CAPÍTULO 2Gratuito
Frequência
Capítulo 2: frequência
O São José tinha o cheiro de todos os hospitais e o ruído de nenhum outro.
Afonso tinha demorado anos para perceber que cada hospital tinha um ruído próprio — não alarme, não os passos, não chamado no intercomunicador, mas a frequência de base, o fundo constante que ficava abaixo de tudo e que o corpo aprendia a ouvir sem registrar conscientemente. O Santa Cruz onde fizera parte da residência tinha frequência mais aguda. O Santa Maria, onde o pai ainda tinha colegas, era mais grave. O São José tinha algo no meio — uma frequência que ele conhecia de cor, que reconhecia quando saía de férias e voltava, como reconhece a voz de alguém antes de distinguir as palavras.
Tinha chegado às sete e quarenta e cinco para a cirurgia das oito.
O Guilherme Silva, sessenta e dois anos, diabético tipo 2 controlado com metformina e insulina basal, coronariopatia multiarterial com anatomia desfavorável para intervenção percutânea. Afonso tinha revisto as imagens na noite anterior — Marina estava lendo na varanda, ele com o laptop na mesa da cozinha, os dois no silêncio que funcionava como conversa entre eles —, e as coronárias tinham o aspecto de quem fumou trinta anos com convicção e depois parou tarde demais. Calcificações extensas. Lesão de tronco. A questão não era se operar, era como.
Decidira pela técnica de endarterectomia coronária em dois territórios. Não era o caminho mais simples. Era o caminho certo.
Na mesa, o Guilherme era apenas o que estava sob os campos azuis e o que estava nos monitores.
Afonso gostava disso — da capacidade do bloco cirúrgico de reduzir o mundo a suas variáveis essenciais. Lá fora: a história do homem, o medo do homem, a esposa que esperava na sala com aquele tipo específico de ansiedade que os familiares de cardíacos desenvolviam, o tom com que ela tinha apertado o braço dele quando ele a cumprimentara antes de entrar. Dentro: pulso arterial no monitor, débito cardíaco, temperatura corporal, o campo que delimitava o coração como objeto de trabalho.
A transição entre os dois estados era uma das poucas coisas que ele não conseguia descrever bem para quem não operava.
— Bomba estabilizada — disse o perfusionista.
— Obrigado, Paulo.
Cinco horas e vinte minutos. A endarterectomia da descendente anterior foi a mais longa — calcificação mais extensa do que as imagens tinham sugerido, o que não era incomum, o que exigia ajuste de plano cirúrgico em tempo real, que era onde a cirurgia parava de ser protocolo e se tornava julgamento. Afonso ajustou. O coração do Guilherme, quando voltou ao ritmo sinusal após a reperfusão, bateu com uma consistência que ele reconheceu como boa anatomia restaurada.
— Bom sinal — disse o anestesista, que era um homem de poucas palavras e cuja voz Afonso aprendera a calibrar ao longo de anos: esse "bom sinal" equivalia a entusiasmo contido.
— Sim — respondeu Afonso.
Saiu do bloco às duas e treze minutos da tarde.
D. Amélia estava no corredor com o sanduíche de fiambre e queijo.
Era um fenômeno que Afonso tinha parado de tentar explicar. A secretária sabia, por algum mecanismo que transcendia agenda ou previsão, exatamente quando ele sairia do bloco, e estava sempre no corredor — não na porta, não muito longe, no ponto do corredor que era o compromisso entre ser prestativa e não parecer que tinha estado esperando, embora claramente tivesse.
— A família está na sala vinte e dois — disse D. Amélia, estendendo o sanduíche. — Correu bem?
— Correu.
— A senhora ficou rezando. Descobri quando fui buscar água.
— Ela podia ter rezado no corredor.
— Ela disse que o senhor não gostava de barulho.
