LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Vantagem
Capítulo 4 — Ângulo A quadra dezesseis era ao lado da quadorze, que ficava ao lado da doze. Era a última quadra do conjunto de prática do lado leste. Tinha a vantagem de ser mais distante da Philippe-Chatrier, o que significava menos eco, menos vento de redemoinho que se formava entre os estádios principais, menos gente passando para olhar.
James gostava de quadras periféricas. O treinador também.
David Holroyd era o nome do treinador. Inglês, sessenta e dois anos, tinha treinado três campeões de Grand Slam em duas décadas, era casado com uma psicóloga esportiva que James nunca tinha conhecido. Holroyd tinha uma característica útil: falava pouco. Quando falava, dizia algo específico. Quando não falava, era porque não havia nada a dizer.
Os dois estavam na quadra às catorze e vinte e oito. James fez o aquecimento sozinho — corrida em volta da quadra, alongamento dos ombros, dez saques de aquecimento sem força. Holroyd, do outro lado, esticava as próprias costas com uma faixa elástica. Tinha uma hérnia antiga que limitava a movimentação dele.
— Hoje é segundo serviço — disse Holroyd, sem cerimônia.
— Eu sei.
— Quero ver os três ângulos. Pra fora no Ad. Pro corpo no Deuce. Pelo T no Ad de novo.
— Tudo bem.
James foi para a linha de saque. Pegou três bolas. Uma no bolso do shorts, duas na mão.
O segundo saque era o ponto que ele mais trabalhava. Não porque fosse um ponto fraco — não era — mas porque ele acreditava, e tinha provado em estatísticas internas, que um segundo saque com colocação variável valia mais do que um segundo saque com velocidade alta. Ele queria não ser previsível. Sacar a 165 km/h sempre no mesmo lugar era convidar adversário a atacar. Sacar a 145 km/h, 150, 155, em três pontos diferentes da caixa de saque, com efeito kick que subia até o ombro do adversário, era um problema impossível de ler.
Era o que ele estava treinando.
Primeira bola. Subiu. Plantou os pés. Bateu na bola num ponto alto, com torção de pulso pra dentro. A bola foi com kick alto, bateu no canto externo do quadrante de saque adversário no Ad. Saiu do quadrado por meio palmo.
— Fora — disse Holroyd. — Curto demais no toss.
— Sim.
Segunda bola. Mesmo movimento. Toss um centímetro mais à frente. A bola foi, bateu na linha externa.
— Boa.
Terceira bola. A bola foi pelo T. Bateu firme.
— Boa.
James pegou três bolas novas no balde.
Trabalharam por uma hora e dez. Saques pra fora no Ad, saques pelo corpo no Deuce, saques pelo T. Variação de toss, variação de torção. Holroyd, do outro lado, anotou algumas coisas num caderno preto. Em cada série de dez saques, dizia uma coisa. *Ombro caindo no quinto.* *Pernas dobrando menos.* *Boa série.* Era assim.
Quando o treino terminou, James sentou no banco lateral, com a toalha no pescoço. Estava suando. O céu, que tinha ficado cinza durante a manhã, tinha aberto um pouco — havia sol oblíquo agora, no fim da tarde, alongando as sombras das grades em volta da quadra.
Holroyd sentou ao lado.
— Você está concentrado.
— Estou.
— A perna esquerda dobrou mais hoje. Está sentindo o joelho?
— Não.
— Tudo bem.
Holroyd ficou em silêncio por um momento. Depois disse, sem mudar o tom:
— Vrána não vai ser problema. Daqui a duas rodadas o circuito aperta. Quero você jogando pelo menos o nível do treino de hoje na terceira rodada.
— Vou.
— Eu sei.
Holroyd levantou. Pegou o balde de bolas. Saiu da quadra primeiro, indo guardar o material no depósito atrás da quadra catorze. James ficou sozinho mais alguns minutos.
Foi até o canto. Tomou água. Olhou para o saibro — vermelho-escuro nos pontos onde tinha pisado mais, vermelho mais claro nos cantos. As marcas de saque dele estavam todas concentradas em três áreas. Ele pôde ver a geometria. Era satisfatório.
