CAPÍTULO 2Gratuito
Sangue na Neve
O som de vidro estilhaçado parou, e o que veio depois era pior: o rangido de botas táticas esmagando cacos no andar de cima. Passos pesados, sem pressa. Não eram os passos de um ladrão à procura de joias. Eram os de alguém que conhecia a planta da casa.
Lívia ficou paralisada no corredor escuro do térreo. Uma corrente de ar gelado descia pela escadaria, trazendo cheiro de neve. A pasta pesava nas mãos dela como se fosse de chumbo.
"Sujeito 01. Êxito parcial."
As palavras pulsavam atrás dos olhos dela. Mas o instinto de sobrevivência, afiado por anos de internato e de laboratório, tomou o comando. O cérebro reptiliano não se importa com crise de identidade. Ele só se importa em não morrer.
Ela precisava se esconder. Ou lutar.
Olhou para o corredor da ala leste, onde Dante tinha dito que dormiria. Se corresse para lá, levaria o perigo até ele. Se ele fosse o traidor, estaria entrando na boca do lobo. Se fosse um aliado, precisava avisá-lo.
Um feixe de luz cortou a escuridão no alto da escada. Um laser vermelho varreu o hall de mármore, procurando movimento.
Lívia recuou para a sombra do escritório. Enfiou a pasta atrás da calça, sob o suéter largo. A única arma ao alcance era um peso de papel de bronze maciço, em forma de hélice de DNA, sobre a mesa lateral. Ela o agarrou e percebeu a ironia: defender a vida com o símbolo da ciência que a tinha feito.
Os passos desceram. Um degrau, dois, três.
Eram dois homens. Ela ouvia a respiração controlada atrás de máscaras. Não trocavam uma palavra; deviam estar se comunicando por gestos ou por rádio.
Quando o primeiro chegou ao patamar do térreo, tudo aconteceu de uma vez, e não veio de onde Lívia esperava.
Não houve grito. Só um assobio curto, como ar sendo rasgado, e depois um baque surdo e úmido.
O homem da frente dobrou-se, as mãos na garganta. Uma flecha de fibra de carbono preta atravessava o pescoço dele de lado a lado. Ele caiu de joelhos, engasgado no próprio sangue, e tombou de cara no mármore, que ficou vermelho e viscoso ao redor da cabeça.
O segundo girou com precisão militar e ergueu uma submetralhadora compacta na direção do mezanino.
— Contato! — gritou, a voz abafada pela máscara.
Antes que ele apertasse o gatilho, uma silhueta largou uma besta de caça no corrimão e saltou do mezanino. Não foi um salto limpo de filme. Dante Cavalcanti caiu sobre o homem com o peso do corpo inteiro, como um desabamento.
O som dos ossos batendo no chão deu náusea. A arma do invasor deslizou pelo piso polido e parou aos pés de Lívia, no vão da porta do escritório.
Ela prendeu a respiração.
Os dois rolaram pelo chão. O invasor era grande e treinado; acertou uma cotovelada no rosto de Dante e abriu um corte na testa dele. Mas Dante lutava com uma selvageria que beirava o desespero. Ele não tentava imobilizar. Tentava destruir.
Com um rugido, Dante prendeu o pulso do homem, torceu até ouvir o estalo seco da fratura e, com a mão livre, sacou uma faca tática do cinto.
Lívia desviou o olhar.
Ouviu o som de lâmina em carne, duas vezes. Depois, silêncio. Só a respiração ofegante de Dante no hall.
Lívia tremia, não de frio, mas da adrenalina cobrando o preço. Soltou o peso de papel. O baque do bronze no chão fez Dante girar na hora, a faca em punho, sangue pingando da ponta.
Ele parecia um demônio. O rosto sujo de sangue, dele e do outro, a camisa branca tingida de vermelho, os olhos pretos dilatados e ferozes. Quando a reconheceu, os ombros relaxaram um milímetro. A faca não baixou.
— Eu mandei trancar a porta — ele rosnou.
