CAPÍTULO 2Gratuito
Tensões e Verdades
A suíte presidencial era de um luxo quase obsceno: dois andares, terraço privativo com vista para o Central Park, banheira de hidromassagem e uma cama em que caberiam cinco pessoas. Tudo em creme e dourado, com arte contemporânea nas paredes.
Papai tinha bom gosto. Isso eu sabia.
O que eu não sabia era por que ele tinha feito tudo aquilo escondido.
Desabei no sofá de veludo e chutei longe os sapatos de salto que me torturavam havia horas. Passava de uma da manhã em Nova York, duas no Rio. Meu corpo implorava por sono, mas a cabeça não parava.
Daniel Blackwood.
Fechei os olhos, e lá estava ele: os olhos azuis furiosos, o jeito como tinha dito meu nome, a tensão que ficou no ar quando chegamos perto demais.
Não, eu me repreendi. De jeito nenhum.
Eu tinha acabado de sair de um relacionamento desastroso. Lucas me traiu, me humilhou e destruiu a minha capacidade de confiar em alguém. A última coisa de que eu precisava era sentir atração pelo sócio arrogante e impossível do meu pai.
O celular vibrou. Mensagem da Clara:
"Chegou bem? O Lucas ligou de novo. Disse que precisa falar com você com urgência. O que eu faço?"
Digitei depressa:
"Bloqueia o número dele. E o de qualquer pessoa ligada a ele."
Três pontinhos piscaram na tela.
"Isso inclui a Amanda?"
Amanda. Minha ex-melhor amiga. A mulher que eu tinha encontrado na minha cama, com o meu noivo, três meses antes do meu casamento.
"Principalmente a Amanda."
Joguei o celular no sofá e me arrastei até o banheiro. Eu precisava de um banho quente e de oito horas de sono.
O que consegui foram poucas horas de um sono agitado, cheio de sonhos confusos em que olhos azuis me observavam e a voz do meu pai repetia: "Me perdoa, Isabella."
Acordei às sete, ainda exausta e incapaz de continuar deitada. Vesti uma calça de alfaiataria preta e uma blusa de seda branca, a minha armadura de trabalho. Se Daniel Blackwood queria guerra, eu estava pronta.
Desci para o lobby às oito em ponto. O hotel estava mais movimentado: hóspedes fazendo check-out, executivos apressados de pasta na mão, turistas com câmeras no pescoço.
— Srta. Cavalcanti! — A recepcionista da noite anterior, Chloe, acenou para mim. — O Sr. Blackwood pediu que a senhorita o encontrasse no restaurante para o café da manhã. Oitavo andar.
— É claro que pediu — murmurei.
O The View era elegante e despojado, com janelas do chão ao teto abertas para Manhattan. Daniel já estava lá, sentado a uma mesa de canto, digitando no laptop como se o teclado lhe devesse dinheiro.
Estava de jeans escuro e camisa branca com as mangas dobradas até o cotovelo, os antebraços à mostra. Sem terno. Mais à vontade e, de algum jeito, ainda mais bonito.
Para com isso, Isabella.
— Bom dia — eu disse ao chegar à mesa.
Ele levantou os olhos, e por um segundo alguma coisa passou pelo rosto dele. Aprovação? Sumiu tão rápido que achei que tinha imaginado.
— Dormiu bem? — Ele fechou o laptop.
— Maravilhosamente — menti, puxando a cadeira e me sentando. — E você?
— Eu nunca durmo bem. — Ele fez um sinal para o garçom, que apareceu na hora. — Café. Preto. Duplo.
— Um cappuccino, por favor. E a omelete de claras com espinafre.
O garçom se afastou e ficamos calados, num silêncio tenso.
— Então — comecei —, você vai continuar hostil ou vamos ter uma conversa civilizada?
— Depende. Você vai continuar achando que pode entrar aqui e mudar tudo?
— Eu não vim mudar nada. Vim entender.
Ele se recostou e me estudou.
— Tudo bem. O que você quer saber?
— Tudo. Como você e meu pai se conheceram? Como este hotel surgiu? Por que ele escondeu isso de mim?
