CAPÍTULO 2Gratuito
Inventário de Uma Estranha
Capítulo 2 — Inventário de Uma Estranha
O teto era branco com uma mancha de umidade no canto superior esquerdo que tinha o formato vago de uma peninsula.
Sophie ficou olhando para ela por um tempo que não sabia mensurar porque o relógio da parede estava fora do campo visual e mover a cabeça para o encontrar requeria um esforço que ela ainda não estava pronta para fazer. A cabeça doía de um jeito específico: não agudo, não pulsante como enxaqueca — ela sabia como enxaqueca doía —, mas uma pressão surda atrás dos olhos que sugeria que o crânio havia decidido, por razões próprias, ser ligeiramente menor do que o cérebro que continha.
Ela estava em algum lugar que cheirava errado.
Esse foi o primeiro dado concreto que registrou quando começou a acordar de verdade: o cheiro. Hospitais tinham um cheiro característico que ela reconhecia de memória, e isso era informação — que ela sabia o cheiro de hospital, que tinha estado em hospitais antes, que esse conhecimento estava intacto e disponível como um arquivo não corrompido. Mas havia algo além do desinfetante: uma leveza floral sintética que vinha da almofada, que não era a almofada que ela usava para dormir.
*Onde estou*, ela pensou, antes de conseguir dizer em voz alta.
O teto com a mancha-peninsular não respondeu.
---
O rosto de Nora foi o primeiro dado que fez sentido completo.
Havia outras coisas no campo visual: um homem que ela não reconhecia sentado numa cadeira à direita (mais sobre isso depois, o cérebro disse, catalogando), aparelhos que bipavam com a regularidade metronômica de instrumentos de percussão sem senso artístico, uma janela com a persiana levemente aberta por onde entrava uma luz de certo fim de tarde ou início de noite. Mas Nora era o rosto que ela reconhecia, e quando Nora disse o nome dela com aquela voz específica — a voz de emergência encoberta de calma, que Sophie tinha aprendido a identificar porque Nora a usava raramente mas perfeitamente —, algo no centro do peito afrouxou.
"Onde estou?" A própria voz soou estranha: grossa, levemente metálica, como um instrumento que ficou no frio.
"Hospital Royal Infirmary", disse Nora. "Em Bath. Você teve um acidente, Soph."
Sophie processou. Bath — certo, ela morava em Bath, esse era um fato acessível. Hospital — consistente com o cheiro e o teto e os aparelhos. Acidente — havia uma lacuna onde deveria haver memória do evento em si, mas a lacuna parecia local, não geral. Ela sabia seu nome, sabia o nome de Nora, sabia que morava em Bath, sabia como ler um relógio.
Ela virou a cabeça para o outro lado.
O homem da cadeira estava olhando para ela.
Tinha talvez trinta e poucos anos, pele morena, cabelos escuros levemente amassados como quem passou a mão neles várias vezes ao longo de um dia longo. Os olhos eram escuros e tinham uma expressão que ela identificou imediatamente — não porque conhecesse o homem, mas porque conhecia a expressão: era a expressão de quem está esperando ser reconhecido e já começou a se preparar para não ser.
Ela o examinou por um momento da forma como examinava estranhos: índice depois índice, tentando construir contexto a partir de detalhe. Ele usava um casaco escuro com o punho fechado numa tensão que não parecia agressiva — parecia contenção. Havia algo nos olhos que não era apenas preocupação; era algo mais próximo de luto antecipatório, aquela tristeza que vem antes do evento, não depois.
Sophie virou o rosto de volta para Nora.
"Quem é ele?"
O silêncio que se seguiu durou exatamente o suficiente para ser informativo.
---
A médica veio na manhã seguinte — ou o que Sophie descobriu ser manhã seguinte, porque havia dormido entre a primeira vez que acordou e essa nova vez, e o intervalo de tempo era apenas parcialmente claro. A médica era uma mulher de talvez quarenta anos, cabelos negros presos, óculos finos, com a postura de quem escolhe muito cuidadosamente a proporção entre eficiência e gentileza e acertou o balanço.
