LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Fora do Ar
Capítulo 4: Fora do Ar
Monaco — Presente (Isabela)
A regra não era escrita porque não precisava ser. Havia coisas que existiam entre eles por convenção tácita, pela sobreposição de quatro setembro que foram construindo uma gramática sem que nenhum dos dois propusesse deliberadamente: o silêncio na chegada, o vinho antes do jantar, o terraço no fim da tarde. E esta: nenhum negócio, nenhuma família, nenhuma notícia.
Monaco era fora do ar.
Isabela tinha ajudado a construir essa regra tanto quanto ele, talvez mais. Havia uma necessidade sua — mais urgente do que conseguia admitir nos outros onze meses — de existir por alguns dias sem o peso do sobrenome. Ferraz. A palavra tinha um campo gravitacional próprio que ela carregava desde que aprendeu a andar. Era a empresa, era o pai, era a obrigação de ser digna de uma herança que não havia pedido mas que havia aceitado com tudo que vinha junto, inclusive o custo.
Monaco era o lugar onde ela não era Ferraz. Era apenas Isabela. A distinção parecia pequena dita assim, mas quatro anos de setembro tinham lhe ensinado que era a distinção mais relevante da sua vida.
Ela tinha ajudado a construir a regra porque precisava dela. Porque era a justificativa que ela encontrava para si mesma: eu posso ter isto porque não contamina nada além deste quarto.
O problema era que agora havia contaminação. Não porque setembro vazara para o mundo — ninguém sabia, nenhuma câmera os havia flagrado, nenhum jornalista farejara a coincidência de dois executivos rivais passando a mesma semana no mesmo principado. O problema era que o mundo havia vazado para setembro.
A bolsa vibrou enquanto eles aguardavam a mesa no restaurante do hotel.
Isabela sentiu a vibração contra o quadril como uma descarga física. O reflexo foi imediato — a mão movendo-se em direção à alça, o gesto de verificar. Foi um décimo de segundo e ela deteve o movimento.
Lucien não disse nada. Mas ela percebeu, pela qualidade específica do silêncio ao lado dela, que ele tinha notado.
Ela ficou com as mãos no colo.
O maître os levou à mesa. A mesma de sempre — canto, discreta, com visão para a sala mas afastada o suficiente das outras mesas para que uma conversa em tom normal não chegasse a ouvidos alheios. Era a mesa que eles sempre pediam. Isabela não sabia se o hotel já associava os nomes ou se era coincidência que a mesa estivesse sempre disponível em setembro.
O restaurante tinha a elegância contida que caracterizava os melhores estabelecimentos de Monaco — não ostentação, mas precisão. Flores frescas, talheres corretos, iluminação que tornava tudo ligeiramente mais belo do que era. Isabela abriu o cardápio por hábito, por algo para fazer com as mãos, embora soubesse o que ia pedir.
— Você leu o Pamuk? — perguntou Lucien.
Ela levantou os olhos. Ele estava com o cardápio fechado no canto da mesa, olhando para ela.
— Qual?
— *O Museu da Inocência.* — Uma pausa. — Você mencionou no terceiro setembro que ia ler.
Isabela ficou com ele por um momento. Era a forma como as conversas de setembro funcionavam: não sobre negócios, não sobre família, não sobre o mundo que existia fora dali. Sobre coisas que tinham textura própria. Livros. Cidades. A qualidade específica de uma luz ou de um silêncio.
— Li — disse ela. — No ano passado.
— E?
— Ele demorou muito para aceitar o que sentia.
Lucien considerou isso.
— É a estrutura do livro — disse ele.
— É a estrutura do homem.
Um sorriso mínimo. Ela o conhecia — aquele controle específico de uma expressão que poderia ter se aberto mais mas que ele continha por hábito. Era um dos poucos lugares onde ela via a contenção dele como o que era: não frieza, mas uma forma de proteção que havia se tornado estrutural.
O sommelier veio. Escolheram. A conversa passou para outros territórios — ela havia estado em Lisboa em março para uma conferência de direitos digitais, havia três restaurantes que precisavam existir em outras cidades, havia o fenômeno de Monaco em setembro ser sempre menos lotado do que Monaco em verão, o que tornava o principado suportável.
Isabela falava. Ouvia. Respondia.
E por baixo de tudo isso, havia o telefone na bolsa, que não vibrava mais mas cuja última vibração ela ainda sentia como resíduo. Havia Felipe, que estava em São Paulo esperando uma noiva que estava em Monaco dizendo adeus a um homem que não sabia que era isso. Havia o pai, que havia perguntado na semana passada: *"Esta viagem de trabalho, Isabela — será que poderia esperar para depois do anúncio?"* E ela havia dito que não podia, havia compromissos na Europa, e o pai havia aceito porque havia aprendido que Isabela administrava sua própria agenda com uma eficiência que dispensava questionamentos.
Ela bebeu vinho. Olhou para ele.
Havia uma versão de Lucien que ela conhecia — a que existia em conferências e feiras internacionais de comunicação, onde eles eram os representantes de duas das maiores organizações de mídia do mundo, adversários educados com a cortesia específica de pessoas que se respeitam o suficiente para não subestimar o inimigo. Aquela versão era imaculada: cada declaração pública calibrada, cada aperto de mão calculado. Ela havia aprendido a seguir o jogo. Havia até um prazer austero em como eles conseguiam estar na mesma mesa de debate e nenhum dos dois deixar escapar nada.
Esta versão — aqui, este homem de frente para ela, inclinado levemente para a mesa enquanto falava sobre Pamuk — era diferente.
Essa era a versão que tornava a outra impossível de esquecer.
Ela não verificou o telefone durante o jantar. Ficou presente da forma que setembro exigia. Mas quando voltaram para o quarto e ele foi até o banheiro e ela ficou sozinha por um minuto, ela tirou o celular da bolsa e olhou a tela.
Três mensagens. Adriana. Felipe. Um número do escritório.
Ela desligou a tela sem abrir nenhuma.
Colocou o celular na gaveta da mesa de cabeceira. Fechou a gaveta.
Quando Lucien voltou, ela estava na janela, olhando o porto escuro. As luzes dos iates faziam pontos no negro da água.
Ela não virou imediatamente.
Sentiu ele parar atrás dela, a um passo. Sentiu a pergunta que ele não fazia.
— Estou bem — disse ela, antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Eu sei — disse ele.
Nenhum dos dois mencionou que isso era exatamente o que alguém diria se não estivesse.