Afonso comeu metade do sanduíche no corredor, de pé, antes de ir falar com a família. A esposa do Guilherme — Maria José, sessenta anos, cabelo grisalho preso num nó apertado, os olhos que tinham a textura específica de alguém que passou horas tentando não chorar — ficou de pé quando ele entrou.
— Correu bem — disse ele, antes de ela perguntar. — Encontramos mais calcificação do que o esperado nas imagens, mas conseguimos fazer a remoção completa em ambos os territórios. O coração do seu marido voltou ao ritmo sem intercorrências. Ele está na UTI cardiológica.
Maria José colocou a mão na boca.
Afonso esperou. Sabia esperar — tinha aprendido isso, ou talvez sempre tivesse tido, a capacidade de ficar presente sem preencher o silêncio de outras pessoas.
— Posso vê-lo? — perguntou ela, por fim.
— Em algumas horas. Quando ele estiver mais estável no pós-operatório imediato.
Ela acenou. Depois, de forma inesperada, colocou a mão no braço de Afonso por um segundo — não um gesto de gratidão performática, mais como alguém que precisava de um ponto de apoio momentâneo.
— Obrigada, doutor.
— Obrigado, senhora Maria José.
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A Lapa ficava do outro lado da cidade.
Afonso saiu do São José às quatro e um quarto e apanhou o 758 — o ônibus demorava mais do que o táxi, mas havia algo naquela tarde específica que pedia o tempo do trânsito, o tempo de olhar pela janela para Lisboa se acomodar na luz de fim de tarde, o sol perdendo a brutalidade do meio-dia e ficando dourado e longo sobre os telhados.
O prédio do pai era de três andares, fachada de reboco amarelado que precisava de reparo, janelas com persianas de madeira. Afonso conhecia cada degrau da escada interior — o quarto que rangia, o sexto que não rangia apesar de parecer que ia —, e esse conhecimento era de infância, anterior a qualquer coisa que tivesse acontecido entre eles, pertencente à camada mais profunda da memória que era armazenada no corpo antes de ser armazenada em palavras.
O pai abriu antes que ele tocasse.
— Estava a ver pela janela — disse Henrique Salgueiro, recuando para dar espaço de entrada.
Tinha setenta e um anos e o corpo de alguém que ainda se movia como cirurgião — postura reta, mãos quietas, nenhum gesto desnecessário. O cabelo era branco desde os cinquenta, e as semelhanças físicas com Afonso eram da ordem das coisas que ele só notava quando via os dois no mesmo espelho, o que não era frequente. Olhos que eram mais cinza do que azul, onde os de Afonso eram mais azul do que cinza. O mesmo maxilar. A mesma forma de ficar parado como se o ar à volta fosse estrutural.
— Como foi a cirurgia? — perguntou Henrique, indo para a cozinha com naturalidade de quem já tinha a chaleira no fogo.
— Bem. Calcificação mais extensa do que as imagens indicavam. Endarterectomia dupla.
— Guilherme Silva?
Afonso parou. — Como sabes?
— O Machado falou comigo. — Uma pausa. — Não estava a pedir informação clínica. Falou em termos gerais. Disse que tinhas uma cirurgia difícil hoje.
O Machado era o cardiologista intervencionista que tinha encaminhado o caso. Afonso sabia que Henrique ainda tinha contactos no São José — era inevitável, quando se tinha operado durante trinta e cinco anos num hospital, a presença não desaparecia completamente com a aposentadoria. Ele tinha chegado a uma espécie de paz com isso.
Sentaram à mesa pequena da cozinha. O pai servia o café com o mesmo gesto preciso com que fazia tudo — sem excesso, sem desperdício, como se cada ação tivesse sido medida antecipadamente.
— O jardim precisa de poda — disse Afonso.
Henrique olhou pela janela para o jardim interior. A árvore centenária — ninguém sabia ao certo o que era, uma espécie de tília ou algo parecido que o avô de Afonso tinha plantado e que o avô do avô tinha talvez plantado antes — crescia em diagonal desde a última tempestade grande, os galhos chegando quase à janela do segundo andar.
