CAPÍTULO 1Gratuito
A Arquitetura do Silêncio
O frio de Campos do Jordão não era o frio de Zurique. Na Suíça, o inverno era seco e previsível, uma coisa honesta que batia no rosto e ia embora. Ali, na Serra da Mantiqueira, o frio era úmido. Entrava pelos poros e trazia junto o cheiro de terra molhada, de pinheiro velho e, naquela noite, um cheiro metálico que Lívia Montblanc só conseguiu chamar de medo.
O SUV blindado, preto como um carro de funerária, fazia as curvas da estrada com uma suavidade que dava enjoo. Lívia encostou a testa no vidro. A neblina transformava as araucárias em vultos, e os vultos pareciam vigiar a subida.
Trinta e dois anos. Tinha levado trinta e dois anos para voltar para casa. Ou para o lugar que os documentos chamavam de casa.
Ela olhou para as próprias mãos, paradas sobre o colo. Os anos no Institut Le Rosey e a década de disciplina que veio depois tinham lhe ensinado a não deixar nada chegar ao rosto. Quem olhasse agora veria só uma mulher elegante, de trench coat cinza e cabelo castanho no lugar, indo enterrar dois pais que mal conhecia.
— Estamos chegando, senhorita Montblanc.
O motorista não a olhou pelo retrovisor. Era um homem grande, de pescoço largo, que se apresentara só como Santos e dirigia como uma máquina, sem curiosidade e sem gentileza.
— Obrigada.
A voz saiu rouca. Fazia dias que ela só falava o necessário, e só com advogados e funcionários do consulado.
A notícia tinha chegado três dias antes, numa terça-feira cinzenta. Ninguém ligou. Veio um e-mail criptografado do jurídico da Criobank e, depois, um homem de terno que cheirava a tabaco e colônia cara, no saguão do hotel onde ela morava em Genebra.
"Acidente aéreo. Falha mecânica catastrófica. Não houve sobreviventes."
Falha mecânica. Como se os pais dela fossem peças de uma engrenagem que um dia cedeu. Roberto e Elena Montblanc, visionários da biogenética para o mundo. Para Lívia, as pessoas que pagavam a distância: um cheque por mês, um cartão de aniversário assinado por uma secretária e o pedido silencioso de que ela ficasse longe, segura e perfeita.
O carro parou diante de um portão de ferro alto como as árvores. Câmeras de lente vermelha giraram para acompanhá-los. O portão abriu sem barulho.
A mansão apareceu no fim da alameda de pedra, e Lívia prendeu a respiração. Era um cubo de concreto e vidro cravado na rocha da montanha, iluminado por baixo com uma luz azulada que o fazia parecer um bloco de gelo boiando no escuro. Não havia nada ali que dissesse boas-vindas.
Santos abriu a porta para ela. O ar da montanha bateu no rosto, gelado e fino.
— A equipe da casa foi dispensada hoje, por ordem do senhor Cavalcanti — disse ele, tirando a única mala do porta-malas. — Ele está esperando lá dentro.
— Cavalcanti?
— Dante Cavalcanti. O diretor de operações.
O nome deu um arrepio que não tinha a ver com a temperatura. Nos relatórios que ela lera às pressas no avião, Dante assinava tudo: procurações, transferências, cada decisão dos últimos cinco anos. Os donos eram os pais dela. As chaves estavam com ele.
— Obrigada, Santos. Pode ir.
Lívia subiu os degraus de granito preto. A porta principal, uma laje pivotante de madeira carbonizada, estava destrancada. Ela empurrou.
Por dentro, a casa intimidava ainda mais. O hall tinha pé-direito duplo e uma escadaria de aço que parecia flutuar até o andar de cima. O mármore branco do chão estava tão polido que refletia o teto como um lago congelado. E o silêncio era total, como se a casa tivesse sido fechada a vácuo.
— Olá?
A voz dela bateu nas paredes de vidro e voltou. Ninguém respondeu.
Lívia foi até a sala. Sofás de couro branco, esculturas de metal, nenhuma fotografia, nenhum livro fora do lugar. Nenhum sinal de que alguém morava ali. Parecia a recepção de uma clínica cara.
Uma luz vinha de um corredor lateral, de trás de portas de vidro jateado que deviam ser de um escritório. De lá veio um som de papel sendo rasgado, rápido e violento.
Lívia hesitou um segundo. O instinto que ela tinha afiado entre as meninas cruéis do internato e a sociedade polida de Genebra mandava recuar. A raiva falou mais alto. Aquela era a casa dela agora. Era o mausoléu dos pais dela, e havia um estranho revirando os ossos.
