LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4
A Heresia de Bologna
A denúncia chegou às 8h51 de quinta-feira, encaminhada pela delegacia do Quartiere Porto-Saragozza com uma nota que Marco leu duas vezes.
*Adulto desaparecido, 26 anos. Última confirmação de presença: terça-feira, 10 de outubro, 15h20 aprox. Colega de quarto registrou ausência em 11/10 à noite. Família contactada: nenhum contato desde terça. Aguardando 72h conforme protocolo.*
Marco colocou o papel na mesa à sua frente e olhou para ele por mais uns segundos.
Luca Bernardini. Doutorando de história medieval, Università di Bologna. Vinte e seis anos. Sem histórico de problemas — isso estava no sistema, ele tinha verificado antes de ler a nota pela segunda vez. Sem antecedentes. Sem registros de saúde mental relevantes, o que significava que ninguém havia feito registro formal, que não era a mesma coisa. Bolsista PNRR, pesquisa em andamento, orientador registrado: Prof. Giovanni Silvestri.
O protocolo de 72 horas para adultos desaparecidos existia por razões práticas: a maioria dos adultos que somem voltam ou se comunicam dentro de 72 horas. Marco entendia a razão de existir do protocolo. O que ele não entendia era a nota da delegacia, que dizia *aguardando* como se aguardar fosse a única coisa possível.
Ele foi ao sistema e abriu a ficha do caso.
A denúncia havia sido feita por Rafael Lima, 27 anos, colega de quarto de Bernardini em um apartamento na Via delle Belle Arti. Lima havia informado que Bernardini não havia retornado na noite de terça para quarta, o que era incomum — segundo Lima, Bernardini nunca ficava fora sem avisar. A família de Bernardini, contactada por Lima, confirmou que não havia tido contato desde terça-feira à tarde, por telefone.
Terça-feira à tarde. Quase 48 horas atrás.
Marco pegou o telefone e ligou para o Dr. Enzo Ferrara, o delegado responsável pelo caso.
"Ferrara."
"Marco Ferretti, Procuradoria. O caso Bernardini chegou até mim hoje cedo."
"Está no protocolo de 72h, Dottore. Adulto saudável, sem histórico—"
"Sem histórico de nada," concordou Marco. "Bolsista com pesquisa em andamento, orientador ativo, apartamento compartilhado com quem o conhece bem o suficiente para saber quando algo está errado. O colega de quarto fez a denúncia depois de quanto tempo de ausência?"
Uma pausa. "Vinte e quatro horas."
"Então ele sabia dentro de vinte e quatro horas que não era normal." Marco olhou pela janela do escritório — o Palazzo di Giustizia da Via Farini, tijolo e mármore, construído quando Bologna ainda acreditava que a justiça precisava de uma sede que impressionasse. "Vou abrir o caso."
"O protocolo—"
"O protocolo diz que posso abrir a qualquer momento se houver indicação de que a ausência é involuntária. A percepção do colega de quarto é indicação suficiente." Uma pausa. "Quero acesso às câmeras da Via delle Belle Arti e do trajeto até o Palazzo Poggi. E quero alguém no IML local avisado de que se aparecer corpo nas próximas 48h, eu quero laudo antes de qualquer arquivamento."
Ferrara ficou em silêncio por um segundo. "Você acha que—"
"Não acho nada ainda," disse Marco. "É isso que me preocupa."
Desligou.
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O escritório de Marco na Procuradoria de Bologna ficava no terceiro andar de um prédio que havia sido reformado nos anos 90 com o entusiasmo arquitetônico específico daquela década — vidro e alumínio sobre estrutura do século XIX, o que criava um efeito de desconforto que ele havia deixado de notar há anos. Havia duas plantas na janela que sua assistente, Giulia, insistia em regar e que ele insistia em não regar, o que significava que as plantas viviam num equilíbrio de intervenções contraditórias que havia provado ser sustentável.
Ele abriu uma nova pasta no sistema.
*Caso n. 287/2023. Pessoa desaparecida: Bernardini, Luca. 26 anos.*
Começou a montar o que tinha.
Doutorando no quinto ano, o que era longo mas não anormal para história medieval. Bolsa PNRR com validade até junho do ano seguinte. Pesquisa sobre circulação de manuscritos no norte da Itália, séculos XIII-XIV — Marco anotou isso como detalhe possivelmente relevante, sem saber ainda por quê. Orientador: Prof. Giovanni Silvestri, 70 anos, titular de história medieval, membro do colegiado universitário desde 1998.
