CAPÍTULO 3Gratuito
Capítulo 3 — A Despedida
Aurora voltou a Londres como quem retorna a uma casa que já não reconhece, embora nada tenha mudado. O apartamento em Primrose Hill estava exatamente como o deixara — a xícara de chá na borda da janela, o violoncelo no canto, a luz cinzenta entrando pelas cortinas com a timidez de um convidado indesejado. Mas era ela que estava diferente. Algo na conversa com Elena havia deslocado um eixo interno, como quando um terremoto é tão profundo que a superfície mal se move, mas tudo embaixo já está em outra posição.
Eram três da tarde de uma quarta-feira. Tinha dormido no voo de volta — finalmente, o corpo capitulando à exaustão — e acordara sobre o Canal da Mancha com o gosto metálico de sono insuficiente na boca e a certeza, cristalina como uma nota de harmônico, de que precisava resolver tudo em quarenta e oito horas.
Sentou-se à mesa da cozinha — uma mesa de madeira clara que comprara em um mercado de pulgas em Portobello Road e que tinha uma marca de queimadura em formato de meia-lua no canto esquerdo, lembrança de um ferro de passar esquecido durante uma sessão de estudo particularmente absorvente — e fez uma lista. Aurora Menezes era o tipo de pessoa que fazia listas. Não listas digitais em aplicativos sofisticados, mas listas em papel, escritas com a caneta tinteiro que Chiara lhe dera no aniversário de vinte e cinco anos, em um caderno de capa de couro que já estava na metade.
A lista dizia:
1. Ligar para Ferrara — confirmar ida. Pedir detalhes. 2. Cancelar ensaios das próximas duas semanas. 3. Desistir da audição da London Phil. (Aqui, a caneta hesitara, deixando uma mancha de tinta que parecia um pequeno hematoma.) 4. Pagar aluguel adiantado — verificar se Mrs. Patterson aceita. 5. Chiara — contar tudo. Pedir para cuidar do apartamento. 6. Fazer mala. (Subitem: casaco bom. Mãe mandou.) 7. Passagem para Catania.
Começou pelo item um. Ferrara atendeu no segundo toque, como se estivesse esperando — e talvez estivesse. Sua voz tinha a mesma qualidade da primeira ligação: grave, medida, com aquele sotaque que transformava cada frase em algo que parecia simultaneamente formal e íntimo.
— Signora Menezes. Boas notícias, espero?
— Vou à Sicília. Posso estar aí na sexta-feira.
— Eccellente. — A palavra veio carregada de satisfação contida. — Providenciarei tudo. Há um voo direto de Londres Gatwick para Catania-Fontanarossa às dez e quarenta. Posso enviar-lhe os detalhes da reserva?
— O senhor disse que cobriria as despesas — Aurora lembrou, sentindo-se estranha ao aceitar dinheiro de um desconhecido, mas reconhecendo que seu saldo bancário não sobreviveria a uma passagem internacional de última hora.
— E cobrirei. Considere uma antecipação do espólio, se preferir uma justificativa formal. Mas entre nós, Signora — e aqui a voz dele baixou meio tom, como um instrumento mudando de registro — Lorenzo teria insistido. Ele era muitas coisas, nem todas admiráveis, ma era generoso com as pessoas que importavam.
As pessoas que importavam. Aurora notou a escolha de palavras e guardou-a como guardava frases musicais particularmente expressivas — em um canto da memória onde pudesse revisitá-las depois.
— Signor Ferrara, antes de ir, preciso saber uma coisa. As condições do testamento. A que envolvem... casamento. — Ela forçou a palavra para fora como quem arranca um espinho. — Minha mãe tem uma teoria. Preciso saber se está certa.
O silêncio de Ferrara foi diferente desta vez. Não era calculado nem dramático. Era o silêncio de um homem que pesa opções, que mede consequências.
— Sua mãe — disse ele, lentamente — é uma mulher perspicaz. Sempre foi. Mas as condições do testamento são complexas, e seria irresponsável da minha parte discuti-las parcialmente. Parcialidade gera mal-entendidos, e mal-entendidos geram decisões precipitadas. O que posso lhe dizer é o seguinte: nada no testamento a obriga a nada. Toda condição tem uma alternativa. Nenhuma porta é a única porta.