Ela empurrou a porta do escritório.
A sala estava na penumbra, iluminada por três monitores e uma luminária apontada para uma pilha de documentos. Atrás da mesa, sentado na cadeira de couro que devia ser do pai dela, estava ele.
Dante Cavalcanti não parecia um executivo, pelo menos não os executivos engomados que ela conhecia. Estava sem paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até o cotovelo, antebraços fortes, um relógio que custava mais que o carro que a trouxera. A gravata pendia frouxa como uma corda.
Ele não olhou para ela. Terminou de ler o documento que tinha nas mãos, correndo os olhos escuros pelas linhas depressa, e jogou a folha na trituradora ao lado da mesa.
— Você está atrasada, Lívia.
A voz era grave, arranhada de cansaço, e mandava com naturalidade. A espinha dela endureceu.
— E você está na minha cadeira.
Ela se surpreendeu com a firmeza da própria voz. Entrou na sala, o salto das botas ecoando no piso de madeira escura.
Dante levantou os olhos, e foi como um choque físico. Ela esperava um burocrata de meia-idade. O homem à sua frente devia ter trinta e cinco, trinta e seis anos, rosto de linhas duras, maxilar marcado, uma sombra de barba de quem não dormia havia dias. Os olhos a prenderam: inteligentes, frios, sem nenhuma simpatia. Olhos de quem já tinha visto coisas que preferia esquecer.
A mão dele parou sobre a próxima folha. Um sorriso cínico, quase invisível, curvou o canto da boca.
— Sua cadeira? — Ele se levantou devagar. Era alto e ocupava todo o espaço ao redor da mesa. — Esta cadeira é de quem mantém este império de pé enquanto os donos brincam de família feliz na Europa ou morrem em acidentes convenientes.
Lívia sentiu o sangue subir ao rosto.
— Cuidado com o tom, senhor Cavalcanti. Meus pais acabaram de morrer.
— Eu sei. Fui eu que identifiquei os corpos. — Ele contornou a mesa e parou a dois passos dela, dentro do espaço dela. Cheirava a café forte, uísque e papel velho. — E se você acha que veio chorar o luto e escolher as flores do velório, é melhor voltar para o aeroporto. A Criobank não tem tempo para sentimentalismo.
Lívia sustentou o olhar.
— Eu não vim por sentimentalismo. Vim porque sou a única herdeira legal de tudo isso. Desta casa, da empresa e... — ela olhou para a trituradora — ...dos documentos que você está destruindo.
Dante riu, um som seco.
— "Herdeira legal". Que termo bonitinho. — Ele cruzou os braços, e o tecido da camisa repuxou nos bíceps. — Você não herdou uma empresa, princesa. Herdou um alvo nas costas. Você não faz ideia do que a Criobank faz de verdade, faz?
— Fertilização in vitro, preservação de material genético, pesquisa com células-tronco.
Ela recitou o texto do site institucional e se sentiu tola ao ouvir a própria voz dizendo aquilo para aquele homem.
A expressão de Dante mudou. O cinismo deu lugar a algo mais escuro. Ele chegou mais um passo e baixou a voz até um sussurro que parecia raspar na pele dela.
— Isso é o que vendemos nos folhetos para casais ricos do Leblon e dos Jardins. — Ele apontou a parede de vidro atrás de si, que dava para a montanha escura. — O que fazemos de verdade, o que pagou esta casa, as suas escolas na Suíça e a roupa de grife que você está usando, é muito mais complicado. E muito mais sujo.
Um nó se formou no estômago de Lívia. As palavras dele batiam numa suspeita que ela carregava desde criança: a distância dos pais, o segredo obsessivo, a segurança exagerada.
— Sujo como? — A voz falhou de leve.
Dante a estudou como quem olha uma amostra no microscópio, decidindo se valia o esforço.
— Seus pais não morreram num acidente, Lívia. O jato foi sabotado. Alguém cortou a linha hidráulica principal.
O chão oscilou. Ela precisou segurar a borda da mesa de mogno.
— Sabotado? A polícia disse... o relatório preliminar...
— A polícia diz o que é paga para dizer. Ou o que é incompetente demais para descobrir. — Dante passou a mão pelo cabelo escuro. — Eles estavam prestes a encerrar o Projeto Hera. Iam fechar a torneira de um programa que vale bilhões no mercado negro. Alguém não gostou.
— Quem?
Saiu num sussurro.
