CAPÍTULO 2Gratuito
O Testamento
Capítulo 2 — O Testamento
O escritório do advogado cheirava a couro velho e ambição contida. Erik notou isso assim que entrou — o cheiro pesado dos móveis de mogno, das estantes carregadas de livros que ninguém lia, do tapete persa que provavelmente custava mais do que o apartamento onde ele morou durante a faculdade em Trondheim. Tudo ali era desenhado para transmitir solidez, permanência, tradição. Coisas que Erik não sentia desde que atendeu o telefone às três da manhã, doze dias atrás, e ouviu a voz trêmula de Viktor dizer: Seu pai está morto.
Sentou na cadeira indicada pelo advogado — Kjetil Rønning, da firma Rønning & Dahl, cabeça raspada, óculos redondos, mãos de cirurgião. O tipo de homem que cobrava por minuto e valia cada centavo.
Jonas já estava sentado na cadeira ao lado. Não olhou para Erik quando ele entrou. Estava com os olhos fixos na janela, a mandíbula travada, as pernas cruzadas com uma displicência que Erik reconhecia como ensaiada. Jonas sempre foi melhor em parecer tranquilo do que em estar tranquilo.
Viktor Sørensen ocupava a poltrona mais afastada, no canto da sala, como se tentasse se fundir com a decoração. As mãos grandes apoiadas nos joelhos, o cabelo grisalho penteado para trás, o rosto largo com aquela expressão de avô preocupado que parecia permanentemente grudada nele. Quando Erik sentou, Viktor assentiu com a cabeça — um gesto mínimo que dizia estou aqui.
Ingrid Haugen estava em pé ao lado da porta, um tablet contra o peito como um escudo. Tailleur cinza, cabelo loiro preso num coque que poderia ser usado como arma. Ela deu a Erik um olhar rápido — profissional, contido — e voltou a atenção para o advogado.
Rønning abriu a pasta.
— Senhores, como sabem, estamos aqui para a leitura formal do testamento de Karl Henrik Lindberg, falecido em vinte e dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. O documento foi registrado nesta firma em março do ano passado e atualizado pela última vez em novembro.
Erik sentiu o estômago contrair. Novembro. Dois meses antes de morrer, seu pai tinha sentado nesta mesma sala e decidido como dividir tudo que construíra. Enquanto Erik estava em Tromsø inspecionando turbinas eólicas, enquanto discutiam por telefone sobre cronogramas e orçamentos, enquanto não se falavam sobre nada que importasse de verdade — Karl estava aqui, escrevendo o futuro.
Rønning leu. Cláusula por cláusula, parágrafo por parágrafo, com a precisão monótona de quem recita texto jurídico há trinta anos. Erik ouvia as palavras, mas elas chegavam como se viessem de outro cômodo — lego, propriedade, ações, controle majoritário. Coisas que sempre pertenceram ao pai e que agora precisavam pertencer a alguém.
Quando Rønning chegou à parte central, a temperatura da sala mudou.
— A totalidade das ações de controle da Lindberg Energi, correspondentes a sessenta e dois por cento do capital votante, ficam legadas a Erik Karl Lindberg, juntamente com o cargo de presidente do conselho de administração.
Silêncio.
Erik não se moveu. Não porque estivesse em choque — ou talvez exatamente por isso. A informação entrou nele como uma lâmina fria: sem dor imediata, só a consciência de que algo tinha sido cortado.
Jonas se moveu. Erik viu pelo canto do olho — o irmão descruzou as pernas, endireitou a coluna, virou o rosto devagar na direção do advogado. A displicência ensaiada evaporou como gelo no asfalto.
— Repita — disse Jonas.
Rønning repetiu. Com a mesma voz, a mesma cadência, como se não tivesse acabado de detonar uma bomba.
Jonas olhou para Erik. Pela primeira vez desde que entraram na sala, os olhos dos dois se encontraram. Os de Jonas eram de um azul mais claro que os de Erik — azul de lago congelado, sem profundidade. Neste momento, estavam absolutamente vazios.
— Continuando — disse Rønning. — A Jonas Henrik Lindberg ficam legados os seguintes bens: a propriedade de veraneio em Lofoten, o apartamento de Bergen, e uma participação minoritária de oito por cento nas ações não votantes da empresa, com cláusula de inalienabilidade por cinco anos.
Oito por cento. Não votante. Com trava de venda.
Erik quase pôde ouvir o cálculo sendo feito na cabeça do irmão. O pai não apenas tinha escolhido Erik — tinha blindado a escolha. Jonas não podia contestar, não podia vender, não podia manobrar. Estava trancado do lado de fora da empresa que levava o nome da família.
— Isso é uma piada — disse Jonas. A voz saiu controlada, mas a mandíbula tremia. — Isso é uma maldita piada.
— Jonas — disse Viktor, do canto da sala, com a voz macia de quem acalma cavalos. — Vamos terminar a leitura.
— Terminar a leitura? — Jonas virou-se para Viktor com um riso curto, seco, que não tinha nada de riso. — O velho me passou pra trás. Eu sou o primogênito. Eu estava na empresa antes dele. Eu trouxe os contratos da Shell, eu fechei o acordo com a Equinor...
— Jonas — repetiu Viktor.
— Não me interrompa, Viktor. Você sabia. Você sabia e não me disse.
Viktor não respondeu. Seus olhos se estreitaram por uma fração de segundo — algo que Erik quase não captou — e depois a máscara de avô preocupado voltou ao lugar.
— Eu não tinha conhecimento das disposições específicas — disse Viktor, pausado. — Karl era reservado sobre essas questões.