Era uma resposta de advogado — ornamentada, evasiva, tecnicamente verdadeira e praticamente inútil. Mas Aurora detectou, sob as camadas de diplomacia, algo que poderia ser empatia. Ferrara não era apenas um executor testamentário cumprindo um dever legal. Havia algo pessoal ali, algo que ela ainda não conseguia definir.
— Sexta-feira, então — disse. — Sexta-feira. Estarei no aeroporto. A senhora me reconhecerá — sou o único homem em Catania que usa gravata-borboleta em novembro.
Aurora quase riu. Quase.
O item dois da lista — cancelar ensaios — consumiu a hora seguinte em uma sequência de e-mails e ligações que a deixaram com a sensação de estar desmontando a própria vida, peça por peça. O maestro da English Chamber Orchestra, com quem tocaria na semana seguinte, foi compreensivo ("Assuntos de família, querida, eu entendo"). O coordenador do quarteto de cordas que tinha concerto no Kings Place foi menos ("Isso é muito em cima da hora, Aurora"). A professora particular de uma menina de doze anos que Aurora ensinava às quintas-feiras foi pragmática ("Minha filha ficará desapontada, mas eu encontro alguém").
O item três foi o mais difícil. A audição para a London Philharmonic era algo que Aurora desejara durante anos — não como se deseja algo abstrato, mas como se deseja o ar quando se está debaixo d'água. A cadeira de segundo violoncelo significava estabilidade, prestígio, um salário fixo pela primeira vez na vida. Significava parar de contar moedas no fim do mês. Significava pertencer.
Escreveu o e-mail de desistência três vezes. Na primeira, explicou demais — família, herança, viagem inadiável. Na segunda, explicou de menos — "Por motivos pessoais, preciso retirar minha candidatura." Na terceira, encontrou um meio-termo que a fez sentir-se apenas parcialmente covarde:
"Prezados, Devido a circunstâncias familiares urgentes que requerem minha presença no exterior, lamento informar que não poderei comparecer à audição agendada para o dia 28 deste mês. Compreendo que não há garantia de nova oportunidade, e assumo total responsabilidade pela decisão. Agradeço a consideração. Aurora Menezes."
Apertou "enviar" e fechou o laptop com mais força do que o necessário. Clarice — que não estava ali, mas cuja energia parecia tê-la seguido de São Paulo — teria miado em protesto. Em vez disso, foi o radiador que emitiu um som de desaprovação, crepitando com o ar preso nos canos velhos.
Mrs. Patterson, a senhoria escocesa de setenta anos que administrava o prédio com mão de ferro envolta em luva de cashmere, aceitou o aluguel adiantado com um arqueamento de sobrancelha que dizia mais do que palavras.
— Duas semanas, Srta. Menezes? — Talvez um pouco mais. — "Um pouco mais" não é uma data, querida. — Até o fim de dezembro. No máximo.
Mrs. Patterson a olhou com aquele olhar penetrante que, segundo rumores do prédio, já fizera um encanador chorar.
— Até o fim de dezembro. Se passar disso, preciso de aviso prévio formal. Tenho fila de espera para este apartamento. — Eu sei, Mrs. Patterson. Obrigada. — E regue as plantas. Ou peça a alguém para regar. Mato plantas mortas na entrada do meu prédio.
Aurora prometeu que regaria — ou que alguém regaria — e subiu de volta ao apartamento para enfrentar o item cinco: Chiara.
*
Chiara chegou às sete da noite, trazendo uma garrafa de Nero d'Avola — "vinho siciliano, para você ir se acostumando" — e uma expressão que mesclava curiosidade feroz com preocupação mal disfarçada. Sentou-se no chão da sala, porque Chiara sempre se sentava no chão quando a conversa era séria, e ouviu.
Aurora contou tudo. A viagem a São Paulo, a conversa com Elena, as cartas na caixa de papelão, a confirmação de que Lorenzo Visconti era seu pai, a suspeita — ainda não confirmada — de que o testamento envolvia casamento, Ferrara e sua gravata-borboleta, a passagem para sexta-feira.
Chiara ouviu sem interromper, o que, para Chiara Ferrante, era um ato de contenção quase heroico. Seus olhos escuros iam de Aurora ao copo de vinho e de volta a Aurora, absorvendo cada palavra como uma esponja absorve água — silenciosamente, completamente.