— Se eu soubesse, já teria resolvido. — Ele se virou, pegou um copo de cristal com um resto de líquido âmbar e virou de uma vez. — O ponto é este: eles estão mortos e você está aqui. O problema agora é seu. Ou você é a próxima da lista.
Lívia olhou as sombras que se alongavam nos cantos da sala. A casa, que antes só parecia fria, agora parecia uma armadilha.
— Por que você está me contando isso? — Ela estreitou os olhos. — Se você é o homem forte da empresa, por que não me deixar no escuro? Por que não tomar o controle?
Dante a encarou de novo. Por um instante a frieza caiu e apareceu uma exaustão profunda e alguma outra coisa. Culpa?
— Porque eu prometi ao seu pai que, se acontecesse alguma coisa, eu tentaria manter você viva. — Ele pegou uma pasta preta e grossa de cima da mesa e estendeu. — Não sei por que fiz essa promessa. Você é uma estranha mimada que nunca pisou num laboratório. Mas eu sou um homem de palavra.
Lívia pegou a pasta. Pesava. Na capa, só um número de série e um carimbo vermelho: CONFIDENCIAL. Nível 5.
— O que é isso?
— O inventário real. Não o dos advogados. Ativos, passivos e os cadáveres no armário. Em alguns casos, literalmente. Leia hoje à noite. Amanhã às oito vamos para a sede. Se depois de ler você quiser correr de volta para a Suíça, eu coloco você no primeiro voo e assumo o controle. Se ficar, aí a alma é sua para vender.
Ele tirou o paletó do encosto da cadeira e jogou sobre o ombro.
— Vou dormir na ala leste. Tranque a porta do seu quarto. Não abra para ninguém além de mim.
— Você está me assustando de propósito? — Lívia abraçou a pasta contra o peito como um escudo.
Dante parou na porta e olhou para ela por cima do ombro. O olhar fez o coração dela descompassar, uma mistura confusa de medo e de uma atração física que não tinha hora nem lugar.
— O medo mantém você alerta, Lívia. A complacência mata. Bem-vinda ao lar.
Ele saiu, e ela ficou sozinha na penumbra.
Lívia ficou imóvel um bom tempo, ouvindo os passos dele se afastarem até o silêncio retomar a casa. Olhou para a pasta. Os dedos estavam brancos de tanto apertar o couro sintético.
Foi até a janela. Lá fora começava a nevar, flocos finos e lentos cobrindo tudo de branco, uma coisa que acontecia naquela serra uma vez a cada tantos anos. Era bonito de um jeito que dava medo. Ela pensou nos pais, na mentira que tinha sido a vida dela e no homem rude e magnético que acabara de virar tudo de cabeça para baixo.
Voltar para a Suíça seria o racional. Seria o seguro.
Mas ela se lembrou da trituradora, do som das folhas sendo rasgadas. Dante estava escondendo alguma coisa. Ele tinha dito que queria mantê-la viva. Não tinha dito que era inocente.
Lívia abriu a pasta ali mesmo, à luz fraca da lua.
A primeira página não era um contrato. Era uma fotografia antiga, granulada, de três bebês em incubadoras. As incubadoras não tinham nomes. Tinham códigos de barras. No canto, a data: trinta e dois anos atrás, o ano em que ela nasceu. E duas assinaturas, a do pai dela e outra, ilegível, cujo sobrenome ela reconheceu vagamente das colunas sociais da Europa.
O coração falhou uma batida. Ela virou a página.
Um perfil genético. O dela. Ao lado de "Status", em vez de "Natural", estava escrito: Projeto Hera. Sujeito 01. Êxito parcial.
Lívia fechou a pasta com um estalo. O ar do escritório pareceu rarefeito, insuficiente. Ela não era só a herdeira. Ela era parte do produto.
O som de um vidro quebrando no andar de cima a fez pular. Não tinha sido alguma coisa caindo. Tinha sido uma janela forçada, de propósito.
Dante tinha mandado trancar a porta.
Lívia apagou a luminária, e o escritório mergulhou no escuro. Os olhos se acostumaram depressa. O instinto de presa, aquele que ela achava ter deixado para trás na terapia, assumiu.
Ela tirou os sapatos para não fazer barulho, segurou a pasta pesada como uma arma improvisada e deslizou para o corredor.
Não ia correr para a Suíça. Ainda não. Antes precisava descobrir quem, ou o quê, ela era de verdade.
E se Dante Cavalcanti achava que ela era uma boneca de porcelana prestes a quebrar, ia descobrir que o gelo, quando pressionado, não quebra. Corta.
