CAPÍTULO 2Gratuito
O Herdeiro
O escritório de Arjun Mehta ficava no trigésimo segundo andar da Nexus Tower, em Canary Wharf, e havia sido projetado para impressionar. Vidro do chão ao teto, vista da curva do Thames que se estendia até Greenwich, uma mesa de carvalho escuro limpa o suficiente para operar uma cirurgia. Nenhuma fotografia pessoal. Nenhuma planta. Um único quadro na parede — abstrato, cinza e azul, comprado por uma curadora que Arjun nunca conhecera — e o aroma residual de chai que sua assistente preparava todas as manhãs às sete em ponto, exatamente como o pai gostava.
Arjun não pedia o chai. Não precisava. Sarah fazia porque Raj Mehta sempre tomara chai no escritório, e porque havia coisas que continuavam existindo depois da morte por pura inércia, como órbitas de planetas cujo sol apagou.
Ele tomou um gole. Cardamomo, gengibre, açúcar mascavo. O sabor era reconfortante e, por isso mesmo, doloroso — um lembrete diário de que seu pai estava morto e de que o chai continuava exatamente o mesmo.
Eram sete e quarenta e dois. O prédio ainda estava quase vazio, apenas segurança, limpeza e os poucos funcionários que, como ele, tratavam o nascer do sol como ponto de partida e não como cenário de fundo. Arjun gostava dessas horas. O silêncio do escritório era o único tipo de silêncio que não o incomodava — produtivo, funcional, preenchido por números e projeções e a satisfação mecânica de resolver problemas que tinham resposta.
Os outros silêncios — o da cobertura vazia à noite, o que se instalava entre ele e qualquer pessoa que tentasse uma conversa que não fosse sobre trabalho — esses eram diferentes. Esses tinham peso.
Abriu o e-mail. Setenta e quatro mensagens desde as cinco da manhã. Reunião do conselho marcada para sexta. Relatório trimestral da divisão de fintech. Uma mensagem de Sarah sobre o catering do evento beneficente do mês seguinte. E, aninhado entre o restante como uma serpente entre gravetos, um e-mail de Vikram.
*"Precisamos conversar sobre o testamento. Meu escritório, 10h."*
Arjun fechou o e-mail sem responder. Não porque não fosse responder — iria, era necessário — mas porque precisava de trinta segundos para recalibrar o maxilar, que havia travado automaticamente ao ver o nome do irmão.
Vikram Mehta. Trinta e oito anos. COO da Nexus por indicação do pai, que sempre acreditara que os dois filhos precisavam trabalhar juntos ou a empresa ruiria. Era uma crença generosa e, Arjun suspeitava, equivocada. Vikram não queria trabalhar junto. Vikram queria trabalhar em cima.
A diferença era sutil para quem observava de fora. Os dois irmãos em reuniões de conselho, lado a lado, Vikram com o sorriso largo e a voz projetada do primogênito que aprendera a ocupar espaços antes de ser convidado, Arjun com o silêncio calibrado de quem sabia que a melhor jogada quase nunca era a mais barulhenta. A imprensa adorava Vikram. Os investidores confiavam em Arjun. O pai amara os dois de maneiras diferentes que nenhum dos dois entendera completamente até ser tarde demais.
E agora havia o testamento.
§
Às dez em ponto, Arjun entrou no escritório de Vikram. Um andar abaixo — o trigésimo primeiro —, com a mesma vista mas um grau menos espetacular, o que era algo que Vikram nunca mencionava e claramente ressentia. O escritório dele tinha toques pessoais: fotos de Vikram com políticos e celebridades na parede, um troféu de polo na estante, o diploma de Cambridge emoldurado em nogueira. Tudo dizia: eu pertenço aqui. Tudo insistia com força demais.
Vikram estava de pé atrás da mesa, falando ao telefone. Levantou um dedo — *um momento* — e Arjun sentou sem esperar convite, cruzando as pernas com uma calma que era menos sentida do que performada.
—...sim, obviamente. Falo com meus advogados na segunda. — Vikram desligou e virou-se para Arjun. O sorriso era perfeito: dentes brancos, covinhas, olhos que sorriam meio segundo depois da boca, como se a alegria precisasse de um instante extra para subir. — Irmãozinho.
— Vikram.
— Café?
— Não.
Vikram sentou. Ajeitou a gravata — bordô, Tom Ford, o tipo de detalhe que ele esperava que as pessoas notassem. Pousou as mãos sobre a mesa e inclinou-se para frente com a postura de quem vai compartilhar uma confidência.
— O prazo está correndo, Arjun.
— Eu sei contar meses.
— Onze. — Vikram ergueu as sobrancelhas como se estivesse impressionado com sua própria matemática. — Onze meses até você completar trinta e cinco. E aí, bem... — Abriu as mãos num gesto que pretendia ser solidário e era qualquer coisa menos isso. — Sem casamento, sem controle majoritário. É o que o testamento diz.
— Eu sei o que o testamento diz.
— E o que você pretende fazer?