Quando Aurora terminou, Chiara ficou em silêncio por exatamente doze segundos — Aurora contou, porque contar era o que fazia quando não sabia o que sentir.
— Mamma mia — disse Chiara, finalmente, e as duas palavras continham multidões.
— Eu sei.
— Aurora, escuta. Eu sou siciliana. Minha família é de Siracusa, a uma hora de Catania. Cresci ouvindo histórias de famílias como os Visconti. E o que posso te dizer é que essas famílias não funcionam como o mundo normal. Para eles, casamento não é romance — é estratégia. Terra, dinheiro, nome. É assim há séculos. O amor, se vier, vem depois. Ou não vem nunca.
— Estou ciente.
— Está ciente intelectualmente. Mas quando estiver lá, quando estiver dentro daquela casa, com aquelas pessoas ao redor, é diferente. A Sicília tem um jeito de... — ela gesticulou, procurando a palavra certa nas duas línguas que habitava —... de engolir as pessoas. Não de um jeito ruim. De um jeito antigo. Como se a ilha tivesse uma gravidade própria, uma força que puxa tudo para o centro. E o centro é sempre a família.
Aurora tomou um gole do Nero d'Avola. Era encorpado, escuro, com notas de amora e algo defumado que se instalava no palato como uma memória. Pensou que era um vinho com personalidade demais para uma noite de quarta-feira — mas, por outro lado, toda a sua semana tinha personalidade demais.
— Você conhece os Visconti? — perguntou. — Pessoalmente?
— Não. Mas minha avó sabia. Quando eu era pequena e fazíamos visita à famiglia em Siracusa, ela apontava na direção do Etna e dizia: "Lá estão os Visconti, na sombra do vulcão, onde sempre estiveram." Falava com respeito. Mas também com... cautela. Como se falar deles fosse como falar do tempo — algo que não se controla, apenas se observa.
— Na sombra do vulcão — repetiu Aurora, e a imagem se instalou em sua mente com a força de uma metáfora que era também literal. A propriedade dos Visconti ficava perto do Etna. Claro que ficava.
— E esse Dante — disse Chiara, inclinando-se para frente com o interesse de quem finalmente chega ao ponto que esperava. — O meio-irmão. O que você sabe dele?
— Nada. Só o nome. E que era um menino de oito anos quando minha mãe saiu de Roma, o que significa que agora tem... — fez a conta — trinta e cinco. Oito anos mais velho do que eu.
— Trinta e cinco. Siciliano. Primogênito de uma família antiga. Solteiro — porque se não fosse, não haveria testamento te empurrando para ele. — Chiara ergueu o copo. — Posso dizer algo terrível?
— Você vai dizer de qualquer jeito.
— Há uma chance, piccola, de que ele seja absurdamente bonito. Homens Visconti geralmente são. É genética ou pacto com o diabo, ninguém sabe. Minha avó dizia que o bisavô dele fez um general britânico chorar de inveja durante a guerra.
— Chiara.
— Estou sendo prática! Se você vai potencialmente casar com esse homem — ela ergueu a mão para impedir o protesto de Aurora — potencialmente, eu disse, pelo menos que ele seja bonito. Seria uma tragédia grega de outro nível se fosse feio.
— Não vou casar com ninguém.
— Você não sabe o que vai fazer. Não sabe as condições. Não sabe nada. E está indo assim mesmo, o que, diga-se de passagem, é a coisa mais corajosa e mais insana que você já fez. — Chiara esticou a mão e segurou a de Aurora. — E eu estou morrendo de orgulho de você.
Aurora sentiu o calor da mão da amiga como uma âncora. Chiara Ferrante — barulhenta, dramática, intensamente viva — era o tipo de pessoa que fazia o mundo parecer menos assustador simplesmente por estar nele. Tê-la ali, naquela noite, com vinho siciliano e verdades ditas sem rodeios, era mais do que Aurora sabia que precisava.
— Preciso te pedir uma coisa — disse Aurora.
— Qualquer coisa.
— Cuida do meu apartamento? Rega as plantas — Mrs. Patterson ameaçou consequências fatais. E... — hesitou — cuida do meu violoncelo? Se a viagem demorar mais do que duas semanas. Ele precisa ficar em temperatura ambiente, longe da janela, e...
— Aurora. — Chiara apertou sua mão. — Eu sei como cuidar de um violoncelo. Estudei na Academy, lembra?
