CAPÍTULO 2Gratuito
Capítulo 2 — As Verdades de Elena
O trem para São Paulo — ou melhor, o voo para São Paulo, porque Aurora não tinha o luxo do tempo, embora tivesse a alma de quem preferia trens — partiu de Heathrow numa terça-feira cinzenta, tão cinzenta que parecia que Londres estava se dissolvendo em si mesma.
Mas primeiro, houve a manhã com Chiara.
Chiara Ferrante chegou às nove em ponto, como prometido, carregando um saco de papel com cornetti ainda quentes da padaria italiana em Chalk Farm que ela frequentava com devoção religiosa. Entrou no apartamento de Aurora como entrava em todos os lugares — como uma tempestade de verão que se esqueceu de pedir licença. Tirou o casaco molhado, jogou-o sobre a cadeira mais próxima, beijou Aurora em ambas as bochechas com estalos sonoros, e foi direto para a cozinha fazer café na moka que dera de presente no aniversário de Aurora dois anos antes.
— Allora — disse, sem se virar, enquanto o café começava a borbulhar com aquele som que Aurora associava ao conforto absoluto, como se a própria máquina estivesse ronronando. — O que aconteceu? Você perdeu a audição? Matou alguém? Está grávida? Porque no caso da gravidez, preciso saber quem é o pai e se ele merece viver.
Aurora, sentada à mesa da cozinha com as mãos envolvendo um copo de água que não bebia, deixou escapar uma risada curta — mais ar do que som.
— Nenhuma das anteriores. — Então é pior do que eu pensava. — Chiara se virou, encostando-se no balcão com os braços cruzados. Seus olhos escuros — tão escuros que pareciam não ter pupila, como dois botões de jabuticaba — percorreram o rosto de Aurora com a atenção de quem lê uma partitura difícil. — Fala.
Aurora pegou o envelope do escritório siciliano, que passara a noite na mesa de centro como um animal adormecido, e o estendeu a Chiara sem dizer nada. Observou enquanto a amiga lia. Observou as sobrancelhas subirem. Observou a boca se abrir. Observou o café ser esquecido no fogão até começar a chiar de protesto.
— Madonna santa — murmurou Chiara, e não era blasfêmia — era prece. Pousou a carta e olhou para Aurora com uma expressão que mesclava choque, fascínio e algo que poderia ser o início de raiva em nome da amiga. — Lorenzo Visconti. Aurora. Sei que nome é esse?
— Não sei. Deveria? — Os Visconti de Catania são uma das famílias mais antigas da Sicília. Minha avó falava deles — il sangue antico, dizia, o sangue antigo. Proprietários de terra, vinhas, olivais. Na época de Mussolini, tinham influência política. Depois da guerra, perderam poder, mas mantiveram a terra. E na Sicília, terra é tudo. — Chiara pegou a carta novamente, como se relê-la pudesse revelar algo que escapara na primeira leitura. — Dois milhões e meio de euros de dívida. Dio mio. O que esse homem fez?
— Não sei. Não sei nada. Nem sei se ele é... — Aurora parou. A palavra que queria dizer era "meu pai", mas dizê-la em voz alta a tornaria mais real do que ela estava preparada para aceitar.
Chiara, porém, não precisava que Aurora terminasse a frase. A compreensão cruzou seu rosto como uma sombra.
— Você acha que ele é seu pai — disse, em voz baixa. Não uma pergunta. Uma constatação. — O advogado não negou. Quando perguntei diretamente, ele disse que precisava estar na Sicília para ter a resposta. — Que resposta é essa que não pode ser dita por telefone? — Chiara fez um gesto impaciente, o tipo de gesto que em uma italiana significava algo entre frustração e indignação existencial. — Ou é seu pai ou não é. Sim ou não. Uma sílaba. Não precisa de paisagem para isso.
Aurora quase sorriu. "Paisagem" fora exatamente a palavra de Ferrara.
— Acho que é mais complicado do que sim ou não. — Claro que é. Sempre é, com homens. Especialmente homens sicilianos. — Chiara serviu o café em duas xícaras pequenas, colocou uma diante de Aurora com um gesto que era ao mesmo tempo gentil e imperativo, e sentou-se na cadeira oposta. — E sua mãe? O que ela diz? — Não falei com ela. — Aurora. — Eu sei. — Aurora Menezes, você recebeu uma carta dizendo que pode ter um pai siciliano morto que lhe deixou uma fortuna em dívidas, e não ligou para sua mãe?