Arjun sustentou o olhar do irmão. Vikram tinha os olhos do pai — escuros, fundos, com uma intensidade que no pai era convicção e no irmão era ambição. A diferença era que Raj nunca parecera ansioso. Vikram, apesar de todo o controle, exalava uma urgência que denunciava o quanto desejava o que ainda não era seu.
— Pretendo continuar fazendo meu trabalho — disse Arjun.
— Seu trabalho depende dessas ações. — Vikram recostou-se. — Sessenta por cento é controle. Cinquenta é impasse. Você sabe disso.
— Sessenta por cento nas mãos de um CEO competente é estabilidade — disse Arjun, sem inflexão. — Dividido entre dois irmãos com visões diferentes é guerra.
— Não precisa ser guerra.
— Com você, sempre é.
O sorriso de Vikram oscilou, apenas uma fração — o lábio superior contraindo antes de retomar a posição original. Arjun registrou. Catalogou. Guardou.
— Olha — disse Vikram, mudando para o tom conciliatório que usava em negociações quando sentia que estava perdendo terreno —, eu sei que a cláusula é... inusitada. Papai tinha suas razões. Mas a realidade é simples: eu cumpro o requisito. Você não. E se em novembro você não estiver casado, a divisão acontece automaticamente, e o conselho vai precisar escolher quem lidera. — Pausa calculada. — E eu tenho mais apoio no conselho do que você pensa.
Arjun não respondeu imediatamente. Deixou os segundos pesarem no ar, como sempre fazia quando precisava lembrar ao irmão que o silêncio também era uma resposta.
— Você terminou? — perguntou, finalmente.
Vikram abriu a boca, fechou, e então riu — uma risada curta, sem calor.
— Estou tentando te ajudar, Arjun. Se o controle for dividido e o conselho votar, vai ser uma batalha pública. A imprensa vai adorar. Os investidores vão odiar. O preço das ações despenca. Ninguém ganha.
— Então por que está sorrindo?
Vikram parou de sorrir.
— Estou preocupado com a empresa.
— Você está preocupado com o seu lugar na empresa. São coisas diferentes.
O silêncio que se instalou tinha a densidade de um vidro blindado — transparente mas impenetrável. Vikram manteve a expressão controlada. Arjun manteve a sua. Dois irmãos num escritório com vista para o rio, separados por uma mesa e por tudo que uma mesa não conseguia conter.
Arjun se levantou.
— Se for só isso.
— Pense no que eu disse — respondeu Vikram, já pegando o telefone.
Arjun saiu sem olhar para trás.
§
Às duas da tarde, Arjun encontrou James Chen no pub que ficava na esquina da Nexus Tower. O Prospect of Whitby era o tipo de pub que turistas ignoravam e executivos frequentavam justamente por isso: cerveja decente, fish and chips aceitável, e mesas suficientemente separadas para conversas que não deviam ser ouvidas.
James já estava lá, com uma pint de London Pride na frente e o tablet aberto em cima da mesa. O terno dele era azul-escuro — menos sóbrio que o de Arjun, mais sóbrio que o de qualquer outro advogado de sua idade — e os óculos refletiam a luz pálida que entrava pela janela.
— Vikram? — perguntou James quando Arjun sentou.
— Vikram.
— O que ele quer?
— O que ele sempre quer. — Arjun fez sinal para o barman. Água com gás. Não bebia durante o dia, não por virtude, mas porque o álcool borrava os limites do controle e ele já vivia perto demais das margens. — Ele quer que eu aceite a divisão. Finge que é pelo bem da empresa.
— E você disse...
— Que ele está preocupado com o lugar dele, não com a empresa.
James soltou um som que era metade riso, metade suspiro.
— Diplomático como sempre.
Arjun aceitou a água que o barman trouxe. Bebeu. O gás era agressivo, o copo estava gelado, e o contraste com o ar morno do pub era o tipo de detalhe sensorial que ele notava e que a maioria das pessoas não: texturas, temperaturas, as camadas microscópicas da realidade que mantinham a mente ocupada e, portanto, segura.
— Onze meses — disse James, como se estivesse confirmando um prazo de entrega para um relatório. — É apertado mas não impossível.
— Impossível para quê?
James o olhou por cima dos óculos. — Para cumprir a cláusula.
Arjun pousou o copo. — Não vou me casar para herdar ações.
— Não é qualquer casamento. É uma formalidade jurídica com implicações patrimoniais de nove dígitos. — James bebeu um gole de cerveja, limpou a boca com as costas da mão e inclinou-se para frente. — E não é herdar ações. É manter o controle de uma empresa que você construiu junto com seu pai. A empresa que o Vikram vai desmontar peça por peça se tiver metade da chance.
— Eu sei.
— Então saiba também que existem opções.
— Opções como?
James olhou ao redor. O pub estava quase vazio — era terça-feira, a multidão do happy hour ainda não chegara. Mesmo assim, baixou a voz um grau.
— Uma solução prática. — As palavras tinham o peso de algo que James já vinha pensando há dias, talvez semanas, montando peça por peça como o advogado que era. — Um casamento contratual. Com alguém que entenda exatamente o que é, que assine sabendo dos termos, e que receba compensação adequada. — Pausa. — Sem ilusões, sem complicações. Um acordo entre duas partes adultas.