— Piano.
— Mesmo assim. Instrumentos são instrumentos. E o seu é praticamente meu sobrinho, a quantidade de tempo que passo com ele. — Ela sorriu, e o sorriso era quente e um pouco triste. — Vou cuidar de tudo. Não se preocupe com Londres. Londres vai estar aqui quando você voltar. Sempre está. Esse é o problema dela e a beleza dela.
Ficaram em silêncio por um momento, ouvindo os sons do prédio — o casal do andar de cima assistindo televisão, o cachorro do apartamento ao lado sonhando em voz alta, o radiador conversando consigo mesmo.
— Chiara — disse Aurora, de repente — vem comigo.
— O quê?
— Para a Sicília. Você disse que viria. No outro dia. Disse que iria para onde eu precisasse.
Chiara a olhou com aquela expressão particular que significava que estava levando algo a sério — sobrancelhas levemente franzidas, lábio inferior preso entre os dentes, olhos fixos e atentos.
— Quando? — perguntou.
— Não agora. Agora preciso ir sozinha. Preciso entender o que está acontecendo, ver o testamento, conhecer essas pessoas. Mas depois — talvez em uma semana, talvez menos — vou precisar de alguém ali. Alguém que fale italiano, que conheça a cultura, que me diga quando estou sendo ingênua demais.
— Você nunca é ingênua demais. Esse é o seu problema — você é desconfiada na medida exata para se proteger e na medida insuficiente para se manter longe de encrenca.
— Chiara. Por favor.
— É claro que vou. — Chiara disse como se fosse óbvio, como se Aurora tivesse perguntado se o céu era azul. — Minha tia em Siracusa vai adorar a visita. Posso ficar com ela e estar em Catania em quarenta minutos. Mais rápido se dirigir como siciliana, o que, te informo, é uma experiência religiosa.
Aurora sentiu algo se soltar em seu peito — um nó que nem sabia que estava ali. Inclinou-se e encostou a testa na de Chiara, um gesto que faziam desde a Academy, desde os dias em que dividiam ansiedade de provas e saudade de casa e a solidão particular de ser estrangeira em uma cidade que não se importava se você ficasse ou fosse embora.
— Grazie, tesoro — murmurou Aurora.
— Di niente, cara mia. — Chiara afastou-se e ergueu o copo de vinho com solenidade exagerada. — Alla Sicilia. Alla famiglia. E ao potencialmente bonito Dante Visconti, que não sabe o que o espera.
Aurora ergueu seu copo também, e algo naquele gesto — duas amigas brindando ao desconhecido em um apartamento pequeno em Londres enquanto a chuva recomeçava lá fora — tinha a qualidade de um ritual, uma invocação, um ponto de virada que ambas sentiam sem precisar nomear.
Beberam. O vinho era bom. A noite era longa. E pela primeira vez em dias, Aurora sentiu algo que se parecia com esperança — frágil, provisória, possivelmente ilusória, mas presente.
*
O resto da noite transcorreu em um ritmo que era exclusivamente delas — uma cadência construída ao longo de sete anos de amizade e que envolvia vinho, conversa, silêncio, e mais conversa, em ciclos que não precisavam ser planejados porque aconteciam naturalmente, como respirar. Chiara contou novidades do trabalho (estava dando aulas de piano em uma escola em Hampstead e namorando o dono de uma livraria em Islington, "um inglês tão english que pede desculpas quando espirra"). Aurora mostrou as cartas de Lorenzo — as que tivera coragem de ler, que eram apenas as três primeiras, porque cada uma era um pequeno corte e ela precisava de tempo entre um corte e outro.
A primeira carta, a mais antiga, Chiara já conhecia — as quatro linhas sobre o nascimento. A segunda era de um ano depois:
"Elena,
A menina é bonita. Tem seus olhos, como você disse, mas a boca é minha. A minha mãe tinha a mesma boca. Não diga isso a ninguém.
A foto está no meu escritório, atrás de um livro. Ninguém sabe.
L."
A terceira era do terceiro aniversário de Aurora:
"Elena,
Três anos. Começa a parecer uma pessoa, não um bebê. Está tocando algum instrumento? Minha família é musical — minha avó tocava piano, meu tio violino. Se a menina tiver o dom, encoraje-a. A música é a única herança que posso dar sem que ninguém saiba.
