CAPÍTULO 1Gratuito
Legados e Mentiras
O veludo preto do vestido Dior deixava meus braços ainda mais pálidos enquanto o caixão de mogno descia devagar para dentro da terra, ao lado do túmulo da minha mãe. Fazia duas semanas que a voz de um médico, ao telefone, tinha desmontado a minha vida com três palavras: "Sinto muito, Isabella." Papai morreu numa das viagens que nunca parava de fazer, e o resto daqueles dias foi papelada, laudo e a espera pelo voo que o trouxe de volta ao Rio.
Antônio Cavalcanti. O homem que herdou do meu avô um único hotel em Copacabana e fez dele quinze, que me ensinou que um Cavalcanti não chora em público, que me prometeu que sempre estaria por perto.
Mentiroso.
— Meus sentimentos, Srta. Cavalcanti — disse alguém que eu nunca tinha visto, apertando minha mão com a mão gelada de quem cumpre protocolo.
Sorri no automático, o mesmo sorriso vazio que eu sustentava havia horas. O cemitério estava lotado de empresários, políticos e socialites, todos querendo ser vistos homenageando o grande Antônio Cavalcanti. Nenhum sentiria falta dele.
— Isabella, querida. — Tia Helena, a irmã caçula da minha mãe, se aproximou com os olhos vermelhos. Pelo menos ela chorava por ele de verdade. — Você precisa comer alguma coisa. Está branca feito papel.
— Estou bem, tia.
— Não está, não. Perdeu seu pai, e aquele desgraçado do Lucas ainda teve a audácia de aparecer aqui...
Meu estômago revirou ao ouvir o nome. Lucas Mendes, meu ex-noivo, o homem que eu tinha flagrado na cama com a minha melhor amiga quatro meses antes, a três meses do casamento.
— Ele já foi embora?
— Já, mas antes tentou falar com você. Teve a cara de pau de dizer que "sente a sua falta". — Tia Helena praticamente cuspiu as palavras.
Fechei os olhos e respirei fundo. Eu não podia desmoronar ali, na frente de todos aqueles abutres que esperavam ver a herdeira Cavalcanti fraquejar.
A recepção depois do enterro, na casa da família no Joá, foi uma tortura bem servida. Garçons circulavam com champanhe e canapés enquanto as pessoas, em voz baixa, dissecavam a vida do papai como assunto de coluna social.
— Isabella. — A voz grave do Dr. Albuquerque, advogado da família havia trinta anos, me fez virar. — Precisamos conversar. Em particular.
Fomos para o escritório do papai. A sala cheirava a charuto cubano e uísque escocês, e a poltrona de couro ainda guardava a forma do corpo dele. Senti as lágrimas chegarem e engoli em seco.
— Há questões urgentes sobre a herança. — O Dr. Albuquerque abriu uma pasta de couro. — Seu pai deixou instruções muito específicas.
— Específicas como?
— A Cavalcanti Hotels é sua, naturalmente. A participação da família, os quinze hotéis no Brasil, os imóveis. Tudo como se esperava.
— Mas?
Ele hesitou, e aquilo era raro. O Dr. Albuquerque nunca hesitava.
— Há uma propriedade adicional. Em Nova York. O Hotel Cavalcanti Plaza, no Upper East Side, em Manhattan.
Franzi a testa.
— Papai tinha um hotel em Nova York? Desde quando?
— Ele comprou o prédio há quinze anos. O hotel abriu há dez. Ele manteve tudo isso... discreto.
— Discreto? — Minha voz subiu uma oitava. — Ele tinha um hotel inteiro em Manhattan e nunca me contou?
— Seu pai tinha os motivos dele. E há mais. O hotel está com problemas financeiros sérios. Existe uma pendência com um credor, e há documentos que precisam da assinatura da herdeira, em Nova York, pessoalmente. Se isso não for resolvido logo, você pode perder a propriedade.
— Quanto tempo eu tenho?
— Para essa assinatura? Duas semanas. Talvez três. O resto do problema é maior e vai levar mais tempo.
Afundei na poltrona do papai. Um hotel secreto em Nova York, dívidas, mais segredos.
— Tem mais alguma coisa que eu deveria saber?
O Dr. Albuquerque me olhou com uma coisa parecida com pena.
— O gerente geral do hotel. Um americano chamado Daniel Blackwood, trinta e quatro anos. Ele e seu pai eram próximos. Muito próximos. Alguns documentos sugerem que eram sócios, não apenas patrão e empregado.
— Sócios? Papai tinha um sócio secreto?
— Preciso que você vá até lá e descubra exatamente que parceria era essa. Há cláusulas do testamento que só podem ser executadas na presença do Sr. Blackwood, e ele se recusou a vir ao Brasil.
— Se recusou? — A raiva começou a ferver dentro de mim. — Quem esse homem pensa que é?
— Alguém que conhecia segredos do seu pai que nem eu conheço. — Ele fechou a pasta. — Tenha cuidado, Isabella. Seu pai construiu tudo isso com determinação, mas também com segredos. Alguns deles podem ser... perturbadores.