Priya Okonkwo, disse o crachá.
Neurologista.
Sophie observou enquanto a médica checava os aparelhos, fazia perguntas simples — nome, data, onde estava —, e foi catalogando o padrão das perguntas com a parte da cabeça que não doía. As perguntas tinham uma progressão: do óbvio para o menos óbvio, do concreto para o que dependia de contexto. Nome certo, data... ela deu a data que sabia. A expressão da Dra. Okonkwo confirmou que havia problema com a data.
"Que ano você acha que é?"
Sophie disse o ano.
A médica disse outro ano.
Havia uma diferença de três anos entre os dois números.
Sophie ficou olhando para a médica por um momento. Eram informações que precisavam ser organizadas: a diferença de três anos, a data incorreta, o fato de que ela tinha dito o ano errado com total confiança. Era como descobrir que um instrumento estava afinado de forma diferente do que você assumia — não destruía sua capacidade de tocar, mas reorganizava cada nota relativa a todas as outras.
"Três anos", disse Sophie.
Não era uma pergunta. Era uma confirmação em voz alta do cálculo.
"Sim", disse a Dra. Okonkwo. "Há evidências de que você perdeu acesso a aproximadamente os últimos três anos de memória. Isso pode ser temporário. É frequentemente temporário. Mas precisamos conversar sobre o que isso significa para o período imediato."
Sophie olhou para a janela. Outono. Árvores com folhas que estavam ficando laranja-marrom, a luz branca e baixa de outubro em Inglaterra.
"Outubro", disse ela.
"Outubro", confirmou a médica.
Outubro era consistente. Ela sempre odiava outubro levemente porque a luz mudava e os ensaios de outono do ensemble tinham uma qualidade diferente, mais urgente, como se a proximidade do inverno criasse pressão de performance. Esse outubro era o outubro certo, apenas três anos mais tarde do que ela havia chegado.
Ela olhou para a médica.
"O homem de ontem à noite."
A Dra. Okonkwo esperou.
"Nora não me disse quem era. Mas ela não saiu quando ele ficou. E ele não saiu quando ela ficou."
A médica tinha a qualidade rara de saber quando não preencher silêncio.
"Quem é ele?" Sophie perguntou.
"Eu gostaria de ter essa conversa com você e com ele presentes. Com a permissão de vocês dois."
Sophie inclinou a cabeça levemente — um gesto que ela não sabia que era característico, mas que o homem sentado no corredor, do lado de fora do quarto, teria reconhecido imediatamente se tivesse visto.
"Ele está aqui?"
"Desde as dez da noite de ontem."
Sophie processou. Um estranho que ficou no hospital a noite toda.
Não era a ação de um estranho.
---
Nora entrou antes do homem.
Ela estava com a mesma roupa de ontem — mochila ainda no ombro, óculos de tartaruga que estavam levemente tortos porque ela havia esquecido de ajustá-los, um copo de chá frio na mão esquerda que claramente havia sido pego há tempo demais e esquecido. Sophie reconhecia esses padrões na irmã: Nora esquecia de beber o chá quando estava processando coisas importantes.
"Soph." Nora sentou na cadeira ao lado da cama e pegou a mão dela com pressão firme mas não apertada. "Como você está se sentindo?"
"A cabeça dói. Estou tentando catalogar." Sophie fez uma pausa. "Você vai me dizer quem é ele."
"Sim."
"Antes ou depois que ele entrar?"
Nora abriu a boca e fechou. Era a resposta.
O homem entrou.
À luz do dia — e havia mais luz hoje, o sol de manhã entrando pela janela em ângulo baixo de outubro —, Sophie pôde examiná-lo com mais detalhe. Era alto, 1,82 metro no mínimo, com a postura de quem usa o próprio corpo como instrumento de trabalho — não rigidez, mas consciência corporal específica. O casaco escuro de ontem tinha sido substituído por uma camiseta escura e calça; provavelmente havia voltado ao apartamento, trocado de roupa, voltado. Os cabelos escuros estavam úmidos na raiz, levemente empurrados para o lado como se feitos por uma mão que tinha pressa.
