CAPÍTULO 3Gratuito
Jogos Perigosos
O escritório do vigésimo primeiro andar era menor que o de Daniel, mas não menos impressionante. As janelas davam para o Empire State Building, a mesa de mogno tinha incrustações de madrepérola, e nas paredes havia fotografias emolduradas do hotel em várias fases da reforma.
Em uma delas, tirada nos últimos meses da obra, reconheci papai. Mais jovem, sorridente, com o braço em volta dos ombros de um Daniel que ainda tinha cara de garoto. Os dois cobertos de pó, capacetes na mão, olhando para a câmera com um orgulho que quase dava para tocar.
Meu coração apertou. Aquele sorriso solto, sem cálculo nenhum, era um que eu raramente tinha visto no Brasil.
— Os arquivos que a senhora pediu.
A voz feminina me tirou dos pensamentos. Virei-me e encontrei uma mulher alta, de cabelos ruivos presos num coque impecável e terno cinza, equilibrando três caixas de arquivo.
— Obrigada... Desculpe, não guardei seu nome.
— Margaret Reyes. Diretora financeira. — Ela pousou as caixas na mesa com um baque. — Aqui estão os últimos cinco anos. O resto fica arquivado no subsolo.
— Cinco anos é um bom começo. — Abri a primeira caixa. — Pode me dar um resumo?
Margaret hesitou e ajeitou os óculos.
— Prefiro que a senhora veja com os próprios olhos.
— Tão ruim assim?
— Digamos que seu pai era brilhante em muitas coisas. Contabilidade transparente não era uma delas.
— Então vou precisar de café. Muito café.
— Já pedi que trouxessem. — Ela foi até a porta e parou com a mão no batente. — Srta. Cavalcanti? Seu pai era um bom homem. Complicado, mas bom. Espero que a senhora se lembre disso quando encontrar certas... irregularidades.
— Irregularidades ou ilegalidades?
— Em Manhattan, a linha entre as duas é mais fina do que a senhora imagina.
E saiu, me deixando sozinha com três caixas que podiam explodir a qualquer momento.
Passei as quatro horas seguintes enterrada em planilhas, contratos e extratos bancários. Margaret tinha razão: a contabilidade era um labirinto de empresas de fachada, transferências estranhas e investimentos que ninguém tinha se dado ao trabalho de explicar. Até onde eu conseguia enxergar, nada daquilo cruzava a linha da lei, mas quase tudo dançava bem perto dela.
Papai sempre dizia que nos negócios a gente joga com as regras que existem, não com as que gostaria que existissem. Em Nova York, pelo jeito, ele tinha jogado duro.
Eu estava na segunda caixa quando o celular tocou. Número desconhecido, código de área de Nova York.
— Alô?
— Isabella Cavalcanti? — Voz de mulher, com sotaque do Leste Europeu. Russo, talvez.
— Quem quer saber?
— Natasha Kozlov. Acho que precisamos conversar.
Meu estômago afundou. A filha de Victor Kozlov, o russo que tinha dinheiro enterrado no hotel do meu pai e, segundo os boatos, amigos bem piores que ele.
— Sobre o quê?
— Sobre Daniel Blackwood. Sobre seu pai. E sobre o futuro do hotel que você herdou. — Ela deixou a pausa durar o bastante para eu reparar. — Almoço hoje? Conheço um lugar adorável em Midtown.
Cada instinto meu mandava recusar, mas eu não era covarde.
— A que horas?
— À uma. Le Bernardin. Estarei esperando.
Desligou antes que eu pudesse responder.
Olhei o relógio: meio-dia. Uma hora para me preparar para almoçar com a mulher que, segundo Daniel, não aceitava não como resposta.
Só mais um dia normal, pensei.
* * *
O Le Bernardin era o tipo de restaurante onde uma refeição custava o salário do mês de muita gente. Tudo ali era elegância discreta: toalhas de linho branco, cristais finos, garçons que se moviam sem fazer barulho.
Natasha Kozlov ocupava uma mesa de canto, e era impossível não reparar nela.