Daniel suspirou e esfregou o rosto com as duas mãos, um gesto que eu já tinha notado nele quando alguma coisa o incomodava.
— Conheci seu pai há dez anos. Eu tinha vinte e quatro e trabalhava no turno da noite de um hotel em Midtown. O Antônio estava hospedado lá. Conversamos no bar até fecharem as portas e nos demos bem de cara. Ele me ofereceu emprego no Brasil.
— E você aceitou?
— Não. Disse que Nova York era a minha casa e que eu não sairia daqui. — Ele sorriu de leve, perdido na lembrança. — Ele riu e disse: "Então você vem trabalhar comigo aqui mesmo." Achei que era brincadeira. No dia seguinte, ele me levou para ver um prédio art déco no Upper East Side, cheio de andaimes, que tinha comprado cinco anos antes e estava restaurando andar por andar.
Meu coração apertou.
— E você ficou.
— Fiquei. Entrei como gerente assistente e abrimos as portas naquele mesmo ano. — Daniel olhou pela janela. — Ele dizia que queria um legado em Nova York, a prova de que um hoteleiro brasileiro podia jogar de igual para igual com os grandes daqui. Terminamos a obra juntos, contratamos juntos, erramos juntos. Ele vinha todo mês, e a gente passava a noite planejando, discutindo, sonhando.
— Por que ele nunca me contou?
— Porque... — Daniel hesitou, escolhendo as palavras. — Porque aqui ele podia ser só o Antônio. Não o empresário implacável, nem o pai perfeito. Só ele.
As palavras doeram mais do que eu esperava.
— Ele tinha vergonha de mim?
— Não! — Daniel se inclinou para a frente, os olhos intensos. — Isabella, isso tinha a ver com ele, não com você. Ele dizia que tinha duas vidas: a do Brasil, em que precisava ser perfeito, e a daqui, em que podia ser humano.
— Isso não faz sentido.
— Faz, se você pensar no peso que ele carregava. Herdou um hotel do pai e tinha a obrigação de transformá-lo num império, com todo mundo olhando e esperando o primeiro tropeço. Aqui, comigo, ele podia relaxar. Podia errar.
O garçom trouxe os cafés e a omelete. Esperei que ele se afastasse antes de continuar.
— Então vocês eram o quê? Melhores amigos?
— Irmãos. Pelo menos era assim que eu via. — Daniel tomou um gole do café. — Ele me ensinou tudo o que sabia sobre hotelaria de luxo. Eu ensinei a ele como funciona Manhattan. Formávamos uma boa equipe.
— Até ele morrer e me deixar no controle — completei.
— Até ele morrer e mudar tudo sem me avisar — corrigiu Daniel, e a amargura voltou à voz dele.
— Você está com raiva dele.
— Estou furioso. — Ele pousou a xícara com força. — Ele sabia que estava doente, Isabella. Havia sete meses. Um infarto. Os médicos avisaram. E ele me fez jurar silêncio. Não contou para mais ninguém.
Congelei.
— O que foi que você disse?
— Ele teve um infarto em março. Pequeno, mas sério. Passou duas semanas aqui em Nova York se recuperando antes de voltar para o Brasil. E me fez prometer que ninguém ia saber. Nem você.
As paredes pareceram se fechar em volta de mim.
— Ele estava doente e não me contou?
— Isabella...
— Sete meses! — Minha voz subiu, e as pessoas das mesas próximas olharam. Não me importei. — Ele teve sete meses para me contar e escolheu não contar! E você sabia!
— Eu sei. E briguei com ele por isso mais de uma vez. — Daniel estendeu a mão por cima da mesa e tocou a minha por um instante antes de recolhê-la. — Ele achava que estava te protegendo.
— Me protegendo? — Lágrimas de raiva queimavam meus olhos. — Ele morreu, Daniel! Morreu e eu nem tive a chance de me despedir, de dizer que amava ele, de...
Não consegui terminar. As lágrimas vieram, e por mais que eu tentasse, não conseguia segurar.
Daniel se levantou, contornou a mesa e afastou a minha cadeira.