Arjun ficou em silêncio por um tempo que pareceu mais longo do que foi.
Pensou em Priya. Era automático — qualquer menção a casamento, a compromisso, a algo que se parecesse com futuro compartilhado, e a imagem dela surgia como um reflexo num vidro escuro. O riso dela. O jeito como ajeitava o cabelo atrás da orelha quando estava pensando. O silêncio que veio depois do telefonema do hospital, um silêncio tão absoluto que Arjun às vezes achava que nunca mais tinha ouvido som nenhum direito desde então.
Quatro anos. Quatro anos desde o acidente no M25. Quatro anos durante os quais ele trabalhara dezoito horas por dia, tomara chai que lembrava o pai, e mantivera o quarto de hóspedes da cobertura exatamente como estava — não como um santuário, mas como uma garantia de que havia pelo menos um cômodo na vida dele que permanecia inalterado.
E agora James estava sugerindo que ele colocasse outra pessoa naquela vida. Temporariamente. Contratualmente. Sem sentimento.
— Eu sei o que você está pensando — disse James, com uma suavidade que só usava quando o assunto era Priya.
— Não sabe, não.
— Estou pensando que não é traição. É pragmatismo.
— Eu disse que não sabe.
James levantou as mãos em rendição. — Certo. Eu não sei. Mas sei que Vikram está montando o tabuleiro. Ele tem o conselho nos ouvidos, tem a imprensa no bolso, e tem onze meses para fazer a vida de todo mundo mais difícil. Se você perder o controle da Nexus, o que acontece com os três mil funcionários que dependem das decisões que você toma? O que acontece com a divisão de AI que o Vikram quer vender para a Tencent?
Arjun sabia as respostas. Sabia cada cenário, cada projeção, cada consequência. Tinha planilhas para isso — planilhas que mantinham a dor organizada em colunas e fórmulas e resultados que não sangravam.
— Quem? — perguntou, e a palavra saiu mais rouca do que pretendia.
James bebeu mais um gole de cerveja. — Eu tenho alguém.
— Quem?
— Uma advogada do meu escritório. Júnior, mas brilhante. Trabalha em contratos — entende exatamente o tipo de documento que estamos falando. — Fez uma pausa. — E tem motivação financeira. Precisa de dinheiro. Não por ganância — por necessidade real.
— Nome.
— Marina Duarte. Brasileira, mestrado na UCL, três anos no UK. Discreta, competente, e pragmática o suficiente para considerar uma proposta dessas sem sair correndo.
Arjun girou o copo entre os dedos. A condensação deixava marcas na mesa de madeira escura, e ele as observou como se fossem dados a serem interpretados.
— Brasileira — repetiu.
— Mineira, pra ser preciso. Belo Horizonte. — James notou a expressão de Arjun e acrescentou: — Você não precisa gostar dela. Não é o ponto. Precisa confiar que ela vai cumprir o contrato e manter as aparências. E ela vai, porque o que está em jogo pra ela é igualmente sério.
— Quanto?
— Quinhentas mil libras. Dezoito meses. Depois: divórcio amigável, NDA mútuo, cada um segue sua vida.
Arjun soltou o copo. A umidade dos seus dedos brilhava sob a luz amarelada do pub. Do lado de fora, o Thames era uma faixa cinza-chumbo entre os prédios, e o céu não tinha nenhuma intenção de clarear.
— Eu quero conhecê-la antes — disse. — Pessoalmente. No escritório, não aqui.
— Claro.
— E eu quero redigir os termos junto com ela. Se ela é tão boa em contratos quanto você diz, que prove.
James permitiu-se um sorriso. — Isso eu posso garantir.
Arjun se levantou, deixou uma nota de vinte libras na mesa e ajeitou o terno — um gesto mínimo, quase imperceptível, que fazia parte da sua armadura tanto quanto o tecido.
— James.
— Sim?
— Isso não muda nada. — O tom era baixo, controlado, e dirigido tanto ao amigo quanto a si mesmo. — É um contrato. Nada mais.
— Nada mais — concordou James, mas seus olhos por trás dos óculos diziam outra coisa. Diziam: *vamos ver.*
Arjun saiu do pub. O ar de fevereiro atingiu seu rosto — cortante, úmido, com o cheiro mineral do rio misturado ao trânsito — e ele andou os quinhentos metros até a Nexus Tower sem olhar para o celular, sem cumprimentar os pedestres, sem pensar em nada além do som dos próprios passos no asfalto molhado.
No trigésimo segundo andar, o chai já tinha esfriado. Ele pediu outro a Sarah, abriu o relatório trimestral, e trabalhou até a meia-noite, como fazia todas as noites desde que ficara sozinho.
Só que naquela noite, entre uma planilha e outra, um pensamento escapou das colunas organizadas e se instalou num lugar que planilhas não alcançavam.
*Esposa de papel.*
Arjun deletou a aba que não deveria ter aberto — o perfil de Marina Duarte no site do escritório, foto três por quatro, cabelo preso, sorriso contido — e voltou aos números.
Os números não olhavam de volta.