Obrigado pela foto. Este ano, se possível, uma de corpo inteiro.
L."
Chiara leu as cartas em silêncio, e quando devolveu a terceira a Aurora, seus olhos estavam brilhantes.
— Ele amava você — disse, simplesmente. — De longe, do jeito errado, insuficiente. Mas amava.
Aurora não respondeu. Guardou as cartas na caixa e fechou a tampa com cuidado, como quem fecha um piano depois do último acorde.
Chiara partiu perto da meia-noite, depois de um abraço longo na porta que nenhuma das duas tentou encurtar. Na soleira, virou-se uma última vez.
— Aurora. — Sim? — Se esse Dante for um stronzo, liga para mim. Ligo para minha avó, ela liga para as primas dela, e fazemos esse homem desejar nunca ter nascido. Vingança siciliana não é lenda — é tradição.
Aurora riu. Uma risada verdadeira, a primeira em dias, e o som encheu o corredor do prédio como música enchendo uma sala de concerto — inesperada, breve, e preciosa justamente por isso.
— Boa noite, Chiara. — Buonanotte, piccola. Sogni d'oro.
*
Na quinta-feira, Aurora fez a mala. Não tinha muita roupa — sua relação com a moda era funcional, quase monástica. Calças escuras, blusas de botão, dois vestidos que serviam para concertos e jantares, um par de sapatos que não fosse tênis. O casaco bom que Elena mencionara era uma peça de lã preta que comprara em uma líquidação na Selfridges dois invernos antes e que usava tão raramente que ainda parecia novo. Colocou-o na mala com o cuidado de quem embala um instrumento.
Depois, sentou-se no chão da sala e abriu a quarta carta de Lorenzo.
Era do quarto aniversário de Aurora:
"Elena,
A menina tem quatro anos e já parece séria nas fotos. Séria como minha mãe, que nunca sorriu para uma câmera na vida. Donna Lucia acha que sorrir para fotos é vulgar. Talvez a menina concorde.
Comecei a guardar dinheiro separado. Para ela. Não sei quando, nem como, mas um dia vai precisar. Ou um dia vou ter coragem. Uma das duas coisas.
L."
"Um dia vou ter coragem." Aurora releu a frase várias vezes. A coragem não viera em vida — ou viera, mas tarde demais, em forma de testamento. Um documento póstumo de um homem que vivera a vida inteira entre o dever e o desejo e só encontrara o equilíbrio quando já não precisava mais viver com as consequências.
Guardou a carta. Decidiu que leria as restantes na Sicília — uma por dia, como quem toma um remédio amargo em doses controladas.
Na sexta-feira de manhã, o alarme tocou às cinco. Aurora já estava acordada — não dormira, na verdade, ou dormira em fragmentos tão breves que não faziam diferença. Tomou banho, vestiu-se, verificou a mala pela terceira vez, regou as plantas (o ficus Benjamin que Chiara chamava de "Bob" e a samambaia que não tinha nome mas que Aurora secretamente chamava de "Dvořák"), e ficou parada no meio da sala, olhando ao redor.
O apartamento parecia diferente com os olhos de quem parte. Menor e maior ao mesmo tempo. Cada objeto era uma âncora — o violoncelo no canto, a pilha de partituras na estante, a xícara da sorte (uma caneca da Royal Academy com uma rachadura no cabo que Aurora se recusava a jogar fora), os livros na mesinha de cabeceira, a foto de Chiara e ela no dia da formatura, rindo como se o mundo fosse simples.
Caminhou até o violoncelo. Passou a mão pelo verniz escuro, sentindo a curva familiar sob os dedos. Não ia levá-lo — seria impraticável, e além disso havia algo simbólico em deixá-lo ali, como se sua identidade musical ficasse guardada em Londres enquanto ela ia ao encontro de uma identidade diferente, mais antiga, que ainda não conhecia.
— Volto logo — murmurou, e sentiu-se levemente ridícula por falar com um instrumento, e ao mesmo tempo perfeitamente justificada, porque, de todas as relações na sua vida, aquela era a mais longa e a mais confiável.
O Uber chegou às seis e quinze. O motorista era silencioso, o que Aurora agradeceu. Londres desfilava pela janela como uma sequência de cartões-postais em tons de cinza — Regent's Park ainda adormecido, Marylebone com seus cafés começando a acender as luzes, a M23 se estendendo para o sul como uma artéria de asfalto bombeando gente para os aeroportos.