— Precisa — concordou Henrique, sem elaborar.
Era assim. Afonso tinha aprendido, nos últimos dezoito meses de café e visitas ocasionais e uma ou outra refeição, que o pai comunicava as coisas que não conseguia dizer por meio de concordância com observações laterais. Era uma gramática que Afonso reconhecia porque era também a sua — tinham aprendido a mesma língua sem que nenhum dos dois soubesse que era a mesma.
— Como está a Marina? — perguntou Henrique.
— Bem. Turno duplo esta semana. Reunião com a Helena amanhã.
— Sobre os papéis?
Afonso olhou para o pai. — Como sabes dos papéis?
Henrique bebeu o café. — O Vasco mencionou.
Afonso sentiu algo endurecer no esterno — não dor, não exatamente, mais a sensação de tecido que se contrai em resposta a algo que não deveria estar presente. Vasco Salgueiro, tio por parte de pai, ex-presidente do conselho do Hospital Real de Santa Clara, era uma presença que Afonso administrava com a precisão de quem sabe que administração inadequada tem custo elevado.
— O Vasco mencionou o quê, exactamente? — perguntou ele, com cuidado.
— Disse que havia uma questão processual relativa ao passado profissional da Marina. — Uma pausa. — Disse-o como se eu não soubesse. Como se fosse informação nova.
— Não é informação nova.
— Eu sei. — Henrique pousou a chávena. — Disse-lhe que sabia. Ficou desapontado.
Afonso ficou quieto por um momento. Henrique continuou:
— O teu tio gosta de ser o único com informação. — Era uma observação neutra, factual, o tipo de coisa que um homem dizia sobre uma pessoa que conhecia há sessenta anos. — Tem gostado sempre.
— Sei.
— A Marina sabe que ele está no conselho.
— Sabe.
— Mas não sabe que ele acompanha os processos de perto.
Afonso não respondeu imediatamente. Era uma distinção que Marina sabia em teoria — sabia que Vasco havia sido presidente do conselho, sabia que isso lhe dava acesso a informação institucional — mas que talvez não pesasse da forma que deveria pesar no dia a dia. Era o tipo de coisa que ficava ao fundo quando os dias corriam bem.
— Vou falar com ela — disse ele.
— Não estou a dizer que tens de fazer alguma coisa. — Henrique limpou as mãos no pano de cozinha com um gesto que era mais velho do que a conversa. — Estou a dizer o que ouvi.
Afonso acenou.
Ficaram mais meia hora. Henrique perguntou sobre um paper que Afonso estava revisando para o Journal of Thoracic Surgery — tinham descoberto, nesses meses, que conversar sobre trabalho era o caminho mais natural para chegar às outras coisas, como se a medicina fosse o corredor de acesso às salas que tinham ficado fechadas por anos. Afonso perguntou sobre a fisioterapia do joelho, que estava melhorando mais devagar do que Henrique admitia.
Na saída, já no corredor, Henrique disse — sem virar:
— Vais pedir a Marina em casamento?
Afonso parou.
Era uma pergunta que tinha a qualidade de algo pensado durante toda a conversa, ou talvez durante as semanas desde a última visita, ou talvez mais. Henrique não fazia perguntas por impulso.
— Por que perguntas? — disse Afonso.
— Porque ela merece que lhe perguntes. — Uma pausa curta. — E porque tu mereces perguntar.
Afonso ficou parado no batente da porta. O corredor cheirava a madeira antiga e a algo que era difuso demais para nomear — o cheiro de uma casa onde muitas coisas tinham acontecido.
Não respondeu. Mas Henrique não esperava resposta — essa também era a gramática deles.
Desceu para a rua.
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O regresso a Alfama foi de metro e a pé, porque já era tarde o suficiente para o trânsito de ônibus ser problemático e porque Afonso precisava dos passos. Era uma coisa que tinha descoberto — que pensar enquanto andava era diferente de pensar parado, que o movimento organizava algo que a imobilidade deixava suspenso.