Voltou para o vestiário. Tomou banho rápido. Trocou de roupa. Saiu.
O refeitório do torneio era no térreo do edifício administrativo de Roland Garros, do lado das salas de fisioterapia. Era um espaço longo, de teto baixo, com bandejões de aço inoxidável no fundo, mesas longas comunais no centro, e algumas mesas redondas menores nas laterais. Na hora do almoço estava cheio. Na hora do jantar — começava às dezessete e ia até as vinte e duas — variava conforme o dia. Hoje, uma terça antes do início oficial dos jogos, estava em meia ocupação.
James entrou. Cumprimentou com a cabeça três pessoas que conhecia: um espanhol, um americano, um italiano que não era o adversário dele de Roma mas que se parecia com o adversário de Roma. Pegou bandeja. Foi para a fila.
Comida do torneio: arroz, frango grelhado, salada verde, pão integral. Pegou de tudo na quantidade que sempre pegava. Era um padrão que tinha aprendido com o nutricionista do circuito — proteína, carboidrato complexo, fibra, sem variar muito. Pegou também uma garrafa de água com gás.
Foi até uma mesa redonda no canto. Sentou. Pegou o telefone para checar mensagens enquanto comia.
Callum entrou cinco minutos depois. Bandeja na mão. Sentou em frente.
— Você comeu sem mim.
— Eu comecei sem você. Você está chegando agora.
— Hmm.
Callum começou a comer. Por uns três minutos, comeram em silêncio.
— Você viu — disse Callum, com a boca um pouco cheia — quem foi a primeira jogadora a fazer a coletiva inicial hoje?
— Não.
— Foi ela.
James não respondeu. Continuou comendo.
— Disseram lá nos vídeos — continuou Callum — que ela está jogando diferente este ano. Mais agressiva ainda. O comentarista francês falou que ela aumentou de uns dois quilos de massa muscular nas costas, dá pra ver no backhand. Ela está machucando a parceira nas duplas.
— Ela joga duplas?
— Não, individual só. Mas ela jogou duplas em Madrid, abriu um torneio de prepração no início do ano. A parceira reclamou que tinha que ficar no fundo porque qualquer bola que ia pra rede a Ferraro batia tão forte que ia pelo meio das pernas dela. — Callum riu. — É uma reclamação engraçada, na verdade. A parceira gostava dela. Mas é verdade. A Ferraro está batendo mais forte.
— Hm.
James pensou nisso. Não disse nada por um tempo. Depois pegou o celular, abriu o aplicativo das estatísticas do circuito. Procurou o nome dela.
Ranking 8. Vitórias na temporada: 22-6. Roma — final, perdeu para a número um. Madrid — quartas. Stuttgart — campeã. Backhand cruzado: melhor estatística do circuito feminino em ângulo de saída desde 2021. Forehand: subido em consistência neste ano em relação aos anteriores. Saque: estável. Segundo saque: ainda vulnerável, taxa de quebra 31% no segundo serviço, alta em relação às top dez.
Ele anotou isso na cabeça. Sem motivo específico. Era informação sobre o campo. Era o que ele fazia.
Callum, do outro lado da mesa, comia salada com garfo, olhando para ele.
— Você está anotando sobre ela — disse Callum.
— Estou olhando estatísticas.
— Estatísticas dela.
— Estou analisando o campo.
— O *campo* — repetiu Callum, com uma vírgula audível.
— Sim.
— Você não joga contra ela, James.
— Estatística é estatística. Não importa se eu jogo contra ou não.
Callum não respondeu logo. Mascou. Engoliu.
— Tá bom.
— O quê?
— Tá bom, eu acreditei. Você está analisando o campo.
— Cal.
— Tá bom.
Callum levantou. Foi pegar mais frango. Voltou. Sentou. Não tocou no assunto de novo.
Comeram em silêncio. James fechou o aplicativo das estatísticas. Pôs o telefone de tela para baixo na mesa, ao lado da bandeja. Continuou comendo.
Quando terminaram, levantaram juntos. Levaram as bandejas até o balcão de devolução. Saíram do refeitório. No corredor, uma fisioterapeuta francesa que conhecia James de um torneio anterior cumprimentou. James respondeu com a cabeça, sem parar.