Gatwick era o caos organizado de sempre. Aurora navegou pelo check-in, pelo security, pelo duty-free (onde comprou um chocolate que não queria e uma revista que não leria) com a eficiência automática de quem viaja sozinha há anos. Sentou-se no gate C34 com quarenta minutos de antecedência e abriu o telefone.
Uma mensagem de Chiara: "Já regando Bob. Dvořák parece triste. Ou é samambaia normal. Não sei. Boa viagem, meu amor. Me liga quando chegar. Ti voglio bene."
Uma mensagem de Elena: "Cuidado." Uma palavra. Suficiente. Insuficiente.
Nenhuma mensagem de Ferrara — ele mandara os dados da passagem por e-mail na véspera, com instruções precisas sobre onde o encontraria no aeroporto de Catania ("Saída principal, à esquerda do balcão de informações. Estarei com minha gravata-borboleta habitual. Hoje será a vermelha").
O voo foi chamado. Aurora juntou suas coisas, guardou o telefone no bolso do casaco, e caminhou até a fila de embarque. Na sua frente, uma família italiana — pai, mãe, duas crianças — conversava em volume que em Londres era considerado grito e que na Itália era provavelmente sussurro. As crianças brigavam por um tablet. O pai mediava com gestos largos. A mãe olhava para o teto com a resignação santa de quem já desistiu.
Aurora sorriu. Estava indo para o país dessas pessoas. Para a ilha delas, na verdade — para a Sicília, que nem sequer era Itália de verdade, segundo Chiara, mas algo anterior, algo mais antigo e mais selvagem, uma terra que pertencia a si mesma antes de pertencer a qualquer nação.
Entrou no avião. Encontrou seu assento — janela, como sempre, porque Aurora precisava ver o mundo passando para acreditar que estava se movendo. Afivelou o cinto. Fechou os olhos.
E quando o avião decolou, deixando Londres para trás em uma espiral ascendente que atravessou as nuvens até encontrar, lá em cima, um céu absurdamente azul que a cidade escondia há semanas, Aurora sentiu — com cada fibra do corpo treinado para sentir vibrações — que algo estava começando. Não o tipo de começo que se planeja, mas o tipo que acontece quando a vida decide que você já esperou o suficiente e puxa o chão debaixo dos seus pés com a elegância casual de quem troca os lençóis.
O avião seguiu para o sul. Para o sol. Para o Mediterrâneo.
Abaixo, a Europa se desenrolava como um tapete — primeiro a França, verde e geométrica, depois os Alpes, brancos e impossíveis, depois a Itália, descendo como uma bota em direção ao mar. Aurora assistiu pela janela com a atenção de quem vê algo pela primeira vez, embora já tivesse feito trajetos semelhantes em turnês de orquestra. Mas nunca assim. Nunca com esse peso no peito. Nunca com uma caixa de cartas na bagagem de mão e o nome de um pai morto nos lábios.
Quando o piloto anunciou o início da descida para Catania, Aurora olhou pela janela e viu o Etna.
O vulcão surgiu primeiro como uma sombra no horizonte — uma massa escura recortada contra o céu de fim de tarde que poderia ser uma nuvem, se nuvens tivessem aquela solidez, aquela presença, aquela autoridade silenciosa. Depois, à medida que o avião perdia altitude, os detalhes emergiram: o cone truncado com seu penacho de fumaça branca, as encostas escuras de lava antiga, os vinhedos e pomares que subiam pelas laterais como fiéis subindo os degraus de uma catedral. E ao redor, espalhando-se até o mar em todas as direções, a Sicília — terra ocre e verde, pontilhada de casas brancas e igrejas barrocas, cortada por estradas que serpenteavam entre colinas como rios de asfalto.
Aurora prendeu a respiração. Não por decisão, mas por instinto — o mesmo instinto que a fazia prender a respiração antes de um solo difícil, quando o silêncio que precede a primeira nota é tão carregado de possibilidade que respirar parece uma profanação.
A Sicília. Estava vendo a Sicília pela primeira vez. A terra de Lorenzo Visconti. A terra que poderia ter sido a sua, se a história tivesse sido diferente.