Dito assim, soava absurdo. Mas a relação de Aurora com Elena Menezes nunca fora algo que coubesse em lógica simples. Era uma relação feita de camadas — afeto genuíno por baixo, ressentimento antigo no meio, e, na superfície, uma polidez cuidadosa que ambas mantinham como quem mantém um jardim: com trabalho constante e a consciência permanente de que, se parasse de cuidar, tudo seria tomado pelo mato.
Elena fora uma mãe presente, à sua maneira. Garantira que Aurora tivesse educação, música, livros. Trabalhara como tradutora freelancer para pagar aulas de violoncelo e depois a Royal Academy. Nunca faltara a um recital, nunca esquecera um aniversário, nunca deixara que Aurora passasse fome ou frio ou solidão — pelo menos não o tipo de solidão que se resolve com presença física.
Mas havia outro tipo de solidão, e esse Elena alimentava com seus silêncios. A ausência de um pai era um buraco no centro da infância de Aurora, e Elena o cercara com muros tão altos e tão espessos que Aurora, com o tempo, parara de tentar olhar por cima. O pai era "um homem que passou pela minha vida como um verão". O pai era "alguém que não estava pronto para ficar". O pai era uma frase bonita que terminava em ponto final, e Aurora aprendera a não perguntar o que vinha depois do ponto.
Até agora.
— Vou falar com ela — disse Aurora. — Pessoalmente. — Pessoalmente significa... — São Paulo. — Você vai ao Brasil? — Vou ao Brasil e depois à Sicília. — As palavras saíram antes que Aurora pudesse pesá-las, e ao ouvi-las, sentiu uma vertigem leve, como quando se está no topo de um edifício alto e se olha para baixo pela primeira vez.
Chiara a estudou por um longo momento. Depois, esticou o braço sobre a mesa e cobriu a mão de Aurora com a sua — quente, firme, com aquela solidez reconfortante que era a essência de Chiara Ferrante.
— E a audição? — perguntou, suavemente. — Vai ter que esperar. — A London Phil não espera, cara. — Eu sei.
As duas ficaram em silêncio. O café esfriava nas xícaras. Do lado de fora, Londres continuava sendo Londres — cinza, úmida, indiferente às pequenas catástrofes que aconteciam atrás de suas janelas.
— Você quer que eu vá com você? — perguntou Chiara, e na sua voz havia uma oferta tão genuína que Aurora sentiu os olhos arderem. — Para São Paulo ou para a Sicília? — Para onde você precisar de mim.
Aurora apertou a mão da amiga. Por um momento, não confiou em sua voz.
— Para São Paulo, preciso ir sozinha. É uma conversa entre minha mãe e eu. Mas a Sicília... — ela hesitou. — A Sicília talvez. — Allora. Você vai falar com sua mãe, vai descobrir a verdade, e depois vai me ligar e me contar tudo nos mínimos detalhes enquanto eu como gelato e finjo que estou calma. Combinado? — Combinado.
Chiara sorriu — aquele sorriso largo, aberto, generoso que era como sol depois de chuva — e empurrou o saco de cornetti na direção de Aurora.
— Come. Você não vai enfrentar Elena Menezes de estômago vazio. Isso é suicídio.
Aurora comeu. O cornetto estava perfeito — massa folhada que se desfazia ao toque, recheio de creme de pistache que tinha o sabor exato da amizade de Chiara: doce, um pouco excêntrico, e profundamente reconfortante.
*
O voo para São Paulo durou onze horas, e Aurora passou cada uma delas acordada. Tentou dormir — fechou os olhos, ajustou o encosto, aceitou o cobertor fino que a comissária ofereceu com um sorriso profissional. Mas o sono não veio. Em seu lugar, vieram imagens: a carta na mesa, a voz de Ferrara no telefone, o nome Lorenzo Visconti girando em sua mente como um disco arranhado.
Tentou ler — um romance que comprara no aeroporto e que já esquecera o título. Tentou ouvir música — colocou os fones e navegou pelas playlists até chegar a um concerto de Elgar para violoncelo que normalmente a transportava para um lugar de calma absoluta. Mas nem Elgar conseguiu alcançá-la naquela noite. Estava em um lugar onde a música não chegava, um lugar feito de perguntas sem resposta e de uma raiva fria que crescia a cada hora que passava, alimentada pela certeza cada vez mais sólida de que sua mãe lhe escondera algo fundamental.