A rua da Saudade ficava a subir.
Quando chegou, o apartamento tinha cheiro de comida — Marina na cozinha, o risoto que ela tinha prometido, o barulho específico da colher de pau na panela. Ela tinha o rádio ligado em alguma coisa que ele não reconheceu imediatamente e que ela desligou quando ouviu a porta.
— Como foi Henrique? — perguntou ela, sem virar.
Afonso pousou a pasta no banco perto da entrada e soltou a gravata com o gesto que era a primeira coisa que fazia ao chegar a casa, sempre, como um ritual de transição entre o médico e o homem.
— Bem. — Pausa. — Falou no Vasco.
Marina parou de mexer o risoto.
Não muito — um segundo, o tipo de pausa que alguém faz quando uma variável entra no campo que não era esperada. Depois continuou.
— O que disse?
— Que o Vasco sabe dos papéis. Que mencionou a questão processual como se fosse informação nova.
Marina ficou quieta.
— Helena disse que é formalidade — disse ela, depois.
— Sei o que Helena disse.
— E o Vasco diz outra coisa?
— O Vasco não disse nada diretamente. É o jeito dele. — Afonso foi até à bancada e ficou de lado para ela, os dois no espaço pequeno da cozinha onde as coisas que importavam eram ditas com mais frequência do que em qualquer outro lugar do apartamento. — Falo com Henrique. Fico a saber o que sei. Digo-te.
Marina olhou para ele. Aqueles olhos mel com as estrias esverdeadas que ele continuava a achar que eram a coisa mais honesta que conhecia — não porque fossem transparentes, mas porque eram precisos, porque comunicavam o que eram sem exagero e sem subtração.
— Tudo bem — disse ela.
— Não é tudo bem.
— Eu sei. — O canto da boca subiu ligeiramente. — Por isso não disseste que era.
Ele reconheceu as próprias palavras de volta e sentiu algo que não era exactamente orgulho mas que tinha a temperatura do orgulho.
Jantaram com o risoto e com uma garrafa de vinho que tinha ficado de uma noite que não lembrava, e Marina contou sobre a substituição valvar — a calcificação da comissura que tinha exigido ajuste de técnica, a forma como Inês tinha antecipado o movimento correto sem precisar de instrução —, e ele contou sobre o Guilherme e a Maria José com a mão no braço, e conversaram sobre casos com a naturalidade de quem fala sobre o dia sem precisar traduzir o vocabulário.
Às dez e meia, Marina adormeceu no sofá com o livro aberto na página quarenta e três.
Afonso ficou olhando para ela por um momento.
Depois foi ao piano.
Tocou baixo — muito baixo, o tipo de toque que não acorda ninguém mas que ainda é música, que ainda é a coisa que precisava ser. Tocou a peça sem nome que tinha começado há meses, que chamava internamente de Marina por razões que eram precisas e que jamais explicaria em voz alta. Era uma peça que tinha a qualidade de pergunta — não de pergunta que esperava resposta, mas de pergunta que existia porque existia, porque algumas perguntas eram mais verdadeiras do que qualquer resposta possível.
A pergunta que não precisa de resposta.
Mas talvez, pensou Afonso enquanto os dedos encontravam as notas de cor, talvez algumas perguntas precisassem de resposta afinal.
E talvez ele soubesse, já soubesse há tempo, qual era a sua.
O Tejo estava lá fora, escuro e largo, e Lisboa estava dormindo, e Marina estava a dormir no sofá com o livro aberto, e Afonso tocou até que os dedos ficaram cansados e o silêncio soou como conclusão provisória.
Depois fechou o piano com cuidado, apagou a luz pequena, colocou uma manta em Marina sem acordá-la, e foi dormir com o pensamento que tinha levado do corredor da casa do pai:
Ela merece que lhe perguntes.
E tu mereces perguntar.
