LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
Cúmplice Perfeita
Sofia Ferrini chegou na quinta-feira à tarde sem avisar ninguém.
Pelo menos, sem avisar a maioria das pessoas. Isso ficou evidente quando o carro — um Alfa Romeo cinza que ela conduzia com a competência distraída de alguém que passou anos dirigindo em Milão e aprendeu que atenção excessiva às regras de trânsito é uma escolha pessoal — parou no pátio e Carlo saiu da biblioteca onde estávamos conversando, viu a irmã e ficou com a expressão simultânea de alivio e leve pânico que é o rosto de alguém que é feliz por ver uma pessoa mas não tem certeza se o momento é bom.
Giulia, que apareceu na porta da cozinha trinta segundos depois como se tivesse sido alertada por algum sensor invisível, teve uma expressão diferente: completamente neutra. O tipo de neutralidade que requer esforço.
Eu estava na janela da biblioteca com uma xícara de chá e, portanto, tive o benefício de observar a chegada de fora antes de ser apresentada.
Sofia tinha quarenta e dois anos e o rosto de alguém que passou os últimos vinte anos tomando decisões que custaram algo. Não de forma trágica — de forma adulta. Cabelos escuros curtos, roupas que eram boas sem ser ostentosas, a postura de quem projeta espaços para viver e internalizou a importância de ocupar bem o espaço que você tem.
Ela abraçou Carlo brevemente. Cumprimentou Giulia com um "ciao" que era cordial e não era afetivo. Pegou a própria mala.
Eu saí da biblioteca.
---
— Signora Cavalcante, — disse Carlo, com o tom de alguém apresentando pessoas que não deveriam precisar de apresentação, — essa é minha irmã Sofia.
— Sofia Ferrini. — Ela me estendeu a mão com a direteza de alguém que não viu necessidade de sorrir ainda mas não estava sendo rude. — Carlo me disse que havia uma consultora na propriedade. Auditoria?
— Algo assim, — eu disse.
Ela me olhou por um segundo com o tipo de olhar que arquitetos às vezes têm — avaliativo, espacial, como se estivesse determinando se algo está no lugar certo.
— Entendo, — ela disse, de uma forma que sugeria que não entendia completamente mas havia decidido que esse entendimento parcial era suficiente por enquanto.
Giulia apareceu com café para Sofia antes que alguém pedisse. Sofia agradeceu sem se virar completamente, pegou a xícara e disse:
— Papà está?
— No escritório, — Carlo disse. — Ele não sabe que você vinha.
— Eu sei. — Sofia tomou um gole de café. — Preciso falar com ele. Pode avisar que estou aqui?
Carlo foi. Giulia desapareceu de volta para onde quer que Giulia fosse quando não estava sendo útil em algum lugar específico, que provavelmente era sendo útil em algum outro lugar.
Eu e Sofia ficamos no pátio por um momento.
— Quantos dias pretende ficar? — ela me perguntou, não de forma hostil, mais como quem organiza informação.
— Não sei ainda. Depende do que encontrar.
— Hm. — Ela colocou a xícara vazia em cima da mala. — Esse tipo de trabalho normalmente tem um prazo.
— Tem. Mas às vezes os prazos se ajustam. — Pausa. — A senhora chegou de Milão de carro?
— Do aeroporto de Florença. Fui de avião.
Não mais conversa do que isso. Sofia pegou a mala e subiu as escadas com a eficiência de alguém que conhece cada degrau e não precisa pensar neles.
---
O almoço foi interessante da maneira que almoços interessantes são: muito estava acontecendo na superfície imóvel das coisas.
Aldo desceu com a pontualidade que eu já havia identificado como um dos seus atributos organizacionais. Quando viu Sofia sentada à mesa, não parou, não acelerou o passo. Chegou à sua cadeira, sentou, e disse:
— Não avisou que vinha.
— Não avisei, — Sofia concordou.
— Teve motivo específico ou foi impulso?
Sofia o olhou por um momento com a serenidade de alguém que passou anos aprendendo a não reagir ao tom.
— Tive um projeto cancelado. Semana livre. Pensei em vir ver como estavam as coisas.
— As coisas estão como sempre estão, — Aldo disse. — Bem.
