LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 6

Fora do Ar

Margaux Ferreira · romance-contemporaneo

Capítulo 6: Antes Que Ele Abra os Olhos

Monaco — Presente (Isabela)

Ela acordou às seis e quinze sem alarme, como sempre, porque o corpo dela não tinha aprendido a dormir até tarde mesmo quando o descanso seria útil.

Por um momento ficou completamente parada.

Era o momento em que o sono ainda não tinha terminado completamente e a consciência ainda não havia reassumido o controle — aquele intervalo de segundos em que a mente ainda não carregou o contexto e o mundo é apenas sensação sem narrativa. A luz que começava a entrar pela janela. O peso do edredom. A respiração ao lado, regular.

Depois veio o contexto.

Isabela ficou parada por mais um momento, de propósito, sem se mover. Se ela ficasse imóvel o suficiente, o intervalo podia durar um pouco mais. Era uma ilusão e ela sabia que era uma ilusão, mas havia um valor específico naqueles segundos antes de começar a calcular.

Ele estava dormindo. A respiração do lado esquerdo era profunda e regular — Lucien dormia de um jeito que parecia decisão, como se tivesse escolhido conscientemente descansar e estivesse cumprindo. Ela tinha observado isso nos outros setembro. Havia noites em que ele ficava acordado depois que ela dormia — ela percebia pelo ritmo diferente da respiração, pela forma como a ausência de movimento num homem acordado é diferente da ausência de movimento num homem dormindo — mas quando ele dormia, dormia completamente.

Esta era a última vez que ela ia acordar assim.

Ela não pensou a frase de forma dramática. Pensou de forma fática, como um dado. A última vez neste quarto, nesta luz, com este peso ao lado. No domingo ela voltava para o aeroporto e pegava o voo para São Paulo e em quinze dias havia um jantar com as famílias e um fotógrafo e uma nota para a imprensa.

Isabela moveu-se devagar, afastando o edredom com cuidado. Pôs os pés no mármore — frio, sempre frio nesta hora. Pegou o robe que estava sobre a cadeira perto da janela e o colocou sem fazer barulho.

Abriu a porta da varanda.

O ar da manhã em Monaco tinha uma qualidade específica a esta hora — mais frio do que o dia prometia, ainda úmido de maresia, sem o peso do calor que chegaria mais tarde. O porto abaixo estava quase quieto: algumas embarcações se movendo, um pescador talvez, a água cor de chumbo-azulado naquela luz de antes do sol.

Isabela ficou com as mãos no parapeito.

Este era o lugar. Não Monaco em abstrato, não o Mediterrâneo, não o Hotel de Paris com sua história de um século e seus mármores polidos. Este parapeito específico, esta varanda, esta hora antes do dia começar. Era aqui que ela conseguia ser honesta consigo mesma com menos esforço do que em qualquer outro lugar.

E o que ela via quando ficava honesta: queria continuar.

Não setembro — não apenas setembro. Queria acorda assim todos os dias, o que era uma frase que ela nunca havia pensado em relação a nenhuma outra pessoa, nem mesmo a Felipe Drummond, com quem havia concordado em construir uma vida. Com Felipe havia consideração mútua e interesse compartilhado e a racionalidade clara de dois adultos que escolhiam o oportuno sobre o instável. Isso era algo.

Mas não era isto.

Ela apoiou os cotovelos no parapeito. Fechou os olhos por um momento. O peso daquela honestidade — o peso de querer algo que não podia ter e ter escolhido outra coisa que não queria — era da variedade específica de dor que vem de decisões conscientes. Não era tragédia. Era apenas o custo.

O Grupo Ferraz era o que era. Ela sabia desde os doze anos que havia uma expectativa sobre ela que não era negociável. Eduardo Ferraz não havia dito explicitamente — não precisou. Estava no modo como ele a levava para as reuniões de conselho antes que ela fosse em idade para participar formalmente. No modo como ele dizia *você vai entender isso quando for a hora*. Na forma como o nome Ferraz carregava peso histórico que era ao mesmo tempo privilégio e corrente.

Lucien Moreau era o adversário. Não pessoalmente — jamais pessoalmente, pelo menos não aqui — mas estruturalmente. As empresas deles existiam em oposição em mercados que se sobrepunham em três continentes. O que o Groupe Moreau ganhava, em alguma medida, o Grupo Ferraz não ganhava. Aquilo era aritmética simples do mercado de comunicação.

E havia a TV Sul. Que ela ainda não sabia que ele queria — ou que ele soubesse, ou que houvesse qualquer convergência real além do interesse geral de ambas as empresas no mercado brasileiro. Mas a estrutura era assim: em qualquer conflito real de interesse, ela era Ferraz. Não havia separação possível.

Ela não podia ser Isabela e ser Ferraz ao mesmo tempo com o mesmo homem.

*Vai ao menos dizer a ele por quê?* perguntou uma parte sua.

A outra parte — a parte que tinha feito o cálculo, que havia dito sim a Felipe, que sabia o que era o legado e o que era dever — respondeu: *vai complicar a despedida*.

O sol começou a aparecer além das colinas. A água do porto mudou de cor — do chumbo para um azul que era mais vivo, mais real, a luz do dia recuperando o mundo das suas formas noturnas.

Ela ia dizer hoje. Não agora, não nesta manhã ainda, mas hoje. Ele merecia saber antes do fim de setembro e ela merecia não carregar aquilo por mais dois dias.

A porta da varanda abriu atrás dela.

Ela não virou. Ouviu ele se aproximar, ouviu o silêncio específico da sua presença.

Já não havia tempo para mais um momento sozinha.

CAPÍTULO 7

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