O avião tocou o solo com um solavanco. As rodas cantaram contra o asfalto. Os passageiros aplaudiram — porque passageiros italianos aplaudem pousos, sempre, como se cada aterrissagem fosse um milagre que merece reconhecimento.
Aurora não aplaudiu. Estava ocupada demais tentando controlar o tremor em suas mãos.
As portas se abriram. O ar da Sicília entrou na cabine como um convite — quente apesar de ser novembro, carregado de sal e algo cítrico, limão talvez, ou laranja, ou ambos, misturado com o cheiro mineral de terra vulcânica que não se parecia com nenhum cheiro que Aurora conhecesse. Era um ar com personalidade. Um ar que dizia: "Você está em outro lugar agora."
Caminhou pelo finger de embarque, seguiu as placas para a esteira de bagagens, passou pela imigração sem incidentes (o passaporte brasileiro com visto de residência britânica era um documento que gerava olhares curiosos, mas não perguntas). Pegou sua mala — pequena, preta, anônima — e caminhou para a saída principal.
E lá estava ele.
Tommaso Ferrara era exatamente como Aurora o imaginara e nada como o imaginara, ao mesmo tempo. Tinha cerca de quarenta e cinco anos, era alto mas não intimidante, magro de uma magreza mediterrânea que sugeria oliveiras e caminhadas ao sol em vez de academia. Seu rosto era estreito, inteligente, com olhos escuros que pareciam estar sempre avaliando algo, e um bigode aparado com precisão milimétrica que lhe dava um ar de personagem de filme italiano dos anos sessenta. E a gravata-borboleta. Era vermelha, como prometido, e completamente absurda em um aeroporto de província, e, por isso mesmo, completamente perfeita.
— Signora Menezes — disse ele, avançando dois passos com a mão estendida. — Benvenuta in Sicilia.
Aurora apertou a mão dele. Era firme, seca, profissional — a mão de um homem que passava a vida apertando mãos e sabia exatamente quanta pressão aplicar.
— Signor Ferrara. Obrigada por vir me buscar.
— O prazer é meu. E, por favor — um sorriso apareceu sob o bigode como sol entre nuvens — me chame de Tommaso. Vamos passar bastante tempo juntos nos próximos dias, e "Signor Ferrara" é o que meus clientes problemáticos me chamam.
Ele pegou a mala de Aurora com um gesto que era ao mesmo tempo cavalheiresco e eficiente, e a guiou para fora do terminal. O estacionamento era um caos — carros em fila dupla, famílias se reunindo com abraços e gritos, motoristas buzinando sem motivo aparente — e Tommaso navegava por ele com a calma de quem nasceu no meio do caos e fez dele seu habitat natural.
Seu carro era um Alfa Romeo prateado de modelo que Aurora não soube identificar, mas que tinha o tipo de elegância discreta que sugeria bom gosto e rendimentos confortáveis. Abriu a porta para ela, colocou a mala no porta-malas, e sentou-se ao volante com a naturalidade de quem faz isso todos os dias.
— A Villa della Pietra fica a cerca de quarenta minutos — disse, manobranado para sair do estacionamento. — Normalmente seriam trinta, ma il traffico — ele fez um gesto vago com a mão que englobava toda a desorganização viária siciliana — é o que é. Podemos conversar no caminho. Ou não. Como preferir.
— Conversar — disse Aurora, sem hesitação. — Tenho perguntas.
Tommaso assentiu, como se esperasse exatamente isso.
— Sei que tem. E hoje vou responder a muitas delas. Mas não a todas. Algumas respostas pertencem a outras pessoas, e não me cabe dá-las. — Olhou para ela de soslaio, brevemente, antes de voltar os olhos à estrada. — Posso começar?
— Por favor.
— A leitura formal do testamento será amanhã de manhã. A família estará presente — Donna Lucia, a matriarca; Dante, o primogênito; e Marco, o irmão mais novo. Há também outros interessados, mas esses são os principais. A senhora será apresentada como herdeira designada, conforme os termos do testamento. As condições específicas serão lidas em voz alta, e a senhora terá um prazo de trinta dias para aceitá-las ou recusá-las.
— E se eu recusar?
— Se recusar, a herança — e as dívidas — são redistribuídas entre os demais herdeiros, conforme disposições alternativas que Lorenzo previu.
— Então eles não precisam de mim.