Três dias depois, eu estava no aeroporto do Galeão com a mala ao lado e uma passagem de primeira classe para o JFK na bolsa.
— Tem certeza de que não quer que eu vá junto? — perguntou Clara, minha assistente, pela décima vez.
— Preciso fazer isso sozinha. — Ajeitei os óculos escuros no alto da cabeça. — Cuida das coisas aqui. Qualquer problema, me liga.
— E se o Lucas tentar falar com você de novo?
— Diz que eu morri também.
O voo foi um borrão de champanhe e papéis. Revirei cada cláusula, tentando entender o que meu pai escondia. O Hotel Cavalcanti Plaza era um imóvel de primeira linha, avaliado em duzentos milhões de dólares. Como uma coisa daquelas podia estar à beira do abismo?
E quem diabos era Daniel Blackwood?
Quando o avião pousou no JFK, já era noite. Outubro em Nova York era frio, e o vento cortante me fez apertar o casaco de caxemira contra o corpo.
O táxi amarelo avançava devagar pelo trânsito, entre letreiros acesos e prédios que sumiam no céu escuro. Papai amava Nova York. Olhando pela janela, comecei a entender por quê: ali ele podia ser quem quisesse. Ali ele tinha segredos.
— Hotel Cavalcanti Plaza — eu disse ao motorista, em inglês.
Ele respondeu que era um ótimo hotel, que eu ia adorar.
Se ele soubesse que eu era a dona.
Quando o táxi parou, meu coração disparou. Trinta andares de pedra clara, a fachada art déco restaurada até o último friso, as linhas verticais subindo iluminadas contra a noite. Sobre a entrada, o letreiro dourado: CAVALCANTI PLAZA.
Papai tinha feito aquilo. E nunca me contou.
O lobby era espetacular, com piso de mármore italiano e lustres de cristal. Funcionários impecáveis de uniforme preto atendiam hóspedes que claramente faziam parte daquele 1% mais rico.
Fui até a recepção, onde uma loira de olhos verdes me recebeu com um sorriso profissional. O crachá dizia Chloe.
— Boa noite! Bem-vinda ao Cavalcanti Plaza. A senhora tem reserva?
— Não exatamente. Sou Isabella Cavalcanti. Preciso falar com Daniel Blackwood.
O sorriso dela congelou.
— Srta. Cavalcanti? Nós... não esperávamos a senhorita antes de amanhã.
— Mudança de planos.
— Claro. Deixe-me... deixe-me chamá-lo. — Ela pegou o telefone, visivelmente nervosa. — Sr. Blackwood? A Srta. Cavalcanti está aqui. Sim, agora. Entendido.
Desligou com o sorriso ainda tenso.
— Ele já vem. Posso lhe oferecer uma taça de champanhe enquanto espera?
— Por favor.
Aceitei a taça e fiquei observando o lobby. Tudo perfeito demais, nenhum sinal de crise.
— Srta. Cavalcanti.
A voz veio de trás de mim, grave, num português correto e com um sotaque americano carregado. Virei e quase deixei a taça cair.
Daniel Blackwood era devastador. Alto, com facilmente um metro e noventa, ombros largos dentro de um terno Tom Ford. O cabelo castanho-escuro estava um pouco despenteado, a mandíbula marcada tinha a barba por fazer, e os olhos, meu Deus, os olhos. Azuis como gelo, do tipo que atravessa qualquer defesa.
Ele não sorriu.
— Sr. Blackwood. — Estendi a mão, obrigando a minha voz a ficar firme.
Ele apertou a minha mão por um instante. A dele era grande, calejada, quente, e uma corrente elétrica subiu pelo meu braço.
— Meus pêsames pelo seu pai — disse ele, mas a voz saiu fria.
— Obrigada. — Recolhi a mão. — Podemos conversar em particular?
— No meu escritório. — Ele indicou os elevadores.
Subimos num silêncio tenso. Pelo espelho, eu o via de olhos presos nos números que subiam, a mandíbula travada. Havia raiva ali, e eu não sabia o motivo.
O escritório dele, no vigésimo andar, era sóbrio: madeira escura, couro preto e uma vista espetacular de Manhattan. Ele apontou uma poltrona e se sentou atrás da mesa, pondo um móvel inteiro entre nós.
Sentei-me e cruzei as pernas.
— Então — comecei —, quer me explicar por que meu advogado diz que este hotel está com problemas financeiros, se tudo que eu vejo é luxo e prosperidade?
Ele se recostou e me estudou com aqueles olhos gelados.
— Seu pai não te contou nada, contou?
— Pelo visto, não. Eu nem sabia que este hotel existia até três dias atrás.
Alguma coisa passou pelo rosto dele. Surpresa, talvez. Raiva, com certeza.
— A cara do Antônio.
— Como você tem coragem de falar assim dele? — A raiva explodiu em mim. — Ele acabou de morrer!
— E você acha que eu não sei? — Ele se levantou de uma vez e a cadeira bateu na parede. — Antônio Cavalcanti era meu melhor amigo. Meu parceiro. Meu irmão em tudo, menos no sangue. E morreu sem me dar a chance de me despedir.