— Eles entraram pela janela. — A voz dela saiu firme, quase analítica, o que a surpreendeu. Ela deu um passo para fora da sombra. — Você está ferido.
Dante passou as costas da mão na testa, limpando o sangue que escorria para o olho. Olhou para os dois corpos com desprezo, como se fossem lixo que alguém esqueceu de tirar.
— Não é meu.
Ele veio até ela, ignorando os cadáveres, e parou a centímetros. Examinou-a com uma atenção clínica, procurando ferimentos. Os olhos dele pararam na cintura, onde o contorno da pasta aparecia sob o suéter.
Ele sabia. Claro que sabia. Não disse nada.
— Você tem cinco minutos. — Embainhou a faca e tirou um celular do bolso. — Roupa quente, sapato confortável e qualquer coisa sem a qual você não consiga viver. Vamos sair daqui.
— Sair? Para onde? A polícia...
— Não vai haver polícia, Lívia. — Ele já digitava uma mensagem. — Se a polícia vier, esta casa vira cena de crime oficial. A imprensa descobre. As ações da Criobank despencam amanhã na abertura do mercado. E os acionistas usam isso para declarar você incompetente e assumir o controle. É isso que quem mandou esses caras quer.
Lívia olhou para o homem morto com a flecha no pescoço.
— Quem são eles?
— Profissionais. Equipamento russo, tática israelense. Mercenário corporativo. — Dante finalmente a olhou nos olhos. A adrenalina baixava, deixando um cansaço fundo no rosto dele. — Eles não vieram roubar prataria. Vieram buscar você. Ou o que você sabe.
"Sujeito 01."
Um calafrio subiu pela espinha dela.
— Vieram buscar a pasta?
— Talvez. Ou talvez só quisessem garantir que a linhagem Montblanc acabasse hoje. — Ele a segurou pelos ombros, um toque firme, quente, sujo de sangue. A proximidade perturbava. Ela sentia o calor dele, o cheiro de violência. — Escute bem. De agora em diante, o único lugar seguro é em movimento. Vá se vestir. Agora.
Lívia não discutiu. Subiu correndo, desviando dos cacos de vidro no corredor.
* * *
Quinze minutos depois, estavam na estrada.
Dante não pegou o SUV da chegada. Levou-a até uma garagem subterrânea nos fundos da propriedade, onde esperava um Land Rover Defender antigo, blindado e modificado.
Ele descia a serra rápido, com uma intimidade suicida com as curvas. A neblina tinha piorado e transformava os faróis em borrões amarelos.
Lívia ia no banco do passageiro, com a pasta no colo. Tinha trocado a roupa de viagem por uma calça jeans grossa, botas de montanha e um suéter de cashmere preto. Dante vestira uma jaqueta de couro escura por cima da camisa ensanguentada, o que escondia a maior parte do estrago, mas o cheiro de sangue impregnava o carro.
— Para onde estamos indo?
— Para um lugar onde eu controlo as câmeras e as trancas. — Dante olhou o retrovisor pela décima vez. — A sede da Criobank.
— A empresa? Às três da manhã?
— É o prédio mais seguro do estado. Vidro balístico, controle biométrico, segurança armada que responde a mim, não a acionista fantasma. Além disso... — ele engatou a marcha com força — ...temos trabalho. Se eles atacaram hoje, o cronograma deles foi adiantado. Precisamos adiantar o nosso.
Lívia olhou o perfil dele. A luz do painel iluminava o corte na testa.
— Você matou aqueles homens sem hesitar.
— E você está viva por causa disso. De nada.
— Você nem checou o pulso. Agiu como se já tivesse feito isso antes.
Dante soltou uma risada curta e amarga.
— Lívia, você acha que alguém vira diretor de operações de uma empresa que lida com o "futuro da humanidade" só com um MBA e um sorriso bonito? Genética é um negócio sujo. Onde há deuses criando vida, há demônios tentando roubá-la. Eu sou o cão de guarda que morde.
— Quem era você antes da Criobank?