Tommaso fez uma pausa. O carro passou por uma rotatória com a fluidez de uma dança — aqui, na Sicília, as rotatórias não eram regras, eram sugestões.
— Precisam — disse, devagar. — Mais do que sabem. E mais do que a senhora imagina. — Outra pausa. — Lorenzo era muitas coisas, Signora. Era teimoso, orgulhoso, às vezes cruel de uma crueldade que vem de séculos de poder e privilégio. Mas era também, à sua maneira torta e insuficiente, um homem que tentou fazer a coisa certa. O testamento é a prova final disso. E quando a senhora ler as condições, espero que veja o que eu vi: não um acordo comercial, mas um pedido de perdão.
As palavras ficaram no ar do carro como perfume — presentes, persistentes, impossíveis de ignorar.
Aurora olhou pela janela. A Sicília passava em pinceladas: oliveiras torcidas pela idade, muros de pedra seca que delimitavam propriedades há gerações, vilarejos empoleirados em colinas com igrejas de cúpulas coloridas, e, sempre, sempre, o Etna ao fundo, com seu penacho de fumaça branca contra o céu que escurecia.
— Fale-me de Dante — disse, e sua voz soou mais suave do que pretendia.
Tommaso sorriu — um sorriso que era ao mesmo tempo afetuoso e cauteloso, como o de alguém que descreve um animal selvagem que admira mas respeita.
— Dante Visconti é... — ele buscou a palavra —... um homem que carrega mais do que deveria. Assumiu a gestão do espólio quando Lorenzo adoeceu, há três anos. Tentou salvar o que podia. Não conseguiu tudo, mas conseguiu mais do que qualquer outro teria conseguido. É respeitado na região. Temido, por alguns. Amado, por poucos. É reservado como o pai, orgulhoso como a mãe, e teimoso como só um siciliano pode ser. — Pausa. — Ele não sabe quem a senhora é. Não sabe que Lorenzo tinha uma filha. Ninguém na família sabe, exceto eu. Saberão amanhã, na leitura do testamento.
A informação caiu sobre Aurora como uma chuva fria.
— Ele não sabe — repetiu. — Dante não sabe que tem uma irmã.
— Meia-irmã. E não. Lorenzo me pediu sigilo absoluto. Disse que revelaria quando fosse o momento certo. — Tommaso fez uma expressão que era quase arrependimento. — O momento certo acabou sendo a morte dele. Talvez fosse o plano desde o início. Talvez não. Com Lorenzo, nunca se sabia.
Aurora fechou os olhos. Tentou imaginar — amanhã, uma sala, rostos desconhecidos, e a voz de Tommaso lendo um testamento que revelaria ao mundo que Lorenzo Visconti tinha uma filha secreta. A expressão de Dante. A expressão de Donna Lucia. O choque, a raiva, a incredulidade.
E as condições. As condições que ela ainda não conhecia, mas que sua mãe suspeitava, e que Ferrara nem confirmava nem negava, e que pendiam sobre ela como a espada de Dâmocles em versão siciliana.
O carro virou em uma estrada secundária ladeada por ciprestes que, na luz do crepúsculo, pareciam sentinelas escuras guardando um segredo. Ao longe, entre as árvores, Aurora vislumbrou algo — uma forma maciça, iluminada por luzes quentes, recortada contra a silhueta do Etna.
— Villa della Pietra — disse Tommaso, e havia em sua voz algo que era quase reverência. — Sua casa, Signora. Se quiser.
Aurora olhou. E o que viu — a mansão de pedra dourada emergindo das oliveiras como um navio de uma tempestade, com suas janelas acesas como olhos, suas varandas de ferro forjado como braços abertos, sua presença antiga e imponente e absurdamente bonita — fez algo dentro dela se contrair e se expandir ao mesmo tempo, como um acorde maior e menor tocados juntos, dissonância e harmonia em uma única vibração.
Estava ali. Na Sicília. Na terra do pai que nunca conhecera. A caminho de uma casa que poderia ser sua. A caminho de uma família que não sabia que ela existia.
A caminho de Dante Visconti, que, em algum lugar daquela casa iluminada, vivia a última noite de um mundo que amanhã não existiria mais.
O carro avançou pela alameda de ciprestes, e Aurora sentiu, com a certeza absoluta de quem ouve a primeira nota de uma sinfonia desconhecida, que não havia mais como voltar atrás.