Aterrissou em Guarulhos às seis da manhã, com os olhos ardendo e o corpo pesado daquele cansaço particular de quem cruzou um oceano sem dormir. O ar de São Paulo a recebeu como sempre — quente, úmido, denso, com aquele cheiro inconfundível de cidade grande que misturava exaustão de carros, comida de rua e algo vegetal que vinha dos parques escondidos entre os edifícios. Era tão diferente de Londres que Aurora sentiu, como sempre sentia, que estava trocando de pele ao trocar de continente.
Pegou um táxi até Pinheiros. As ruas já estavam acordadas — vendedores armando barracas, ônibus lotados, motociclistas costurando o trânsito com a audácia suicida que era marca registrada paulistana. O motorista tentou puxar conversa — "Voltando de viagem?", "Mora lá fora?" — mas Aurora respondeu em monossílabos até que ele desistiu e ligou o rádio, de onde saiu um samba que parecia absurdamente alegre para as circunstâncias.
O prédio de Elena ficava em uma rua arborizada perto da Vila Madalena, um edifício dos anos setenta com fachada de pastilhas azuis que já tinham visto dias melhores. Aurora subiu os três andares pela escada — o elevador era minúsculo e cheirava a mofo, e ela preferia a escada, sempre preferira, do mesmo jeito que preferia caminhar a pegar o metrô e ler em papel a ler em tela. Parou diante da porta 32 e tocou a campainha.
Passos. O ruído de uma fechadura. E depois, o rosto de Elena Menezes.
Aos cinquenta e cinco anos, Elena era o tipo de mulher que melhorava com o tempo, como certos vinhos e certas músicas. Seus cabelos, que Aurora herdara em textura mas não em cor, eram de um castanho profundo entremeado de fios prateados que ela não se dava ao trabalho de tingir. Seu rosto era anguloso — maçãs do rosto altas, queixo definido, olhos de um verde acinzentado que pareciam mudar de cor conforme a luz e o humor. Usava um vestido de algodão estampado com flores miúdas e segurava uma caneca que, Aurora sabia sem precisar olhar, continha café com leite forte o suficiente para acordar os mortos.
— Aurora? — A surpresa era genuína. Elena não esperava a filha. Aurora não avisara que viria — deliberadamente. Queria ver a reação desprevenida. Queria ler o rosto de Elena antes que Elena tivesse tempo de compor a expressão adequada. — Meu Deus, o que houve? Está tudo bem?
— Oi, mãe.
Elena a puxou para dentro com um abraço que era, como tudo nela, eficiente e afetuoso em partes iguais — apertado o suficiente para dizer "senti sua falta", rápido o suficiente para dizer "não vamos fazer disso uma cena". O apartamento cheirava como Aurora se lembrava: café, livros velhos, e algo floral que poderia ser o jasmim da varanda ou o perfume de Elena — na prática, depois de trinta anos morando ali, os dois cheiros tinham se fundido em um só.
— Você não avisou que vinha — disse Elena, guiando-a para dentro. O apartamento era exatamente como Aurora o deixara na última visita, seis meses antes: estantes do chão ao teto cobrindo todas as paredes, dois gatos (Machado e Clarice, nomeados com a falta de originalidade que Elena reconhecia e da qual não se arrependia) dormindo em superfícies estratégicas, e uma desordem organizada que só fazia sentido para quem vivia nela.
— Preciso conversar com você — disse Aurora, e algo em seu tom fez Elena parar no meio do corredor e se virar devagar.
Os olhos verde-acinzentados encontraram os castanhos. E Aurora viu, naquele instante — com a clareza absoluta de quem observava rostos profissionalmente, de quem passara a vida lendo a linguagem não verbal de maestros e músicos — algo cruzar o rosto de sua mãe. Não foi surpresa. Não foi confusão. Foi reconhecimento. O reconhecimento de alguém que esperava por uma conversa há muito tempo e sabia, pelo tom, que a hora finalmente chegara.
Elena pousou a caneca na mesinha do corredor. Machado, o gato preto, ergueu a cabeça de sua almofada com interesse felino.
— Sente-se — disse Elena. — Vou fazer café fresco. — Mãe. — Sente-se, Aurora.