— Vem. Vamos sair daqui.
Ele me levou para fora do restaurante, até um corredor de serviço, longe dos olhares curiosos. Encostei na parede tentando recuperar o controle, mas os soluços continuavam vindo.
— Respira — disse Daniel, baixinho, as mãos nos meus ombros. — Só respira, Isabella.
— Ele me deixou. — As palavras saíram em pedaços. — Sem explicação. Sem despedida. E agora eu descubro que ele sabia. Sabia que podia morrer e não me disse.
— Ele foi um idiota. — A voz de Daniel estava mansa, muito diferente da hostilidade da noite anterior. — Um idiota teimoso que achava que estava fazendo a coisa certa.
— Como você consegue defender ele?
— Porque eu conhecia o Antônio. E sei que cada decisão estúpida que ele tomou foi porque te amava demais e não sabia como dizer isso.
Olhei para ele através das lágrimas. Estava tão perto que eu via as manchas douradas nos olhos azuis.
— Você acha que ele me amava?
— Eu sei que amava. Ele falava de você o tempo todo. "Minha Isabella é tão inteligente." "Minha Isabella é forte." "Minha Isabella vai mudar o mundo." — Daniel secou uma lágrima do meu rosto com o polegar, num toque surpreendentemente delicado. — Você era o orgulho dele. O maior de todos.
— Então por que me deixou de fora disso tudo?
— Porque... — Ele hesitou, a mão ainda no meu rosto. — Porque aqui havia coisas que ele não queria que você descobrisse.
Meu estômago revirou.
— Que tipo de coisas?
Daniel se afastou e passou as mãos pelo rosto.
— Este hotel não foi feito só com o dinheiro do Antônio.
— Do que você está falando?
— Houve empréstimos. Alguns vieram de gente que não é exatamente respeitável.
O mundo pareceu se inclinar.
— Você está me dizendo que meu pai se meteu com coisa ilegal?
— Não! Ilegal, não. Moralmente questionável, talvez. — Daniel se encostou na parede em frente. — Nova York não é o Brasil, Isabella. Para competir com os grandes daqui, você precisa de contatos. Seu pai fez negócios com gente poderosa, e parte dessa gente tem um passado complicado.
— Complicado quanto?
— Do tipo que pode destruir a reputação da família se vier a público.
Fechei os olhos. Claro. Mais segredos. Mais mentiras.
— Quem são essas pessoas?
— O principal é Victor Kozlov. Empresário russo. Bilionário, pelo menos segundo as revistas.
— E?
— E dizem que ele tem ligação com a máfia russa. Nunca provaram nada, mas todo mundo comenta. — Daniel cruzou os braços. — Ele emprestou oitenta milhões de dólares a este hotel quando nenhum banco quis emprestar, com o prédio como garantia. Sem esse dinheiro, a obra não teria terminado.
— Meu Deus.
— Tem mais. O Kozlov tem uma filha, Natasha. Ela é... complicada.
— Complicada como?
— Apaixonada. Por mim.
Uma coisa desagradável se retorceu no meu estômago. Ciúme? Que ridículo.
— E você?
— Eu? — Daniel riu sem humor. — Eu sou esperto o bastante para saber que me envolver com a filha do Victor Kozlov é assinar a própria sentença. Só que ela não aceita um não.
— Isso afeta o hotel?
— Afeta tudo. O empréstimo saiu por uma empresa de fachada dele, e o contrato tem uma cláusula que deixa o Kozlov cobrar a dívida inteira de uma vez. Ele já deu a entender que, se a Natasha não ficar feliz, ele cobra. E isso nos levaria à falência.
Comecei a rir, um riso histérico e sem graça nenhuma.
— Então, além de um sócio que me odeia e de um pai morto cheio de segredos, eu ainda tenho um credor mafioso russo e a filha obcecada dele para administrar?
— Bem-vinda a Manhattan, princesa.
— Para de me chamar de princesa!
— Você é insuportável quando está com medo, sabia?
— E você é irritante o tempo todo.