Jonas empurrou a cadeira para trás com as pernas. O som raspou no assoalho de madeira como unha em quadro-negro. Ficou de pé, ajeitou o blazer — Brunello Cucinelli, Erik reconheceu, porque Jonas sempre gastava como se o dinheiro fosse oxigênio — e caminhou até a porta.
Parou ao lado de Ingrid, que se afastou meio passo como quem evita o raio de uma explosão.
— Erik.
Erik olhou para o irmão.
— Isso não acaba aqui — disse Jonas. E saiu.
A porta bateu. O som reverberou pelas estantes, e Erik jurou que os livros estremeceram.
***
Rønning continuou a leitura como se nada tivesse acontecido — legados menores, doações filantrópicas, instruções sobre o funeral que já tinha sido realizado. Erik assinou onde mandaram assinar. Suas mãos estavam firmes. Ele não sentia nada, e o fato de não sentir nada o preocupava mais do que se estivesse aos prantos.
Quando o advogado terminou, Viktor se aproximou. A mão grande pousou no ombro de Erik — pesada, quente, reconfortante de um jeito que Erik não pedia mas não recusou.
— Seu pai sabia o que fazia — disse Viktor. — Ele via em você algo que... — Pausou, escolhendo palavras como quem escolhe ferramentas. — Ele via em você o que a empresa precisa para o futuro.
— Ele nunca me disse isso.
— Karl não era de dizer. Era de fazer. O testamento é o que ele fez.
Erik assentiu. Não porque concordasse, mas porque a alternativa era discordar em voz alta, e ele não confiava na própria voz neste momento.
Ingrid se aproximou, tablet em mãos.
— Erik, você tem reunião com a equipe jurídica às quatorze horas para discutir a transição de controle. Preciso confirmar?
— Confirma.
— E a imprensa está pedindo declaração sobre o testamento. O Aftenposten e o Finansavisen publicam amanhã de qualquer forma.
— Diga que a família pede privacidade. Ponto.
Ingrid assentiu e recuou. Sempre eficiente, sempre contida, sempre a exata distância que o protocolo exigia. Erik às vezes se perguntava se Ingrid existia quando não estava trabalhando — se ela tinha um apartamento com coisas dentro, se cozinhava, se assistia televisão. Ou se desligava como um programa quando ele saía do campo de visão.
***
Do lado de fora, Oslo estava cinza. O tipo de cinza que a cidade vestia em fevereiro como um uniforme — céu cinza, prédios cinzas, neve suja cinza nas calçadas. Erik caminhou pela Karl Johans gate com as mãos nos bolsos do sobretudo, sentindo o frio morder as bochechas, o nariz, as pontas das orelhas. Menos doze graus. O termômetro do celular dizia isso, mas o corpo já sabia.
Passou pela Catedral, pela estátua do tigre, pelos turistas que fotografavam o Parlamento como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Para Erik, Oslo era uma cidade que ele conhecia demais para amar e pouco demais para odiar. Era cenário, não lar. Lar tinha sido o chalé em Nordmarka, onde o pai o levava para esquiar aos domingos. Tinha sido a bancada da garagem, onde desmontavam motores juntos em silêncio — o único silêncio confortável que existiu entre eles.
Sentou num banco do Slottsparken, o Palácio Real às costas, e tirou do bolso interno o envelope que Rønning lhe entregara separadamente.
— Seu pai pediu que lhe desse isto — dissera o advogado, com um olhar que sugeria que sabia o que continha mas não ousava comentar.
Erik abriu o envelope. Dentro, uma folha de papel timbrado da Lindberg Energi, escrita à mão. A caligrafia do pai — inclinada para a direita, apertada, econômica.
Ficou olhando para as letras sem ler. A tinta azul contra o papel branco. As linhas levemente trêmulas — a mão de Karl nunca tremia. Parkinson? Medo? Pressa?
Respirou fundo. O ar gelado desceu pela garganta como vidro moído.
Leu.
Erik,
Eu estava errado sobre a energia. A transição que você propôs — o hidrogênio, a descentralização, a saída do petróleo — eu resisti porque resistir era mais fácil do que admitir que meu filho via mais longe do que eu.
Eu estava errado sobre nós. Sobre as coisas que não disse. Sobre os jantares que cancelei. Sobre a vez que você me mostrou o projeto da turbina e eu disse que era ambicioso demais. Era brilhante. Eu sabia que era brilhante. Mas se eu dissesse isso, teria que admitir que você não precisava mais de mim, e eu não estava pronto.
A empresa é sua porque sempre foi sua. Jonas é meu filho e eu o amo, mas a Lindberg precisa de alguém que acredite no que vem depois. Jonas acredita no que veio antes.
Perdoa-me.
Karl
Erik fechou a mão sobre a carta. O papel amassou entre os dedos com um som seco, insignificante, que ninguém ouviu além dele. Sentiu a garganta fechar, o maxilar travar, os olhos arderem com algo que ele se recusava a deixar cair.
Tarde demais.
Isso era tudo que restava. Uma carta escrita por um homem morto pedindo perdão a um filho que não sabia se queria perdoar. Palavras que deveriam ter sido ditas numa cozinha, num carro, numa caminhada pela neve — e em vez disso foram seladas num envelope jurídico, para serem entregues como cláusula de um testamento.
Herregud, pai.
Erik ficou sentado no banco até as pernas ficarem dormentes de frio. A carta amassada na mão, o Palácio Real às costas iluminado por uma luz pálida de inverno que não aquecia nada. Ninguém parou para perguntar se estava bem. Em Oslo, não se perturbava um homem sentado sozinho no frio. Era quase um direito constitucional.
Quando finalmente se levantou, guardou a carta no bolso. Não a jogou fora. Não a alisou. Guardou-a como estava — amassada, imperfeita, insuficiente.
Como tudo que seu pai lhe deixou.