Havia um tom naquela voz que Aurora conhecia desde a infância — o tom que não admitia réplica, o tom de "eu sou sua mãe e esta é minha casa e aqui as coisas acontecem no meu ritmo". Aurora sentou-se no sofá. Clarice, a gata malhada, imediatamente saltou para seu colo e começou a amassar suas coxas com as patas, ronronando como um pequeno motor. Aurora a acariciou distraidamente, ouvindo os sons da cozinha: água sendo fervida, o clique da boca do fogão, o tilintar de colher contra xícara.
Elena voltou com duas canecas e sentou-se na poltrona oposta — a poltrona de leitura, a poltrona que era seu trono, seu refúgio, o lugar de onde governava seu pequeno reino de livros e gatos. Colocou uma caneca diante de Aurora e segurou a outra com ambas as mãos, como quem se agarra a uma bóia.
— Então — disse Elena, e seu rosto era uma composição cuidadosa de calma que não enganava ninguém.
Aurora tirou a carta do bolso interno do casaco — dobrada, amassada pela viagem, mas ainda legível — e a colocou sobre a mesa de centro entre as duas.
— Lorenzo Visconti — disse. E observou.
O que aconteceu no rosto de Elena foi como assistir a uma sinfonia em câmera lenta. Primeiro, a cor — ela simplesmente sumiu, como se alguém tivesse passado uma borracha nas bochechas de sua mãe, deixando a pele do tom de pergaminho antigo. Depois, os olhos — eles se fecharam, devagar, e ficaram fechados por três segundos inteiros, três segundos nos quais Aurora ouviu apenas a respiração de Elena e o ronronar de Clarice e, de algum lugar lá fora, o canto absurdo de um bem-te-vi. Quando os olhos se abriram, eram diferentes. Mais velhos. Como se aqueles três segundos tivessem envelhecido Elena em anos.
— Onde — disse Elena, e sua voz era um fio — onde você ouviu esse nome?
Aurora apontou para a carta. Elena não a tocou. Olhou para ela como se fosse algo vivo, algo que poderia morder.
— É meu pai — disse Aurora. Não era uma pergunta. Não era mais uma pergunta desde a ligação com Ferrara, desde o momento em que vira o rosto de sua mãe mudar de cor. — Lorenzo Visconti é meu pai. Era. Ele está morto.
O som que Elena fez não era palavra nem suspiro — era algo entre os dois, algo que vinha de um lugar profundo demais para ter nome. Ela pousou a caneca na mesa com uma precisão excessiva, como quem tem medo de quebrar algo se não controlar cada movimento.
— Sim — disse. Uma sílaba. A sílaba mais pesada que Aurora já ouvira. — Sim. Lorenzo era seu pai.
A confirmação deveria ter trazido alguma coisa — alívio, raiva, tristeza, qualquer coisa definível. Mas o que Aurora sentiu foi vazio. Um vazio imenso e ecôante, como o interior de uma catedral às três da manhã, onde cada som se multiplica em ecos que nunca terminam.
— Vinte e sete anos — disse Aurora, e sua voz estava calma de um jeito que a assustava. — Vinte e sete anos, mãe.
— Eu sei. — "Um homem que passou pela minha vida como um verão." É isso que você me dizia. Desde que eu era criança. Um homem genérico. Um verão genérico. Como se ele fosse uma estação, não uma pessoa.
— Aurora... — Ele tinha nome. Tinha endereço. Tinha uma família, uma casa, uma vida inteira na Sicília. E você me disse que ele era um verão.
Elena ergueu o queixo. Havia algo naquele gesto — orgulho ferido, talvez, ou a dignidade particular de quem sabe que está errada mas não sabe como estaria certa — que fez Aurora sentir uma pontada de algo que poderia ser compaixão, se não estivesse tão ocupada sentindo raiva.
— Eu tinha vinte e sete anos quando conheci Lorenzo — disse Elena. — A sua idade agora. Estava em Roma com uma bolsa de tradução. Ele estava lá a negócios. Nos conhecemos numa festa na embaixada brasileira, uma dessas festas onde ninguém conhece ninguém de verdade, mas todo mundo finge que sim. — Ela fez uma pausa, e seu olhar se deslocou para algum ponto além da janela, além de São Paulo, além do presente. — Ele era... — buscou a palavra —... impossível de ignorar. Não era bonito no sentido convencional. Era outra coisa. Era o tipo de homem que entrava em um cômodo e o cômodo mudava. O ar mudava. Você sentia.
