LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 5

Fora do Ar

Margaux Ferreira · romance-contemporaneo

Capítulo 5: O Custo de Setembro

Monaco — Presente (Lucien)

Ela estava dormindo.

Lucien ficou com a respiração baixa, a consciência completamente acordada, e ouviu o ritmo da respiração dela ao lado. Regular. Profundo o suficiente. Real.

O quarto estava escuro exceto pelo reflexo das luzes do porto entrando pela janela que eles tinham deixado entrar um dedo de brisa antes de deitar. Monaco à noite tinha uma luminosidade própria — não a escuridão completa de lugares que realmente dormem, mas uma claridade residual de um lugar que nunca se desliga completamente.

Ele não dormia. Não era incomum — Lucien Moreau dormia bem em condições normais, com a eficiência metódica que aplicava a tudo, mas havia certas noites em que a mente recusava o protocolo. Esta era uma dessas noites.

Com ela, era diferente.

Ele tinha observado isso no segundo setembro, quando percebeu que ficava acordado depois que ela dormia não por insônia mas por algo deliberado, uma escolha que não era completamente consciente: a necessidade de mais tempo. Como se as horas em que ela estava acordada não fossem suficientes para tudo que setembro continha, e as horas em que ela dormia fossem uma extensão disponível.

Era uma forma de cálculo. Tudo com ele era uma forma de cálculo.

Lucien girou levemente, o suficiente para vê-la sem mover o colchão de forma perceptível. A luz do porto chegava pela janela e acertava de raspão nos contornos dela — o ombro, a curva do pescoço, o cabelo solto que era tão diferente do cabelo preso de conferências que parecia quase uma informação diferente sobre a mesma pessoa.

Ele a tinha conhecido com o cabelo preso. Havia três anos antes de Monaco, numa mesa de negociação em Genebra sobre aquisição de direitos de transmissão para a Copa do Mundo. Ela representava o Grupo Ferraz, ele o Groupe Moreau, e a negociação havia durado dois dias e terminado sem acordo porque nenhum dos dois estava disposto a ceder o suficiente. Ele havia saído da sala com uma impressão precisa: alguém que entende o valor do que tem e não vende por menos que o preço justo.

Ela havia saído da sala sem olhar para ele.

E então, quatro meses depois, Monaco. Não foi planejado — ou foi planejado tão naturalmente que a diferença era semântica. Era a mesma semana de setembro, eram dois adultos adultos o suficiente para reconhecer o que estava acontecendo, e havia aquele jantar no segundo dia, aquela conversa que começou como conversa e foi se tornando outra coisa, e havia um momento em que a pergunta estava no ar entre eles — não dita, mas presente — e ela tinha sido quem a respondeu primeiro, com um gesto pequeno, uma inclinação mínima que só podia ser lida de um jeito.

Depois daquilo, as regras tinham surgido naturalmente. Monaco, setembro, fora do ar. Sem nomes de empresas, sem família, sem o peso do que eram no mundo de fora. Nenhuma promessa além da que era implícita: que o próximo setembro chegaria.

Havia funcionado. Por três setembro tinha funcionado muito bem.

No terceiro setembro, Lucien tomara uma decisão.

Ele calculara o custo de setembro com a mesma frieza que aplicava a qualquer análise de investimento: o que ele tinha, o que custava ter, e o que perdia por não ter mais. A conclusão era incômoda. Setembro era suficiente apenas enquanto ele não calculava o que seria o resto. Quando calculou o resto — os outros onze meses, os eventos sem ela, as conversas com pessoas que não eram ela, a forma como todo o resto ficava com aquela qualidade de ruído de fundo — o cálculo mudou.

Mas ele não havia dito nada. Porque septembro tinha as regras que tinha, e porque havia outra informação que ele carregava e que ainda não havia comunicado — e esse peso não era pequeno.

A TV Sul. A concessão federal que vencia no ano seguinte, o ativo mais cobiçado no mercado de mídia sul-americano. O Groupe Moreau tinha interesse declarado internamente desde dois anos atrás. Ele sabia do interesse do Grupo Ferraz porque o mercado inteiro sabia — Eduardo Ferraz tinha transformado aquilo numa questão quase pessoal, de honra, de legado.

Lucien tinha ficado acordado numa noite do terceiro setembro, exatamente como agora, com ela dormindo ao lado, e havia pensado: se eu digo o que sei sobre a TV Sul, o que acontece? Não a ela, não ao negócio. A isto aqui. A setembro.

E havia decidido, com a clareza fria que o tornava eficiente em negócios e que aqui era apenas uma forma de proteção de baixa qualidade: não dizer.

Não ainda.

Essa decisão pesava mais do que ele havia estimado. Pesava esta noite, com ela ao lado, com os ombros que ele havia notado na chegada ainda presentes no pensamento, com a mala fechada e o telefone na gaveta e a forma como ela havia dito *estou bem* com uma precisão que era o oposto de espontânea.

Havia algo que ela sabia e ele não sabia. Havia algo que ele sabia e ela não sabia.

Esse era o mapa atual de setembro e era um mapa com mais zonas de sombra do que em qualquer setembro anterior.

Lucien ficou olhando o reflexo das luzes do porto no teto. Ela respirava ao lado. O custo de setembro — o real, o que ele tinha recusado a calcular completamente por dois anos — estava se tornando impossível de ignorar.

Porque setembro era apenas suficiente se o resto do ano não importasse.

E o resto do ano, ele percebia, estava importando mais.

CAPÍTULO 6

Antes Que Ele Abra os Olhos

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