Ele parou a uma distância razoável da cama.
Não estendeu a mão. Não se inclinou. Apenas ficou de pé com os ombros levemente afundados na postura de quem está segurando bastante peso e aprendeu a deixar os ombros absorver parte disso.
"Sophie", ele disse.
A voz tinha um sotaque. Brasileiro — ela o identificou imediatamente e esse reconhecimento foi satisfatório, a forma como coisas intactas da memória funcionavam: ela sabia sotaques, ela sabia o sotaque paulistano especificamente, havia algo no ritmo das sílabas que era diferente do carioca.
Ela respondeu "sim" e esperou.
"Eu sou Léo", disse ele. "Leonardo Carvalho. Você... a gente é..."
Ele parou.
Nora disse, com a voz calma e firme de quem já teve essa conversa consigo mesma várias vezes: "Vocês dois são namorados. Há dois anos."
O silêncio que se seguiu tinha a qualidade específica de um vácuo: toda a pressão da informação chegando de todos os lados ao mesmo tempo.
Sophie olhou para ele.
Ele estava olhando para ela de volta com os olhos escuros que tinham aquela expressão de antes — a de quem está se preparando para não ser reconhecido —, mas agora havia algo diferente junto, algo que ela não sabia nomear imediatamente. Era a expressão de alguém que está sendo muito cuidadoso com seu próprio rosto.
Ela tentou.
Tentou da forma como tentava recuperar uma passagem musical que havia aprendido muito antes: fazendo silêncio internamente, esperando que o padrão emergisse. Havia técnicas para isso, ela sabia as técnicas, o cérebro tinha caminhos de acesso que não eram sempre conscientes.
Nada emergiu.
O rosto dele era o rosto de um estranho.
Sophie olhou para suas próprias mãos sobre o lençol. Os calos nas pontas dos dedos. A palma larga. O polegar levemente mais curto do que seria proporcional — uma deformação menor de nascença que ela achava que ninguém notava mas que Nora certa vez havia dito que Sophie usava inconscientemente para testar atenção alheia.
Ela olhou de volta para o homem chamado Léo.
"Desculpa", disse ela, porque não havia outra coisa honesta para dizer.
Ele respondeu "não precisa pedir desculpa" com a voz muito controlada, e Sophie, que catalogava entonações com a precisão de uma afinadora, ouviu o esforço na frase inteira.
---
Mais tarde, depois que a Dra. Okonkwo tinha feito uma série de avaliações adicionais e Nora tinha saído buscar café, Sophie ficou sozinha no quarto por talvez dez minutos.
Ela ficou olhando para a janela. As árvores lá fora estavam perdendo folhas com aquela qualidade específica do outubro inglês: não todo de uma vez, mas em lotes, como uma orquestra que vai saindo em grupos depois de um concerto.
Havia um homem que era seu namorado há dois anos e ela não o reconhecia.
Havia três anos de sua vida a que ela não tinha acesso.
Havia um apartamento — ela deduziu isso da conversa, que ela não estava num hotel, que havia um lugar que seria sua casa — que conteria duas anos de um relacionamento que para ela não existia.
Sophie era perfeccionista da forma específica dos músicos: não o perfeccionismo ansioso de quem teme o erro, mas o perfeccionismo técnico de quem entende que precisão é a base da expressão. Você não pode interpretar com liberdade o que não domina com exatidão. A liberdade vem depois da estrutura.
Ela não tinha estrutura para nenhuma desta informação.
O que ela tinha era a mancha-peninsula no teto, que ainda estava lá, e o fato de que o homem chamado Léo havia ficado no hospital a noite toda, e que quando ela havia dito *desculpa* ele havia dito *não precisa* com a voz de alguém segurando uma partitura inteira de volta.
Esse dado ela guardou com cuidado, como se não soubesse ainda para que servia.
Mas guardou.