Foram pelo corredor central que ligava a área dos jogadores à saída leste do complexo. Era um corredor branco, com fotografias emolduradas de campeões antigos nas paredes. Suzanne Lenglen. Björn Borg. Steffi Graf. Rafael Nadal — várias dele, em ângulos diferentes. Nadal era um santo ali.
Antes do final do corredor, Callum parou para amarrar o tênis.
James seguiu adiante mais alguns metros. Parou também, esperando.
E foi nesse momento, parado no meio do corredor, que ele a viu.
Ela vinha do outro lado, pelo corredor que ligava ao vestiário feminino. Estava de roupa de treino, cabelo preso, sacola de raquetes no ombro, a treinadora — a mãe, ele lembrou; era a mãe — caminhando ao lado, falando algo em italiano.
Os olhos dela passaram pela face dele. Pararam por um instante. Voltaram para frente.
Ela não cumprimentou.
James, por reflexo, fez o gesto mínimo de cumprimento que sempre fazia com qualquer jogador do circuito — uma elevação curta do queixo, uma fração de segundo de contato visual, sem sorriso, sem palavra.
Ela não retribuiu.
Não foi rude. Apenas não retribuiu. Era como se ela tivesse decidido, num cálculo de meio segundo, que ia agir como se não tivesse visto. Os olhos dela passaram para o piso, depois para a parede, depois para a porta de saída ao final do corredor.
Passou. A treinadora passou junto, sem cumprimentar também, mas com uma olhada lateral que James captou — a treinadora *registrou* ele, registrou que ele estava ali, registrou que a filha tinha desviado o olhar.
Saíram pela porta da esquerda.
Callum levantou da posição de amarrar o tênis. Olhou para James.
— Você viu o que aconteceu?
— Vi.
— Beleza.
James não respondeu. Continuou caminhando.
Callum acompanhou. Andaram em silêncio até o carro do torneio, que estava esperando no estacionamento. Entraram. O motorista deu a partida.
— Cara — disse Callum, depois de uns dois minutos. — Eu não vou mais comentar nada. Fica anotado. Não é mais minha responsabilidade.
— Sobre o quê?
— Sobre nada.
James olhou pela janela. Os portões do Bois de Boulogne deslizando para trás. As árvores enormes formando uma abóbada verde-escura sobre o caminho.
Anotou na cabeça, mesmo sem querer: *Ela não cumprimentou.* Era um padrão. Os padrões sempre tinham significado.
Mas também: ela não cumprimentava nenhum top dez masculino com qualquer cordialidade especial. Ele tinha visto. Em outros torneios. Em outros corredores. Ela não era uma jogadora que cultivasse cumprimentos no circuito.
Talvez fosse só isso.
Talvez.
Encostou a cabeça no banco. Fechou os olhos.
Reabriu depois de uns trinta segundos.
— Cal.
— Que.
— Você se lembra da final de duplas mistas de Roland Garros há três anos?
Callum demorou três segundos pra responder. James notou os três segundos.
— Lembro.
— Você comentou da minha jogada decisiva, na hora?
— Lembro do que aconteceu, James.
— Mas comentou?
Callum olhou para ele por uns dois segundos.
— Comentei pouco.
— Por quê?
— Porque você não pareceu interessado em discutir. Você ganhou. A gente foi pro hotel. No outro dia você estava treinando pro próximo torneio.
— Hm.
James voltou a olhar para a janela. As árvores deslizando. O carro entrou no boulevard.
Tinha ouvido a entonação na resposta de Callum. *Comentei pouco.* Não era *comentei normalmente.* Era uma redução deliberada de comentário. Callum tinha decidido, na época, não dizer alguma coisa.
Ou tinha dito e James não tinha registrado.
Ou — e essa era a terceira possibilidade, talvez a mais provável — Callum tinha avaliado naquele momento que James não iria querer ouvir, e tinha guardado para depois. *Depois* sendo, talvez, três anos.
James não perguntou mais. Callum tinha sido claro: não ia dizer mais nada.
Vrána. Segundo saque. Slice de backhand. Era nisso que precisava pensar.