Aurora ouviu. Não porque quisesse ouvir sobre o magnetismo de um homem morto, mas porque cada palavra que Elena dizia era uma peça de um quebra-cabeça que ela montava há vinte e sete anos sem saber.
— Ficamos juntos três meses — continuou Elena. — Eu em Roma, ele indo e vindo da Sicília. Era verão. Eu era jovem e idiota e achava que o mundo era um romance de Calvino. — Um sorriso amargo, brevíssimo. — Quando descobri que estava grávida, contei a ele. E ele... — a voz de Elena vacilou pela primeira vez, uma fissura na fachada, rapidamente selada — ele fez o que homens daquela classe fazem. Ofereceu dinheiro. Muito dinheiro. Com a condição de que eu desaparecesse.
O silêncio que se seguiu era do tipo que dói nos ouvidos.
— Ele pagou para você ir embora — disse Aurora, e as palavras tinham gosto de ferro.
— Não é tão simples. Ele era casado, Aurora. A esposa tinha morrido jovem, mas o nome, a família, as obrigações... Ele era um Visconti. Tinha um filho — Dante, o primogênito, que na época era um menino de oito anos. Tinha uma mãe que governava aquela família como uma rainha. Ter uma filha bastarda com uma brasileira que conhecera em uma festa... — Elena balançou a cabeça. — Para ele, era um escândalo que destruiria tudo. Para mim, era a minha vida. A minha filha. Então aceitei o dinheiro — sim, aceitei — e voltei ao Brasil e criei você com o que tinha. E nunca me arrependi de ter aceitado, porque aquele dinheiro pagou suas aulas de música e seu primeiro violoncelo e a passagem para Londres. Cada centavo foi para você.
Aurora processou as informações como processava passagens musicais difíceis — devagar, nota por nota, compassos por compassos. Lorenzo Visconti, viúvo, siciliano, com um filho chamado Dante e uma mãe imperiosa. Um caso de verão com uma jovem brasileira. Uma gravidez. Dinheiro. Desaparecimento.
E agora, um testamento.
— Ele sabia de mim — disse Aurora. — Ele sempre soube. — Claro que sabia. Ele pagou, Aurora. Você não paga para algo que não existe. — E nunca quis me conhecer? — Eu nunca soube o que ele queria. Depois que saí de Roma, não tivemos mais contato. Nenhum. Era a condição dele, e eu cumpri.
— Mas ele me deixou uma herança. — Aurora estendeu a mão e tocou a carta sobre a mesa, como para confirmar que era real. — Se nunca mais teve contato, como sabia meu nome? Meu endereço em Londres?
Elena desviou o olhar. Um gesto mínimo, quase imperceptível, mas Aurora o captou como capturava o movimento de uma batuta — porque estava treinada para ver o que as pessoas tentavam esconder.
— Mãe. Ele manteve contato. Não manteve?
O silêncio de Elena era uma confissão.
— Ele me escreveu — disse finalmente, como quem arranca um curativo. — Uma vez por ano. Sempre pelo aniversário de Aurora. Uma carta curta, formal, perguntando como você estava. Eu respondia. Também curto, também formal. Mandava uma foto. Uma por ano. Era... era o acordo que fizemos depois que você nasceu. O novo acordo.
Uma foto por ano. Aurora tentou imaginar — um homem em uma villa na Sicília, abrindo um envelope anual, olhando para uma fotografia de uma menina que crescia sem ele. Uma menina de olhos castanhos que tocava violoncelo e morava em São Paulo e depois em Londres e que não sabia que existia alguém, do outro lado do mundo, acompanhando cada ano de sua vida através de uma única imagem.
A raiva se deslocou. Não desapareceu — estava longe de desaparecer — mas mudou de alvo, espalhando-se como tinta na água, tingindo tudo de uma cor indefinida entre a amargura e o luto.
— O que ele queria de mim, mãe? No testamento. Há condições. — Eu não sei. Não sei nada sobre o testamento. A última carta que recebi foi há dois anos. Depois, silêncio. Não sabia que ele tinha morrido até... — ela apontou para a carta do advogado — até agora.
Aurora acreditou. Não porque Elena fosse incapaz de mentir — claramente era bastante capaz — mas porque havia algo na textura daquele "não sabia" que soava verdadeiro. O choque quando vira o nome. O "ele está morto" que ainda ecoava no ar entre as duas.
— Preciso ir à Sicília — disse Aurora.