Ela precisava saber. A imagem do executivo tinha se desmanchado e deixado à vista o soldado.
Ele ficou calado um bom tempo. Só o som dos pneus no asfalto molhado.
— Isso não está no dossiê que você leu?
— O dossiê fala de finanças. Não fala de facas.
— Eu fui... um solucionador de problemas. Servi em lugares onde ética é um luxo que ninguém pode pagar. Seu pai me tirou de lá. Me deu um terno, um salário e um propósito. Em troca, eu guardei os segredos dele.
— Inclusive os segredos sobre mim?
A pergunta saiu antes que ela pudesse filtrar.
O carro derrapou de leve numa curva. Dante corrigiu com uma mão só e não respondeu logo.
— Todos nós somos experimentos, Lívia. Alguns feitos em laboratório, outros forjados pela vida. Não julgue o que você ainda não entende.
Ele mudou de assunto e fechou a armadura de novo. Mas Lívia viu os dedos dele apertarem o volante. Ele sabia do Projeto Hera. Sabia o que ela era. E isso a apavorava mais do que os dois mortos no hall da casa dela.
* * *
A sede da Criobank apareceu na paisagem como uma catedral do futuro.
Localizado num platô isolado, cercado de muros altos e mata fechada, o complexo tinha três torres de vidro ligadas por passarelas aéreas. A arquitetura era agressiva, toda em ângulos, brilhando na noite com luzes de segurança azuis e brancas.
Dante passou pela portaria sem parar. O guarda reconheceu o carro e abriu os portões. Eles entraram numa garagem privativa no subsolo.
Quando o motor desligou, o silêncio voltou. Mas era um silêncio elétrico, zumbindo de servidores e ventilação.
— Bem-vinda ao Olimpo — murmurou Dante, abrindo a porta.
Subiram num elevador privativo que pediu a digital e a retina dele. Quando as portas abriram no quadragésimo andar, Lívia se viu num ambiente que não tinha nada a ver com a brutalidade da última hora.
O andar da diretoria era de uma elegância estéril, tudo branco, cromo e vidro. O ar filtrado cheirava a ozônio e orquídea.
Uma mulher esperava por eles no saguão. Alta, ruiva, o cabelo preso num coque severo, óculos de aro grosso, jaleco branco impecável sobre um vestido de seda.
— Dante! — Ela veio depressa, os olhos arregalados ao ver o sangue na jaqueta. — O alarme silencioso da mansão disparou. Eu tentei ligar...
— Estamos bem, Alana. — Dante fez um gesto para ela parar. — Lívia, esta é a doutora Alana Vaz. Chefe de Pesquisa Genética e, provavelmente, a única outra pessoa neste prédio em quem eu confio. Em parte.
Alana olhou para Lívia com curiosidade e com uma análise fria, de cientista. Ela não olhava o rosto de Lívia. Olhava a estrutura óssea, a pele, como quem confere uma tese.
— Senhorita Montblanc. — Estendeu a mão. — É... fascinante finalmente conhecer você. Seus pais falavam muito do seu potencial.
Lívia apertou a mão dela. A pele de Alana era fria.
— "Potencial"? Eu sou engenheira, doutora Vaz. Não sou geneticista.
Alana trocou um olhar rápido com Dante, um olhar cheio de coisas não ditas.
— Claro. Engenheira. Você entende de sistemas. O corpo é só mais um, rodando no hardware que nós construímos, não é?
Dante interrompeu o momento estranho.
— Alana, prepare a sala de conferência 1. Quero uma varredura completa nos sistemas de segurança. E chame a equipe de limpeza "especial" para a mansão. Agora.
Quando Alana saiu, o som dos saltos sumindo no corredor, Dante levou Lívia a uma sala de paredes de vidro com vista para um laboratório enorme no andar de baixo.
Lívia chegou ao vidro e olhou.
O estômago revirou. Aquilo não era um laboratório. Era uma fábrica.