A dor na voz dele me desarmou.
— Vocês... eram tão próximos assim?
— Éramos tudo. — Ele esfregou a nuca e se virou para a janela. — Abrimos este lugar juntos. Cada contratação, cada andar, cada sacrifício. E agora ele se foi e deixou você no comando sem nem te contar que isto existia.
— Por que ele faria isso?
Daniel riu, um som amargo.
— Porque o Antônio era brilhante nos negócios e um desastre no resto. Principalmente em confiar nas pessoas que amava.
— Ele confiava em você.
— Confiava? — Ele se virou, o olhar cravado em mim. — Então por que o testamento tem cláusulas que me transformam em seu funcionário, quando sempre fomos sócios?
Franzi a testa.
— Do que você está falando?
— Você não sabe? — Ele pegou uma pasta na mesa e a jogou na minha frente. — Lê você mesma. Pelo testamento, você herda setenta por cento do hotel. Eu fico com trinta, mas só se continuar como gerente geral por no mínimo cinco anos. Se eu sair, perco tudo.
Abri a pasta e li depressa. Ele estava certo.
— Isso não faz sentido. Por que papai faria uma coisa dessas?
— Proteção. Ele sabia que, sem mim, você perderia este lugar em menos de seis meses. E sabia que eu jamais abandonaria o hotel que ajudei a pôr de pé. — Ele deu a volta na mesa e parou diante da minha poltrona, perto demais. — Então parabéns, princesa. Você ganhou um sócio que não te quer aqui, e eu ganhei uma chefe que não entende nada do negócio.
Levantei-me e fiquei cara a cara com ele, sem recuar um centímetro.
— Primeiro, não me chama de princesa. Segundo, eu aprendo rápido. E terceiro, se meu pai confiou em você a ponto de te deixar trinta por cento deste lugar, ele tinha um motivo.
Estávamos perto demais. Eu sentia o calor que vinha dele e o cheiro do perfume, alguma coisa amadeirada que fez meu estômago dar uma volta.
— O motivo — ele disse baixo, os olhos descendo por um segundo para a minha boca — é que eu era a única pessoa que ele não conseguia comprar nem controlar. E agora você chega aqui, com esses sapatos caros e esse ar de superioridade, achando que pode simplesmente assumir.
— Eu não vim brigar com você.
— Não? Então veio fazer o quê?
— Entender quem meu pai era de verdade. — Minha voz saiu mais frágil do que eu queria. — Porque o homem que morreu guardava segredos. E eu tenho a impressão de que você conhece todos eles.
O olhar dele mudou. A raiva cedeu lugar a alguma coisa mais complicada.
— Isabella... — ele disse meu nome como quem prova o gosto de uma palavra nova. — Seu pai me fez prometer algumas coisas. A maioria delas serve para te proteger. Mas algumas vão te machucar.
— Eu aguento.
— Aguenta? — Ele deu dois passos para trás. — Já vi muita herdeira como você desmoronar quando descobre que o papai não era o herói que ela imaginava.
A raiva voltou, quente e feroz.
— Você não me conhece.
— Não? Deixa eu adivinhar. Cresceu em mansão, estudou nas melhores escolas, teve tudo o que o dinheiro compra. Provavelmente acabou de sair de um relacionamento com algum playboy que não te merecia. E agora está aqui, perdida, atrás de respostas que só vão trazer mais perguntas.
Metade daquilo era verdade, e era justamente a metade que doía.
— Eu trabalho desde os vinte e dois anos — respondi. — Tenho uma equipe no Rio esperando decisões minhas agora mesmo, e ninguém me ensinou a ler um balanço por causa do sobrenome. Quanto ao playboy, isso não é da sua conta. Vai se ferrar.
Ele sorriu pela primeira vez, e não foi um sorriso gentil.
— Finalmente. Uma reação honesta.
— Quer saber? Eu não preciso da sua aprovação. Sou dona deste hotel, você goste ou não. E vou descobrir cada segredo que meu pai guardou, com ou sem a sua ajuda.
— Boa sorte. — Ele voltou para a cadeira, claramente me dispensando. — Sua suíte está pronta. Vigésimo quinto andar, suíte presidencial. Alguém vai levar suas malas.
— Não terminamos esta conversa.
— Terminamos por hoje. — Ele abriu o laptop sem olhar para mim. — Tenho um hotel para administrar.
Fechei as mãos com força para não atirar alguma coisa naquele rosto arrogante e irritantemente bonito.
— Isso não vai acabar bem para você, Sr. Blackwood.
— Provavelmente não, Srta. Cavalcanti. — Ele não levantou os olhos da tela. — Mas vai ser interessante.
Saí e bati a porta, e o estrondo correu pelo corredor inteiro. Meu coração batia sem compasso, e não era só de raiva.
Apertei o botão do elevador três vezes seguidas, como se ele fosse chegar mais rápido. Quando as portas se abriram, o espelho me devolveu uma mulher de casaco escuro, com o rímel borrado da viagem e as bochechas vermelhas demais.
Isso vai ser um problema, pensei, e apertei o vinte e cinco.