Elena se endireitou na poltrona. Seus olhos, que tinham estado distantes, voltaram ao presente com uma nitidez que era quase agressiva.
— Não — disse. — Não vá. — Não é uma pergunta. Estou te dizendo que vou. — Aurora, você não conhece essas pessoas. Não sabe no que está se metendo. Os Visconti não são gente simples. São uma família com séculos de história e com modos de fazer as coisas que você não vai entender. E há dívidas — você mesma disse. Dívidas enormes. Por que acha que estão te chamando? Por generosidade?
— Estou sendo chamada porque meu pai morreu e me deixou algo. É meu direito. — Seu direito. — Elena repetiu as palavras como se as mastigasse. — Seu pai, que você não conheceu, que pagou para que você não existisse oficialmente, de repente se lembra de você no testamento. Isso não te parece estranho?
Parecia. Claro que parecia. Mas a estranheza era precisamente o que a atraía — a nota dissonante que precisava ser resolvida, o acorde pendurado no ar, a frase musical incompleta que seus dedos coçavam para terminar.
— Talvez ele quisesse consertar as coisas — disse Aurora. — Talvez o testamento seja a maneira dele de... — De quê? De pedir desculpas? Homens como Lorenzo não pedem desculpas, Aurora. Eles fazem acordos. E qualquer acordo dos Visconti tem um preço.
— Então preciso descobrir qual é o preço.
Elena abriu a boca, fechou-a, abriu de novo. Por um momento, parecia que ia dizer algo decisivo, algo que mudaria o rumo da conversa. Mas o que saiu foi um suspiro — longo, pesado, carregado de vinte e sete anos de decisões que não podiam ser desfeitas.
— Você é teimosa — disse. — Igual a ele. Exatamente igual.
Era a primeira vez que Elena comparava Aurora ao pai. As palavras ficaram suspensas entre elas como fumaça.
— Me conta sobre a dívida — disse Aurora. — A verdade. Tudo o que você sabe.
Elena se levantou. Foi até a estante mais próxima — uma estante que Aurora sempre assumira conter apenas livros — e, atrás de uma fileira de romances de Clarice Lispector, puxou uma caixa de papelão pequena, do tamanho de uma caixa de sapatos. Trouxe-a para a mesa de centro e a abriu.
Dentro havia cartas. Dezenas delas, em envelopes cor de creme que Aurora reconheceu imediatamente — o mesmo papel grosso, o mesmo tom exato da carta de Ferrara. Mas sem timbre de escritório. Sem nome impresso. Apenas a caligrafia — firme, angular, com aquela inclinação para a direita que denunciava um destro com pressa.
— São dele — disse Elena. — As cartas anuais. Nunca joguei fora. Não sei por quê.
Aurora tocou os envelopes com a ponta dos dedos. Papel que Lorenzo Visconti tocara. Palavras que ele escrevera pensando nela. A coisa mais próxima de um pai que ela já tivera, e era papel.
— Nas últimas cartas — continuou Elena, sentando-se novamente — ele mencionou dificuldades. Não em detalhes. Ele nunca era detalhista. Mas dizia que "os tempos mudaram", que "a terra já não sustenta como antes", coisas assim. Eu entendi que a situação financeira dos Visconti estava se deteriorando. Mas nunca imaginei que fosse tão grave.
— E as condições do testamento? Você não faz ideia?
Elena olhou para as cartas. Depois para Aurora. E em seus olhos havia algo que Aurora não viu muitas vezes — medo. Não o medo pequeno do cotidiano, mas o medo ancestral de uma mãe que sabe que não pode proteger a filha do que está por vir.
— Tenho uma ideia — disse, devagar. — Mas espero estar errada.
— Me diz.
— Na última carta, Lorenzo mencionou que Dante — o filho dele, o primogênito — precisava se casar. Que a família precisava de uma aliança, de um casamento que trouxesse legitimidade a certas... transações. Não me explicou mais. Mas o tom era o de quem estava planejando algo.
O ar na sala mudou. Ficou mais espesso, mais quente, como se o jasmim da varanda tivesse de repente decidido florescer com intensidade dobrada.
— Você está dizendo — disse Aurora, e cada palavra era pronunciada com a clareza de quem afina um instrumento — que Lorenzo Visconti pode ter me incluído no testamento para me casar com o meio-irmão dele?
— Estou dizendo que não sei. Estou dizendo que espero estar errada. Mas conheço o tipo de mente de Lorenzo, e se há uma coisa que ele faria...