Estávamos gritando um com o outro de novo, e o espaço entre nós diminuía a cada frase. Meu coração batia sem controle, e a raiva já não explicava tudo.
— Sabe qual é o seu problema? — Empurrei o peito dele com a ponta dos dedos. — Você está com raiva do homem errado. Está furioso comigo porque não pode ficar furioso com ele!
— E você — ele deu um passo à frente, e eu recuei até sentir a parede nas costas — está usando a raiva para esconder o quanto está machucada!
Ficamos assim, respirando rápido, perto demais. Ele não me tocava. Os olhos dele desceram para a minha boca, e os meus desceram para a dele.
Por um segundo insano, achei que ele fosse me beijar. Por um segundo mais insano ainda, eu quis que beijasse.
Espalmei a mão no peito dele, e ele recuou na mesma hora, como se tivesse se queimado.
— Isso não pode acontecer — ele disse, a voz rouca.
— Não está acontecendo nada — menti, com o corpo inteiro vibrando.
— Ótimo. Porque você é minha chefe. E filha do meu melhor amigo. E está de luto. E eu não me aproveito de mulher fragilizada.
— Eu não estou fragilizada.
— Você está desmoronando, Isabella. Dá para ver. — Ele enfiou as mãos nos bolsos, como se não soubesse o que fazer com elas. — E a última coisa de que você precisa é se envolver com alguém como eu.
— Alguém como você?
— Alguém que machuca. — Ele me olhou nos olhos. — É o que eu faço. Pergunta para qualquer ex-namorada minha.
— Não tenho o menor interesse em ser sua namorada.
— Ótimo. Porque eu não tenho interesse em ter uma.
— Perfeito.
— Perfeito.
Ficamos nos encarando, e a tensão era tanta que dava para cortar com faca.
— Preciso voltar ao trabalho — Daniel disse por fim.
— Eu também. Quero ver os livros contábeis. Todos.
— Vai encontrar problemas.
— Ótimo. Vim para resolver problemas.
Ele quase sorriu.
— Você é teimosa igualzinha a ele, sabia?
— Vou entender isso como um elogio.
— Não foi.
Mas o jeito como ele disse, com uma ponta de admiração a contragosto, fez meu coração dar um pulo.
— Mais uma coisa, Daniel.
— Fala.
— Se vamos trabalhar juntos, você precisa parar de me tratar como intrusa. Eu não pedi para estar nesta situação. Mas estou. E vou fazer o melhor que eu puder para honrar o que meu pai deixou. O que agora é nosso.
Ele me estudou por um longo momento.
— Tudo bem. Trégua temporária?
— Trégua temporária.
Apertamos as mãos. A dele era grande, calejada, firme, e a corrente elétrica estava lá de novo, impossível de ignorar.
Soltamos as mãos rápido demais para parecer casual.
— O escritório dele... — Daniel se corrigiu. — O seu. O nosso, acho. Fica no vigésimo primeiro andar. Vou pedir que levem os arquivos para lá.
— Obrigada.
Ele assentiu, começou a se afastar e parou.
— Isabella?
— Oi.
— Seu pai... no fim, quando entendeu que o tempo estava acabando, a única coisa que ele queria era ter sido honesto com você. Disse que esse era o maior arrependimento dele.
As lágrimas ameaçaram voltar.
— Ele disse isso?
— Disse. E me fez prometer que eu ia cuidar para você não destruir o que ele construiu por falta de enxergar o quadro inteiro. — Daniel me olhou com uma intensidade que me deixou sem ar. — Então é o que eu vou fazer. Vou te mostrar tudo: o que presta, o que não presta e o que é feio de ver. Depois você decide o que fazer com isso.
— Por que você faria isso por mim?
— Porque prometi a um homem que eu amava como a um irmão. — Ele se virou para ir embora. — E porque, contra todo o meu bom senso, estou começando a achar que você talvez aguente a verdade.
Os passos dele se afastaram pelo corredor de serviço até a porta vaivém da cozinha bater atrás dele. Fiquei encostada na parede, a mão ainda formigando do aperto, contando os andares que me separavam do vigésimo primeiro e dos arquivos que ele ia mandar subir.