Giulia colocou o pão na mesa. Carlo serviu a água. Matteo chegou três minutos atrasado com a terra ainda nas mãos e foi direto lavar antes de se sentar, o que ele fez sem comentários de nenhum lado.
Durante o almoço, Sofia perguntou sobre o vinhedo — diretamente para Matteo, não para Aldo. Matteo respondeu. Aldo ouviu. Havia nessa geometria uma história que eu não tinha todos os capítulos, mas que claramente existia: Sofia e Matteo tinham algum tipo de aliança informal, ou pelo menos uma zona de comunicação que não passava pelo pai.
— O telhado da ala norte, — Sofia disse a determinado ponto, para Carlo, — ainda está com o problema?
— Mandei consertar em maio.
— Vi uma mancha nova. Vou dar uma olhada depois do almoço.
Aldo não disse nada. Mas havia um ligeiro enrijecimento na linha dos ombros que eu reconheci como irritação disciplinada — não raiva, não exatamente. Mais como o desconforto de alguém que sabe que a pessoa que acabou de fazer uma observação tem mais razão do que seria conveniente.
O rancor entre Sofia e Aldo não era o tipo barulhento. Era o tipo arquitetônico, construído ao longo do tempo, cuidadosamente mantido por ambos os lados. Uma estrutura tão familiar para os dois que provavelmente já não precisavam pensar nela para habitá-la.
---
À tarde, enquanto Sofia inspecionava o telhado com a seriedade de quem foi treinado para notar o que estruturas escondem, eu me aproximei de Matteo na adega. Ele estava verificando o estado de alguns barris, batendo levemente na madeira com os nós dos dedos e ouvindo com uma atenção que me pareceu quase médica.
— O senhor Aldo vai aqui toda noite? — perguntei, com o tom de alguém que está perguntando sobre rotina de propriedade.
— Toda noite que eu me lembro. — Matteo bateu em outro barril. — Às vezes fico até as onze, doze horas. Ele vem depois de mim.
— Sempre sozinho?
— Sempre.
— E você não acha isso... sei lá, um pouco solitário?
Matteo me olhou como se eu tivesse perguntado se ele achava a gravidade um pouco inconveniente.
— Papà sempre foi assim. A cantina é o lugar que é dele, — ele disse. — Aqui ele não precisa de ninguém.
Saí da adega com o cheiro de vinho e madeira nos pulmões e uma frase anotada mentalmente: *o lugar que é dele*.
---
Naquela noite, tentei o cliente pela última vez antes de aceitar que o silêncio era a resposta.
Nenhum retorno.
Deitei na cama da ala oeste da villa e fiz a lista que faço quando estou sem informação suficiente: o que eu sei, o que não sei, o que posso descobrir sem ajuda externa, e o que preciso de ajuda para descobrir.
O que eu sabia: família com tensões internas mas estrutura funcional, patriarca dominante, filho mais velho deferente, filho mais novo especializado e contido, filha com histórico de conflito com o pai, nora eficiente e invisível, nonna que guarda informações em algum idioma que não o esperado.
O que eu não sabia: quem era o meu alvo, por que o meu cliente havia sumido, e o que exatamente estava sendo verificado quando me pediram para "verificar uma identidade".
O que eu podia descobrir: mais sobre a história da família, especialmente o que os documentos históricos podiam revelar. Mais sobre as relações de Aldo fora da tenuta — havia certamente correspondência, registros.
O que eu precisava de ajuda para descobrir: praticamente tudo que fosse relevante.
A situação sensata seria ir embora. Devolvi parte proporcional do adiantamento, encerrar contrato por incapacidade de execução por culpa do cliente, pegar o próximo voo para São Paulo.
Mas não sabia quem estava procurando. E isso, descobri comigo mesma com certa irritação, era o problema principal: eu havia chegado a essa casa para encontrar alguém, e ir embora sem encontrar essa pessoa — quem quer que fosse — parecia uma falha que eu não estava pronta para aceitar.
Isso é um defeito de caráter, provavelmente. Tenho vários. Pelo menos esse é útil profissionalmente.
Fora da janela, a adega estava com a luz acesa como sempre.
Dessa vez, a luz apagou às onze e quarenta.