LEITURA DE HOJE · CAPÍTULO 4

A Desconhecida

Raquel Montenegro · melodrama

Na sexta da primeira semana, Júlia foi buscar Bento na escola pela primeira vez.

A escola ficava a oito minutos a pé da mansão, numa rua com sombra de jacarandás que ainda não haviam florescido. Era um prédio baixo, pintado de amarelo-claro, com um portão onde as mães — e alguns pais — esperavam desde onze e quarenta e cinco. Júlia chegou às onze e cinquenta, antes do sinal, e ficou de pé um pouco afastada do grupo.

As mães notaram. Ela estava acostumada com isso — o modo como as pessoas leem uma pessoa nova, rápido, em camadas. Roupas, postura, com quem estava. As mães da escola estavam todas no mesmo registro: cabelos arrumados num dia útil, roupas que custavam mais do que pareciam, olhares que avaliavam antes de decidir se reconheciam.

Júlia ficou de pé onde estava e não procurou conversa.

Quando o sinal tocou e as crianças saíram, Bento a viu antes mesmo de passar o portão. Ele gritou o nome dela — "Júlia!" — com a naturalidade de quem já repetiu isso muitas vezes, como se cinco dias fossem suficientes para criar o hábito. Ela levantou a mão em aceno e ele correu, a mochila saltando nas costas.

Uma das mães, loira, de brincos grandes, olhou para Júlia com uma expressão de reconhecimento atrasado.

— Você é nova na casa dos Cavalcante?

— Sou — disse Júlia. — Cuido do Bento.

A mulher sorriu. Era um sorriso sem temperatura. — Ah. — E voltou para a filha que chegava.

No caminho de volta, Bento andou ao lado de Júlia e foi contando, sem que ela pedisse, o que tinha acontecido na escola. Um menino chamado Pedro tinha quebrado o lápis de cor dele. A professora tinha pedido para a turma fazer um desenho da família. Bento tinha desenhado o pai, a mãe, e depois ficado na dúvida do que mais desenhar.

— Você desenhou a Tia Sílvia? — perguntou Júlia.

— Não. — Uma pausa. — Desenhei você.

Júlia ficou quieta por dois segundos. — É?

— Você é quem tá comigo agora.

Ela não soube o que dizer, então não disse nada. Mas algo naquilo ficou, como uma pedra pequena no bolso que você só sente quando muda de posição.

---

No sábado, Sílvia a chamou para uma conversa que não estava na rotina.

Era o meio da manhã. Bento estava no quarto com o tablet. Júlia tinha aproveitado o momento para organizar o armário com os pertences de Bento — roupas dobradas, brinquedos guardados de modo que ele conseguisse acessar sozinho. Quando Ana apareceu na porta do quarto dizendo que a Dona Sílvia queria falar com ela, Júlia fechou o armário e desceu.

Sílvia estava na sala principal. Sentada numa das poltronas, com uma xícara de café e um tablet sobre a almofada ao lado, como se tivesse sido interrompida de algo mais importante. Mas Júlia tinha passado a semana inteira observando aquela mulher e sabia: Sílvia Cavalcante não era interrompida de nada. Ela controlava os tempos.

— Sente-se.

Júlia sentou no sofá à sua frente.

— A Ana me informou que você trabalhou na bicicleta com o Bento.

— Trabalhei. Ele pediu.

— Eu havia dito que ele não precisava aprender agora.

— Não havia me pedido para impedir que ele aprendesse.

O silêncio que se seguiu tinha textura. Sílvia olhou para ela com aqueles olhos de avaliação — os mesmos do dia da entrevista, mas mais afiados agora que havia contexto para comparar.

— O joelho — disse Sílvia.

— Raspou. Limpei, curativo, passou no dia seguinte.

— Eu prefiro saber antes de uma atividade que envolva risco de queda.

— Entendido. Vou informar antes da próxima vez.

Sílvia inclinou levemente a cabeça. — Bom. Outra coisa: ouvi você ontem no corredor usando o telefone durante o horário de trabalho.

— Era treze horas. Bento estava dormindo. A regra é sem telefone durante o tempo com ele.

Uma pausa. — Você interpreta as regras com bastante precisão.

— Prefiro entendê-las do que quebrá-las por descuido.

Sílvia colocou a xícara na bandeja à sua frente com um movimento cuidadoso. Havia algo naquele gesto — uma deliberação que Júlia leu como organização de pensamento.

— O Eduardo chega na terça — disse ela. — Vai haver um jantar na quarta à noite. Você não precisa estar presente, mas o Bento jantará cedo, às seis, antes dos convidados chegarem, e você garante que ele está no quarto às sete e meia.

— Certo.

— Haverá pessoas que não conhecem a situação do Bento. Prefiro que a presença dele não seja tema de conversa.

Júlia não perguntou o que era "a situação do Bento". Guardou a informação.

— Entendido — disse ela, e se levantou antes de ser dispensada.

Sílvia não parou ela. Mas quando Júlia estava no vão da porta, disse:

— Júlia.

Ela parou.

— O Bento está bem essa semana. Mais do que nas semanas com as anteriores.

Era quase elogio. Tinha a estrutura de elogio. Mas a voz de Sílvia continuava neutra, sem calor — como se estivesse lendo um dado de planilha.

— Obrigada — disse Júlia, porque era a resposta certa.

E foi embora sem deixar que o comentário mudasse nada dentro dela.

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À tarde, Bento pediu para montar um quebra-cabeça. Tinham encontrado uma caixa esquecida numa prateleira do quarto — quinhentas peças, uma paisagem de floresta com animais.

Eles se instalaram no tapete do quarto e começaram a separar por cor. Bento era metódico para a idade — ele pegava cada peça, virava para o lado certo, e as agrupava com concentração.

— Júlia — disse ele, sem parar de organizar as peças.

— Hm.

— A minha mãe liga de vez em quando. Mas não todo dia.

— A sua mãe tem trabalho importante.

— Sim. — Uma pausa longa. — Você acha que eles vão voltar logo?

Ela olhou para o menino. A cabeça inclinada sobre as peças, a mão pequena separando os tons de verde.

— Não sei quando, Bento. Mas vão voltar.

Ele assentiu com a seriedade de quem aceita uma resposta incompleta porque é melhor do que não ter resposta nenhuma.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, montando o quebra-cabeça, e Júlia achou que o silêncio estava bem assim.

CAPÍTULO 5

O Que Não Se Dobra

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