— Seria resolver dois problemas de uma vez.
O silêncio que se seguiu era diferente de todos os outros. Era o silêncio de duas mulheres olhando para o mesmo abismo e vendo coisas diferentes nele.
Aurora se levantou. Clarice, desalojada de seu colo, emitiu um miado de protesto e foi se enroscar ao lado de Machado.
— Vou à Sicília — disse Aurora, e sua voz era granito. — Vou descobrir o que Lorenzo queria. Vou conhecer esse advogado, vou ver o testamento, vou entender tudo. E se as condições forem o que você suspeita, vou dizer não e voltar para Londres e nunca mais pensar nisso.
Elena a olhou de baixo, da poltrona que de repente parecia grande demais para ela.
— E se você não conseguir dizer não?
Aurora não respondeu. Porque a verdade — a verdade que não diria à mãe, que talvez não diria a ninguém — era que não sabia. Não sabia o que encontraria na Sicília. Não sabia quem era Dante Visconti. Não sabia o que as condições do testamento exigiam de fato. E, sobretudo, não sabia quem ela própria seria quando tivesse todas as respostas que lhe faltavam.
— Posso levar as cartas? — perguntou, olhando para a caixa.
Elena hesitou. Depois, assentiu.
— Leve. São mais suas do que minhas. Sempre foram.
Aurora pegou a caixa. Era leve — surpreendentemente leve para algo que continha vinte e sete anos de um pai que ela nunca conhecera.
Elena a acompanhou até a porta. No corredor, ficaram frente a frente, e Aurora viu — pela primeira vez, talvez — que sua mãe era humana. Não a figura mitológica de força e silêncio que a criara, mas uma mulher que cometera erros e fizera escolhas e vivera com as consequências por quase três décadas, sozinha, sem pedir ajuda, sem pedir perdão.
— Mãe — disse Aurora, e a palavra saiu diferente. Mais macia.
Elena ergueu a mão e tocou o rosto da filha. Um gesto raro, quase estranho entre duas pessoas que tinham feito da distância um idioma.
— Você tem os olhos dele — disse Elena, e sua voz quebrou na última sílaba, como uma corda que finalmente cede. — Achei que ia escapar, mas não. Os mesmos olhos. Me perseguem desde o dia em que você nasceu.
Aurora cobriu a mão da mãe com a sua. Ficaram assim por um momento — conectadas, frágeis, reais.
— Eu volto — disse Aurora. — Prometo. — Eu sei que volta. Você sempre volta. — Elena retirou a mão, recompôs o rosto, e era de novo a mulher de sempre — forte, prática, impenetrável. — Leva um casaco bom. A Sicília em novembro não é o que as pessoas pensam. Faz frio à noite.
Aurora sorriu. Desta vez, de verdade.
Desceu as escadas com a caixa de cartas contra o peito. Lá fora, São Paulo rugia com seu barulho de sempre — buzinas, obras, vozes — e o sol de novembro era quente e impiedoso, tão diferente da chuva de Londres que parecia pertencer a outro planeta.
No táxi de volta a Guarulhos, abriu a primeira carta. A mais antiga. O papel estava amarelado, a tinta levemente desbotada, mas a caligrafia era firme.
"Elena,
A menina nasceu? Está bem? Tem seus olhos ou os meus?
Se puder, mande uma fotografia.
L."
Quatro linhas. Quatro linhas de um homem que acabara de se tornar pai e não podia — ou não quis — estar lá. Aurora guardou a carta no envelope com mãos que tremiam, e pensou em um homem na Sicília, há vinte e sete anos, esperando por uma foto de uma menina que tinha os olhos dele.
E pensou em outro homem na Sicília — agora, no presente — que tinha o nome de Dante e que talvez, se Elena estivesse certa, estaria esperando por ela.
A ideia era absurda. Medieval. Impossível.
Mas a carta pesava em suas mãos como uma promessa, e o avião para Catania era apenas uma conexão de distância, e Aurora Menezes — violoncelista, londrina de adoção, filha de uma brasileira e de um fantasma siciliano — sentiu, pela segunda vez em dois dias, que a partitura de sua vida estava mudando de tom.
Do lado de fora do táxi, São Paulo passava como um borrão de concreto e cor, e em algum lugar, do outro lado do mundo, uma ilha no Mediterrâneo esperava por ela com a paciência de quem tem séculos de prática em esperar.