Era linda do jeito que faz as outras mulheres se lembrarem de cada defeito que têm. Cabelo loiro-platinado em ondas perfeitas, pele de porcelana, olhos verdes muito claros. Usava um vestido vermelho de seda. Tudo nela era calculado, até o ângulo em que segurava a taça.
— Isabella! — Ela se levantou e me beijou uma vez em cada lado do rosto, à europeia. — Que prazer finalmente conhecer você.
— Natasha — respondi, e me sentei.
Um garçom surgiu na mesma hora. Natasha pediu num francês fluente, alguma coisa com vieiras e vinho branco. Fiz sinal de que queria o mesmo; ainda não confiava na minha voz.
— Então — Natasha se recostou, me estudando com aqueles olhos de gata —, a famosa filha de Antônio Cavalcanti. Ele falava muito de você.
— Você conhecia meu pai?
— Claro. Papai e Antônio eram sócios em outros negócios. Jantávamos juntos sempre que ele estava na cidade. — O sorriso não chegou aos olhos. — Ele era encantador. Muito... apaixonado pelos projetos dele.
— Incluindo este hotel.
— Principalmente este hotel. Era o bebê dele. Dele e do Daniel. — Ela disse o nome com uma intimidade possessiva que me eriçou a nuca.
— Você e o Daniel são próximos?
— Próximos? — Ela riu, um som cristalino e falso. — Querida, Daniel e eu temos... uma história.
Meu estômago se revirou, mas mantive o rosto neutro.
— Que tipo de história?
— Do tipo complicado. — Aceitou a taça que o garçom lhe oferecia e deu um gole pequeno. — Nós nos conhecemos há três anos. Atração imediata. Saímos algumas vezes. Mas Daniel tem problemas com compromisso.
— Ele comentou que vocês tinham um passado.
— Comentou? — Os olhos dela brilharam. — E o que mais ele comentou?
— Que você não aceita não como resposta.
Por um segundo a máscara escorregou e mostrou alguma coisa fria por baixo. Depois ela sorriu de novo.
— Daniel tem um jeito dramático de ver as coisas. A verdade é que nós somos inevitáveis. Ele só não percebeu ainda. — Inclinou-se para a frente. — Mas vai perceber. Principalmente agora que você chegou.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Tudo, querida. Você é uma distração. Bonita, admito, mas passageira. Daniel tem um tipo: mulheres complicadas que ele não pode ter. Você se encaixa perfeitamente.
A audácia dela me deixou sem palavras por um instante.
— Você me chamou aqui para me mandar ficar longe dele?
— Não exatamente. Chamei você aqui para fazer uma proposta de negócios.
— Que proposta?
Natasha esperou o garçom servir as vieiras.
— Meu pai quer entrar no capital do Plaza. Vinte por cento das ações.
— O hotel não está à venda.
— Tudo está à venda pelo preço certo. — Ela cortou a vieira com precisão de cirurgiã. — E papai está disposto a ser generoso. Cem milhões de dólares pelos vinte por cento.
Fiz a conta de cabeça. Se o hotel valia duzentos milhões, vinte por cento valiam quarenta. Ela estava oferecendo mais que o dobro.
— Por que ele pagaria tanto acima do valor?
— Porque este hotel é estratégico. E porque meu pai gosta de proteger aquilo em que já pôs dinheiro. — Ela me encarou. — Com uma participação, ele teria voz nas decisões. Poderia cuidar melhor do que é dele.
— Cuidar contra o quê?
— Contra uma administração incompetente — ela disse, olhando direto para mim.
A ofensa não podia ser mais clara.
— Eu acabei de chegar.
— Exatamente. Você não tem experiência em Manhattan, não conhece o mercado, não tem os contatos. — Recostou-se de novo. — Daniel é talentoso, mas temperamental. Vocês dois juntos são receita para o desastre.
— Ou para o sucesso.