Fileiras e mais fileiras de tanques de nitrogênio líquido soltando vapor branco. Braços robóticos manipulando placas de Petri e frascos com precisão de cirurgião. Centenas, talvez milhares de cilindros prateados em estantes do chão ao teto.
— O que é tudo isso? — ela sussurrou.
— O maior banco de material genético do hemisfério sul. — Dante parou ao lado dela. Tinha tirado a jaqueta, e a camisa arruinada aparecia inteira. — Embriões, óvulos, esperma, células-tronco. A esperança de dez mil famílias ricas. E o segredo de outras quinhentas famílias poderosas.
— E o que nós fazemos aqui, Dante? De verdade?
Ele tocou o vidro, como se quisesse atravessar.
— Nós brincamos de Deus, Lívia. Vendemos imortalidade. Seus pais descobriram como editar embriões para eliminar doenças... e para acrescentar características. Inteligência, força, resistência à dor.
O mundo girou.
Resistência à dor. Força.
Lívia olhou para as próprias mãos. Pensou na rapidez com que sarava de qualquer doença, na memória quase fotográfica que a fizera se formar com honras, na sensação de descolamento que tinha às vezes, como se observasse a si mesma de fora.
— Projeto Hera — ela disse, a voz trêmula. — Não é um projeto de fertilidade, é?
Dante virou-se para ela. O rosto era uma máscara de pedra.
— Hera era a deusa das mulheres, do casamento e do nascimento. Mas também era vingativa. O Projeto Hera foi a tentativa dos seus pais de criar o ser humano perfeito. O próximo passo da evolução.
Ele deu um passo na direção dela. O medo e a tensão entre os dois se misturaram de novo, uma química instável.
— Eles falharam muitas vezes, Lívia. Houve... descartes. Mas houve um sucesso.
Lívia recuou até as costas tocarem o vidro frio.
— Eu?
— Você. — Dante apoiou as mãos no vidro, uma de cada lado da cabeça dela, e baixou o rosto até os olhos ficarem na mesma altura. — Você é a obra-prima deles. É por isso que todo mundo quer você. A concorrência não quer a empresa, Lívia. Quer a patente. E a patente está no seu código genético.
Ela sentia a respiração dele no rosto. Devia empurrá-lo. Devia gritar. Ela era uma experiência de laboratório, uma coisa criada, não nascida. A repulsa por si mesma brigava com a atração por aquele homem, que parecia ser o único capaz de atravessar aquele mar de aberrações.
— E você? — ela sussurrou, olhando a boca dele. — Você quer a patente também?
Dante hesitou. Pela primeira vez apareceu uma rachadura na armadura, um desejo cru, humano, misturado com uma tristeza funda.
— Eu fui pago para proteger a patente. Mas agora... — ele olhou a boca dela e voltou aos olhos — ...agora acho que só quero proteger a mulher. O que é um problema enorme, porque sentimento é a única variável que a ciência não controla.
Um alarme estridente quebrou o momento. Luzes vermelhas começaram a piscar no laboratório lá embaixo.
Dante afastou-se na hora, de novo soldado. Olhou o painel de controle na parede.
— Violação de perímetro no Setor 4. — Ele praguejou. — Nos seguiram. Ou já estavam aqui dentro.
Ele puxou uma pistola de uma gaveta escondida sob a mesa de conferência e estendeu para Lívia.
— Sabe usar isso?
Ela olhou a arma preta, fria e pesada.
— Eu sou engenheira — repetiu, a voz fraca.
— Aprenda rápido. Mire no centro de massa e puxe o gatilho até parar de se mexer. — Ele segurou a mão dela, encaixou a arma e fechou os dedos dela ao redor da coronha. — A reunião de diretoria começou, senhorita Montblanc.
O metal era frio. A mão dela estava quente.
Lívia olhou para o laboratório lá embaixo, para os milhares de embriões congelados, e depois para Dante. Se aqueles homens queriam o sangue dela, iam ter que sangrar primeiro.
— Vamos — ela disse, e destravou a arma com um clique seco que ecoou na sala.