Sem dívidas registradas. Sem processo judicial. Sem passagem pela polícia, nem mesmo como testemunha.
O único elemento fora do padrão era a pesquisa em si — ou mais precisamente, o timing. Segundo o sistema acadêmico, Bernardini estava trabalhando como auxiliar de pesquisa para uma professora visitante francesa, Dra. Élise Marchand, no Archivio Storico. O projeto havia começado em 7 de outubro. A última confirmação de presença de Bernardini havia sido em 10 de outubro — três dias depois do início do projeto.
Marco anotou: *Última presença confirmada: arquivo histórico, Palazzo Poggi. 15h20, 10/10.*
A informação havia vindo da denúncia do colega de quarto, que havia falado com alguém do arquivo. Não havia confirmação direta. Ele precisaria de confirmação direta.
Mandou email para o arquivo histórico solicitando informações sobre a última presença de Bernardini. Em cópia: a coordenação do departamento de história medieval e o gabinete do Reitor, o Prof. Augusto Fabbri.
O último destinatário era protocolo. Qualquer investigação envolvendo membro ativo da comunidade universitária requeria notificação ao Reitor. Era uma das várias regras que existiam para facilitar a cooperação institucional e que na prática às vezes funcionavam e às vezes não.
Marco tinha uma memória razoavelmente boa de quais instituições cooperavam e quais cooperavam com a velocidade necessária para dar tempo ao problema de resolver-se sozinho.
A Universidade de Bologna tinha, nos seus novecentos e tantos anos de existência, desenvolvido uma habilidade considerável para a segunda categoria.
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Às 11h, Marco foi pessoalmente ao apartamento na Via delle Belle Arti.
Rafael Lima estava em casa — estudante de doutorado em física, rosto de quem não havia dormido bem, incapaz de decidir se devia ser mais ou menos detalhista do que estava sendo. Marco conhecia esse tipo de testemunha: queriam ajudar mas tinham medo de exagerar, de dizer algo que depois se revelasse errado.
"Quando você notou que algo estava errado?" Marco perguntou, sem bloco de notas — ele nunca usava bloco de notas nas primeiras conversas, o que era ou um método de deixar as pessoas mais à vontade ou um método de forçá-las a repetir depois, quando ele já sabia o que procurar.
"Na quarta à noite," disse Lima. "Luca nunca ficava fora sem mandar mensagem. Sabe como é — você mora com alguém dois anos, você sabe o ritmo. Ele mandaria mensagem se fosse dormir fora. Sempre mandava."
"E você tentou contactá-lo."
"Umas doze vezes." Lima mostrou o telefone — doze tentativas de chamada, mais mensagens por WhatsApp. A última mensagem de Lima era da quarta-feira à noite: *Luca, manda uma mensagem, tô preocupado.* Sem resposta. "Também mandei mensagem para a professora dele — a Marchand, do arquivo. Ela não sabia de nada."
"O que você sabe sobre o trabalho dele no arquivo?"
Lima encolheu os ombros. "Pouco. Ele falava de manuscritos, mas eu sou de física, não entendia direito. Mas nas últimas semanas ele estava... diferente."
"Diferente como?"
"Quieto. Luca não é uma pessoa quieta." Uma pausa. "Cheguei a perguntar se estava tudo bem. Ele disse que estava, mas da forma que as pessoas dizem quando não querem falar."
Marco ficou um momento em silêncio. "Nas últimas semanas — a partir de quando?"
Lima pensou. "Setembro? Talvez final de setembro. Antes da professora chegar."
Antes do projeto começar, então.
Marco agradeceu, pegou o contato de Lima e foi embora.
Na rua, sob os portici da Via delle Belle Arti, ele parou e olhou para o mapa do telefone. O arquivo histórico ficava a sete minutos a pé dali. A última presença confirmada de Bernardini era no arquivo.
Doutorando que estava quieto há semanas. Que desapareceu três dias depois de começar um projeto de catalogação de manuscritos medievais. Cujo orientador era membro titular de uma universidade com novecentos anos de história institucional.
Marco não acreditava em coincidências. Acreditava em padrões que ainda não estavam visíveis.
Ele começou a andar em direção ao Palazzo Poggi.