindo agora que havia começado. — Todos diziam que eu deveria me sentir livre. Aliviada. Mas eu só me sentia... vazia. Como se tivesse passado tanto tempo sendo a pessoa que achavam que eu deveria ser que não fazia ideia de quem eu realmente era.
— E você veio a Bali para descobrir.
— Vim a Bali porque minha melhor amiga praticamente me forçou — Laura deu uma risada molhada. — Mas sim. Acho que no fundo esperava encontrar... algo. Alguma resposta.
— Quer saber o que eu aprendi em seis anos aqui? — Enzo virou-se completamente para ela, e a proximidade fez o coração de Laura disparar. — As respostas não aparecem como epifanias dramáticas. Elas vêm devagar. Em pequenos momentos de clareza. Quando você menos espera.
— Você encontrou as suas respostas?
— Algumas — ele sorriu, mas havia tristeza ali. — Outras eu ainda estou procurando.
— E Camila? — a pergunta saiu antes que Laura pudesse censurá-la. — Desculpe, não é da minha conta.
— Não, tudo bem — Enzo suspirou. — Camila e eu... foi há dois anos. Antes do resort estar completamente estabelecido. Ela veio com um grupo corporativo, parecido com este. Ficou um mês. Tivemos... algo. Mas não era real. Percebi rápido que o que ela queria não era a mim, mas a fantasia. O dono do resort exótico, a aventura tropical, a história que ela poderia contar quando voltasse para São Paulo.
— E você terminou com ela.
— Sim. Não foi fácil. Camila não gosta de ouvir não — ele riu sem humor. — Desde então, ela me manda mensagens ocasionalmente. Sempre diz que vai voltar. Quando Ricardo enviou a lista de participantes desta viagem e vi o nome dela, quase cancelei tudo.
— Por quê não cancelou?
Enzo encontrou os olhos dela, e Laura viu algo ali que fez seu estômago dar um nó.
— Porque algo me dizia que havia uma razão para ela estar vindo. E agora acho que sei qual é.
— Qual?
— Para que eu pudesse conhecer você.
O mundo pareceu parar. Laura estava completamente consciente de cada detalhe: o calor da brisa noturna em sua pele, o perfume de flores misturado com a colônia amadeirada de Enzo, a forma como ele a olhava como se ela fosse a única pessoa no universo inteiro.
Ele deu um passo mais próximo. E outro. Até que estavam separados por meros centímetros.
— Diga-me para parar — sussurrou Enzo, sua mão subindo lentamente para tocar o rosto dela.
Laura não disse nada. Não conseguia. Todas as palavras haviam evaporado de sua mente.
Os dedos dele traçaram a linha de sua mandíbula com uma delicadeza que a fez tremer. Seus olhos percorreram cada traço do rosto dela, como se estivesse memorizando.
— Laura...
E então, como se algum tipo de encanto tivesse sido quebrado, vozes altas ecoaram da escada acima.
— Enzo? Você está aí embaixo?
Era Marcelo.
Enzo fechou os olhos e deixou cair a mão, dando um passo para trás. A frustração era evidente em cada linha de seu corpo.
— Estou! — respondeu, sua voz ligeiramente rouca. — Já estamos subindo.
Ele olhou para Laura mais uma vez, e havia uma promessa tácita ali. *Isso não acabou.*
— Vamos? — estendeu o braço.
Laura aceitou, suas pernas tremendo ligeiramente enquanto subiam de volta.
Quando emergiram no topo da escadaria, encontraram não apenas Marcelo, mas também Camila. A expressão dela quando viu Laura e Enzo juntos poderia ter congelado o inferno.
— Achei que você tivesse se perdido — disse Camila para Laura com um sorriso que era puro veneno. — Que bom que Enzo estava aqui para guiá-la de volta. Ele é muito prestativo. Com todas.
A ênfase na última palavra era clara.
— Eu precisava mostrar a Laura o mirante — disse Enzo calmamente. — É uma das melhores vistas do resort.
— Que gentileza — Camila aproximou-se, colocando-se estrategicamente entre Laura e Enzo. — Mas Laura não deveria se afastar do grupo. Bali pode ser perigoso à noite para quem não conhece.
— Eu estava perfeitamente segura — respondeu Laura, surpreendendo a si mesma com a firmeza de sua voz.
Camila virou-se para ela, e pela primeira vez, a máscara de polidez escorregou completamente. Seus olhos eram gelo puro.
— Claro que estava. Enzo é muito bom em fazer as pessoas se sentirem... especiais. Não é, querido?
O uso do "querido" foi deliberado. Marcador de território. Reivindicação de história compartilhada.
— Camila — a voz de Enzo tinha uma borda de advertência. — Não comece.
— Começar o quê? — ela bateu os cílios com falsa inocência. — Só estou sendo amigável. Afinal, vamos passar um mês inteiro juntos. Devíamos todos nos conhecer melhor. Conhecer as histórias uns dos outros. Os passados. Os segredos.
A tensão era tão espessa que poderia ser cortada com uma faca.
— Acho que está tarde — disse Laura, desesperada para escapar daquela situação. — Vou voltar para minha vila. Obrigada pelo jantar, Enzo.
Ela começou a se afastar, mas Enzo segurou seu braço gentilmente.
— Laura, espera.
Mas Camila foi mais rápida, interpondo-se entre eles.
— Deixe-a ir, Enzo. Ela está cansada. Afinal, não é todo dia que se viaja para o outro lado do mundo fugindo de um divórcio fracassado, não é, Laura?
O ar saiu dos pulmões de Laura como se tivesse levado um soco. Como Camila sabia?
Daniela. Devia ter comentado com alguém do grupo, e a fofoca se espalhou.
— Isso foi desnecessário — disse Enzo, sua voz baixa e perigosa.
— Foi apenas honestidade — Camila deu de ombros. — Achei que Laura apreciasse. Afinal, não queremos começar esta viagem com falsidades, queremos?
Laura sentiu lágrimas de humilhação queimarem seus olhos. Sem dizer outra palavra, virou-se e praticamente correu de volta para sua vila.
Atrás dela, ouvia as vozes de Enzo e Camila se elevando em discussão, mas não parou. Não olhou para trás.
Quando finalmente alcançou a segurança de sua vila, trancou a porta, encostou-se nela e deixou as lágrimas caírem.
Estava em Bali há menos de doze horas e já havia se envolvido num drama que faria suas novelas favoritas parecerem amadoras.
Que diabos estava fazendo?
Mas mesmo enquanto chorava, não conseguia apagar a sensação dos dedos de Enzo em seu rosto. A promessa nos olhos dele. A conexão que havia sentido no mirante.
Lá fora, a noite balinesa cantava com insetos e vento nas palmeiras.
E Laura soube, com uma certeza que a assustou, que aqueles trinta dias iriam mudar sua vida para sempre.
Não sabia se seria para melhor ou pior.
Mas definitivamente nunca mais seria a mesma.