— Que ingenuidade adorável. — Outro gole de vinho. — Escute, Isabella. Vou ser direta, porque não tenho paciência para jogos. Seu pai morreu. Este hotel era o sonho dele, não o seu. Se quiser simplificar, venda toda a sua parte ao meu pai: setenta por cento, cento e quarenta milhões, e você volta para a sua vida confortável no Brasil. Ou pode ficar, lutar numa guerra que não entende e, no fim, perder tudo.
— Isso está parecendo ameaça.
— É um conselho. De quem sabe como as coisas funcionam aqui. — Ela limpou os lábios no guardanapo. — Manhattan não tem pena de amadores. E você, querida, é uma amadora.
A raiva ferveu, mas me obriguei a manter a voz calma.
— Obrigada pela oferta. Não estou interessada em vender.
— Ainda não. — Natasha sorriu. — Mas vai estar. Quando as coisas apertarem, e elas vão apertar, quando você perceber que entrou em águas fundas demais, vai se lembrar desta conversa.
— Não conte com isso.
— Veremos. — Ela chamou o garçom com um gesto. — Sobremesa?
— Não, obrigada. Preciso voltar ao trabalho.
— Claro. A herdeira dedicada. — Pegou a bolsa. — Só mais uma coisa. Daniel é meu. Sempre foi e sempre vai ser. Você pode brincar de chefe, pode até achar que está começando a sentir alguma coisa por ele. Mas no fim ele vai escolher o que é melhor para o hotel. E o melhor para o hotel é manter meu pai contente.
— E manter seu pai contente significa o Daniel ficar com você?
O celular dela acendeu ao lado do prato, e Natasha olhou a tela um segundo a mais do que devia. Alguma coisa no rosto dela se cansou, e me perguntei quantos almoços como aquele ela já tinha feito a mando de alguém.
— Significa que na minha família ninguém escolhe grande coisa — disse, e se levantou, alisando o vestido. — Foi um prazer, Isabella. Tenho certeza de que vamos nos ver de novo em breve.
E foi embora, me deixando com meia porção de vieiras e raiva suficiente para pôr fogo no restaurante.
* * *
Voltei para o hotel feito uma tempestade. Margaret estava no lobby e arregalou os olhos quando me viu.
— Srta. Cavalcanti? Está tudo bem?
— Onde está o Daniel?
— No subsolo. Deu problema no sistema de aquecimento.
Peguei o elevador de serviço e desci a andares que eu nunca tinha visto: corredores de concreto, canos expostos, o zumbido constante das máquinas.
Encontrei Daniel na casa de caldeiras, com a camisa manchada de graxa e ferramentas espalhadas em volta.
— Preciso falar com você — anunciei.
Ele levantou os olhos, surpreso.
— Agora? Estou tentando evitar que trezentos hóspedes fiquem sem água quente.
— Agora.
Alguma coisa no meu tom o fez largar a chave inglesa.
— O que aconteceu?
— Natasha Kozlov me levou para almoçar.
O rosto dele escureceu.
— Ah, merda.
— Ela ofereceu cem milhões por vinte por cento do hotel. Ou cento e quarenta pela minha parte inteira, se eu preferir voltar para o Brasil. E deixou bem claro que você pertence a ela.
Daniel passou as mãos pelo rosto e deixou uma mancha de graxa na bochecha.
— Isabella, eu posso explicar...
— Então explica! Explica por que ela age como se vocês fossem um casal e acha que pode me intimidar. Explica por que diabos você se envolveu com a filha de um homem que metade de Manhattan jura ser da máfia!
— Eu sabia quem ela era! — Ele quase gritou de volta. — Achei que conseguia manter isso separado do trabalho. Foi a coisa mais idiota que eu já fiz.
— Separado como?
— Não ficou separado de nada. — Encostou-se na parede. — A gente dormiu junto algumas vezes, e quando eu quis parar ela já tinha decidido que era para sempre. Tentei terminar com educação. Ela não aceitou. O pai dela veio me visitar e deixou bem claro que a Natasha sempre consegue o que quer.
— E o que ela quer é você.
— Aparentemente. — Ele me olhou. — Mas o que eu quero não conta para ela.
— E o que você quer?
A pergunta saiu mais frágil do que eu pretendia. Daniel me encarou, e alguma coisa intensa e perigosa passou pelos olhos dele.
— Isso não importa agora.
— Importa para mim.
Ele se aproximou, e de repente o espaço entre nós ficou minúsculo.
— Quer saber o que eu quero, Isabella? Queria que seu pai estivesse vivo para explicar essa bagunça. Queria que Natasha Kozlov sumisse do mapa. Queria que você não fosse filha dele, porque talvez assim eu pudesse...
— Pudesse o quê? — Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que ele ouvia.
— Pudesse fazer isto.
E me beijou.
Foi um beijo desesperado, furioso, carregado de toda a tensão daquelas vinte e quatro horas. As mãos dele foram para o meu cabelo e me puxaram para perto, e eu me derreti contra ele enquanto qualquer pensamento sensato evaporava.
Ele tinha gosto de café e de perigo. A boca dele exigia, e a língua explorava a minha como se não tivesse pressa nenhuma de terminar. Gemi contra ele e agarrei a camisa dele, puxando-o para mais perto, ainda que já não houvesse espaço entre nós.
Aquilo era errado e completamente inapropriado, e eu não queria que parasse.
Daniel me encostou na parede de concreto, o corpo firme contra o meu, uma das mãos no meu cabelo e a outra no meu quadril.
— Isso é uma péssima ideia — ele murmurou contra a minha boca.
— A pior de todas — concordei, e o puxei de volta.
Nos beijamos até ficar sem ar, até minhas pernas fraquejarem, até o mundo inteiro caber no calor da boca dele.
Então uma voz ecoou no corredor:
— Sr. Blackwood? Precisamos da sua autorização para...
Daniel se afastou tão depressa que quase perdi o equilíbrio. Um funcionário da manutenção apareceu na curva do corredor e congelou ao nos ver.
— Volto em cinco minutos — Daniel disse, com a voz rouca.
O homem sumiu mais rápido do que tinha aparecido.
Ficamos nos encarando, os dois ofegantes. Meus lábios estavam inchados, e meu cabelo, uma bagunça. Daniel não estava melhor: camisa amarrotada, olhos escuros de desejo.
— Isso não pode acontecer de novo — ele disse, afinal.
— Concordo.
— Você é minha chefe.
— E você é meu sócio. Sem falar na Natasha, no legado do meu pai e em mais umas mil razões para isso ser loucura.
— Mas foi...
— Incrível — completei.
Ele passou as mãos pelo cabelo, nervoso.
— Isabella, eu não tenho nada para te oferecer. Minha vida é complicada. A Natasha e o pai dela, os problemas do hotel, meus próprios demônios... Você merece coisa melhor.
— Não tome decisões por mim.
— Alguém aqui precisa ser sensato.
— E por que tem que ser você? — Dei um passo na direção dele. — Por que você tem que ser o nobre da história?
— Porque, se eu não for, vou te machucar. — Ele tocou meu rosto com cuidado. — E você já foi machucada o bastante.
Lucas. Ele estava falando do Lucas.
— Eu não sou frágil.
— Eu sei. Mas também sei que, quando isso — ele fez um gesto entre nós dois — explodir, e vai explodir, vai ser um desastre. Para nós, para o hotel, para tudo.
— Então o que a gente faz?
— Volta a ser profissional. Você é a chefe, eu sou o gerente. A gente mantém distância e foca no trabalho. — Ele recuou um passo, abrindo espaço entre nós. — E finge que isso nunca aconteceu.
Cada palavra doeu, mas ele tinha razão, e eu sabia disso. Decidi antes que ele precisasse insistir.
— Tudo bem — falei, ajeitando a blusa. — Profissionais.
Ele repetiu a palavra, mas os olhos dele contavam outra história.
Subi para o escritório meio tonta, os lábios ainda formigando.
A gente consegue ser profissional, repeti para mim mesma.
Voltei à segunda caixa de arquivos, abri a pasta onde tinha parado e li a mesma linha de um extrato quatro vezes, com a ponta dos dedos encostada na boca, onde o gosto de café dele ainda não tinha ido embora.
